terça-feira, maio 30, 2006




Timor Leste e a Paz


Antunes Ferreira
Os cidadãos de Timor Lorosae, como sempre acontece em todas as guerras, rebeliões, putschs militares, revoluções enfim, são os mais sacrificados destes péssimos acontecimentos que decorrem naquele País. Depois dos sacrifícios que tiveram de fazer, das violências que tiveram de suportar, da insensibilidade da cena internacional, os timorenses mereciam melhor sorte.

O parto da independência foi, na verdade, muitíssimo doloroso. A primeira vez é quase sempre a mais difícil, seja em que circunstância for. O sangue derramado, a guerrilha da Fretilin nas montanhas contra os indonésios opressores, as fugas nocturnas e silenciosas de populações inteiras, os massacres, tudo isso levou a que uma causa justa tivesse sido observada – e tratada – como se fora num cadinho experimental.

E a descoberta de recursos petrolíferos nas águas territoriais do futuro país ainda veio complicar mais a questão, já de si bicuda. Os interesses inconfessados e as ganâncias estão, a maior parte das vezes, na primeira linha. À volta do labirinto geo-político surgiram, como é habitual também, os abutres em voos largos à vista da carniça.

A crise que agora ali se vive é, de novo, um imbróglio de todo o tamanho. Talvez até mais grave do que os anteriores. O descontrole da situação é total – e muito preocupante. Numa nesga de terra, parte de crocodilo estacionado no oceano, o fantasma da guerra civil continua a pairar, arrastando lugubremente correntes de desespero. De fora, duvida-se de que a crise se ultrapasse rapidamente. No interior, voltou o medo.

António Vitorino, no seu habitual comentário das segundas-feiras na RTP, respondendo a uma pergunta de Judite de Sousa, declarou-se mais preocupado do que nunca com o que se está a passar agora. Mesmo no tempo das milícias do senhor Eurico Guterres e das tropas desaustinadas de Jacarta, havia um controle, ainda que remoto.

O poder e a rua

H
oje, não. Nem se pode dizer que o poder caiu na rua, pois há, primeiro, que perguntar se existe poder. As ruas em Dili são más, perigosas, inseguras. Mas sempre vai havendo. Essas artérias precárias e esburacadas são palco de assaltos, confrontos armados, incêndios ateados – mortos e sangue. No resto, não são nada, nem, muito menos, local para o poder, qualquer ele que seja, cair.

Com os soldados australianos a percorrê-las pensa-se que serão mais seguras. E com a chegada de outros componentes da força militar de estabilização – incluindo a companhia da GNR – tudo indica que aumentará a confiança dos habitantes, ainda que tal vá acontecendo devagar; diz o Povo que é devagar que se vai ao longe. Assim seja em Timor Leste.

As últimas notícias dali provenientes referem que o Presidente da República, Xanana Gusmão, declarou já nesta terça-feira o estado de emergência nacional no país e assumiu poderes especiais, o que lhe dá o controle do exército e da polícia. Aliás, na sequência da reunião do Conselho de Estado timorense que decorreu ontem e hoje, ele tinha-se
tornado o principal responsável pela Segurança e Defesa do país por um período de 30 dias, prorrogável.

Os ministros titulares daquelas pastas, Rogério Lobato e Roque Rodrigues têm os dias contados no Executivo. Muitos consideram-nos os principais responsáveis pelo caos que se instalou. Da mesma forma, outros – e não tão poucos assim – queriam também a cabeça do primeiro-ministro Mari Alkatiri. O Chefe do Estado avisou, entretanto, que a demissão deste último poderia provocar ainda mais danos do que os que se verificam, o que seria catastrófico.

Xanana – menos ou mais?

Xanana continua, aparentemente, nas boas graças do povo timorense. Pode dizer-se, como alguns fazem, que já esteve mais na mó de cima do que está hoje. Dando de barato que assim aconteça, o facto é que, se não for ele, quase se pode afirmar que mais ninguém poderá secar as águas pútridas do pântano que existe.

