segunda-feira, dezembro 25, 2006




NA GUERRA

A neve e o algodão

Antunes Ferreira
O algodão, branco e macio, provinha de um penso individual do combatente, uma espécie de como quem diz mas não exactamente, como regouga o Fogaças, de Freixo de Espada à Cinta, apontador de morteiro nas horas vagas. Faz uma caloraça do catano. Olha lá ó Gomes, desfia essa merda a preceito, a neve é mais farrapinhos do que novelos graúdos, onde é que já se viu coisa assim, amaçarocada.

O Gomes sou eu, Manuel da Silva Gomes, natural de Moncorvo, mais precisamente de Cabeça Boa, 23 primaveras, solteiro, morador na Travessa do Infante, 34, 2.º Esquerdo, ali à Madragoa, desde os dez anos de idade, data em que os meus pais deixaram Trás-os-Montes para se sedearem em Lisboa. Por isso, já mal se nota o que antes xe notava. Soldado atirador da Companhia de Caçadores 1874.

O nosso alferes manda-me estar atento às nuvens fofas que vou espalhando por ramo de embondeiro, árvore garrafa, gigante meio alapado meio alevantado na chana de capim que antecede a floresta já próxima. O braço vegetal estronquei-o eu próprio e afeiçoei-lhe a folhagem, tentando fazer dele árvore de Natal. Em vão. Qualquer semelhança com abeto ou mesmo pinheiro bravo nem chegava a ser pura coincidência. Não é nada.

Mas ali, na mata, é tarefa impossível encontrar verdura nórdica, sem folha, só caruma. Entre Ucua e Nambo, venha o diabo e escolha, picada filha da puta, de tal forma plantada de armadilhas que lhe chamam minas gerais. Não tem piada nenhuma, o gajo que lhe deitou a alcunha já foi, explodiu-lhe uma debaixo da sola da bota, escapou o cantil metálico sem grandes amolgadelas.

O oficial, milicianíssimo, pouco mais velho do que eu será. É dos Açores, estudava em Coimbra, ficou-se pelo terceiro ano de Medicina, apanharam-no para infante que é do que eles mais precisam e o camuflado assenta-lhe mal, de banda como o Miranda, diz ele, que nem é grandalhão nem meia-leca, não se sabe porquê a farda dança-lhe no corpo afeito a traje civil.

Padre é que não

Carlos Rodrigues, Carlos Manuel Ribeiro Rodrigues, da Ribeira Brava, São Miguel, a família queria que fosse padre, ele não, porra!, pirara-se para a cidade do Choupal, mandara o hipotético seminário às urtigas, instalado numa república e com companhia nocturna e aconchegada, dera por ele embrulhado numa semi clandestinidade da extrema esquerda política, a coberto do manto amplo e abrangente da Oposição.

Donde o nome por que era conhecido o quartel – Novo Basófias, em homenagem, aliás justa e sincera, ao Mondego em que a Cabra da Torre da Universidade se reflectia, quando levava água. Está claro que a denominação tinha carácter medianamente secreto, não chegava ao Confidencial dos Perintreps militares. Nem valia a pena, que se lixassem as normas de segurança, com elas o aquartelamento podia bem.

Até tinha perímetro o raio da estância de cinco estrelas. Marcado a arame farpado, está bem de ver, que o local não era para parvoíces, para além das minas traiçoeiras fervia por ali chumbo, queimava metralha, acendia-se por cima um sol de torradeira, calor húmido, carregado de mosquitos junto ao rio que passava ali ao lado, rio a bem dizer uma merda, meio riacho meio empertigado, impostor aquoso, nem um jacaré cabia nele.

Eram as primeiras festas que ali passava a malta predominantemente transmontana, se não fosse quase toda. Mobilizados por Chaves, traziam com eles às costas de cada um e de todos as saudades, as tradições, os hábitos e a neve. Transplantados para Angola, a farda a pesar na vida, faltava-lhes qualquer destas alíneas, os madeiros, as castanhas, as alheiras e, sobretudo, a neve.

