segunda-feira, dezembro 04, 2006




Iluminações iluminadas

Antunes Ferreira
Quanto ganha um electricista? É muito difícil de responder a uma tal questão aparentemente fútil. Se ele trabalhar por conta própria – então aí o caso torna-se impossível. Ninguém poderá avaliar, sequer, o montante auferido por tal profissional absoluta e militantemente liberal. E nestas alturas de comemorações, bolos-reis e bolos-rainhas, manjedoura e luminárias – nem falar nisso.

Alem de que um honrado trabalhador do ramo da electricidade é igualzinho a um mecânico de automóveis, a um canalizador, a um marceneiro, ou, até, a quem se dedica a outras encomendas, mesmo que em vias de extinção. É o caso dos amola tisoiras e navalhas, dos limpa-chaminés, dos biscateiros de toda a qualidade, temperamento, preparação. Só para aditar: vidraceiros, artesãos, estofadores e correlativos.

Mesmo dando a cara por outrem, o ainda chamado patrão, as coisas têm os seus contornos um tanto esmaecidos embora tudo indicasse que deveriam ser bem definidos. Tudo isto, como por certo já descortinaram, tem que ver com as relações com o Fisco. Deixemo-nos de brincadeiras e meios-termos: basta chamar um desses trabalhadores.

Antes de tudo, é preciso tirar curso e estágio de chamador desencartado. Volte-se ao exemplo inicial. Por estes tempos de grinaldas policromas, e dado que um cidadão comum e inofensivo não é muito dado à nobre arte de ligar cabos, meter caixas de derivação, apendicificar fichas machos e fichas fêmeas ou instalar tomadas de corrente, chama-se o técnico.

Aqui se inicia um jogo de gato-sapato muito pior do que qualquer roleta ou slot machine do Senhor Stanley Ho. Ainda que em ambos seja necessária sem apelo nem agravo, a sorte. Diria até imprescindível. Veja-se o caso pelo ângulo inverso, tal como acontece nos golos transmitidos pela televisão. O que é incontornável é a abstinência do azar.




Esteja descansado que depois de amanhã pelas nove horas estou em sua casa e resolvo-lhe os problemas. Veja lá, não falte, os miúdos estão a caminho das férias e querem ter a árvore pronta, senão não há Natal que resista. Ora essa, por quem é, eu também tenho filhos, disso sei eu (presume-se que ele saberá também de electricidade). Estou aí sem falta.

Não está. Recorre-se ao telemóvel. O Senhor Mindonça está para casa de um cliente. Ó minha Senhora, esse cliente sou eu. Como é que se chama? Eu? Sim o senhor. Pedro Canhoto. Abrenúncio que nome estuporado, desculpe lá, mas eu sou assim, pão-pão, queijo-queijo. Parece-me que o Mindonça não foi para aí. Mas ele prometeu-me que vinha, é por causa das iluminações…

Olhe, você pode ter muita razão, mas o Mindonça anda nas iluminações da Baixa, a fazer um biscate para a Cambra. Dá-lhe umas c’roas mais. É o meu marido e quando as coisas apertam e os miúdos…, enfim, sempre vêm mais uns euros… Óptimo, compreendo, mas ele tinha-me garantido que. Agora, trato eu do caso. O Mindonça está aí na terça-feira. Mas hoje é quinta. São só uns diazinhos. Vai ter mais luz em casa do que no auteléte de Alcochete.

Quando o Senhor Mindonça vem, após três ameaços e correspondentes abortos – mesmo ainda sem ter decorrido o referendo a 11 de Fevereiro – já é dia 21, já os putos deram cabo do juízo ao pai e à mãe, já o primeiro apanhou um choque que poderia ter sido um xeque-mate, mas felizmente foi apenas um ameaço. Se calhar terá de ser no dia seguinte porque o Freitas, seu ajudante de auxiliar de praticante está de cama com uma carrada de anginas que nem te conto.

Nem pó - regouga o pai. Nem pó. Você só sairá daqui sem arranjar as coisas, por cima do meu cadáver. O pai pesa à volta de 130 quilitos, saltá-lo é cometimento inquietante para o Mindonça que é mais sueca no café A Flor da Horta e, por vezes dominó. Fica e vai até ao fim. O pinheiro sintético rebrilha, o estábulo rebrilha, a coroa da porta de entrada rebrilha, os olhos dos putos rebrilham.

Bom, Senhor Mendonça, vamos a contas. Sem factura, Senhor Engenheiro. Sem factura? Pois, é por via do IVA, que está pelos olhos da morte, vinte e um por cento, vinte e um. Em Espanha é muito menos. O pai franze o nariz, euros são euros e gosta de ter as suas despesas atestadas em papel com carimbo.

Mas, quando vê a soma, rende-se. Quer lá saber da factura. O senhor exagerou. Isto é um roubo. Vou queixar-me ao seu patrão. Sou eu. Como? Sou. Sou trabalhador independente. Então passe-me recibo verde. Com IVA? Desande, Senhor Mendonça, não o quero… A mãe intervém, ó filho podes um destes dias precisar do Senhor Mendonça.

No próximo Natal quem vai tratar das coisas, das gambiarras, da lâmpada do presépio é o pai. Um curto-circuito, um choque, uma chatice dessas, tudo incluido, não chega ao assalto do Mindonça, nem nada que se pareça. Nestas embrulhadas, até pode ser que se ajeite e comece uma auspiciosa carreira de electricista. Engenheiro já deu o que tinha a dar. E, ainda por cima, com IVA e IRS.

2 comentários:

Luis Vaz, o Poeta de Alcabideche disse...

Para começar os artigos sobre o Natal, não está mal. Rima e deve ser musicado com o jingle bel, jingle bel, já não há papel. Não está mal, não está mal, limpa-te ao jornal!

Jerónimo M. Sousa, Miraflores disse...

E quanto ganha um médico? E um advogado? E um economista? Pois, sr. Ferreira, está por certo a defender os seus não os referindo. Mas trabalhadores que suam o que ganham - é malhar neles. Sr. AF, você é um sacana!E eu sou electricista.