Num país em que a religião católica é esmagadoramente maioritária e próxima do fanático, os dois bispos timorenses, Dom Alberto Ricardo da Silva, de Díli e Dom Basílio do Nascimento, de Baucau, já fizeram um apelo comum à Paz no país. Dom Ximenes Belo ainda que ausente da sua terra natal, por certo que acompanha com a maior atenção estes episódios do drama. No entanto, a Santa Sé parece, uma vez mais, preferir a prudência. Será que não querer imiscuir-se em demasia no conflito? É questão para continuar a ser seguida.

A Austrália, logo ali ao lado, aparenta querer ser o tutor de um povo que, no pensar de Camberra não se soube comportar. A ambição é causa de grandes trambolhões, como é sabido. Timor Leste não pode ser objecto de uma qualquer supervisão do regime. A ser assim, as declarações de Freitas do Amaral sobre a ingerência poderão ser perfeitamente pertinentes. O que não é mau – é péssimo.

Os ditadores, a maioria dos quais de pacotilha, são os autores de que a populaça não pode viver em Democracia, porque não sabe viver em Democracia. Nem vale a pena recordar aqui o Salazar de triste memória, que defendia a teoria e a punha em prática de uma só penada. Ter-se-ia de falar em Niculae Ceausescu, em Hitler, em Estaline, em Mao Zedong, em Franco, em Mussolini, em Kim Il Sung ou no seu filho Kim Jung Il, em tantos outros de uma panóplia desgraçada de criminosos de direito comum.

Daí à tentação Big Brother vai um salto. Orwell ficou para a História pelo seu 1984. Os que amam a Liberdade e, por isso, vivem democraticamente, estão fartos de irmãos mais velhos todo poderosos e de salvadores das pátrias. Em Timor Lorosae não pode haver lugar para essas «tentações» pseudo protectoras. Tem de haver, sim, lugar para a Paz e a construção de uma nova vida em Liberdade e em Democracia. Mas – à sua maneira.

2 comentários:

Jaime Vasconcelos Lemos disse...

Antunes Ferreira
Há anos que leio o que escreve. Não precisava de lho vir dizer, mas é assim mesmo. Nem você precisa que eu lho diga através deste blog. Mas mesmo assim, aqui fica a minha opinião.
São mais as vezes que tenho gostado dos seus artigos do que as que não. Concordo com bastantes deles e para mim só é pena que já não publique nada na imprensa.
Também acho que a Televisão e a Rádio em especial a TSF deviam chamá-lo de novo a fazer comentários do que se passa no Mundo. Você nisso é bastante bom.
Infelizmente, desapareceu de onde eu gostava de o ler, ouvir e ver. É avida.
Pois bem. Este texto sobre Timor representa o reaparecimento das suas análises internacionais, ainda que com menos visibilidade do que era antes. E deixo aqui o meu pensamento de que o Antunes Ferreira faz falta ba nossa Comunicação Social. Concorde-se ou não se concorde consigo.
Eu nem sequer sou da sua cor polítca, a socialista. Sou, desde o princípio membro do PPD. Isso não me imepde de dizer o que atrás disse e pedir-lhe que não deixe morrer o seu blog. Se mais ninguem lhe agradecer, agradeço-lhe eu. Bem haja e bom retorno.

Foi por intermédio do nosso amigo António Vicente que soube deste blog. Aproveito para também lhe agradecer. Voltarei aqui sempre que me apetecer e sem autorização sua. Obrigado e cumprimentos

a.s.p.Hermínio - Lisboa disse...

Percebe agora o que é RESPEITO Antunes Ferreira?
Nao precisamos de ser da mesma côr politica, para que tenhamos todos consciencia dos bens e dos males que por todos passamos, nas variadas épocas políticas.
Senhor Jaime Vasconcelos Lemos, nao o conheço, mas tiro-lhe o meu chapéu.