O alferes Rodrigues tivera a ideia. Se não havia neve – inventava-se. Em Coimbra e em Faro e na Ribeira Brava também não caía ela e nem por isso deixava de ser Natal. Já tinham aparecido, aliás, sepreis de flocos enlatados, era só carregar na cabeça de plástico da lata e chhhhhhhh, saía uma semeadela nevada que se agarrava aos ramos.

A necessidade e o engenho

Mas ali, entre o Ucua e Nambo, não havia sepreis para ninguém para bufar neve artificial e peganhenta. Não tem problema. Anos e anos se utilizara o algodão esfiapado, ainda os japoneses não se tinham lembrado da espuma de plástico, e era um vê-se-te-avias. Portanto, e como a necessidade aguça o engenho, avante com o algodão. O Malaquias, cabo enfermeiro, fora à farmácia da unidade e voltara sem algodão.

Acabou-se meu alferes. Anteontem, quando tivemos aquela malta que apanhou com uma emboscada pelos cornos, salvo seja. Gaze temos, pouca, mas temos; mas neve de gaze… E o jovem comandante, sem desarmar nem desmobilizar, não tens pensos individuais do combatente? Tem. Tem e têm algodão nos pachos. O Gomes que é jeitoso de mãos encarrega-se disso.

Desengomo-me. E enquanto vou espalhando a neve nos ramos e folhedo, lembro-me perfeitamente que fora a instrução que o sorja Fonseca dera sobre o penso individual do combatente. É, basicamente, uma ligadura que tem mais ou menos a meio dois pachos de algodão com sulfamidas, um tanto afastados. Um camarada leva um tiro numa gâmbia, prisemplo, o penso serve de garrote e desinfecta o buraco da bala, até ver.

Se o projéctil saiu pelo outro lado do presunto do militar, o primeiro pacho fica em cima do buraco de entrada e o segundo em cima do orifício de saída. Aperta-se e já está. Perceberam, todos. Não era uma pergunta, era uma afirmação. O Moinhos, de levantara o braço. Diz lá, ó rapaz. E se o tiro tiver sido no meio da testa. Bota-se-lhe o penso. E se a bala tiver saído pela nuca. Penso com pacho duplo. Aí está. Tudo se resolve. Tudo resolvido.

As gargalhadas foram tantas e os decibéis tão elevados que acabou ali mesmo a instrução. E viva o penso individual do combatente. E viva a saúde. Deixo-me rir, de novo e agora. A malta sabe porquê, o nosso alferes também. Por onde andará o sorja? Quero lá saber, que se foda, além de parvo era estúpido. Nem percebera que estava ser gozado e acabara a «lição» porque a gajada fazia um chiqueiro de criar bicho, não por se ter dado conta da enormidade que dissera.

O ramo natalício

O ramo natalício vai amanhando-se. Em vez de estrelas doiradas penduro-lhe uns cartuchos vazios, puxados a lustro, parecem oiro. Mais umas latinhas de Dolca que o Fagundes pintou de vermelho e azul, prateado não há, não faz mal, é Natal. Foi Natal e só hoje, um dia depois, estou a inventar esta árvore, com umas lâmpadas à mistura, contributo do Fagundes que, alem de condutor e pintor, também dá umas de electricista. Quem não tem cão, caça com gato.

O Capote de Vinhais desenhou um presépio numa caixa de rações de combate, na frente tem impresso Produzido e Embalado na Manutenção Militar, mas, nas costas, foi possível o desenrascanso do camarada. O gajo tem mão, o Menino está rechonchudinho, o São José – há quem diga que foi o primeiro enganado reconhecido pelos Evangelhos – passa muito bem, a vaca e o burro, a preceito, só a Senhora é que atira um bocado para não sei bem o quê. Não se pode ter tudo.

De qualquer forma é um presépio. O padre Santana, o prior da nossa freguesia, tinha, teve, sempre, um ódio de estimação aos jesuítas. Para ele, o único que se safava era o António Vieira dos Sermões e dos Brasis. Os restantes, uma cáfila. Contava, a propósito, quando se fazia o presépio gigante no adro da igreja, uma estória que, apesar de repetida anos a fio, punha o pessoal sempre bem disposto.

