sexta-feira, junho 09, 2006







Noivado de sepulcro...

Antunes Ferreira
Soares de Passos, autor do «Noivado do Sepulcro» escreveu na primeira estrofe do poema «Vai alta a lua! na mansão da morte; já meia-noite com vagar soou; que paz tranquila; dos vaivéns da sorte só tem descanso quem ali baixou.» E, logo a seguir: «Que paz tranquila!... mas eis longe, ao longe; funérea campa com fragor rangeu; branco fantasma semelhante a um monge; d'entre os sepulcros a cabeça ergueu.»

O poeta portuense, falecido aos 33 anos, vítima da tuberculose, é considerado o expoente do ultra-romantismo português. Não sou muito dado a tais trechos, mas tenho de reconhecer que esta poesia mórbida se tornou célebre na época. Era recitada em reuniões sociais e sociais. E, até depois de musicada, era cantada nos serões literários ou pseudo.

Não ando longe da verdade, creio, ao escrever, como agora o faço, que nos dias de hoje o «Noivado do Sepulcro» motiva na maior parte dos que o lêem um sentimento de comiseração e afirmações irónicas, bem ao contrário da apreciação que lhe dispensavam muitos portugueses nos princípios do século XIX. As mentalidades eram outras, as modas também, nestas incluídas as literárias.

No entanto, os defensores do corte com um «romantismo piegas» ou seja os realistas, atiraram-se a ele como gato a bofes. Afirmavam que, embora revelando uma certa autenticidade, por vezes majestosa, o facto de se prender a preceitos de escola literária, recorrendo a banalidades e estereótipos, veio a fazer com que fosse caricaturado como o protótipo do poeta ultrapassado e cavernoso.

Soares de Passos e os neonazis

De tudo se podem tirar lições. Neste particular, diria que, nos dias que vão correndo, António Augusto Soares de Passos não entraria na manifestação neonazi que o senhor Mário Machado e seus pares tentaram colar à de membros das forças de segurança. O jovem poeta (1826 – 1860) era um idealista à boa maneira romântica. Os ditos neo nacionais socialistas cá do burgo são uns oportunistas e criminosos de direito comum, à boa maneira fascista.

A não ser assim, porque motivo a arma exibida? Porquê a ameaça de intervenção igualmente armada nas ruas? O prócere do «nacionalismo» bacoco foi motivo de cobertura televisiva desmesurada e desatinada. Foi-lhe concedido tempo de antena quase igual ao que é dado ao Presidente da República, ao primeiro-ministro, aos líderes sindicais, para já não falar dos ídolos do futebol ora em Marienfeld.

Em Democracia todos temos o direito de expressar o que pensamos. Isso é a liberdade de expressão. Que o senhor Machado entenda que não existe em Portugal e sim na Alemanha, é lá com ele. Por isso ali vai para participar numa manifestação de cabeças rapadas e outros afins e similares rotulados de «nacionalistas.»

Mas, dando de barato que não temos em Portugal liberdade de expressão, como justificar então, os minutos concedidos a M.M. nos ecrãs televisivos? Quer isto dizer que a alegada inexistência não é mais do que o fruto de uma esquizofrenia exibicionista? Pois se as transmissões que entram nas nossas casas o fazem – é porque ninguém as proíbe de o fazer. Monsieur de La Palice não diria melhor.

E a detenção do coitadinho Mário M.? A gente com dois dedos de testa compreendeu-a. O anúncio público de que eles interviriam armados nas ruas portuguesas é, ele sim, um atentado à Liberdade. E não venha o careca de escanhoado dizer que isso só se verificará se se tornar necessário. Lembrou-me de jacto a Nacht der Langen Messer (Noite das Facas Longas) e tudo aquilo que se lhe seguiu. Hitler sabia-a toda.

E o gajo a dá-las...

Descortino quem inquira (e com alguma razão, convenhamos) «o que é que o gajo quer dizer? Onde quererá chegar?» Misturar Soares de Passos com o famigerado PNR - só de um visionário-mentecapto como este Antunes Ferreira. Têm os leitores todo o direito de assim pensar. Mas, se mo for permitido, adianto umas palavras de explicação. De justificação – nada.

Esta tentativa ignóbil de colagem aos elementos da PSP e da GNR que se manifestavam é bem demonstrativa do quilate dos novos nazis portugueses. Antes do mais: quem são eles? Que e quem representam? Quantos são os seus militantes? E os seus apoiantes? Depois, bem, depois, haverá de saber porque motivo advogam a intervenção armada nas ruas. E, finalmente, se as forças de segurança não prestam – porque tentaram o matrimónio espúrio com elas?

A abstrusa «justificação» por eles dada prende-se com a estranha constatação de que as forças de segurança não estão a fazer aquilo para que foram concebidas, criadas e no que estão empenhadas. Se, a continuar assim, elas não fizerem nada para garantir o sossego e a segurança dos cidadãos, então, avançam eles, de armas em punho.

Estamos aqui perante uma esconsa e canhestra tentativa da quadratura do círculo (que me perdoe o meu querido Amigo Carlos Andrade...), ou seja, conciliar o inconciliável, misturar o imiscível. Serão, assim, neo alquimistas que avançam para o shake da água com o azeite. Já se têm visto coisas aparentemente mais complicadas? Apontem uma, só uma, e reduzir-me-ei ao silêncio encavacado.

Seria, assim, um conúbio que poderia levar às piores consequências. A tomada do Palácio de Inverno deveu-se mais à desorientação e indisciplina que alastrara nas forças detentoras de armas na Rússia czarista, dominadas pelos sovietes militares, do que aos apelos de Vladimir Ilyich Ulianov, que ficou na História com o nome de Lenine.

Não me proponho porem, aqui comentar as movimentações e exigências das forças de segurança portuguesas. Noutro momento penso fazê-lo, mas nesta ocasião, não. Os elementos que as integram têm agido dentro da mais estrita legalidade democrática, há que dizê-lo. Mas, neste caso, o que colhe é a espertalhonice extremista.

Se algo viesse a ocorrer, o que seguramente não acontecerá, um tal «noivado» seria, sem dúvida «de sepulcro...» Donde, a ponte que construí a este respeito, salvaguardadas as devidas distâncias – e circunstâncias. Fosse o escriba até ao extremo do cotejo, e concluiria como Soares de Passos: «Porém mais tarde, quando foi volvido; das sepulturas o gelado pó; dois esqueletos, um ao outro unido; Foram achados num sepulcro só.» Longe vá o agoiro.

2 comentários:

Artur Menezes, Bairro das Colónias disse...

Grande crónica!

V. Pinto, Sintra disse...

Só realmente um esquisofrénico como o senhor Ferreira podia escrever uma coisa assim! Vou deixar de vir a este blogue. Enjoa-me! Um dia destes ainda vomitava. Bye bye senor Antunes