quinta-feira, maio 18, 2006

Uma cabeleira em Pequim

Éramos três irmãos. Um, o João Jacinto, para nós o Ju, deu um tiro na cabeça com a sua caçadeira para elefantes. Ponto final. Era o mais novo. O primogénito, têm-no Vocências na vossa augusta presença e chateia-vos até mais não. Resta, por conseguinte, o do meio, um tal Braz, com z, Manuel. O nosso avô paterno, coitado, foi o culpado do nome próprio do sujeito, já que era o Senhor Tenente da Guarda Fiscal Braz, com z, Antunes. Que, naqueles tempos era figura importante, chegando até a ir ao lado do pálio do Senhor Bispo, em procissões as mais diversas.

O meu irmão Braz, retorquindo a convite expresso (sem café idem, que não posso beber) cá do je, começa hoje a colaborar no Travessa do Ferreira. Isto quer dizer que esta merda se está a tornar um antro de familiares? Um encontro paroquial? Juro-vos que se trata de pura coincidência – e pouco mais. Assim por assim, já vários incautos aqui deixaram, por certo inadvertidamente, uns comentários. Raros. Donde, chegar mais um elemento escrevinhador, ainda que seja irmão, é motivo de júbilo, mitigado é certo.

Um dia, hei-de contar-vos a história do Braz Ferreira – devidamente censurada, para não melindrar espíritos mais sensíveis. Inventa-se cada uma para cortar prosa... Mas só para fazerem uma aproximação ao tipo, fica já aqui exarado que começo a perder a conta às mulheres que ele já teve. As mais ou menos legítimas, claro, que os ameaços, nem falar. Mas estou quase certo que são quase dez... Ora alimpem-se lá a este guardanapo.



Braz Ferreira
Eles são mais de um bilião, mas poucos falam a língua de David Becham.... Porém, na de Mao Zedong, eles são verdadeiramente excepcionais.
Gostaria de esclarecer que a minha namorada é cantora e normalmente precisa de adornos para entrar em cena. Por esta razão, pediu-me para lhe comprar uma peruca na China. Tinham-lhe dito que era barato e no final das contas, até foi. Mas complicado.

Depois de ter perguntado a quase meia centena de chineses que trabalhavan na empresa com a qual eu estava a fazer negócio, consegui saber… que ninguem sabia onde se vendia este tipo de artigo. Porem, uma vaga informação fez-me chegar a um centro comercial, um dos maiores de Pequim. São «só» 14 andares de lojas atafulhadas de mercadorias. São precisos seis dias para visitar tudo, isto se formos melhores que o Obikwelu...

Pois bem, eis-me no primeiro nadar do centro comercial. Logo de caras dirijome a uma moçoila que devia ter passado a noite em claro, pois ainda tinha os olhos bem fechados… No mais puro do meu chinês (também os há impuros), balbuciei um tímido Nihao que pretende significar bom dia. A garota, talvez acordando, abriu ligeiramente os olhos - na verdade estava a arregalá-los - e vomitou uma frase em chinês digno do Fu Manchu.

Meió quer dizer não

Foi a minha vez de arregalar os olhos, ainda que já estivesse acordado há muito tempo. Do you speak English? Meió… Isto é, um não redondo saiu da boca redondinha da imaculada chinesa. Porra. Se o não tivesse sido quadrado, a boca dela teria mudado? Mas, colocando de lado a geometria facial, decidi passar a uma nova estratégia. Então, dei uma de mimo. Não é que tenha feito quaisquer miminhos à criatura. Simplesmente, tal qual o «rei» Marceau, comecei a mimar um rabo de cavalo na minha cabeça. Ela olhou para mim, achando seguramente que eu era maluco ou maricas, e com a certeza de um advogado de defesa, indicou-me o oitavo andar. Um sorriso acompanhou a informação que julguei preciosa.

E eis-me partido, qual Álvares Cabral, à descoberta do andar número oito, onde consegui chegar depois de ter sido pisado (e pisado eu próprio) mais de um milhão de chins. Comecei pela direita. E no meio de meio milhão de amarelos (o outro meio milhão estava ainda na escada rolante), comecei a procurar o balcão das cabeleiras postiças. Foi como se me arrancassem os meus poucos cabelos. Já que estava numa de capilaridade… Mas, nem cheiro de cabeleira, excepto o do sujeito que me precedia e que não devia lavar o cabelo há mais de seis semanas. Digo-vos que o brilho do cabelo dele faria inveja ao traje de lantejolas de qualquer sambista da Vila Isabel.

