sexta-feira, maio 19, 2006


Duas paixões

Antunes Ferreira
J
á em puto tinha estas manias. Outras também. Mas duas foram as que me ficaram encasquetadas no bestunto que, para alguns, é cristalino – o que não é absolutamente o meu caso. Sem necessidade de genuflexão ou confessionário – tive disso, mas curei-me – gostaria de vos dizer que elas continuam a ocupar-me algum espaço num lobo cerebral inidentificado.

A primeira é o coleccionar canetas, esferográficas & similares. A tal irei, um destes dias. Mas, para já, aqui fica o registo. Entre plumas mais ou menos boas, novas e antigas e bolis (como dizem os nossos vizinhos ibéricos, de bolígrafos) de plástico, anunciando restaurantes, hotéis, empresas de transportes, partidos políticos e, até, de preservativos, entre toda essa amálgama escribente já ultrapassei os 21 mil exemplares.

Acreditem. E não me perguntem como me desenrasco para guardar este himalaia de objectos destinados à escrita, porque tenho de enveredar pelas muitas caixas de plástico e... a minha mulher não gosta destas coisas nem muito menos que eu fale delas, quando nalguma farmácia na estranja começo a pedir a quem me atende se tem algo para a minha colecção. Do espaço ocupado? Nem pó.

A outra das duas paixões são os romances policiais. Todos – ou quase. Por motivo que não adianta aqui mencionar, desapareceu-me, já lá vão uns anos, a Vampiro que tinha quase completa. Há dois anos, creio, depois de ultrapassado um pesadelo que me apoquentou durante cinco anos – uma depressão bipolar que não desejo nem aos meus inimigos figadais – comecei a reconstitui-la, devidamente actualizada. Vai indo, com alguns acidentes de percurso, mas vai.

A colecção Vampiro

A Vampiro é, só, na minha modesta opinião, o melhor acervo de obras de tal quilate. Os autores nela representados são nomes sobre os quais não recaem quaisquer suspeitas. Atenção: os Senhores Conan Doyle, Marcel Allain, Pierre Souvestre ou Edgar Wallace não fazem parte desse excelente grupo, penso que apenas por questões editoriais. São de tal estatura que, mencioná-los não é de justiça – é obrigação imprescindível.

Ando, por isso, não só a procurar uns números vampirescos que continuam a estar ausentes na minha biblioteca, mas a reler todos os que consigo. Alguns, mesmo a ler, já que, noutro tempo o não havia feito. Indesculpável. Naturalmente, tenho-o feito após selecção prévia. Neste particular, a busca aleatória não a recomendo a ninguém.

Quando afirmo, convicto, a amigos e conhecidos, que me meti a eito pela Agatha Christie, pelo Erle Stanley Gardner (aliás A. A. Fair, Carleton Kendrake e Charles J. Kenin), pelo George Simenon, pelo Rex Stout, pelo Ellery Queen, pelo Leslie Charteris, pelo Mickey Spillaine, e outros, alguns miram-me com vontade de apoiar o indicador na tempora e fazer com o dedo um gesto significativamente circular. O gajo já tem idade para ter juízo... E tenho. Idade e juízo.

Outros concluem que eu sou pílulas. Outros ainda, mais jovens ou menos entusiastas do género, perguntam quem são estes indivíduos. Há que saber perdoar-lhes. Se o Cristo, na cruz, terá pedido, ao que dizem, ao seu próprio pai para perdoar os seus algozes, pois eles não sabiam o que faziam, porque não usar da mesma complacência no caso vertente?

Adiante, que se faz tarde. Estreou ontem nos cinemas de todo o Mundo o Código Da Vinci, baseado no livro do mesmo título sobre o qual já escrevi neste Travessa do Ferreira. Dizem-me que está em marcha a rodagem do Ladrão das Merendas. Não estou certo. Se me referisse a Dan Brown ou Andrea Camilleri talvez já não fosse olhado como um espécimen raro. E outros aqui podia mencionar, mas o escrito já vai evangelicamente longo.

