sábado, dezembro 30, 2006



O FZ especial “Turra”

José Augusto Sacadura
Foi por esta altura... Foi entre o Natal e a passagem do ano, nos finais de 1968, e todas as unidades militares estacionadas em África encontravam-se em prevenção especial, tal como nas Instalações Navais da Ilha do Cabo – as INIC – em Luanda, onde eu prestava serviço militar como 2.º Tenente da Reserva Naval. Para além do oficial de dia, havia dois outros oficiais a assegurar os turnos da noite e coubera-me a mim o segundo “quarto” (das 4 às 8 da manha), substituindo o 1º Tenente J. a quem fora destinado o primeiro turno da noite.

Às três da manha acordei com o despertador, lavei-me, vesti a farda, coloquei o cinturão com a pistola – obrigatória em situações de prevenção como aquela – e saí para a Base com a qual a Messe comunicava directamente. Da Messe ao portão de entrada da Base onde ficavam as instalações do oficial de dia eram menos de dez minutos a pé e assim apresentei-me para receber o serviço cerca de um quarto de hora antes das quatro.

O Tenente J. disse-me então, estranhamente sorridente, que me deixava um berbicacho dos diabos .... E explicou-me: cerca de duas ou três horas antes o Sargento de serviço viera dizer-lhe que um fuzileiro, recém-chegado do Leste, bêbado ou fora de si, não queria esperar pela hora normal de abertura do portão (o que, em períodos de prevenção especial apenas acontecia de meia em meia hora) e estava a bater furiosamente às grades de entrada.

Tratava-se do Cabo FZ especial de alcunha “O Turra”, ganha em anteriores comissões de serviço designadamente na Guiné onde ficara conhecido como o “Terror dos Turras”. Na lenda da guerra atribuíam-se-lhe, não sei se com verdade, gestos de grande coragem a par de actos desmedidos de autêntica crueldade. Era conhecido como um típico profissional da guerra: tão experiente e destemido quanto desapiedado e excessivo.



Tendo concluído recentemente uma comissão na Guiné, oferecera-se como voluntário para Angola. Colocado no Leste, passara por situações de grande risco e enorme desgaste psicológico, pelo que, “cacimbado”, tinha sido evacuado para Luanda para tratamento no Hospital Militar. Chegara nesse próprio dia e estivera a “celebrar” com amigos o regresso à cidade.

Emboscadas e prisão

Aberto o portão, o Tenente J. chamou-o e, apesar do estado em que ele se encontrava, conversaram ainda durante alguns minutos até que o oficial lhe ordenou que se fosse deitar. Só que, em vez disso, o “Turra” deve ter achado que a Base se tinha transformado num campo de operações, pelo que desatou a fazer emboscadas sucessivas, aparecendo e desaparecendo entre a vegetação que ladeava o acesso ao interior das INIC, ora se afastando, ora voltando a aproximar-se da entrada.

O oficial chamou-o então e ordenou-lhe que se retirasse de vez para a caserna, ameaçando-o com a prisão se não obedecesse imediatamente. Ora, o Tenente J. era um homem inteligente, culto, bom conversador, na boa tradição da Marinha, com imenso sentido do humor, mas com alguns traços de um espírito militarista, muito especialmente no que à disciplina dizia respeito.

Assim, quando voltou a ver o “Turra” emboscado em frente do seu Gabinete, não se conteve, chamou o Sargento de turno e ordenou-lhe que, com duas praças, desse voz de prisão ao fuzileiro. Cumprindo a ordem, ladearam o “Turra” e levaram-no para o que, na Base, à falta de outra coisa, se qualificava pomposamente como “prisão” – um quarto sem quaisquer condições de segurança, a porta de acesso com uma fechadura rudimentar e, lá dentro, a armação despida de um beliche metálico.

Lá chegados, o “Turra”, que parecia já relativamente calmo, terá pedido que não o fechassem à chave. Todavia, o Sargento entendeu cumprir à letra a ordem recebida, fechou mesmo a porta à chave e deixou as duas praças a fazer a segurança à porta da prisão. Acto contínuo, toda a Base ouvia os berros do “Turra” que, fora de si, gritava: “O Salazar não tem culpa” e “Estes filhos da puta vão mas é acabar todos mortos”!!!

Contactado pelo Tenente J., disposto a medidas drásticas para acabar com o “festival”, um dos médicos de serviço ao Hospital Militar prescreveu um calmante forte, em dose dupla, a injectar ao preso. Tarefa árdua que mobilizou quatros homens só para o segurarem, além do enfermeiro que comentou que “nem um cavalo ia continuar acordado depois de levar uma dose daquelas”. E, na verdade, durante alguns minutos, houve paz ...


Onde está o filho da puta?

Mas as tréguas foram de curta duração. Dali a pouco, e se possível ainda com maior intensidade, recomeçaram a ouvir-se os berros e as ameaças do detido. Foi com esse som de fundo que o Tenente J. me passou o serviço, desejando-me “as melhores felicidades”... (!?)


Quase de imediato, o sargento de serviço veio dizer-me que o “Turra”, depois de arrombada a porta, lograra fugir da prisão, dera dois empurrões nos marinheiros postados à entrada, fora à caserna buscar a sua G3 e dirigia-se armado a caminho do meu gabinete. Fiquei à espera do evoluir dos acontecimentos ... e não esperei muito.

Mal me sentara à secretária, vejo o “Turra” aparecer à janela, sem vidro, dispondo apenas de rede-mosquiteiro, que ficava metro e meio à minha direita. Só nessa altura o conheci. Vinha de tronco nu com a G3 pendente. Não era alto, mas era muito musculado, peito tisnado pelo Sol e uma farta barba preta que contava largos meses de campanha. O todo era manifestamente agressivo, o olhar frio e determinado. Os fumos do álcool pareciam ter desaparecido.

Olhou-me, atónito, e perguntou: “Onde está o filho da puta do oficial de dia?” Respondi-lhe que o oficial de dia estava a dormir no quarto ao lado e, percebendo a razão da sua perplexidade, disse-lhe que o ia chamar. Fui, por isso, acordar o Engenheiro T., que dormia o sono dos justos. Levantou-se estremunhado, vestiu, sobre as cuecas, a camisa com os galões de Capitão-tenente maquinista naval, enquanto, num minuto, eu tentava explicar-lhe o essencial da situação.

Voltei ao gabinete, seguido pelo Eng.º T., oficial, já então, com o cabelo todo branco. A estupefacção do fuzileiro aumentou. Tinha na sua frente dois oficiais bem diferentes daquele que lhe dera voz de prisão. Encarando-me, perguntou novamente: “Onde está o filho da puta do oficial de dia que me mandou prender?” Respondi-lhe que o oficial de dia era o Comandante Tomás e que eu estava a fazer o meu turno de serviço.

O fuzileiro ainda proferiu mais duas ou três ameaças, mas, visivelmente, a convicção e a fúria interior iam diminuindo. Disse-lhe então, pausadamente, que não fizesse mais disparates e que me entregasse a arma. Vendo-o hesitar, dirigi-me para a porta, abri-a, saí e encontrei-me com ele, de G3 sempre pendente, à esquina do gabinete. Ainda hesitou um pouco, murmurou algo que não entendi e, muito lentamente, levantou a arma e entregou-ma. Verifiquei depois que tinha uma munição na câmara.

Recolheu à cadeia militar na cidade, onde ficou sob prisão. No dia seguinte, questionado por um fuzileiro amigo, que lhe perguntou o que teria feito se tivesse dado de caras com o oficial que o mandara prender, ainda respondeu: “Enfiava-lhe uma rajada entre os cornos”! Redigindo a ocorrência no Livro do Oficial de Dia, reflecti, fazendo o balanço do ano que findava, que o tempo não passa nunca sem deixar rasto. Desse ano ficara-me pelo menos uma hora de sorte e uma história para contar.

O “Turra” foi evacuado para a Metrópole e nunca mais soube o que foi feito dele.

segunda-feira, dezembro 25, 2006




NA GUERRA

A neve e o algodão

Antunes Ferreira
O algodão, branco e macio, provinha de um penso individual do combatente, uma espécie de como quem diz mas não exactamente, como regouga o Fogaças, de Freixo de Espada à Cinta, apontador de morteiro nas horas vagas. Faz uma caloraça do catano. Olha lá ó Gomes, desfia essa merda a preceito, a neve é mais farrapinhos do que novelos graúdos, onde é que já se viu coisa assim, amaçarocada.

O Gomes sou eu, Manuel da Silva Gomes, natural de Moncorvo, mais precisamente de Cabeça Boa, 23 primaveras, solteiro, morador na Travessa do Infante, 34, 2.º Esquerdo, ali à Madragoa, desde os dez anos de idade, data em que os meus pais deixaram Trás-os-Montes para se sedearem em Lisboa. Por isso, já mal se nota o que antes xe notava. Soldado atirador da Companhia de Caçadores 1874.

O nosso alferes manda-me estar atento às nuvens fofas que vou espalhando por ramo de embondeiro, árvore garrafa, gigante meio alapado meio alevantado na chana de capim que antecede a floresta já próxima. O braço vegetal estronquei-o eu próprio e afeiçoei-lhe a folhagem, tentando fazer dele árvore de Natal. Em vão. Qualquer semelhança com abeto ou mesmo pinheiro bravo nem chegava a ser pura coincidência. Não é nada.

Mas ali, na mata, é tarefa impossível encontrar verdura nórdica, sem folha, só caruma. Entre Ucua e Nambo, venha o diabo e escolha, picada filha da puta, de tal forma plantada de armadilhas que lhe chamam minas gerais. Não tem piada nenhuma, o gajo que lhe deitou a alcunha já foi, explodiu-lhe uma debaixo da sola da bota, escapou o cantil metálico sem grandes amolgadelas.

O oficial, milicianíssimo, pouco mais velho do que eu será. É dos Açores, estudava em Coimbra, ficou-se pelo terceiro ano de Medicina, apanharam-no para infante que é do que eles mais precisam e o camuflado assenta-lhe mal, de banda como o Miranda, diz ele, que nem é grandalhão nem meia-leca, não se sabe porquê a farda dança-lhe no corpo afeito a traje civil.

Padre é que não

Carlos Rodrigues, Carlos Manuel Ribeiro Rodrigues, da Ribeira Brava, São Miguel, a família queria que fosse padre, ele não, porra!, pirara-se para a cidade do Choupal, mandara o hipotético seminário às urtigas, instalado numa república e com companhia nocturna e aconchegada, dera por ele embrulhado numa semi clandestinidade da extrema esquerda política, a coberto do manto amplo e abrangente da Oposição.

Donde o nome por que era conhecido o quartel – Novo Basófias, em homenagem, aliás justa e sincera, ao Mondego em que a Cabra da Torre da Universidade se reflectia, quando levava água. Está claro que a denominação tinha carácter medianamente secreto, não chegava ao Confidencial dos Perintreps militares. Nem valia a pena, que se lixassem as normas de segurança, com elas o aquartelamento podia bem.