A companhia de Jesus


Quando os reis magos chegaram junto das palhinhas da manjedoura, olharam para um dos lados e viram uma vaca ruminando; viraram-se para o outro e lá estava um asno, teimosamente absorto. E enquanto se ajoelhavam perante o recém-nascido, iam cochichando entre eles. Nisto, um pastor com uma ovelha aos ombros também mirou a cena. E voltando-se para os três monarcas disse, abarcando as duas alimárias: e é isto a companhia de Jesus. Inácio não deve ter gostado.


Ontem, os gajos comemoraram a data à maneira deles. Um arraial de porrada. Uma secção que fora à água, lá em baixo, no rio, quando enchia as vasilhas fora fogachada quase à queima-roupa. Uma desgraça. Mais a mais no dia 25, em pleno dia 25. Mal ouvimos a metralha e os estampidos, saímos à desfilada, em busca dos gritos cada vez mais próximos.

Uma bazucada tremenda, ali mesmo à nossa frente, por baixo dos nossos bigodes. Insultos à mistura com os vai meter o Natal no teu cu na tua terra, sacana di merda. Os nossos mal se ouviam, quase só gemidos e ais. Os cabrões ainda tentaram atacar-nos de flanco, mas, naquela altura, não havia quem nos segurasse, quanto mais nos dobrasse. Pelos rastos que ficaram pelo chão e pelos ramos partidos, levaram muito para contar.



Nós contámos: cinco mortos e dois feridos graves, uma perna a menos, parecia que eu tinha entrado no matadouro municipal de Torre de Moncorvo, tanto era o sangue e as vísceras e os ossos e o resto. Filhos duma grandessíssima carrada de putas. Logo no dia de Natal. E antes do almoço, em que se iria comer o bacalhau, porque à noite da Consoada não dava por ali. Eram muitas luzes, muitos alvos.

O que vale, diz o alferes Rodrigues, é que os paneleiros não atacam dois dias seguidos. Empanturraram-se de mortos e agora estão a fazer a digestão. Se os apanhasse agora mesmo, comia-os a sangue frio, depois de os capar, tá visto. Assim, vamos comer o bacalhau e depois enterramo-los. O padre capelão não virá por mor das minas, mas a gente safa-se.

Termino a minha, a nossa árvore de Natal. O Jaquim cozinheiro berra de lá que o almoço está pronto. Por incrível que pareça, cheira a Natal. Até a neve algodoada parece rebrilhar, mais neve do que a neve verdadeira, e os sinos, invisíveis embora, repicam na nossa memória desterrada. As luminárias inventadas pelo Fagundes piscam a vermelho, isto é, encarnado, e azul. Noutro cartão o Capote aprimorara-se e escrevera Boas Festas, com uma estrela de cauda à maneira de cometa.

É a última coisa de que me lembro. Do resto – nada mais. Acordo, não vejo nada, dizem-me depois que estou no hospital de Luanda. Ó pá, diz-me uma voz sem rosto, tens de te habituar. Podia ter sido pior para ti. Estás cego – mas estás vivo. E os outros? E o nosso alferes? E o Fagundes?

Os tipos tinham quebrado as regras: haviam voltado a atacar - no dia seguinte. Duas bazucas e dois morteiros. Palavra de honra de que nunca mais dou as Boas (?) Festas (?). Juro.

9 comentários:

Bandeira disse...

Coisa mais parecida - na maneira de escrever entenda-se - do que tu com o Jorge Amado, ainda nao vi.
As tuas pequenas historias - veridicas meio veridicas ou totalmente inventadas e isso pouco importa - sao duma fluidez de leitura impressionante. Uma pessoa chaga ao fim da historia sem se dar conta mas quase sempre com um sabor amargo a pouco e com a impressao de que a historia deveria continuar e transformar-se, a uma certa altura, em romance.
Tal como os romances do Jorge Amado. Porque nao experimentas? Estou certo que seria um exito.
Aqui vai um abraçao com os votos de continuaçao de Boas Festas do sempre amigo
F.L. Bandeira

joliva_santos disse...

Caro AF (Chefe),

É (muito) bom chegar (agora mesmo) de férias natalícias (em Pavia, Alentejo) e vir (até) aqui e deparar com esta prosa. (É) bom demais. Parabéns (e obrigado) Artista!

