quinta-feira, dezembro 21, 2006



Natal de letras

Maria Lúcia Garcia Marques
Em Dezembro acaba-se o calendário.

E, como todos os finais, também Dezembro tem a sua vertigem: nos termómetros, a temperatura desce ou sobe, conforme os hemisférios, mas os imaginários excitam-se de igual modo – é Natal!
E tudo se perfila rumo a essa ideia, a esse brilho, a esse sentir auspicioso. Vejam que até as palavras, agarradas aos sentimentos (ou será o inverso?) se condensam como flocos caindo em neve nos corações enternecidos. Vejam só quantas, agarradas como folhas ao troco inicial de uma letra – o F, por exemplo – descrevem, na luz e na sombra o(s) cenário(s) natalício(s):

Porque se se quer Feliz, o Natal evoca Fábulas e Fadas, Férias Fantásticas, frívolos Faustos, Fartura ainda que fingida, mas sobretudo Família, Fraternidade e Fé, muita Fé em que, num breve interregno, se esqueçam a Fadiga, as Feridas, os Flagelos, os Fanatismos, as Fomes e todos os Fantasmas que castigam a humanidade. E não se diga que o Natal é Fogo fátuo ou ao sofrimento Fuga fútil: é que, até no dicionário, antes do F fica o E e é por isso que a Esperança vem primeiro. Como a Estrela que o proclama e que nos chama. Com a Força de crer e de querer que há na fala do poeta:

[...] “Entremos dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave ...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a Consoada”
David Mourão-Ferreira, “Natal e não Dezembro”, in Cancioneiro de Natal (Ed. Rolim, Lx, 1986)

NR
– Contrariamente ao que, carregado de pessimismo, avançara para os Amigos, não fecho coisíssima nenhuma. Bato, por isso, no peito, e confesso que volto atrás. Uma outra vez o faço. Às primeiras, senti-me um envergonhado profissional. Agora, um desavergonhado total. Mal ou bem, este blog vai continuar, claudicando embora – mas vai. Não fora assim e demitia-me de mim próprio, o que seria muito pior. As portas, pensando bem, são para abrir e para fechar. Mas, primeiro, abrem-se e só depois se cerram.

Amiga de longa data, a Maria Lúcia Garcia Marques, mulher do dito cujo GM – e nada de pensamentos turvos sobre o encerramento da fábrica da Azambuja… - , escreve primorosamente. Anos a fio, vem-nos presenteando com páginas excelentes, carregadas de significados e prenhes de intenções que a qualificam e demonstram o valor do que produz.

Passa agora a alinhar no time do Travessadoferreira. Magnífico. Para além do prazer que nos dá, temos também a honra de proporcionar aos que nos lêem colaborações do mais alto gabarito, enriquecedoras deste blog. Bem vinda, Maria Lúcia. E Festas Felizes. Para continuarmos no F…
A. F.

3 comentários:

Julia Martins, Bairro Alto disse...

Que coisa bonita! Muitos parabens Senhora Dona Maria Lúcia e Feliz Natal. Escreva mais, que há muita gente que gosta. Muito obrigado

Jorge Martinho, Queluz disse...

A Senhora Dr.ª Maria Lúcia tem uma forma de escrever muito linda. Deve ser uma Senhora muito simpática. Num Mundo em que todos dizem mal de todos, em que irmãos matam irmãos, em que filhos renegam os pais, fico muito satisfeito de ainda haverem muitas Senhoras como a Dr. Lúcia. Bem haja.

Mário António Costa, R. da Misericórdia, Lisboa disse...

Para começar bem o novo ano, as minhas felicitações, o meu apreço e o meu muito obrigado à Srª Dona Maria Lúcia