Até tinha perímetro o raio da estância de cinco estrelas. Marcado a arame farpado, está bem de ver, que o local não era para parvoíces, para além das minas traiçoeiras fervia por ali chumbo, queimava metralha, acendia-se por cima um sol de torradeira, calor húmido, carregado de mosquitos junto ao rio que passava ali ao lado, rio a bem dizer uma merda, meio riacho meio empertigado, impostor aquoso, nem um jacaré cabia nele.

Eram as primeiras festas que ali passava a malta predominantemente transmontana, se não fosse quase toda. Mobilizados por Chaves, traziam com eles às costas de cada um e de todos as saudades, as tradições, os hábitos e a neve. Transplantados para Angola, a farda a pesar na vida, faltava-lhes qualquer destas alíneas, os madeiros, as castanhas, as alheiras e, sobretudo, a neve.

O alferes Rodrigues tivera a ideia. Se não havia neve – inventava-se. Em Coimbra e em Faro e na Ribeira Brava também não caía ela e nem por isso deixava de ser Natal. Já tinham aparecido, aliás, sepreis de flocos enlatados, era só carregar na cabeça de plástico da lata e chhhhhhhh, saía uma semeadela nevada que se agarrava aos ramos.

A necessidade e o engenho

Mas ali, entre o Ucua e Nambo, não havia sepreis para ninguém para bufar neve artificial e peganhenta. Não tem problema. Anos e anos se utilizara o algodão esfiapado, ainda os japoneses não se tinham lembrado da espuma de plástico, e era um vê-se-te-avias. Portanto, e como a necessidade aguça o engenho, avante com o algodão. O Malaquias, cabo enfermeiro, fora à farmácia da unidade e voltara sem algodão.

Acabou-se meu alferes. Anteontem, quando tivemos aquela malta que apanhou com uma emboscada pelos cornos, salvo seja. Gaze temos, pouca, mas temos; mas neve de gaze… E o jovem comandante, sem desarmar nem desmobilizar, não tens pensos individuais do combatente? Tem. Tem e têm algodão nos pachos. O Gomes que é jeitoso de mãos encarrega-se disso.

Desengomo-me. E enquanto vou espalhando a neve nos ramos e folhedo, lembro-me perfeitamente que fora a instrução que o sorja Fonseca dera sobre o penso individual do combatente. É, basicamente, uma ligadura que tem mais ou menos a meio dois pachos de algodão com sulfamidas, um tanto afastados. Um camarada leva um tiro numa gâmbia, prisemplo, o penso serve de garrote e desinfecta o buraco da bala, até ver.

Se o projéctil saiu pelo outro lado do presunto do militar, o primeiro pacho fica em cima do buraco de entrada e o segundo em cima do orifício de saída. Aperta-se e já está. Perceberam, todos. Não era uma pergunta, era uma afirmação. O Moinhos, de levantara o braço. Diz lá, ó rapaz. E se o tiro tiver sido no meio da testa. Bota-se-lhe o penso. E se a bala tiver saído pela nuca. Penso com pacho duplo. Aí está. Tudo se resolve. Tudo resolvido.

As gargalhadas foram tantas e os decibéis tão elevados que acabou ali mesmo a instrução. E viva o penso individual do combatente. E viva a saúde. Deixo-me rir, de novo e agora. A malta sabe porquê, o nosso alferes também. Por onde andará o sorja? Quero lá saber, que se foda, além de parvo era estúpido. Nem percebera que estava ser gozado e acabara a «lição» porque a gajada fazia um chiqueiro de criar bicho, não por se ter dado conta da enormidade que dissera.

O ramo natalício

O ramo natalício vai amanhando-se. Em vez de estrelas doiradas penduro-lhe uns cartuchos vazios, puxados a lustro, parecem oiro. Mais umas latinhas de Dolca que o Fagundes pintou de vermelho e azul, prateado não há, não faz mal, é Natal. Foi Natal e só hoje, um dia depois, estou a inventar esta árvore, com umas lâmpadas à mistura, contributo do Fagundes que, alem de condutor e pintor, também dá umas de electricista. Quem não tem cão, caça com gato.

O Capote de Vinhais desenhou um presépio numa caixa de rações de combate, na frente tem impresso Produzido e Embalado na Manutenção Militar, mas, nas costas, foi possível o desenrascanso do camarada. O gajo tem mão, o Menino está rechonchudinho, o São José – há quem diga que foi o primeiro enganado reconhecido pelos Evangelhos – passa muito bem, a vaca e o burro, a preceito, só a Senhora é que atira um bocado para não sei bem o quê. Não se pode ter tudo.

De qualquer forma é um presépio. O padre Santana, o prior da nossa freguesia, tinha, teve, sempre, um ódio de estimação aos jesuítas. Para ele, o único que se safava era o António Vieira dos Sermões e dos Brasis. Os restantes, uma cáfila. Contava, a propósito, quando se fazia o presépio gigante no adro da igreja, uma estória que, apesar de repetida anos a fio, punha o pessoal sempre bem disposto.

A companhia de Jesus


Quando os reis magos chegaram junto das palhinhas da manjedoura, olharam para um dos lados e viram uma vaca ruminando; viraram-se para o outro e lá estava um asno, teimosamente absorto. E enquanto se ajoelhavam perante o recém-nascido, iam cochichando entre eles. Nisto, um pastor com uma ovelha aos ombros também mirou a cena. E voltando-se para os três monarcas disse, abarcando as duas alimárias: e é isto a companhia de Jesus. Inácio não deve ter gostado.


Ontem, os gajos comemoraram a data à maneira deles. Um arraial de porrada. Uma secção que fora à água, lá em baixo, no rio, quando enchia as vasilhas fora fogachada quase à queima-roupa. Uma desgraça. Mais a mais no dia 25, em pleno dia 25. Mal ouvimos a metralha e os estampidos, saímos à desfilada, em busca dos gritos cada vez mais próximos.

Uma bazucada tremenda, ali mesmo à nossa frente, por baixo dos nossos bigodes. Insultos à mistura com os vai meter o Natal no teu cu na tua terra, sacana di merda. Os nossos mal se ouviam, quase só gemidos e ais. Os cabrões ainda tentaram atacar-nos de flanco, mas, naquela altura, não havia quem nos segurasse, quanto mais nos dobrasse. Pelos rastos que ficaram pelo chão e pelos ramos partidos, levaram muito para contar.



Nós contámos: cinco mortos e dois feridos graves, uma perna a menos, parecia que eu tinha entrado no matadouro municipal de Torre de Moncorvo, tanto era o sangue e as vísceras e os ossos e o resto. Filhos duma grandessíssima carrada de putas. Logo no dia de Natal. E antes do almoço, em que se iria comer o bacalhau, porque à noite da Consoada não dava por ali. Eram muitas luzes, muitos alvos.

O que vale, diz o alferes Rodrigues, é que os paneleiros não atacam dois dias seguidos. Empanturraram-se de mortos e agora estão a fazer a digestão. Se os apanhasse agora mesmo, comia-os a sangue frio, depois de os capar, tá visto. Assim, vamos comer o bacalhau e depois enterramo-los. O padre capelão não virá por mor das minas, mas a gente safa-se.

Termino a minha, a nossa árvore de Natal. O Jaquim cozinheiro berra de lá que o almoço está pronto. Por incrível que pareça, cheira a Natal. Até a neve algodoada parece rebrilhar, mais neve do que a neve verdadeira, e os sinos, invisíveis embora, repicam na nossa memória desterrada. As luminárias inventadas pelo Fagundes piscam a vermelho, isto é, encarnado, e azul. Noutro cartão o Capote aprimorara-se e escrevera Boas Festas, com uma estrela de cauda à maneira de cometa.

É a última coisa de que me lembro. Do resto – nada mais. Acordo, não vejo nada, dizem-me depois que estou no hospital de Luanda. Ó pá, diz-me uma voz sem rosto, tens de te habituar. Podia ter sido pior para ti. Estás cego – mas estás vivo. E os outros? E o nosso alferes? E o Fagundes?

Os tipos tinham quebrado as regras: haviam voltado a atacar - no dia seguinte. Duas bazucas e dois morteiros. Palavra de honra de que nunca mais dou as Boas (?) Festas (?). Juro.

sexta-feira, dezembro 22, 2006



Uma morte adiada


Antunes Ferreira
L
eio e quase não acredito. O Mundo está, definitivamente, roto. Pode lá ser. Cristina Nabona, a ministra do Ambiente do Governo Zapatero, afirmou que os touros de morte deverão ser eliminados, citando como exemplo o caso português. A Espanha esfregou os olhos, acordando para a «infausta ideia». Ou, pelo menos, uma larga parte do país vizinho.

Pode dizer-se até, creio, uma larguíssima parte. Os touros de morte são um emblema espanhol. As fotos de Ernest Hemingway na barreira de muitas praças, e, sobretudo o seu «Verão Perigoso», publicado em 1932, dão um retrato fiel de um defensor da execução do cornúpeto nas arenas. E ele próprio o diz, baseado na sua experiência como jornalista, que o homem não é vencido; os touros sim, na praça.



Espanhol que se preze é aficionado. Corrida sin estocada, no es nada, dizem os sevilhanos. Um bom Amigo, Paço Ramírez, ele também escrevinhador, afirmou-me um dia em que nos encontrámos num bar próximo de Las Ventas, de onde ele chegava, que tinha tido um dia espanhol. Mira muchacho que estamos en España – disse-lhe perante o pleonasmo aparente. Ele soltou uma gargalhada e explicou-me.

Al desayuno me he comido una tortilla de repimpa; al almuerzo una paella, de primero, y cordero asado, de segundo, com un Rioja viejo, dos copas de Cardenal Mendoza y un puro gordo. Las Ventas: cinco orejas y tres rabos, salida en hombros por la puerta mayor. ¡Eso sí, que es España!

Pode louvar-se a excelente intenção da ministra. Pode aceitar-se que ela cite, inclusive, o exemplo português, ainda que Barrancos – supostamente ilegal - atraia quantidades de aficionados sedentos de sangue. Pode entender-se que Bruxelas pouco percebe das diversas europas que fazem a Europa. Pode, também e assim, interpretar-se este anúncio como uma ideia morta à nascença, ou, pelo menos, uma morte adiada…

Mas já não se pode prever em que dará este pré-aviso governamental. O PSOE já reagiu de forma negativa; o PP deve estar a ruminar no comentário que deve fazer sobre um tema eminentemente nacionalista. As outras forças políticas adivinha-se, com alguma facilidade, o que irão dizer – se é que o não disseram já. E já o fizeram, arvorando a governante em bombo da festa.