Um abraço (sempre apertado, sempre Amigo) do

JS

A. Vieira, Lisboa disse...

Só três linhas. Aplaudo o Sr. F.L.Bandeira. Aplaudo o Senhor joliva santos. Espero pelo romance.

Maria Isabel Lima, Coimbra disse...

O André Sardet está na moda com todo o mérito e eu sou uma enorme admiradora dele. Adoro música, sempre adorei, mas não me inclinava para a escrita e por isso não lia.

Entretanto, à meses, visitei este blog por indicação da minha amiga Cláudia Reis. E descobri que gostava de ler através das histórias maravilhosas e muitíssimo bem escritas de Antunes Ferreira.

Junto-me aos que lhe pedem, quase ordenam, que escreva um romance. E repetindo o André Sardet tenho de lhe dizer que eu gostava de ser como tu, não ter asasa e poder voar... Você voa, mais alto e mais alem, Antunes Ferreira.

Muito obrigado pelo que me tem ensinado e proporcionado e cumpra a ordem de muita gente: escreva o romance. Já! Um grande e sincero beijo de homenagem e de admiração

anónima salina disse...

Sou da geração filha de ex-combatentes, sou daquelas que, sem quê nem porquê, sinto África tão próxima quanto a terra dos avós. Sou daqueles que cresceram a chamar "cócuana" ao avô, "burra" à cerveja e respondia ao "ê, caruani va", sempre que o pai me chamava! Até aprendi a contar até 10 "una, duna,têna, catuna...", só não aprendi o porquê de muitas outras coisas menos simpáticas.
Acho que a minha geração, que antes de saber andar já via o "Apocalipse Now" e o "Nascido a 4 de Julho" e "Não Sei Mais o Quê", tem de saber o que se passou aqui, com os próprios pais, tios e vizinhos que, saberá deus porquê, só nos contavam estórias de "burras" e "mulatas". Precisamos de ouvir outras, de "companheiros" e "medo" e "sobrevivência" e "alívio", enfim, de como se obrigou a nascer heróis de homens simples e depois os remeteu ao anonimato, a uma espécie de vergonha sem sentido!
Foi por isso que ontem, abandonada pelos meus dois filhos, fui ao cinema ver as novas do Joaquim Leitão, o filme "20,13", exactamente sobre a guerra colonial. Gostei de alguns dos personagens, do alentejano, no alferes, porém, para minha aprendizagem (e de muitos) as suas palavras valem muito mais do que mil imagens, que me perdoe o Leitão.
Acredite no que lhe dizem, já que não acredita no que lhe venho dizendo há uma vida inteira.
Espero pelo romance porque, tal como o amigo Bandeira, as crónicas sabem sempre a pouco!
Feliz 2007
Beijinhos
AS

Pedro Jorge Marques, Odivelas disse...

Há quem escreva, há quem escreva bem e há quem abuse. É o caso deste Antunes Ferreira. Não o conheço, mas gostaria de o fazer para lhe dizer que estou 100 % ao lado do F.L.Bandeira e dos outros.

Não gosto da expressão guerra colonial, como não gostava da ultramarina. Mas que houve guerra longe da nossa Pátria, houve. E eu andei lá como furriel miliciano.

Por isso aqui deixo o meu muito obrigado ao Antunes Ferreira. Porque sabe do escreve; porque sabe o que escreve; porque também andou por lá e não ficou «traumatizado» felizmente; porque usa os termos e as expressões correctas e, finalmente, porque sabe transmitir às pessoas o que pretende fazer passar. É, no meu entender um COMUNICADOR e um ESCRITOR.

Anónimo disse...

Ora cá temos mais uma ladainha de elogios a este gajo. Podias ó Antunes Ferreira ir dar uma voltinha ao bilhar grande, em vez de vires para aqui lixar o juízo à malta fixe. Em resumo: saiste-me um bom sacana!

Raul disse...

Mais uma boa leitura

Mário António Costa, R. da Misericórdia, Lisboa disse...

Para começar bem o ano novo, as minhas felicitações, o meu apreço e o meu muito obrigado ao Sr. Antunes Ferreira, feliz autor do blog e escritor óptimo.