quinta-feira, maio 25, 2006






Viva a corrupção!...


O relatório sobre o combate ao crime económico relativo a Portugal, feito pelo Grupo de Estados contra a Corrupção (GRECO), do Conselho da Europa, foi tornado público na quarta-feira e é citado esta quinta-feira pelo jornal Público, que assinala que os peritos apontam o dedo à «falta dos necessários meios materiais, financeiros e humanos e, por vezes, de treino, de forma a levar a cabo investigações aos bens e finanças» em Portugal.

Desde 2002 foram iniciadas no País 1.521 investigações, das quais 407 estavam completadas no momento em que a equipa do GRECO realizou a pesquisa. Estas investigações foram levadas a cabo por 309 investigadores, 35 deles da brigada anticorrupção. De acordo com o relatório, citado pelo Público, o número de apreensões e as somas envolvidas são «diminutas».O grupo de peritos acrescenta que lhes foram explicadas as razões do insucesso: «Algumas vezes as investigações tiveram de ser abandonadas por falta de recursos ou por atrasos devido à comunicação inadequada entre certas agências públicas e privadas ou indivíduos».

Eles recomendam às autoridades portuguesas que sejam revistas as medidas de «identificação, apreensão e confiscação dos proveitos da corrupção» e que seja criada uma entidade especializada, responsável pela gestão de bens apreendidos. A equipa de avaliação deixou outra recomendação: que «se recorra de forma sistemática à investigação dos bens e que todos os recursos - legais, técnicos e humanos - sejam usados ao máximo e, se necessário, reforçados de forma a tornar mais eficaz a investigação financeira». O GRECO é uma instituição do Conselho da Europa que envia periodicamente aos países-membros um grupo de peritos com a missão de avaliar o estado da corrupção. A avaliação, refere o jornal, arrancou em 2003 sendo a segunda feita em Portugal.

Estas consultas aos jornais informáticos são duplamente perigosas. Alínea a) eles trazem tudo; alínea b) há cada vez mais oportunidades de, face ao que se fica a saber, um cidadão entre em depressão acelerada. Não há remédio – continuamos em tudo no fim das costas da Europa, ou quase. Em primeiros, só nas mortes nas estradas, nas falcatruas, no analfabetismo, na sanidade básica, no insucesso escolar, na Justiça, na Saúde.

Porra!O comentário, por mais que se pretenda optimista e construtivo, corre, também ele, o risco do negativismo, para não dizer mesmo do niilismo. Somos piores do que o pintam. Essa agora?!... E quem é esse pintam que já conseguimos ultrapassar em ruindade? Não se amofinem. Eu explico: quando o escriba era menos velho, dizia-se que nada era pior do que o pintam. Agora – já é.

Num País onde a corrupção grassa – o que nem é exclusivo nem tem copyright – para mim o despautério total é a miudinha, a mesquinha, a minúscula que por aí prolifera. Se tivéssemos corruptos a sério, daqueles que se vendem por milhões e milhões, ainda vá que não vá... Não fugíamos muito da média europeia. Podíamos descansar. Corrupção em Portugal, sim, mas com a devida dimensão.

Mas não. Aqui corrompe-se ou deixa-se corromper um sujeito por um punhado de euros e uns trocos de cêntimos. Assim, não vale. Não haverá meios de termos dimensões aceitáveis, ainda que na corrupção. O Eurostat continuará a dar-nos lugar no carro vassoura.Este CRECO ou lá o que é ainda nos deixa mais transtornados. Face a uma corrupção rasteirinha, pelo menos podíamos aproveitar o liliputianismo e combatê-la como o Santiago aos mouros - à nossa dimensão. Qual quê? De acordo com os especialistas do Grupo, não temos meios para fazer uma anticorrupção minimamente aceitável. Que diabo. Se não temos quase nada, porque bulas havíamos de os ter?O relatório do GRECO é quase greco para nós. Nem que fora cirílico.
A. F.

1 comentário:

Jacinto Fernandes - Vizela disse...

Ex.mo Senhor

Gatunagem. Nós vendemo-nos por tês dinheiros. O Judas foi por trinta e todos chamam-no de malandro. Desculpe o incómodo, mas comecei a ler o seu blog por indicação de um amigo comum, o Alves da Silva, que é leitor habitual.
E como já o conhecia do Diário de Notícias, da RTP, da TSF e principalmente da Bola, quiz deixar-lhe este comentário e uma pergunta: porque deixou de escrever em publicações? Creio que faz falta na nossa imprensa. Oxalá volte. Melhores cumprimentos do
Jacinto Fernandes