Cristina Nabona tem de olhar atentamente para o Don Quijote, até mesmo para o Sancho Panza. Não é que o não tenha feito já, porque a obra é também uma bandeira de Espanha. Mas terá de entender que uma coisa é lutar contra moinhos de vento, outra, bem diferente, é «ameaçar» com a extinção dos touros de morte. Nesse hipotético caso, até o Manolete sairia do túmulo e do museu para lhe dizer – ¡no pasaran! Tus ideas y tus intenciones….


Aqui se regista resumidamente o que as agências transmitiram e muitos órgãos publicaram. As notícias. Sem meias tintas. O comentário ficou atrás.



Touros de morte
Ministra espanhola quer seguir
exemplo português

A ministra do Ambiente espanhola deu início a uma campanha para proibir os touros de morte. Cristina Narbona cita a legislação portuguesa para propor que, no fim da lide, os touros sejam retirados da arena e mortos longe do público.

A possibilidade de seguir o exemplo das touradas portuguesas foi sugerida Cristina Narbona, durante um jantar com a imprensa. A ministra disse que tem o dever de tentar mudar a lei. As reacções multiplicaram-se desde então, com os ecologistas a favor e os proprietários das ganadarias contra.

Em vez da morte do touro em plena arena, provocada pelo golpe do estoque do toureiro, a ministra Cristina Narbona sugeriu que os animais fossem retirados de cena e mortos de forma mais digna. «Temos que, pelo menos, tentar evitar o fim sangrento do touro», afirmou Narbona falando ao El Mundo, e reconhecendo que uma mudança deste calibre terá de ser implementada suavemente. «Talvez no próximo parlamento», acrescentou.


Os políticos espanhóis já começaram a pronunciar-se em desfavor da ministra. José Blanco, líder do PSOE, declarou-se um «aficionado visual» das touradas e afirmou que o final dos touros de morte não faz parte da agenda política do partido. Dos restantes partidos, apenas o catalão ERC apoiou a ideia de Narbona, dando-lhes as «boas vindas ao clube anti-taurino». Barcelona foi a única cidade a falar contra as touradas, durante uma assembleia em 2004. Recorde-se que as touradas têm sido objecto de acesa discussão no Parlamento Europeu, dado que violam os direitos dos animais, mas até agora não houve nenhuma ordem no sentido da sua proibição.


quinta-feira, dezembro 21, 2006



Um brasileiro e Portugal
Uma nota (?) e uma resposta


Enviado por Ricardo Charters de Azevedo
Há dias, um aprendiz de jornalista brasileiro de Porto Alegre, de seu nome Polibio Braga, publicou a seguinte nota no espaço que possui na Internet, o www.polibiobraga.com.br, cujo texto e título originais de seguida se reproduzem.

Portugal não merece ser visitada
e os portugueses não merecem
nosso reconhecimento


Há apenas uma semana, em apenas quatro anos, o editor desta página visitou pela quinta vez Lisboa, arrependendo-se pela quarta vez de ter feito isto. Portugal não merece ser visitada e os portugueses não merecem nosso reconhecimento. É como visitar a casa de um parente malquisto, invejoso e mal educado. Na sexta e no sábado, dias 24 e 25, Portugal submergiu diante de um dilúvio e mais uma vez mostrou suas mazelas. O País real ficou diante de todos. Portugal é bonito por fora e podre por dentro. O dinheiro que a União Européia alcançou generosamente para que os portugueses saíssem do buraco e alcançassem seus sócios, foi desperdiçado em obras desnecessárias ou suntuosas. Hoje, existe obra demais e dinheiro de menos. O pior de tudo é que foi essa gente que descobriu e colonizou o Brasil. É impossível saber se o pior para os brasileiros foi a herança maldita portuguesa ou a herança maldita católica. Talvez as duas .

Cure-se!

A nota mereceu a resposta do nosso Embaixador no País Irmão que também se edita abaixo. Leia-se e tirem-se as conclusões que cada um melhor entender. Boas Festas e Feliz Ano Novo.





Brasília, 8 de Dezembro de 2006

Senhor Políbio Braga

Um cidadão brasileiro, que faz o favor de ser meu amigo, teve a gentileza de me dar a conhecer uma nota que publicou no seu site, na qual comentava aspectos relativos à sua mais recente visita a Portugal. Trata-se de um texto muito interessante, pelo facto de nele ter a apreciável franqueza de afirmar, com todas as letras, o que pensa de Portugal e dos portugueses. O modo elegante como o faz confere-lhe, aliás, uma singular dignidade literária e até estilística. Mas porque se limita apenas a uma abordagem em linhas muito breves, embora densas e ricas de pensamento, tenho que confessar-lhe que o seu texto fica-nos a saber a pouco. Seria muito curioso se pudesse vir a aprofundar, com maior detalhe, essa sua aberta acrimónia selectiva contra nós.

Por isso lhe pergunto: não tem intenção de nos brindar com um artigo mais longo, do género de ensaio didáctico, onde possa dar-se ao cuidado de explanar, com minúcia e profundidade, sobre o que entende ser a listagem de todas as nossas perfídias históricas, das nossas invejazinhas enraizadas, dos inumeráveis defeitos que a sua considerável experiência com a triste realidade lusa lhe deu oportunidade de decantar? Seria um texto onde, por exemplo, poderia deter-se numa temática que, como sabe, é comum a uma conhecida escola de pensamento, que julgo também partilhar: a de que nos caberá, pela imensidão dos tempos, a inapelável culpa histórica no que toca aos resquícios de corrupção, aos vícios de compadrio e nepotismo (veja-se, desde logo, a última parte da Carta de Pêro Vaz de Caminha), que aqui foram instilados, qual vírus crónico, para o qual, nem os cerca de dois séculos, que se sucederam ao regresso da maléfica Corte à fonte geográfica de todos os males, conseguiram ainda erradicar por completo.

Permita-me, contudo, uma perplexidade: porquê essa sua insistência e obcecação em visitar um país que tanto lhe desagrada? Pela quinta vez, num espaço de quatro anos ? Terá que reconhecer que parece haver algo de inexoravelmente masoquista nessa sua insistente peregrinação pela terra de um "parente malquisto, invejoso e mal educado". Ainda pensei que pudesse ser a Fé em Nossa Senhora de Fátima o motivo sentimental dessa rotina, como sabe comum a muitos cidadãos brasileiros, mas o final do seu texto, ao referir-se à "herança maldita católica", afasta tal hipótese e remete-o para outras eventuais devoções alternativas.

Gostava que soubesse que reconheço e aceito, em absoluto, o seu pleníssimo direito de pensar tão mal de nós, de rejeitar a "herança maldita portuguesa" (na qual, por acaso, se inscreve a Língua que utiliza). Com isso, pode crer, ajuda muito um país, que aliás concede ser "bonito por fora" (valha-nos isso !), a ter a oportunidade de olhar severamente para dentro de si próprio, através da arguta perspectiva crítica de um visitante crónico, quiçá relutante.

E porque razão lhe reconheço esse direito? Porque, de forma egoísta, eu também quero usufruir da possibilidade de viajar, cada vez mais, pelo maravilhoso país que é o Brasil, de admirar esta terra, as suas gentes, na sua diversidade e na riqueza da sua cultura (de múltiplas origens, eu sei). Só que, ao contrário de si, eu tenho a sorte de gostar de andar por onde ando e você tem o lamentável azar de se passear com insistência (vá-se lá saber porquê!), pela triste terra dessa "gente que descobriu e colonizou o Brasil". Em má hora, claro!

Da próxima vez que se deslocar a Portugal (porque já vi que é um vício de que não se liberta) espero que possa usufruir de um tempo melhor, sem chuvas e sem um "dilúvio" como o que agora tanto o afectou. E, se acaso se constipou ou engripou com o clima, uma coisa quero desejar-lhe, com a maior sinceridade: cure-se!

Com a retribuída cordialidade
do
Francisco Seixas da Costa
Embaixador de Portugal no Brasil

NR - Ora bem. Neste singular caso conjugam-se muitos verbos e propõem-se muitas questões. Antes do mais, registo, quem me enviou o mail que aqui se transcreve foi o meu Amigo Ricardo Charters de Azevedo, que me presenteia quotidianamente com coisas excelentíssimas/informáticas. Donde, e antes do mais, um abração e o muito obrigado devido. Pela minha parte continuarei a fazer o mesmo na volta do correio – até que o Ricardo me proíba de tal. Mas, mesmo putos, no Bairro do Restelo e em casa dos seus primos Câmara de Oliveira, nunca nos pegámos. Não seria agora.
Depois, a carta do Embaixador de Portugal no Brasil é da autoria de um outro magnífico Amigo, o Francisco Seixas da Costa. Alia ao facto de ser um diplomata de alto nível, o escrever muitíssimo bem, característica que, ao longo de anos, muitos e muitos leitores puderam comprovar. Oficial, portanto, do mesmo ofício, isto é e lidas comuns no domínio dos textos.

Passámos momentos inesquecíveis aquando de Conselhos Europeus diversos. Ele como Secretário de Estado para os Assuntos Europeus, eu como Assessor de António de Sousa Franco, outro Amigo de particular estatura, ao tempo Ministro das Finanças. As madrugadas em que se reunia um grupo de portugas para se aplainar as versões das conclusões dessas reuniões magnas da UE, terminaram normalmente em confraternização à roda do café da manhã.

E nos intervalos de reuniões cansativas e prolongadas (que, por vezes, empenhavam gente e meios… para não dar nada), ficávamos na cavaqueira, vendo as horas escorrerem-nos por entre os dedos, numa ampulheta vencedora do tédio. Bons garfos e melhores copos, à mistura com posições políticas afinadas pelo mesmo diapasão fizeram o resto.


A carta do Embaixador Seixas da Costa é um mimo. Aliás, porquê qualquer esboço de interrogação? O Chico a redigir está nas suas sete quintas. Quer o Ricardo quer ele são merecedores da admiração e estima que me ligam a eles. Estarem, agora, presentes no meu blog – é uma enorme honra. De tão babado, nem um toalhão de banho me safava, quanto mais um babete de trazer por casa. A.F.





Natal de letras

Maria Lúcia Garcia Marques
Em Dezembro acaba-se o calendário.

