quarta-feira, junho 07, 2006




O desporto nacional



Antunes Ferreira
E
ntre o dizer mal (mal? Malíssimo...) do Scolari e do Governo e deitar contas à vida que vai estando carota, pouco nos resta. Com o aproximar do domingo, cresce a ansiedade nacional. O tema «mais principal» do nosso quotidiano é a selecção e o desempenho que dela se espera na Alemanha. E por isso mesmo, o desancar no Felipão, que não ajuda nada o grupo, mas satisfaz o mini-ego portuga.

Tirando isso, vamos tranquilamente ganhar o Mundial. São favas contadas. Há quem diga, à socapa, que para mal dos nossos pecados, já bastou a catástrofe interpretada pelos sub-21 e pautada pelo péssimo comportamento do time nacional daquela idade. Dizem esses renegados que se está a empolar as previsões para o Campeonato na Germânia.

Eu estou com estes aventesmas. Penso que a fasquia que se coloca a Figo, Ronaldo, Ricardo e aos restantes é demasiado alta e ultra optimista. Quanto mais alto se sobe, maior é o trambolhão, diz o Povo. Como quase sempre, com carradas de razão. Pede-se o impossível? Não senhor; exige-se. O ovo no cu da galinha? Não nos esqueçamos que as poedeiras também fazem greve. A Constituição, sabem... Esperemos, pois, pelo confronto luso-angolano que se deseja leal e saudável. E já que estamos no domínio doa galináceos, poderá ser então, que outro galo cantará.

Já os ataques ao Executivo são coisa normal neste País. Se o futebol é o desporto-rei e enche o ideário nacional, que dizer da maledicência assestada sobre o Poder? É igualmente um «desporto» que se pratica em cada milímetro quadrado da superfície de Portugal. Agora bombardeia-se o Sócrates. Antes fora o Guterres. O Santana também andou pelas ruas da amargura. E o fugitivo Durão? Nesse nem falar.

As nossas especialidades

Todos os outros, mais à esquerda ou mais à direita têm abastecido as milhentas anedotas ditas políticas em que somos verdadeiros especialistas, a par com a péssima condução e as mortes na estrada, a ausência de espírito cívico, o insucesso escolar, a percentagem de sido-infectados e muito mais.

No entanto o anedotário corrosivo é, ainda, um mal que apelidaria de menor, face aos ataques constantes das oposições de todas as cores e paladares, como os chupa-chupas pró menino e prá menina. Pelo Mundo democrático é, também, assim? Por certo que é. Mas será tão sistematizado e tão omnipresente e tão todo-poderoso como por cá? Não entrando em fundamentalismos bacocos – duvido.

Acompanho, por conseguinte, o magnífico artigo de José Medeiros Ferreira no Diário de Notícias que transcrevi neste blog. Com engenho e arte completamente diferentes, dadas as limitações do escriba. Mutatis mutandis, bastaria subscrever o exarado pelo meu grande Amigo Zé Medeiros. Mas, por respeito ao professor, alinhei estas ideias. Concordantes.

Ninguém curou do enunciado das coisas positivas que o Poder faz, qualquer ele que seja. Ou, pelo menos, quase. O bota abaixo tão característico da nossa idiossincrasia (é ver páginas excelentes produzidas na I República) é uma síndrome doentia e maléfica que aparentemente não tem mezinha que a cure. Cortar as pernas a uma pessoa ou a uma instituição é prática que entusiasma a mesquinhez lusa e a faz parecer com outra dimensão.

Aqui há uns tempos almocei com um político da nossa praça, meu amigo e bom chefe de família. Um senhor do mais alto coturno, impoluto, honesto, simples, humilde. Com um nome que poderia significar tudo o que fosse o oposto do enunciado. Note-se que, em meu entender, nada o poderia fazer; mas há nomes e nomes, siglas e siglas, parvoíces e parvoíces. Se fosse noutros tempos e noutras maneiras de dizer teria escrito que se trata de um cavalheiro de posição. E até o é, merecidamente.

Apetência destrutiva

Durante o repasto veio à baila esta apetência portuguesa pela destruição de pessoas, a quaisquer níveis. Dir-me-ão que, neste particular, até nem estamos mal. Veja-se o que se passa nos Estados Unidos, onde vilipendiar se afigura ser sinónimo de opinar. Pondo de fora, obviamente, o que se convencionou chamar direito ao bom-nome.

É altura para se pôr travão às quatro rodas e repensar o que se pretende alcançar e os meios a utilizar para se atingir esse fim. Até se deveria estudar as possibilidades de se aumentar a celeridade processual, sob pena de a Justiça ainda cair mais nas ruas da amargura. O que parece muito difícil, mas não impossível.

O ritmo do andamento dos processos no nosso País nunca foi muito acelerado. Não foi nem é. Veremos se o não será, outrossim, no futuro. Era bom que o não fosse, o que quereria dizer que se estava a tentar ultrapassar limitações e baias tradicionais – mas sem qualquer justificação.

Espero que, assim, a geração dos meus netos tenha possibilidades de actuar e intenção de o fazer que possa proporcionar aos mais desfavorecidos a satisfação de algumas necessidades básicas. Um exemplo: o combate à pobreza, à exclusão e à ausência de oportunidades não é exclusivo do Presidente Cavaco. Já Sampaio usava bandeira semelhante. Assim, todos temos obrigação de remar contra a maré e não nos podemos esquecer de que os direitos são-no porque também existem os deveres, suas contrapartidas.

Este escrito já tem mais de apologético do que é permitido pelas consciências, pelas normas e pelas autoridades. É melhor que me quede por aqui, para não engrossar o chorrilho de frases feitas que o integram. Noutra altura voltar-se-á ao tema. Por agora, ficamo-nos nas cantigas de mal dizer. E, por vezes, de escárnio. Valha-nos Dom Dinis, plantador do pinhal de Leiria e poeta. Ao que consta, o primeiro rei português que não era analfabeto.

1 comentário:

Jorge Pinto Faria, Queluz disse...

Esta agora de acabar uma crónica com o D. Dinis não lembra ao diabo, mas lembrou ao A. Ferreira. Meu amigo, eu nem o conheço, mas deixe-me que lhe diga que depois de ter lido pela primeira vez o seu blogue, passei a ser leitor frequente. Você está no bpm cminho e escreve muito bem. Tem de continuar. Obrigado