quarta-feira, maio 31, 2006




Qualificação e des…

Antunes Ferreira
As coisas são o que são. Portugal é um país no qual três de cada quatro trabalhadores não completaram os 12 anos de escolaridade obrigatória. É o próprio Governo, pela voz do secretário de Estado do Emprego, Fernando Medina que o afirma. Isto é, 75% da nossa população activa está nessa faixa desqualificada.

O próprio primeiro-ministro admitiu que o aumento da qualificação dos portugueses é a «grande batalha» do Executivo, e defendeu que o Estado deve dar oportunidades para a formação dos cidadãos. Sócrates salientou a aposta governamental «no terreno da qualificação», no final da sessão de lançamento de 122 novos centros de Reconhecimento, Validade e Certificação de Competências (RVCC), a que presidiu ontem, no Centro de Formação Profissional da Indústria de Construção Civil e Obras Públicas em Lisboa.

Na altura, foi ainda referido que - na área da qualificação e formação profissional e no âmbito do programa "Novas Oportunidades", o Governo pretende envolver até 2010 cerca de um milhão de cidadãos e criar 500 centros de RVCC, entidades que se destinam a certificar competências adquiridas por trabalhadores ao longo da sua vida profissional, equiparando-as a graus de escolaridade como o 9º e o 12º anos.

Estamos, assim, perante mais uma ideia deste Governo que começou já a ser posta em prática. Os arautos da desgraça dirão que se trata de mais uma das milhentas promessas que têm caracterizado o poder. A população entreolha-se. Será que isto tem pés para andar? Será que isto vai mesmo para a frente? Ou será que se trata de outra girândola de foguetório que só faz estardalhaço e fumo?

Na verdade, com tal oposição e com tamanhas inquirições, não há traseiro que aguente. Podem os ministros, a começar pelo primeiro, esfalfar-se no anúncio de novas medidas; podem estar ser implementadas, ainda que com a velocidade possível; podem os resultados ir aparecendo, aos poucos, mas sem muitas dúvidas; que mais pode o poder fazer mais?


Ofertas e subsídios

Talvez, quem sabe, devesse dar uns milhares de euros a cada cidadão, na esperança de que eles fizessem frutificar a quantia. À utopia seguir-se-ia, quase de certeza, o pedido de isenção de um qualquer imposto sobre doações, por parte das centrais sindicais, das patronais e dos partidos da oposição… Ou, poderia muito bem ser, a solicitação das mesmas entidades para que fosse atribuído aos portugueses um subsídio para acompanhar a forma de gastar o dinheiro. Dos fundos comunitários, está visto.

Vê-se, ouve-se e quase não se acredita. Para além da reconhecida maledicência nacional, existe um complexo de mesquinhez que se diria freudiano. Isto porque, mutatis mutandis, o professor Sigmund sentado ao lado do divã para o paciente, poderia perfeitamente classificar estas «qualidades» e diagnosticar – impotência. No fundo, o sexo a explicar tudo.

Estamos, nós os portugas, metidos numa enorme alhada. Ciclópica, diria o último governante salazarengo. Para qualquer lado para que nos voltemos, só existe a crise. É um monstro tentacular e omnipresente. Que fazer com ela e, sobretudo, contra ela? Não se sabe, ninguém sabe. Mas a culpa é fatalmente do Governo. E, em particular, deste que temos agora, ainda que, por exemplo, o do Eng. Guterres também fosse uma lástima.

Isto, dizem, porque são os socialistas que «estão no poleiro». C’os diabos, não foram eleitos com voto maioritário? Condescenda-se. Aconteceu, mas foi fruto de miseráveis patranhas que impingiram a todos nós que, assim, fomos na conversa deles. No fundo, foi uma ilusão de óptica, uma miragem que se esfuma a cada dia que passa.

Auto flagelação nacional

N
ada a fazer. Nós somos por feitio adeptos entusiastas e praticantes consumados da auto flagelação. Está visto que se o azorrague for empunhado por outras mãos – faz mais efeito. Adoramos reverencialmente a política do pau e da cenoura. De preferência, se o primeiro prevalecer sobre a segunda. Com tais preparos, trabalhamos, produzimos, provamos que somos bons em qualquer mister. E desenrascados, olarila.