E, como todos os finais, também Dezembro tem a sua vertigem: nos termómetros, a temperatura desce ou sobe, conforme os hemisférios, mas os imaginários excitam-se de igual modo – é Natal!
E tudo se perfila rumo a essa ideia, a esse brilho, a esse sentir auspicioso. Vejam que até as palavras, agarradas aos sentimentos (ou será o inverso?) se condensam como flocos caindo em neve nos corações enternecidos. Vejam só quantas, agarradas como folhas ao troco inicial de uma letra – o F, por exemplo – descrevem, na luz e na sombra o(s) cenário(s) natalício(s):

Porque se se quer Feliz, o Natal evoca Fábulas e Fadas, Férias Fantásticas, frívolos Faustos, Fartura ainda que fingida, mas sobretudo Família, Fraternidade e Fé, muita Fé em que, num breve interregno, se esqueçam a Fadiga, as Feridas, os Flagelos, os Fanatismos, as Fomes e todos os Fantasmas que castigam a humanidade. E não se diga que o Natal é Fogo fátuo ou ao sofrimento Fuga fútil: é que, até no dicionário, antes do F fica o E e é por isso que a Esperança vem primeiro. Como a Estrela que o proclama e que nos chama. Com a Força de crer e de querer que há na fala do poeta:

[...] “Entremos dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave ...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a Consoada”
David Mourão-Ferreira, “Natal e não Dezembro”, in Cancioneiro de Natal (Ed. Rolim, Lx, 1986)

NR
– Contrariamente ao que, carregado de pessimismo, avançara para os Amigos, não fecho coisíssima nenhuma. Bato, por isso, no peito, e confesso que volto atrás. Uma outra vez o faço. Às primeiras, senti-me um envergonhado profissional. Agora, um desavergonhado total. Mal ou bem, este blog vai continuar, claudicando embora – mas vai. Não fora assim e demitia-me de mim próprio, o que seria muito pior. As portas, pensando bem, são para abrir e para fechar. Mas, primeiro, abrem-se e só depois se cerram.

Amiga de longa data, a Maria Lúcia Garcia Marques, mulher do dito cujo GM – e nada de pensamentos turvos sobre o encerramento da fábrica da Azambuja… - , escreve primorosamente. Anos a fio, vem-nos presenteando com páginas excelentes, carregadas de significados e prenhes de intenções que a qualificam e demonstram o valor do que produz.

Passa agora a alinhar no time do Travessadoferreira. Magnífico. Para além do prazer que nos dá, temos também a honra de proporcionar aos que nos lêem colaborações do mais alto gabarito, enriquecedoras deste blog. Bem vinda, Maria Lúcia. E Festas Felizes. Para continuarmos no F…
A. F.

segunda-feira, dezembro 18, 2006





Conflitos de gerações

Enviado por Luís Melo Torres
Falando sobre conflitos de gerações, o médico inglês Ronald Gibson começou uma conferência citando quatro frases:

1."A nossa juventude adora o luxo, é mal-educada, despreza a autoridade e não tem o menor respeito pelos mais velhos. Os nossos filhos hoje são verdadeiros tiranos. Eles não se levantam quando uma pessoa idosa entra, respondem aos pais e são simplesmente maus."

2."Não tenho mais nenhuma esperança no futuro do nosso país se a juventude de hoje tomar o poder amanhã, porque esta juventude é insuportável, desenfreada, simplesmente horrível."

3."O nosso mundo atingiu o seu ponto crítico. Os filhos não ouvem mais os pais. O fim do mundo não pode estar muito longe."

4."Esta juventude está estragada até ao fundo do coração. Os jovens são maus e preguiçosos. Eles nunca serão como a juventude de antigamente... A juventude de hoje não será capaz de manter a nossa cultura. "

Após ter lido as quatro citações, revelou a origem delas:

- a primeira é de Sócrates* (470-399 a. C.)
- a segunda é de Hesíodo ( 720 a. C.)
- a terceira é de um sacerdote do ano 2000 a. C.
- a quarta estava escrita num vaso de argila descoberto nas ruínas da Babilónia e tem mais de 4000 anos de existência.

NR - Luís Melo Torres é um novo nome aqui citado. É tão porreiraço que até é do Sporting. Está tudo dito. Minha mulher Raquel foi sua colega de trabalho, durante bastantes anos, na TAP. Todos os Natais & correlativos, Amigos que na transportadora aérea nacional cimentaram os laços que os passaram a unir, reúnem-se para uma almoçarada. O Graça Gago, o Carlos Vaz, o Rego, o Rica Faria, o Fausto, o Faria Lopes, o Galvão Martins, naturalmente o Melo Torres, a Cristina, a Filomena, o Rosa da Silva, entre outros. Este ano até lá esteve o Mário Matos.
O único penetra que a confraria aceita é o autor destas linhas. Porque torna e porque deixa, marido da Raquel, também sempre presente, pois, pois, vira o disco e toca o mesmo. Reunião excelente de gente idem. Foi ali que há dias o Melo Torres por mim solicitado, aceitou, disse ele com muito prazer, entrar na lista dos meus adresses e vice-versa.

As coisas vêm correndo muitíssimo bem. O intercâmbio informático/epistolar vai de vento em popa. Mandou-me, neste contexto, o texto acima, o qual achei tão oportuno e significativo que não resisto a publica-lo neste blog. O que nem é inédito: outros houve, há e haverá que fizeram, fazem e farão de igual modo. Isto expica tudo.
Ó Luís, em nome de quem quer que seja, mande uns textos para o Travessa. E bote nele também uns comentários. A malta agradece – mas não paga direitos de autor.
Falta a massa e... falta o autor. A.F.


* O filósofo Grego, não o outro

domingo, dezembro 17, 2006


Da Ilusão


Ricardo Belo de Morais
Numa mesma semana, dois amigos de proveniências absolutamente não relacionadas entre si queixaram-se do mesmo: desilusões. O mais elaborado referia-se a várias esferas possíveis, da sentimental à profissional. Essencialmente porque, como tantos(as), ao entusiasmar-se facilmente com tudo o que é novo, com tudo o que é começar, se assume na ingrata posição de vítima mais-que-potencial da desilusão.

Sabe, por isso, que conforme vamos crescendo (ou envelhecendo), todos temos dois caminhos fundamentais a seguir. Iludirmo-nos cada vez mais (candidatando-nos, com isso, aos mais variados sofrimentos) ou desiludirmo-nos cada vez menos... justamente porque optámos, conscientemente, por fugir cada vez mais da ilusão.

O tema está longe de ser novo e pacífico. Se é certo que quanto menos nos iludirmos, menos risco corremos de sofrer a dita desilusão; também é bem certo que a única forma de evitar “mossas” passa por nos fecharmos, de forma cada vez mais estanque, nas nossas defesas. Ora, não é menos verdade que de cada vez que nos fechamos, nos tornamos mais frios, mais ausentes e menos abertos a tudo o que de bom o mundo e as pessoas têm para nos dar.

Por ser um tema recorrente nas minhas decisões de vida, sentir dois amigos às voltas com a questão fez-me recordar as palavras de John Donne, o afamado clérigo e poeta britânico do Séc. XVII. Famoso pelas suas meditações ligadas à condição humana e recheadas de poderosas metáforas, a mais conhecida será, porventura, esta: «A Humanidade tem apenas um autor e está contida num só volume. Quando um homem morre, isso não faz com que um capítulo seja arrancado do livro, ele é apenas reescrito numa linguagem melhor. […] Nenhum homem é uma ilha, inteira e isolada em si mesma. A morte de qualquer homem diminui-me, porquanto estou envolvido na Humanidade. Por isso, nunca mandeis(mandes) saber por quem os sinos dobram. Eles dobram por vós/ti.»

Perder algo ou alguém que nos enche a vida e o coração (ou que pareça, pelo menos, conter essa promessa) é um rude golpe. Para os optimistas, apesar dos ciclos de vida que se fecham, das pessoas que simplesmente se afastam e do tempo que (quase) sempre se esgota, parte da Condição Humana passa por acreditar que tudo e todos se (nos) renovam. Se quiserem, a aplicação, às relações humanas, do velho adágio que fala da abertura de uma janela, quando as portas se fecham.

Para os realistas e os pessimistas (muitas vezes injustamente metidos no mesmo saco), tudo isto é válido. Oscilando entre uma condição e a outra, eu próprio admito que cortar os vasos comunicantes com o mundo e a espécie humana nos faz correr o risco de perder a felicidade, ainda que transitória – ou ilusória.

E é aqui que entra a frase do meu segundo amigo a braços com uma tristeza, na semana que passou, ao dizer que «há desilusões óbvias e esperadas.» Que são a maioria, acrescento eu. E que a lucidez detecta (quase) de imediato, se deixarmos de lado os sentimentos que nos toldam a capacidade de julgar e avaliar.

Algures no meio do Tempo, situável no final do século passado, a Humanidade que John Donne analisava mudou, talvez para sempre. Tornou-se egoísta, hedonista, umbiguista, volátil, fútil e predadora. Neste cenário, os sonhadores e românticos (onde modestamente me incluo, embora nos últimos anos não pareça) estão “condenados” ao último reduto de si mesmos. Se tiverem sorte, contando ainda com a esfera de afectos que sobreviveram de uma vida antiga - ou anterior - de relacionamentos sociais e familiares.

No mais, nos dias que correm, quem ainda abre a guarda e as expectativas a ponto de deixar-se iludir, no romance como no trabalho, merece a desilusão. E sofrê-la não é (ou não tem de ser) um castigo, mas sim uma lição de vida. De resto, por falar em vida, ninguém nos disse que ela seria fácil.

E acredito, ainda, que não há esse “mal do isolamento”, de nos transformarmos em fortalezas blindadas, de defesas em riste, à cautela. Até porque nem mesmo a arquitectura militar dispensa os portões ou as frinchas das vigias, por mais pequenas que sejam.




NR - O Ricardo Belo de Morais é, alem de gajo porreiro, um bom Amigo. O que é cada vez mais difícil de encontrar dado que a colheita foi mesmo muitíssimo limitada e a cepa está em vias de extinção - o que, lamentavelmente, viria a acontecer aos dinossaurios, exceptuando, óbvio, os do Senhor Spielberg.

Isto de bom Amigo tem que se lhe diga. Copular estes dois termos, se bem que um substantivo, o outro adjectivo, ou melhor, vice-versa, é tarefa que um qualquer Hércules não desdenharia completar. Os Árabes disseram e o rifão ficou nos anais: «Um Amigo foi por nós escolhido; a família calhou-nos. Allah Ackbar».

Ponto final, parágrafo. Na outra linha. Com mais muçulmanos ou menos muçulprimos, o RBM é mesmo um bom Amigo e o resto são cantigas, as quais o vento leva. No caso vertente - não. Não porque o jovem escrevinhador - para o que lhe havia de dar... - está fundeado solidamente na Amizade e na Solidariedade, já não na Cova da Piedade. E porque não?

A partir de agora (e ao fim de requerimentos e solicitações que recuam ao Paleolítico), com mais ou menos filosofanço à mistura,tem porto de acolhimento permanente aqui na Travessadoferreira. Assim ele queira vir do mar e aqui fundear. Ricardo, nunca te esqueças: há mar e mar, há ir e tirar bilhete de ida e volta.
A.F.