Eu continuava, corajoso e empreendedor. Nada. De cabeleiras e cabeças só sobrou a dor que o calor húmido da super loja me provocava.Tentei mais uma consulta, mas desta vez com um representante do sexo masculino. Sea menina anterior não falava inglês, ele ainda conseguia ser… pior. Um defeito na língua, pensei eu, fazia-o cuspir os restos do almoço que devia ter acabado pouco antes. Olhei meticulosamente para o meu casaco, para ver como tinha sido atingido pelos restos de massa frita, e esperei a resposta do donzelo.

Por gestos quase obscenos, entendi que o que o limão me dizia era que o que eu devia fazer era subir ao céu. Na realidade não era o céu, era simplesmente o andar superior, um inferno. Vejam só. Decorria a semana dos saldos, com milhões, penso que não exagero, de chineses a nadar uns por cima dos outros. Costas, mariposa, brucos… uns verdadeiros jogos olímpicos a anteceder Beijing 2008. Tentei, portanto, não meter água.

De repente, e após coteveladas, pisadelas e empurrões estava na frente de um cabeleireiro para homens... alguns, enfim. Só então compreendi a alegada informação do cuspidor de massa. Quando por gestos apontara para o meu cabelo, ele deve ter pensado: este gajo quer visitar o Sevilha...em Pequim. E ainda bem que não me indicara uma agência de viagens para comprar um bilhete para Espanha.

O mercado livre

Bom o resultado, para economizar tempo, foi uma visita organizada a todos os 14 pisos do centro comercial, com direito a milhares de pisadelas, que estavam seguramente incluidas no tour. Voltei para o escritório - sem a cabeleira. Mais uns dedos de conversa com colegas da empresa e eles indicaram-me que o adereço deveria ser mais facimente encontrado no mercado livre (free market). Boa, pensei. E, de imediato, segui para o tal mercado livre. Desta vez, porem, acompanhado de uma gentilíssima intérprete que entendia de tudo menos de cabeleiras e de inglês. O que facilitava bastante.

Do alto de um prédio em frente do mercado, podia apreciar umas seis mil (sem exagero, pois contei-as todas) lojinhas de uns dois por dois metros. Descemos à terra e entrámos naquele dédalo comercial. Um espanto. Dez escassos minutos após o início da pesquisa, descobri a lojinha das cabeleiras. Tudo muito simples: uma vendedora, uns 20/25 miseráveis clientes e uns 40 sacos de plástico tamanho XXL, dentro de quatro metros quadrados. É coragem. Depois do trivial dos empurrões, etc., consegui chegar ao lado da vendedora, a quem logrei dar conta do que pretendia. Da pseudo intérprete, nem pó.

A empregada começou logo a deslocar os tais sacos de plástico, colocando-os por cima dos pés e pernas dos outros clientes, que iam aumentando. E sem uma palavra de desculpas. Dentro de cada saco, encontravam-se outros saquinhos, talvez uns cincoenta com as ditosas cabeleiras postiças. Pensei que ela nunca iria encontrar o que eu desejava no meio de tal balbúrdia. E não é que ela achou o que eu buscava?! Milagre! Virgem Santíssima!!!

Está claro que teve de abrir uns quantos sacos fechados com quilómetros de fita cola, desembrulhado uns não sei quantos saquinhos e assim. Mas - encontrou. Quando pagava pude aperceber-me de que a lojinha era a desordem total, pois outros clientes procuravam também coisas dentro dos sacos. Dois dias depois, no hotel é que percebi a velha expressão portuguesa: Ó pá, não levantes cabelo. Muito menos cabeleiras postiças. Sobretudo – em Pequim.

1 comentário:

João F - saiste-me cá um malandro... disse...

Esse Braz é teu irmão? Mais velho ou mais novo? Penso que será menos velho que tu...ahahahahah. Tem a sua graça, mas não sei, se voltar a escrever, se não terá de ser mais curto. Daqui a uns dias também faço o mesmo. Um abraço