quinta-feira, junho 01, 2006

Nuno de Siqueiros - Democracia


A Democracia e os cristãos novos

Antunes Ferreira

Meus Amigos. Dirijo-me a vós que felizmente sois muitos. Mas endereço também este escrito aos que, embora não me conheçam, têm deixado neste blog comentários os mais diversos. Nestas coisas, estou como o barão Pierre de Coubertin em relação aos Jogos Olímpicos que ressuscitara: «O importante não é ganhar; o importante é participar». Máxima que, a ser cumprida, preveniria muitos aborrecimentos, muitos alecrins e manjeronas, muitas invejas, muitas mortes, muitas destruições – muitas guerras, enfim. Aplicável, por conseguinte a toda a vida, com mais ou menos fair play.

A prática democrática implica incontornavelmente que quem a exercita seja... democrata. No bom sentido da palavra? Como assim? A Democracia existe ou não existe; vive-se ou rejeita-se; pratica-se ou proíbe-se. E não tem nada a ver com a cor política. Há Democracia quando não há ditadura e pronto. Por conseguinte, o sentido é só um. No trânsito diz-se único.

Um Homem chamado Winston Churchill afirmou lapidarmente a este propósito que a pior das democracias era sempre melhor do que a melhor das ditaduras. Dando de barato que há ditaduras melhores e piores – do que não acredito e, por isso, rejeito o que se diga a tal propósito – é necessária explicação para que uma ditadura seja... menos má. Mas nem assim eu embarco.

A frase do Velho Leão é, porem, uma profissão de fé na Democracia. E por essa razão gosto dela e por isso aqui a transcrevo. Digo-vos, en passand, que tenho Amigos em todo o espectro democrático. A Amizade transcende, para mim, as diferenças partidárias e está gigantescamente acima da partidarite.

Assino, não assassino

D
esde que me conheço a pensar, tem sido esse o lema pelo qual me norteio. E, habituado que estou a escrever textos opinativos, crónicas e outras estórias, sempre os assino. Não os assassino nem pretendo assassinar os que se dão ao trabalho de me lerem – o que sempre agradeço. Quando comigo concordam, mas principalmente quando discordam.

Já quanto a insultos – sou mais bolos. Registo-os naturalmente, como naturalmente os acolho. Com engulhos é certo, mas quem anda à chuva molha-se, mesmo que munido de chapéu-de-chuva abundante e com gabardina teoricamente impermeável. Sempre há uns milímetros quadrados de um sujeito que recebem uns pingos, ainda que a queda pluviométrica seja de molha-tolos. Em Angola usa-se cacimbo.

Quando referi assino é porque o faço com o meu nome. Não uso pseudónimos, porque não gosto. Mas é óbvio que os entendo, aceito e reconheço. Muito menos me refugio no anonimato cobardolas. Há quem o faça. Há até quem escreva algo e assine com um nome falso, tanto ou mais do que o gajo dos trinta dinheiros. Ressalvo que também não me refiro aos heterónimos, como é evidente. Acredito que não sou totalmente burro nem absolutamente inculto. Presunção e água benta...

Os nomes falsos são outra forma de se esconder quem os utiliza. São estes a que chamo cristãos novos. Com alheiras ou sem. Serão indício de medo? Quem sabe. São, no mínimo, vãos de escada esconsos, são comida envenenada, são atentados tenebrosos ao direito ao bom-nome – o verdadeiro. Desvios de personalidade? Serão? São, disso tenho a certeza, traiçoeiros e conspurcados. São uma merda, enfim.

Nomes falsos

O
ra bem; a prática da Democracia e a vivência da Liberdade são valores imprescindíveis, no meu modesto entender, para que o homem seja... o ser humano. Pleonasmo ou não, assim é que é. Volto, porem, ao início deste escrito. Para vos dizer que aqueles que afirmam que não se deve confundir Liberdade com libertinagem, normalmente estão a apresentar um álibi para a ausência da primeira. Ainda que o significado de ambas o permita.

De igual modo, falar-se em democracia musculada é um arroto de quem sabe que isso não existe. Usar o músculo em lugar da razão é sinónimo de ditadura, (por mais que se alegue ou auto classifique democrata). A que esses mesmos qualificam de mitigada. Não haverá PIDE, passa a haver DGS. Não existirá Censura, transforma-se em leitura prévia. Muda-se para que tudo fique na mesma. Mitigada? Falsificada.

Por aqui me fico. Nestes andamentos é preciso encontrar a clave de sol para que o solfejo não se quebre. Duvidam? O solfejo é de cristal, toda a gente o sabe e alimenta-se do que lhe entoam, sob a égide do diapasão. Obra afinada quer-se, pois. Em pauta escorreita, alinhada, os colchetes onde têm de estar e as semifusas sem motivos para dúvidas – existenciais?

Estes discorrendos musicais têm a sua razão de ser. Uma orquestra tem de ser um todo, no qual os músicos, e em particular os solistas se conjugam com o maestro. O que só vem demonstrar à saciedade que o colectivo é importante, mas não dispensa o contributo individual. Assim é a Democracia, onde todos cabem, mas alguns sobressaem. Porque se distinguem face à sua qualidade. Se outro critério for utilizado, mal vai ela.

Escrevi atrás que por aqui me ficava. Não fiquei. Não fico. Este texto tem uma razão de ser, como, de resto, todos têm. Não fosse assim e de nada valeria emparelhar palavras ou mesmo conceitos com a finalidade de demonstrar que isso ainda é possível, antes que o deixe de ser. Por isso, não me fiquei, nem fico, nem ficarei.

Correndo, embora, o risco do bocejo dos que me aturam, quero deixar aqui bem expresso que não é com ameaças estultas ou insinuações maldosas, ou acusações desrazoadas que quem quer que seja me tentará intimidar. Um gajo é um gajo e um gato é um bicho. Se não gostarem da afirmação, têm recursos diversos. Quando eu era puto, dizia-se que nesse caso de não se gostar, punha-se na beirinha do prato. Caso o poder paternal estivesse distraído.

2 comentários:

joliva_santos disse...

Pois é! Este é um grande post. Direi (antes) um grande texto. Para que não fiquem dúvidas... assino
João Oliveira Santos, um seu Amigo.

Maria Clara Pinto Covilhã disse...

Há muito tempo que não lia uma coisa assim. Oportuna, clara, incisiva - e muito bem escrita. O Antunes Ferreira tem que se lhe diga. E tem estilo próprio o que é cada vez mais difícil de encontrar.

Ó Antunes Ferreira: era altura de entrar pelo campo da ficção, pois a arte de escrever, que nasce com certas pessoas, é um dom que tem de ficar registado nas páginas de uma obra literária. Vá lá, não se meta a tímido e não se finja envergonhado. Toca a escrever.

Um beijo de carinho, muitos parabens e o meu muito obrigado