Um aninho

Antunes Ferreira
Pois é. O Travessadoferreira está a comemorar o seu primeiro aniversário. O autor espera que ele consiga safar-se, ele, o blog mas também ele, o escriba, e cumpra mais alguns. Como ainda há pouco, mais precisamente a 20 de Setembro (apontem para efeitos futuros, sobretudo pequenas prendas, um Rolls Royce de puxadores e pára-choques em platina, uma viagem em turismo espacial, um Euromilhões daqueles, & outras) cumpriu os 65 outonos, pode ser que ainda se vá arrastando e sobrevivendo.

Para já, pesem embora os achaques próprios da PDI, só quer o escriba que continue a rabiscar umas linhas. Dizem os raros, raríssimos que ainda o lêem que, se aguentaram até agora, pode ser que o façam mais uns tempos. Abençoados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus dos piupius – que é a barriga dos miaus.

Gostaria, como sabem, de aumentar a difusão deste Travessa. Gostaria de ter cada vez mais colaboradores e mais comentadores. Gostaria que o blog fosse, paulatinamente, um verdadeiro fórum de opiniões, ideias, de debate. Gostaria.

Aos que me (nos) têm acompanhado – muito obrigado. E poucos furos. Vão pela sombra que está um calor de rachar. Não se esqueçam.

sábado, dezembro 16, 2006

NATALADAS


Pai – 2, Menino – 1

Antunes Ferreira
Peço desde já um subido obséquio da vossa parte: a «Dona» Catarina Salgado não tem nada a ver com estas linhas. E já que estou com a mão na massa, muito menos tem o Apito Doirado. Singular coincidência – mão na massa. Palavra que não passa disso mesmo. Torcem o nariz? Pois que o torçam, porque assuntos como estes dois últimos cheiram tão mal – mal? Péssimo – que não viriam emporcalhar estas honestas páginas. Presunção e água benta.

O título pode também indiciar que se passa algo no seio do Conselho de Administração celestial, vulgo Santíssima Trindade. Desminto. Não se trata desse pai, muito menos do filho dele, e o Banco Espírito Santo não é para aqui chamado. Nos tempos da antiga senhora, havia um dito publicitário que rezava: nada de confusões; ruas prós automóveis, passeios prós peões.

No entanto, e para actualizar tais congeminações, hoje há que dizer: nada de confusões; passeios prós automóveis, ruas para os peões. Assim é que está correcto. No caso vertente da capital, o Senhor Carmona que se desengome. Alto lá: não se refere o dinossauro marechal, cuja estatura de capinha viveu largos anos no Campo Grande, nem pó.

O citado é o actual «Presidente» da CML, o Rodrigues que começa a concitar em seu redor uma unanimidade, caso cada vez mais raro. E que respeita à sua qualificação como o pior chefe camarário da cidade ulissiponense, desde o tempo da conquista aos infiéis, obra do rei Afonso Henriques e que deu notoriedade ao Martim Moniz.

Pelas ruas da amargura

Mau. O da porta, está visto, o que deu o nome à praça, que está cada vez mais desacreditada, pois a singularidade da fauna que a povoa está, também, cada vez mais pelas ruas da amargura. Idiossincrasias. O local, verdadeira antecâmara (não escrevi anti Câmara, acentuo) do Intendente que lhe fica um tanto mais acima, à direita de quem sobe, é sobejamente conhecido e dispensa mais quaisquer comentários.

Não tem nada a ver com o Moniz que é mais TVI e Manuela. Nem com o share. Óbvio. Peço, portanto que façam o obséquio de não encontrar aqui qualquer desfasamento secular, muito menos ferrabódó histórico, daqueles que, nem com a famigerada advertência «organizem-se!!!», são destrinçáveis, mesmo seguindo o salutar exemplo do nó górdio.

Basta de paleio prolegómenico para encher pneus. Vá o escriba ao cerne da questão, de caras, nunca de cernelha. Ainda se fora no renovadíssimo Campo Pequeno, passava. Porem, não é o caso. Um aparte: gosto desta adversativa, muito mais do que o prosaico mas, ou o insidioso todavia, ou o calino não só, muito menos o prosaico mas também.

Vejamos. O resultado que se pode ler no título não tem nada que o relacione com o que está até aqui escrito. E então? Que sacana de brincadeira é esta? Menos galhofa e mais resultados. A falta de produtividade é uma pecha dos lusos. E se ainda restam uns quantos que trabalham e vêem o seu fruto, a esmagadora maioria diz que trabalha que se desunha e, quanto a fruto, são mais maçã reineta.

Pinhões e árbitros

Como assim? Vem ou não vem a elucidação sobre a parangona? É pra já. De mais, estamos em plenas festas, amêndoas, nozes e avelãs, passas de uva, até mesmo umas alcagoitas. Pinhão já era, está caríssimo, sobretudo no Canal Caveira. Enquanto foi encarecendo – e dada a especial situação e frequência do poiso à beira da estrada – foram os árbitros embaratecendo-se. Donde, o Santana é que sabia da poda. Pelos vistos – já não.

Estes juízes com apito, esclareça-se, também não têm nenhum hífen com o tema. Outro tanto se pode dizer dos da toga, aliás proibidos recentemente de se meterem em tais futebois. Mas, ressalve-se que a lista única para a FPF, ainda que tenha como mandatário nacional o Senhor Luiz Felipe Scolari, pode incluir para efeitos jurídicos e disciplinares três indigitados no supracitado Doirado.

As festas desejam-se boas, assim como próspero se almeja para o ano novo. Os cartões com sinos e coroas verdes com bagas vermelhas subsistem. Mas os virtuais, electronicamente informáticos estão mais na moda. Âpetudeite. Mandar os desejos da quadra ciberneticamente é naice. Mais dia, menos dia, ainda vamos recebê-los oriundos dos carteiros, de um que outro guarda-nocturno, eu sei lá.



Tudo visto, chego ao âmago da questão. Destaco dos respectivos onzes os seus capitães, braçadeira comprovante. No prélio natalício hodierno – também me apraz este vocábulo, ao invés de quotidiano que, ainda por cima, rima com piano – raros são os putos que pensam que é o Menino o portador das prendas. De resto, as palhinhas já deram o que tinham a dar. E as manjedouras, em vias de extinção. Para uns, não para outros. Logo: Menino – 1 (e já vai com sorte).



Outros, tibios, ingénuos, ainda uns quantos, estão mais inclinados para que seja o Pai, obviamente Natal. O vermelho, a barriga, o barrete são características no Mundo de hoje. Já as chaminés, enfim. Renas só mais para o Norte, exceptuando o senhor Rio, Rui, as Astúrias e assim, Finlândia & Irmãos, Limitada. Mas saco bojudo, esse, é impossível. Ou estamos em crise – ou não estamos, como diria o Senhor Paulo Bento. Daí que: Pai – 2 (por enquanto).

Quem quiser que acredite. Na estória e no Pai Natal. E, já agora, no coelhinho da Páscoa.

quinta-feira, dezembro 14, 2006





Se calhar…
Antunes Ferreira
Raios ainda riscam o céu negro como um tição. O ribombar dos trovões afasta-se, enquanto as bátegas vão esmorecendo, a caminho de uma pingadeira idiota. Na rua há heróis que se aventuram à tormenta a desfazer-se. Silhuetas difusas, embiocadas em gabardinas ou sobretudos, um que outro guarda-chuva.

Ricardo tudo mira por detrás da vidraça embaciada. Daí a seis dias é Natal. Ainda hoje ao almoço, ouviu o pai a comentar que agora já não era nem nada. Os putos fazem as listas do que querem e discutem preços apontados nas folhas policromas dos folhetos das grandes superfícies. Engenheiro de informática, ele sempre foi um tanto assim. Ricardo só tem dez anos, mas entende. E lembra.

No nosso tempo, as criadas saíam com a miudagem para a rua para que o menino viesse deixar as prendas. Eram os pais, os avós, os tios que se encarregavam de deixar os embrulhos ao pé da árvore, verdadeira. O infante horas antes nascido em Belém não nos dava folga. Bem tentávamos espreitá-lo, mas o gajo era espertalhaço, trocava-nos as voltas. Nos dias que vão correndo, já nem no Pai Natal, ersatz vindo das terras nórdicas há quem acredite.

A mãe espera um irmão para ele, já se comenta lá em casa que era muito giro ele nascer a 24. A ecografia disse que era um rapaz. O pai também comentou que já nem havia o gozo do mistério e da expectativa. É como o Google, disse, sabe-se tudo.

Mas o Ricardo tem uma consolação. No Natal, vêem os primos é a grande galhofa, brincadeira total. Ao desfolhar as ofertas, então, é um festival. Vale tido, minha gente. Rebolam-se de alegria.

E, de repente, dá por si a matutar numa coisa realmente estranha. Não percebe bem porquê, mas o Carlos, o miúdo filho do porteiro, não alinha nessas cenas. Também, há que dizê-lo, a madrasta não lhe dá muita corda. Dá-lhe, sim, porrada, sempre. E, quem sabe, se calhar, ainda que só tenha completado os oito anitos - não tem espírito natalício.


NATALADAS

Os dois textos que aqui publico (um acime e outro de seguida) serão publicados no Suplemento Natalício, de 21 deste mês, do «Notícias de Viseu», o semanário com maior audiência e divulgação no distrito de Viseu. Resumindo: o mais importante daquela zona. Foram-me pedidos pela correspondente deste blog, a Cláudia Pereira, que dirige os serviços comerciais do jornal. Quase me arriscaria a dizer a virtual correspondente, já que a jovem nunca mais veio a estas páginas. Espero que se emende.

Ora bem, dado que alguns Amigos & correlativos, SARL me pediam para que fosse publicando ao longo da quadra uns papeis alusivos, e porque as maleitas que me apoquentaram ainda não estão completamente vencidas, mas para lá caminham, pedi à ilustre publicitária que me fosse autorizada a publicação antecipada das estorinhas. A preguiça também contou. Em comparação com o «Notícias de Viseu» este blog é igual a zero vírgula um. E então se compararmos os que ainda deitam os olhos pelo Travessa e os leitores viseenses - ni hablar como dicen nuestros vecinos ibericos.

Na volta do correio electrónico veio um nihil obstat - imprimatur simpático e permissivo, assinado pela Cláudia. (NB - Passados os coscorões e o espumante, terá de vir também um texto com regularidade. É uma ordem). Espero que aguentem as linhas. E que se iluminem. Para apagado - estou eu. A.F.



As Festas do Senhor

Antunes Ferreira
Tempo complicado, o das Festas. As prendas estão pelas horas da morte, donde o recurso à loja do Senhor Ping Fei, ex-camarada, quase ao lado do Restaurante Flor de Lótus, do Senhor Wang Deng, ex-camarada. Essas expressões pretensamente igualitárias quedaram-se na RPC. Aqui, camarada já foi.