Mas, para acabar tão rápido quanto possível, tenho de lhe apensar uma ou duas considerações. Vá lá, uma, apenas. Nem todos estes juntos - desde os ancestrais até aos jovens, com cachimbo ou sem lupa, com bigode retorcido (o melhor do Mundo) ou sem pince-nez, com, com, com, sem, sem, sem, incluindo o Umberto Eco – conseguiriam decifrar o mistério que é o atraso, que eu diria fatal, deste cantinho esgalgado e espraiado no Atlântico.

No fim da fila

Meus Amigos. Não há volta a dar. No que toca a coisas boas e positivas, somos, incontornavelmente, dos últimos da Europa. Já não digo do Mundo, porque, feliz ou infelizmente, alguns torrões natais pobres de espírito (e de massa) conseguem estar na fila mais atrás. Antigamente, eu escrevia bicha; mas, hoje, a semiótica deu cabo de uns quantos termos agora considerados obsoletos ou pejorativos. Dos portugas se diz que temos uma produtividade manhosa, que somos subsidio-dependentes, que conseguimos ser mais calaceiros do que permite a Santa Madre Igreja. Seremos, não custa admitir. Não nos custa, nem nos envergonhamos de não nos custar...

Ontem, encontrei o José Sócrates no Solar dos Presuntos. Onde se continua a encher a pança com coisas muito gostosas, supinamente cozinhadas, acompanhadas de beberes inqualificáveis, de bons. Por lá era um corropio. O Joaquim Letria. O Zé Carlos de Vasconcelos. O... eu sei lá quantos mais. O engenheiro vinha acompanhado do meu «velho» Amigo Alberto Costa. Trocámos umas palavras breves, há quanto tempo te não via, o trivial. Tive tempo, ainda, para lhe dizer que estava de acordo – e apoiava – a maioria das medidas que o Executivo adoptou. E que não concordava com a metodologia comunicacional para as explicar aos cidadãos que somos todos nós. Foram uns escassos momentos, naturalmente. Mas já não tive para lhe dizer o que escrevi antes.

Pode bem o primeiro-ministro esforçar-se por dar a volta ao País e a nós, portugueses. Tem o direito, mas tem, principalmente, o dever de o fazer. Tarefa imensa, que só não qualifico de ciclópica porque me recorda as declarações do meu ex-professor de Direito Administrativo, Marcelo José das Neves Alves Caetano, no momento em que sucedia a um tal Oliveira qualquer-coisa-terminada-em-ar.

Por este andar, nem apelando a todos os nomes incluídos no volume gordo da História da Literatura Portuguesa, do António José Saraiva e do Óscar Lopes para que o – e nos – auxiliem nestes transes. Nada. E, muito menos, rogando à galeria dos autores policiais para que se averigue a fundo esta misteriosa ocorrência, da qual nem é preciso dar parte, porque é omnipresente. Nem com o auxílio do Santo Ivo, padroeiro da Justiça. Era o que faltava.

2 comentários:

Manuel Coelho disse...

Não o conheço senhor Antunes Ferreira. Mas quero dizer-lhe que concordo consigo e também discordo. Quanto às canetas dou-lhe os meus parabens. Quanto aos policiais estou consigo. Também gosto muito.
O Sócrates é um bandiso, sem palavra, pior do que o Cavaco. Os dois juntinhos vão dar porcaria. Dizem que o Sócrates gosta de homens. Eu não gosto. Mas o c... é dele.
Muitos cumprimentos de um funcionário público reformado à pressa

O mata-vermelhos disse...

Ó sacana

És um merdas! Comunistoide de trazaer por casa, disfarçado se xuxialista. Eu bem te conheço, aliás estive contigo em algumas situações mais lixadas. Andaste sempre a finjir de «democrata», mas agora já o posso dizer: és um filho da p...! Com todas as letras.
O Sócrates, paneleiro ou não, que se ponha a pau contigo. Dizes que o apoias na frente dele, mas chamas-lhe nomes nas costas do gajo. E que tal são elas?
Penso que puseste gravata preta quando morreu o criminoso Barreirinhas. Tu és assim. Dizem que não cantaste nada à PIDE. Em puto não eras mau de todo. Agora és o que és.
Vou continuar a fuder-te o juizo aqui no teu falhado blog. Queixas-te de que ninguém te liga. Espera só pelo que aí vem. Grande cabrão!