A GM prepara-se para fechar a fábrica da Azambuja? Há contas, aliás falsas como Judas, que os Combo custam mais 500 euros por unidade do que custariam se fossem produzidos noutro local. Os espanhóis esfregam as mãos de contentes, na expectativa de receberem mais um investimento desta ordem. Isto porque são competitivos. E nós…

Manuel Pinho, o ministro da Economia, afirmou que o Governo está atento ao assunto e já iniciou diligências junto de todas as partes interessadas no sentido de se manter a unidade fabril entre nós. Os trabalhadores dizem-se dispostos a discutir o problema e a emendarem aquilo que não esteja bem. Recorde-se que, há meses, eles tinham recuado nas reivindicações que haviam feito. Pelos vistos, recuo pouco satisfatório… e pouco eficiente.

Surge, agora, o anúncio público do gigantesco esforço que começou a ser feito na luta pela qualificação dos trabalhadores portugueses. Há que esperar pelo próximo round. Uma vitória aos pontos, mesmo que escassa, seria muitíssimo bem vinda. Faria, é certo, algum transtorno ao antigo patrão da General Electric, GE, que não deve nem pode ser confundida com a GM, General Motors. O senhor Welch, que ainda há escassos dias afirmava que os portugueses deviam envergonhar-se do descrédito que sobre eles – sobre nós – agora recai, até poderia congratular-se com esta iniciativa governamental e fundamental. Porem, nem ele…

1 comentário:

melindrice disse...

Qualificações? Quais? E para quando? Bem, eu Zé Pinto (não minto) cheguei aos setenta com a licenciatura da 4ª classe do ensino primário (nas escolas do Salazar que até havia "bordoada" no lombo e umas bolachas oferecidas pela menina dos cinco olhos). Depois, com as habilitações literárias parti, na "merda" de um comboio trama, da estação de Gouveia para a de S.Bento (não é o das peras) do Porto. Fui marçano, empregado de balcão, pracista de "cervejadas" Cristal, gasozas, pirolitos nas quelhas do bairro da Sé, Ribeira, Caldeireiros e do Bonjardim. Aos 18, emancipado, tirei a carta de ligeiros e ó larilas....era cá um estatuto profissional... que até dava "ficharola"... ós despois lá partir no paquete "Pátria" para Angola... e fui colonizador... de máquinas Caterppilar, Motoniveladoras e motorista de "Berliets" em Cabora Bassa. Ós depois fui para Rodhésia do Ian Smith. Continuei a minha colonização de máquinas, ajudando a fazer estradas por conta do Ministry of Roads. Ós depois, tive que dar às vila de Diogo, porque Moçambique passou para nação independente.... e se lixasse a Zimbabwe, porque o Zé Pinto ainda queria viver mais... Ós depois voltei às orígens. Por lá estava muito mal! Ofereceram-se um emprego num partido e o trabalho era o andar a colocar cartazes nas paredes...Ná,ná não quiz... porque um vizinho meu andou nisso e um gajo "chincou-lhe" a escadas e foi parar ao hospital de St. Antóno com 4 costelas partidas...Ós depois fui para as arrábias e andei no "pitrólio" por uns 10 anitos.. Ós depois e porque ganhava "petródolares" fui passear para a Tailândia e conheci uma chinesa que já me atura há 26 anos...Ós depois perdi o emprego porque o barril do "pitrólio" passou para 10 dólares e a exploração não mesmo para o "pitrólio". Ós depois entrei na ocupação de "manga de alpaca" e, embora os "mangas de alpaca" não ganham para o "pitrólio" cá me fui aguentando. Não estou de acordo com as qualificações...não estou nada... as qualificações conseguem-se com a força de vontade...Vejam, vejam os computadores já mudaram de sistemas sei lá quantas vezes...se cada vez que mudam se fosse fazer uma qualificação estava-mos sempre desqualificados.
Parrabéns ao blog Travessa do Ferreiro!
Zé Pinto