Os agentes de distribuição domiciliária da CMD, a correspondência mais diversa, a que na longa e escura noite chamávamos carteiros, já voltaram a apresentar, por cartão, as Boas Festas a V. Ex.ª e à sua Excelentíssima Família (não vá o diabo tecê-las). O complemento ao subsídio de Natal é implícito e inevitável. Tenho de pensar numa coisa destas, já agora mensal.

O plástico dos pinheiros está estandardizado por alíneas correspondentes à categoria arbórea. Registada em banda, dá logo o preço nas caixas registadoras. Juntem-se as bolas coloridas, ainda que inquebráveis, as gambiarras de luzinhas, e o spray da neve artificial e – Senhor Ping Fei.

Até o presépio de resina sintética o antigo camarada tem. E nem que os motivos religiosos sejam ponderosos e legítimos, há que encarar a questão de frente, ir às palhinhas e pegar a vaquinha do Menino pelos cornos: Ping Fei.

Quanto a perus, estamos conversados. Nada. Antes um pato do Restaurante Flor de Lótus, do Senhor Wang Deng que já foi camarada. Anote-se que o estabelecimento já foi vistoriado pelas brigadas competentes e nada encontrado que pudesse ser desabonatório. Pois seja pato. De preferência à Pequim. Em Cantão, dizem que não, em Xenin dizem que sim e em Pequim dizem que – nim.

É bom recordar que na montra do Flor de Lótus está colado a fita transparente, chinesa, um anúncio: Plessizasse cuzinheilo xinez. Çalálio minino nassional, ólálio: oito dias pol çemana, 18 holas e picos. Justamente após a acção fiscalizadora. Coincidência, comenta quem sabe. E logo com a Natividade aqui tão perto.

O Natal já não é a festa da família; é a festa do Senhor Ping Fei, ex-camarada.

sábado, dezembro 09, 2006



TECLADO QWERT

O pudim do Abade

Antunes Ferreira
Restaurante. Um grupo de senhores ligados ao foro despacha com a brevidade possível um almoço frugal, dada a escassez do tempo para deglutir. A audiência, interrompida há pouco, para esse debicanço quase espartano, vai recomeçar dentro de uma escassa meia hora – bem espremida. Abundam as sandes salvadoras e os sumos - para prevenir a sessão da tarde que se antevê longa e quiçá um tanto sonolenta.

Os empregados de mesa franzem os narizes. Tanto doutor junto, toga debaixo do braço e pasta a preceito, e a montanha está a parir um rato. Despesa de merda, confidenciam, não tão sussuradamente quanto é uso utilizar em tais ocasiões. Unhas-de-fome, judeus, avarentos são outros vocábulos entre dentes que correm entre travessas episódicas e pedidos tímidos.

Sentado a uma mesa, um causídico dá-se a destoar dos restantes. Receita uma suculenta omoleta de camarão e um branco seco bem fresco com o frapê enfiado na garrafa, há quem lhe chame gabardina com ar condicionado; outros mais afoitos e menos comedidos dizem que o artefacto é uma camisinha com a Vénus enregelada. Expressões.

E a tortilha que seja frita em azeite, com cebola e pimenta, alem do sal, naturalmente. E venha com picles, mais pepino que couve-flor, azeitonas verdes, de preferência pisadas e temperadas com azeite e sal, se tivessem uns coentros migadinhos eram de estalo. Já agora que há arroz de ervilhas, acompanhe com umas batatinhas fritas, às rodelas.

Os colegas de tribunal e de repasto, para eles sumário, ao contrário do processo que talvez nem se resolva na tarde que se antevê, pasmam e miram. Se assim acontece, é uma porra, porque assim, alguns, bastantes, terão de se meter à auto-estrada, portagens e marmeladas dessas, para voltarem no dia seguinte, uma seca, e para isso se está aqui a passar malzinho, pão com fiambre e queijo fatiado não é proposta que se coma.



Comida de plástico

Ainda se fora de presunto pata negra de Barrancos e queijo de Manteigas obviamente amanteigado, vá que não vá, em tempo de guerra não se limpam armas. Mas esta comida de plástico não vale a ponta de um chavo, quem sabe mesmo se não terá produtos incorporados daqueles que se diz que são cancerígenos. Ou transgénicos, apesar das normas europeias, aliás para o que lhes havia de dar. Aos tipos de Bruxelas, claro.

Os «outros» entreolham-se. Aquele colega não terá horário? Acaso o meritíssimo o dispensou do início da sessão? Se calhar só está como representante de parte interessada, tem tempo, está-se nas tintas para os ponteiros do relógio, que se lixem. Há malta assim, já nasceu com o cu virado para a Lua. É um pouco como o pilim que se tem. Para uns é macho, só se gasta; para outros é fêmea, cresce na carteira, espontâneo, que nem regado.

Há-de haver ali qualquer artimanha, lá isso há. Um comenta que uns são filhos e outros enteados, ao que um colega acentua que os homens são todos iguais, só que uns são mais iguais do que os outros. No entretanto, abocanham raivosos os pães recheados de coisas aparentemente insossas. Raio de sorte. O queijo nem de bola é; é fod, perdão, fundido.

Migalhas amontoam-se no balcão onde a esmagadora maioria abanca, uns quantos de pé, copo de sumo de tomate com cenoura e abóbora, especialidade que ombreia com o de laranja e tangerina. Há um senhor doutor baixinho, de óculos redondos e aros de tartaruga baque lítica que as apanha meticulosa e conscienciosamente.

Pindéricos de pechisbeque

Existe gente para tudo. Os empregados limpam sem entusiasmo as bandejas cromadas e continuam a cochichar. Quem os vira entrar sonhara com lautas ementas, vinhos alentejanos, reserva, gorjetas boas, avultadas. Agora saem-lhes uns pindéricos, nem pedem manteiga nos pães, quem sabe se pensam que custam mais caro, pelintras. Doutores de pechisbeque.

span style="font-size:180%;color:#3333ff;">Olham desmesurada e desorbitadamente o colega refastelado à mesa, toalha branca, de tecido, guardanapo igual, com o logo do estabelecimento num canto. Invejam-no? Odeiam-no. Quando chega o servidor, guardanapo no braço à moda antiga, dos ovos evola-se um cheiro a bem fritos que é um gosto. As batatinhas loiras são um chamariz.

Vai comento pausadamente, mastigando sem pressas, sorriem-lhe os olhos, desde as papilas gustativas. Frade mais rotundo e satisfeito não é nada se comparado com o jurista. Alguém pensa onde está o auro do santo, sacana, só lhe falta mesmo a aureola. Pode ser que a tenha, certo será, mas invisível. O preparo é quase obsceno, pelo menos é um pecado. De gula e não só. Não existirá sacerdote que se preze que o vá absolver, isto para usar língua judiciária.

O homem de leis refastela-se na cadeira, pede palitos, traça a perna que dança por cima do joelho sobreposto. Vocelência quer café e digestivo, certamente. Óbvio. Mas antes, diga-me uma coisa. Os «outros», já de saída, estacam à porta giratória, expectantes. Que mais lhes irá acontecer? Porca de vida madrasta para quase todos, madrinha para os eleitos.

Aquele doce que tem ali na montra do balcão é o quê? Saiba Vocência que é pudim à Abade de Priscos, uma delícia, só de falar nele já me cresce a água na boca. E não assobio porque tenho um dente cariado e faz-me doer. É a mãezinha do patrão, a Dona Olinda que o faz com as mãozinhas dela. Caseiro, absoluta e garantidamente. Só não tem selo porque parecia mal e, alem disso, a CEE era capaz de chatear-se e chatear o senhor Marcolino. E a progenitora, quiçá.

Um espanto

Pois que seja. Para mim tem muita pinta. Avance. Já o solícito se volta em direcção ao balcão, espere aí, mais uma perguntinha. Pois não, faça-a Vocelência que eu lhe responderei se souber e puder, com muito gosto. O pessoal já nem ao ralenti parece. Parou como nos filmes, em contraplongê. Entre a hora judicial e a curiosidade, vê-se quem ganha.

O senhor empregado pode dizer-me se tem meias doses? É o espanto. Do atendedor e dos estáticos advogados e correlativos. Então o doutor, depois de um regalo daqueles, satisfação hasteada na face redonda, barriga farta, colete desabotoado, resigna-se à humílima condição da metade da fatia que se antevê lauta do pudim do Abade? Quem iria imaginar? Maricas. Tragalhadanças.

Não costumamos. Mas se Vocência assim o quer, assim o terá, garanto-lhe. E nem preciso de perguntar ao boss Marcolino. É tiro e queda. Nada, nada, meu amigo, deixe-se de maus pensamentos. O que eu quero é que me traga dose e meia.

O seu a seu dono

NA – A invenção, desta feita, não é minha, lavo daí as mãos, nunca enganei ninguém, sobretudo os que ainda têm paciência e coragem para me lerem. A história foi-me ontem contada, à mesa do almoço, uns picantes da minha Raquel, para filhos e convidados.

Destes, um casal porreiríssimo, se trata. Ou melhor, que me perdoe a Isabel (mas onde raio é que eu a conheci, se foi a primeira vez que nos vimos? Reencarnação?) mas é do amantíssimo esposo, o Miguel, que a coisa surgiu. Passo a explicar.

O Miguel Moura Elias é advogado e colabora com o meu filho Luís Carlos, ele também jurista. Trata principalmente de acidentes de viação, vejam lá para o que lhe havia de dar. Mas, no caso vertente, outra foi a participação dele neste rocambolesco episódio que foi a nossa mudança de casa. Os dois, conhecedores de códigos e regulamentos, levaram a bom termo a ciclópica tarefa – eu já ouvi isto… - e eis-nos em casa nova.

Tinham de vir conhecer o apartamento, pois que o Miguel só o descortinara na planta, em suporte de papel, portanto. E vieram. E abalançaram-se aos calores da cozinha goesa – e gostaram. Pelo menos, assim se confessaram. Foi o doutor Eira que contou a estória, entre reparos sportinguistas, dos seis à mesa só éramos leões cinco, apenas a dona de casa destoava lampionicamente. Prova provada de que ninguém é perfeito.

Por isso, o seu a seu dono. Fico, agora, aguardando que o ilustre causídico se digne colaborar neste blog. Nem precisas de convite, ó Miguel. Foste adoptado, foram adoptados que a Isabel não pode ficar de fora, mais a mais com jornalistas na família, incluindo o pai Goulão. Para casa e para o travessadoferreira.
A.F.

segunda-feira, dezembro 04, 2006




Iluminações iluminadas

Antunes Ferreira
Quanto ganha um electricista? É muito difícil de responder a uma tal questão aparentemente fútil. Se ele trabalhar por conta própria – então aí o caso torna-se impossível. Ninguém poderá avaliar, sequer, o montante auferido por tal profissional absoluta e militantemente liberal. E nestas alturas de comemorações, bolos-reis e bolos-rainhas, manjedoura e luminárias – nem falar nisso.

Alem de que um honrado trabalhador do ramo da electricidade é igualzinho a um mecânico de automóveis, a um canalizador, a um marceneiro, ou, até, a quem se dedica a outras encomendas, mesmo que em vias de extinção. É o caso dos amola tisoiras e navalhas, dos limpa-chaminés, dos biscateiros de toda a qualidade, temperamento, preparação. Só para aditar: vidraceiros, artesãos, estofadores e correlativos.

Mesmo dando a cara por outrem, o ainda chamado patrão, as coisas têm os seus contornos um tanto esmaecidos embora tudo indicasse que deveriam ser bem definidos. Tudo isto, como por certo já descortinaram, tem que ver com as relações com o Fisco. Deixemo-nos de brincadeiras e meios-termos: basta chamar um desses trabalhadores.

Antes de tudo, é preciso tirar curso e estágio de chamador desencartado. Volte-se ao exemplo inicial. Por estes tempos de grinaldas policromas, e dado que um cidadão comum e inofensivo não é muito dado à nobre arte de ligar cabos, meter caixas de derivação, apendicificar fichas machos e fichas fêmeas ou instalar tomadas de corrente, chama-se o técnico.

Aqui se inicia um jogo de gato-sapato muito pior do que qualquer roleta ou slot machine do Senhor Stanley Ho. Ainda que em ambos seja necessária sem apelo nem agravo, a sorte. Diria até imprescindível. Veja-se o caso pelo ângulo inverso, tal como acontece nos golos transmitidos pela televisão. O que é incontornável é a abstinência do azar.




Esteja descansado que depois de amanhã pelas nove horas estou em sua casa e resolvo-lhe os problemas. Veja lá, não falte, os miúdos estão a caminho das férias e querem ter a árvore pronta, senão não há Natal que resista. Ora essa, por quem é, eu também tenho filhos, disso sei eu (presume-se que ele saberá também de electricidade). Estou aí sem falta.

Não está. Recorre-se ao telemóvel. O Senhor Mindonça está para casa de um cliente. Ó minha Senhora, esse cliente sou eu. Como é que se chama? Eu? Sim o senhor. Pedro Canhoto. Abrenúncio que nome estuporado, desculpe lá, mas eu sou assim, pão-pão, queijo-queijo. Parece-me que o Mindonça não foi para aí. Mas ele prometeu-me que vinha, é por causa das iluminações…

Olhe, você pode ter muita razão, mas o Mindonça anda nas iluminações da Baixa, a fazer um biscate para a Cambra. Dá-lhe umas c’roas mais. É o meu marido e quando as coisas apertam e os miúdos…, enfim, sempre vêm mais uns euros… Óptimo, compreendo, mas ele tinha-me garantido que. Agora, trato eu do caso. O Mindonça está aí na terça-feira. Mas hoje é quinta. São só uns diazinhos. Vai ter mais luz em casa do que no auteléte de Alcochete.

Quando o Senhor Mindonça vem, após três ameaços e correspondentes abortos – mesmo ainda sem ter decorrido o referendo a 11 de Fevereiro – já é dia 21, já os putos deram cabo do juízo ao pai e à mãe, já o primeiro apanhou um choque que poderia ter sido um xeque-mate, mas felizmente foi apenas um ameaço. Se calhar terá de ser no dia seguinte porque o Freitas, seu ajudante de auxiliar de praticante está de cama com uma carrada de anginas que nem te conto.

Nem pó - regouga o pai. Nem pó. Você só sairá daqui sem arranjar as coisas, por cima do meu cadáver. O pai pesa à volta de 130 quilitos, saltá-lo é cometimento inquietante para o Mindonça que é mais sueca no café A Flor da Horta e, por vezes dominó. Fica e vai até ao fim. O pinheiro sintético rebrilha, o estábulo rebrilha, a coroa da porta de entrada rebrilha, os olhos dos putos rebrilham.

Bom, Senhor Mendonça, vamos a contas. Sem factura, Senhor Engenheiro. Sem factura? Pois, é por via do IVA, que está pelos olhos da morte, vinte e um por cento, vinte e um. Em Espanha é muito menos. O pai franze o nariz, euros são euros e gosta de ter as suas despesas atestadas em papel com carimbo.

Mas, quando vê a soma, rende-se. Quer lá saber da factura. O senhor exagerou. Isto é um roubo. Vou queixar-me ao seu patrão. Sou eu. Como? Sou. Sou trabalhador independente. Então passe-me recibo verde. Com IVA? Desande, Senhor Mendonça, não o quero… A mãe intervém, ó filho podes um destes dias precisar do Senhor Mendonça.

No próximo Natal quem vai tratar das coisas, das gambiarras, da lâmpada do presépio é o pai. Um curto-circuito, um choque, uma chatice dessas, tudo incluido, não chega ao assalto do Mindonça, nem nada que se pareça. Nestas embrulhadas, até pode ser que se ajeite e comece uma auspiciosa carreira de electricista. Engenheiro já deu o que tinha a dar. E, ainda por cima, com IVA e IRS.

sexta-feira, dezembro 01, 2006








Consulta telemóvica

Antunes Ferreira
Mister Gates, mais conhecido por Bill, é um homem das Arábias. Para alem de ser o fulano mais rico do Mundo e de dedicar à filantropia, não dá ponto sem nó. Esta da net e quejandos, não sendo propriamente uma criação dele, é um negócio, dele, incomensurável. A Microsoft, «dona» do sistema, dá a ganhar milhões de milhões ao seu patrão. Bem pode a UE tentar multá-la.

A rede que nos liga informaticamente tem capacidades de tal forma multifacetadas que, bastas vezes, nos deixam boquiabertos, muito piores do que o calino boi diante de um palácio. Não se tratando dos veneráveis (e duvidáveis) dogmas, esses sim obrigatórios para os crentes – muitas vezes perante as fogueiras da «Santa Inquisição»… - os insignificantes e iliteratos como eu pasmamos de tal maneira que apenas possibilitamos a entrada da mosca. Já que a asneira, essa,…

Desta feita aqui vos deixo um exemplo concreto que, aliás, se prende com essa universalidade da Internet. Acabava eu de escrever a minha vicissitude originária de Madrid, deu-me na veneta falar com a Olga Berens. Como sabem, nomeada (obviamente por mim) correspondente em Évora e arredores. Na sequência do escrito que também está aí abaixo. Que embora não seja de sua autoria, foi quem o remeteu pleno de interesse.

Do telefonema (juro que não me abalançava por caminhos ínvios a tentar uma consulta) resultou, para alem da conversa com uma tão boa Amiga, um desabafo à ilustre clínica. Estou assim, estou assado, o meu cardiologista, prof. José Carmona está fora, só volta no dia 11 e entretanto... E ela, num foguete, isso arranja-se, tenho um colega e amigo, uma excelente pessoa, que é precisamente cardiologista aí em Lisboa. Vou dar-lhe uma apitadela.

Bendita apitadela, socorro imediato para os meus «apitadelos pneumonais». Falo pelo telefone com o dito cujo, o Dr. António Ventosa, a quem roubei quase uma hora a contar-lhe o que me acontecera e que aqui também está registado em texto anteru~ior. O Senhor – uma paciência e uma gentileza. Pareceu-me que já nos conhecíamos desde o neolítico, no meu caso, é óbvio, que ele nem pensar nisso.

Atendeu as minhas interrogações, melhor dizendo, aturou-me com alguns sorrisos pelo meio da «consulta telemóvica» dado o meu costumado desbragamento do palato. E da língua. E dos lábios. E dos dentes. Mas disse o que devia fazer, reforçou a opinião da médica das Urgências de São José e aconselhou-me a consultar o prof. Carmona, quando ele voltasse. Pois que ele, Ventosa, com muita pena – a Olga é uma excelente colega e pessoa (eu já sabia) – mas tinha o seu tempo completamente ocupado. Além de lhe agradecer, fiquei a pensar na segunda circular pelas seis da tarde de sexta-feira. Isso é que é ocupado.

Foi assim. Mas não só. Aproveitei a deixa e meti o Dr. Ventosa na minha adress list, com o seu consentimento, claro. O coitado nem tugiu nem mugiu, creio que antevendo o imbroglio em que eu o metera. Mas, queria criar um circuito que só a net possibilitaria, uma cadeia de vontades, de amizade e de solidariedade. Estou, sem dúvida alguma, gratérrimo aos dois. Por isso aqui exaro a estória verdadeira e saudável, exceptuado o que me toca e tocou – nela.

Ainda pensei em expressar também a minha gratidão ao Mister Gates. Mas não o faço por duas razões: uma, eu não o conheço, muito menos ele a mim; outra, porque não sei quanto iria pagar pela utilização das auto-estradas informáticas pra a ele chegar. Só de portagens seria a bancarrota. Pior do que nas famigeradas ex-scuds.

quarta-feira, novembro 29, 2006





DEAMBULAR

Llueve lluvia en Madrid

Antunes Ferreira
Don Antonio Goméz, proprietário do Hostal Centro Sol, mete o cartão de plástico na ranhura da máquina de fazer chaves dos quartos. Já passou o tempo das Yalle, para não falar já das de argola e dentes cortados que se metiam – e ainda metem – em fechaduras de buraco por onde tantas vezes valia (e vale) a pena espreitar, dado o panorama que se revela ao curioso.

Mire Usted Don Enrique – tenho a certeza que é sem H, ao uso castelhano, para quê essa letra, ainda por cima mudíssima, pretensiosismo herdado de franceses, ingleses e outros mais ou menos imperialistas – como llueve. Mi abuelo decía que llueve lluvia. Así que es verdad. Sin embargo, no es normal para esta epoca del año en Madrid. El tiempo, óstia!, lo hemos mudado, nosotros los hombres, somos unos cabrones.

Concordo. Na Sierra da capital – o nome é da Guadarrama, mas toda a gente a conhece apenas por Sierra, era como a Ponte Salazar a que apenas se chamava a Ponte, desnecessária a mudança para Ponte 25 de Abril, justificável só como homenagem à data redentora – ainda não há neve. Diz-me o Fernando Barciela que já não se pode acreditar em ninguém e em nada, nem no astro. O Barciela, anote-se, fui eu quem o arregimentou como correspondente do DN em Madrid.

Excelente jornalista, multifacetado, brilhante no que escreve, viveu, aparentemente, numa duplicidade crónica: Quando em Madrid – só pensava em Lisboa. Chegado a Lisboa – só recordava Madrid. Tem currículo feito, por mérito e trabalho. Não volta a cara a nenhuma tarefa – desde que seja jornalística. E de cozinha, pois é um Chef de truz e até já teve um restaurante, por mal dos seus pecados financeiros… Agora, parece-me melhor. Pelo menos já não se zanga quando se diz menos bem de Portugal...

É um grande Amigo, o Fernando, meio galego meio portuga, devorador intemerato de bolo-rei, melhor, de bolos-reis. Levo-lhe sempre uns dois ou três, de dimensões aconselháveis à voracidade do cidadão. Pneus lhes chama ele, e começa logo por guardar no congelador um dos exemplares. É para as Festas, explica. É sempre, mesmo que os tenha encomendado, só para lhe dar prazer, em Junho. Nesse caso, quem sabe, para as dos Santos Populares.

Entre bacalhau e tortilla

Aterrar em Barajas, mesmo sob uma carga de água, sempre me foi tonificante. E, veja-se lá, também o é para a Raquel, de cepa goesa, bacalhau com batatas e grão só se habituou a comê-lo em Lisboa. Tornou-se uma verdadeira Pantagruela na preparação do peixe, dessalga-o com mestria, como se toda a vida o tivesse feito e, já no prato, rega-o conscienciosamente com o azeite que em Goa era chamado do Reyno. E, claro está, muita pimenta, alem da cebola e do alho migadinhos. Oriental degenerada.


Pela capital de Espanha – seja-me permitido o tradicionalismo conservador, mais adiante a isso iremos, são biliões de contas de outros milhões de rosários – somos mais de tortilla e de tapas mais. Riñones al Jerez, callos a madrileña, salpicón de marisco, albóndigas, pulpo a la gallega e por aí fora. Regalo-me com una paella ou un arroz a la banda, no que a minha cara-metade condescende em me acompanhar, porém sem grandes olés.

O casco viejo da cidade à volta da Plaza Mayor regurgita de gente avançando já nas compras navideñas. Ao lado um tudo-nada abaixo e à esquerda é a Puerta del Sol, agora e uma vez mais em obras, por mor do metro. Dizem os cartazes que encimam os taipais que rodeiam os locais de trabalho que se trata de fazer una nueva línea amarilla.

Têm a sua graça, os taipais. Na chapa ondulada de que são feitos, estão reproduzidas fotos e gravuras da cidade há uns largos anos atrás. Ao mesmo tempo que os construtores pedem disculpas a los madrileños por las obras que terminarán lo más pronto posible, oferecem a quem por ali passa a possibilidade de saber dessas memórias antigas.



Imperturbável está a estátua do brasão de Madrid, o urso empinado junto ao medronheiro (el oso y el madroño, como dizem) que parece não ligar absolutamente nada à poeira, às máquinas e aos obreros. A Puerta será sempre a Puerta, com mais crateras de trabalhos, ou menos. Já a equestre de Filipe III – recordam-se? O II de Portugal… - parece menos imune à azáfama. Ainda que nem monarca nem cavalo se mexam. Bronze. Feitios.

A praça continua a ser o ponto zero de todas as ruas da cidade e de todas as estradas que saem dela. No edifício principal, hoje a sede do Governo Autonómico de Madrid, já viveram os da antiga polícia política da ditadura do generaleco galego, a Seguridad Nacional. Tenho um bom Amigo, o Jaime-Axel Ruiz, que na sua juventude e quando universitário por aqui passou e donde não guarda recordações gratas, bem pelo contrário. Curioso: na passagem do ano é o sino da torre do palácio que dá as doze badaladas. Acompanhadas por outras tantas uvas brancas. Passas - nunca.

Na parede frontal há uma nova lápida, o mármore ainda é liso e branco, não o atacou a poluição. Homenagem simples e sincera às vítimas do 11 F, data maldita por obra de um dos piores males que afligem os homens, o terrorismo. Está afixada no lado esquerdo de quem está virado para a porta do edifício.

A contrapartida, do lado direito é uma outra, bem mais anciã, encomiando os que se bateram contra as tropas napoleónicas aquele lugar. Duas épocas e dois acontecimentos que, de uma forma ou doutra nos tocam, me tocam, a mim, particularmente, que me considero (para não dizer metade, metade) ¾ lisboeta e, adivinhem,… ¼ madrileño. Já estou a ver os nacionalistas exacerbados a apontar-me o dedo, miserável iberista.

Tenho-o dito muitas vezes, com convicção cada vez mais ampliada, que, em 1640, quem deveria ter sido defenestrado no Terreiro do Paço (sem qualquer acinte, sequer má intenção ou vindicta…) era o João Pinto Ribeiro. O Miguel de Vasconcelos, esse, teria direito a estátua, aliás justificada e justa. Mas a História foi o que foi, os fastos outros e os resultados vêem-se.

Tínhamos andado para a frente, ainda que sob a manápula de outro ditador, o Franco, que, pelo menos, permitiu o desenvolvimento espanhol, enquanto que, por cá, o pacóvio e salazarento energúmeno defendia a teoria do atraso que preservava a tradicional maneira de ser dos lusos. Progresso era sinónimo de perigo. Uns bananas, em suma. Região Autonómica, falando português, com Parlamento e Governo próprios, até tinha um rei que maneja a língua de Camões sem falhas nem sobressaltos. Não é que seja eu monárquico, mas.


Espanha ou Espanhas?

Estes dias passados pelas calles, glorietas, plazas, y barrios da capital espanhola levam-me a dizer, uma outra vez, o que penso da grande nação nossa vizinha porta com porta. Disse nação e repito. Explico, começando mal, ou seja por uma pergunta: quantas Espanhas existem? Um só país? Penso que não. O sonho, aliás concretizado de Fernando e Isabel, cada vez é mais sonho e menos concreto. Para mim, claro.

José Luiz Zapatero, na senda das autonomias cada vez mais alargadas que vigoram nas Regiões, está, neste momento, atravessando um precipício pisando uma corda verdadeiramente bamba. Já o novo Estatuto da Catalunya causou amargos de boca a muitos amantes dos bons tempos do Cara al Sol. As actuais conversações com a ETA são, agora, o maior busílis da questão complicadíssima.

Segue-se o quê e quem? Os galegos? Os valencianos? Os andaluzes? Os extremenhos? Uma Espanha federal? Os castelhanos interrogam-se. Se calhar com motivos sérios para dúvidas – sérias. No que parece continuar a haver unanimidade é no jamon e no queso manchego. No restante, ainda não vigora o salve-se quem puder, mas já se descortina o tudo ao molho com ou sem fé em Deus. Se existe.

Mi hermano Enrique, sin H, Araoz, boliviano/espanhol, jornalista como eu, ex guerrilheiro e apoiante, naturalmente, de Evo Morales, disse-me, um dia, durante um repasto de cozinha peruana, com seviche e tudo o mais, que a Espanha era un gran punto de interrogación. Uno, no, acrescentei, dos, pues que lo ponen al reves en el principio de la frase interrogativa… Entonces, dos no, sino que 333. Lúcido, uma vez mais, o plumitivo índio.

Aliás, este outro magnífico periodista tem coisas que não enganam ninguém, para além, claro, da competência e profissionalismo que ninguém lhe regateia. É um homem de sete ofícios, até sabe de informática, o que me enche de invidia. E sabe muito. Culturalmente, nem se fala. Quando um dia lhe perguntei se conhecera o Che - respondeu-me com una sonrisa beatifica. E tem, com o pedido de desculpas e vénia à Amália, um harem em constante mudança. Nem um Casanova, muito menos um Barba Azul lhe chegariam aos pés. Caminha, tranquilo, para a jubilación.

Pronto. Já passaram a correr uns brevíssimos seis dias. Feitas as maletas – que entretanto aumentaram, por passe de mágica que normalmente se verifica por estas latitudes, rumamos ao aeroporto, a Raquel e eu. Desta feita nem consegui falar com outro Amigalhaço, o Rodolfo Lavrador maila sua Luisinha, jurista e aficcionado a los toros, companheiro de muitas lides e noites nas Finanças e de viagens agradabilíssimas. Fica para a próxima – em que tentarei convidá-lo a… pagar-nos um jantarzito no El Botín.

Lisboa é Lisboa, ainda que chova a potes. Chove chuva, em tradução literal. O Sporting ganhou ao Marítimo, na Madeira. Excelente. Venho um tanto constipado, uma pieira assobia-me dos brônquios ou quejandos, com alguma persistência e muita desafinação. Já começara no país de onde, dizem os lusitanos mais empedernidos, não vem nem bom vento nem bom casamento. Atoardas.


O jarabe que me forneceu um outro compincha, mais um Enrique sin H, este da Farmácia del Globo, ali à calle Carretas 12, rua de putas e de chulos, não aquentou nem arrefenta. Nem como paliativo. A propósito: entre Henriques com H e Enriques sin H existe quase que um sindicato de mafiosos, tantos somos.

Uma gaiola no peito

A pluviosidade lísbia parece ter ampliado os decibéis da caixa do peito. Pelo sim, pelo não, xarope às urtigas e Centro de Saúde. Médica correctíssima, é melhor ir a São José, leve esta carta, por favor às Urgências. Se para tal vim, cumpra-se o fado. Vou.

Cinco horas no banco, entre doentes, doentinhos, acidentados, escalavrados, todos no masculino e no feminino, uns mais idosos outros mais jovens, quase todos suplicantes, a maioria de olhos arregalados e lábios mudos, alguns em berraria alcoolizada, aqueles sussurrando suspiros.

Quem me vier falar sobre o estado caótico das Urgências, a partir de agora, é tiro na nuca com a bala paga pela família – à maneira china. O signatário jura dizer a verdade, só a verdade e aos costumes diz nada. E exige acta e atestado reconhecido notarial e privadamente. Acentua, ainda, que não está a fazer o frete ao Amigo Correia de Campos, seu colega no Camões, que muito tem já com que se preocupar. A saúde é uma ganda alhada. E ele é reincidente.



Fizeram-me tudo, desde análises q.b. até Rx torácico, passando por ECG, que agora já sei que significa electrocardiograma, pessoal estupendo, muitos sorrisos de amparo, poucas filas, quase nenhumas, numa tarde de domingo a entrar pela noite. Médicas/os, enfermeiras/os, técnicas/os de saúde, auxiliares, boa gente, até simpática.

Isto com o serviço em obras, num atendimento entre paredes improvisadas de tabique branco e cortinas de plástico para preservar alguma privacidade, a possível e aceitável. Diz-me uma médica que aquilo vai ficar um brinquinho, não pedindo meças a ninguém por este Mundo fora. Acredito. Pelo andar da carruagem.

Saio com um resultado ligeiramente preocupante. O que ganhei foi um pequeno edema pulmonar, que parece ter que ver com a minha condição de antigo e desregrado fumador. Fluidos e coisas assim fazem um leigo apanhar o táxi de volta a casa com uns quantos macaquinhos na tola e as avezinhas ainda pipilando no interior à direita de quem sobe e à esquerda de quem desce com o GPS apontado à traqueia.

Desta feita (e desta fita) Madrid começou com chuva nas ruas e acabou com chuva nos interiores deste cidadão, honesto q.b.. Porra, até parece a minha antiga casa, na Lapa.