segunda-feira, junho 19, 2006






O 10 de Junho
ou dez réis
de mel coado?


Antunes Ferreira
Escreve-me o José Fernão Martins Mentes? Minto! Da Tailândia, pois de onde é que havia de ser. Em Banguecoque, dita a cidade dos anjos (da noite?) o Zé Gomes é o absoluto oposto do Buda deitado do templo de Wat Pho; enquanto este, gigante estendido, não mexe nem o dedo mindinho do pé direito, o portuga mais tahi que conheço é, todo ele, a actividade mais frenética.

Especialista no mercado nocturno da capital tailandesa, onde tudo se vende e tudo se compra, desde os Rolex autenticíssimos até às massagistas mais consumadas e menos espartilhadas (na prática sexual), ele é o guia ideal para todos os tipos de transacções que ali se podem efectuar. De tal forma que o gajo parece ter nascido como os cogumelos, na rua Khao San do bairro de Banglamphu. Foi ele que me introduziu nos mistérios desse dédalo de ruelas apinhadas de bancas de comerciantes. Obrigadinho, ó Mestre.

Pois o senhor em causa – com o qual mantenho e com muito gosto uma excelente e proveitosa (para mim) correspondência – manda-me pelo correio electrónico uma pergunta. E o 10 de Junho? Pondo de parte qualquer intenção provocatória do excelso Martins Minto, que por terras do rei Bhumibol Adulyadej, o governante mais longevo da Ásia e do Mundo, vou tentar satisfazer o desejo expresso.

Sou do tempo em que o 10 de Junho era apenas o Dia da Raça. Em que os discursos oficiais enalteciam as glórias do passado, o patriotismo, o pluricontinentalismo, e o multirracismo, enfim, o ecumenismo dos descendentes da raça lusitana. O desfile da Mocidade Portuguesa, desde o Marquês do Pombal até aos Restauradores era, então, o ponto mais alto das comemorações.

No decurso da aventura espúria que foi a guerra colonial, o Dia de Portugal transformou-se em homenagem pública aos soldados portugueses. Uma enorme cerimónia, habitualmente no Terreiro do Paço, englobava representações dos três ramos das Forças Armadas em formatura de honra a que se seguia a entrega pelos dignitários do Poder corporativo das mais altas condecorações, muitas delas a título póstumo.

Porquê aquele senhor?

Hoje, no Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas – após o 25 de Abril da Liberdade e da Democracia – as comemorações têm componentes mais diversificados, sendo que nelas avultam a entrega de galardões a individualidades consideradas importantes da vida nacional. Elas são escolhidas pelo Presidente da República que, naturalmente, preside às cerimónias.

Desde que assim acontece, instalou-se neste Portugal da má língua uma polémica que ameaça eternizar-se. E que muito simplesmente se sintetiza no porquê aquele senhor? E não se pergunta e porque não eu? – por razão do parecer bem que se enroupa no politicamente correcto. Na mesquinhez das pequenas invejas portugas a questão sobreleva as próprias medalhas e faixas das comendas.

Pessoalmente, já não tenho paciência para estas miserabilistas guerras do alecrim e da manjerona. Um País a sério não pode dar-se a tais frioleiras. Talvez o problema resida principalmente aqui: será Portugal um país a sério? A pergunta, ainda que incómoda e inconveniente, chamem-lhe o que lhe quiserem chamar, não é despicienda. Bem pelo contrário.

Com a chegada a Belém do Professor Cavaco Silva e já nas vésperas do 10 de Junho deste ano, começaram as hostilidadezinhas do costume. Se fosse o Dr. Sampaio, os agraciados seriam os mesmos? Haveria mais – ou haveria menos? E de que cor predominante? Os laranjas nas mais diversas cambiantes predominariam agora?

Recuando um tanto no tempo: e se se tratasse do Dr. Mário Soares? E do General Ramalho Eanes? E do Marechal Costa Gomes? E do general António de Spínola? As comadres politiqueiras deste burgo/aldeia esfregaram as mãos, de contentes. Quanto mais se voltasse ao passado, melhor era para se fazerem essas comparações atípicas e infelizes. Nos media e no meio do Povo.

Labirinto e caldo de cultura

A
confusão é sempre um excelente caldo de cultura. Diria mesmo, o caldo por excelência. Quanto mais se confundirem as pessoas, as organizações, as instituições, mais labirínticas se tornam as situações. Ora, como se sabe, um labirinto é constituído por um conjunto de percursos intrincados criados com a intenção de desorientar quem os percorre. Quanto mais difícil seja a solução para a amálgama de corredores, mais difícil é a saída. Em política isto é, igualmente (eu diria principalmente) uma prova imbricada.

Na mitologia grega, o labirinto de Creta teria sido construído por Dédalo (arquitecto cujo nome tornou-se, depois, também sinónimo de labirinto) para alojar o Minotauro, monstro metade homem, metade touro, a quem eram oferecidos regularmente jovens que devorava. Segundo a lenda, Teseu conseguiu derrotá-lo e encontrar o caminho de volta do labirinto graças ao fio de um novelo, dado por Ariadne, que foi desenrolando ao longo do percurso.

Agora, não parece haver barbante que nos valha. Ninguém quer abdicar da prática da canalhice miudinha para tornar o imbróglio cada vez mais contundente. Somos pequeninos nas actuações, somos diminutos na corrupção, até somos enfezados nas mais banais conspirações de trazer por casa.

Na época dos Descobrimentos – que hoje nos servem para nos engalanarmos e mastigar o saudosismo infinitesimal que outrossim nos caracteriza – obtivemos poder e proventos para dar e vender. Deveriam ter sido, antes, para aforrar, e por isso mesmo, para aferrolhar. Nada. Ao contrário de muitos que construíram os seus impérios e deixaram obras faraónicas para a posteridade, nós demo-nos ao luxo de numa ou duas gerações delapidar o ouro, as especiarias, a prata, as madeiras exóticas. Só ficaram os escravos.

Em Górdio o famoso Alexandre corta com a sua espada o famoso nó que assim passa a chamar-se também górdio, cumprindo o oráculo que prometia o Império da Ásia àquele que tal feito cometesse. Quem será capaz de o fazer nos dias que vão correndo? E quanto ao 10 de Junho, estamos conversados por agora. Porque a continuar teria de considerar que não há ponto... sem nó.

2 comentários:

Zé Pinto disse...

Mestre,
Estou-lhe imensamente grato pelos elogios. Entretanto há umas rectificações que terei de colocar em "pratos limpos". Já há uns oito anos que deixei de frequentar as "belas" noites de Banguecoque! A idade meu velho amigo não perdoa! Mas que saudades eu tenho da Paptong; do Bar da Cleópatra (do meu velho amigo Vinai) onde, no tablado as meninas dançavam e a "malta bebia" umas cervejolas, com uma Cleópatra ao colo a fazer-me excitar a "tola". Mas hoje a Paptong já nada é daquilo que foi, nos meus tempos de "criança" de folias e alegrias na "Cidade dos Anjos". Juro a pés juntos que nunca me meti em negócios de "Rolexes" faz de conta. Mas conto que há uns 9 anos (mais ou menos), um meu amigo que veio aqui a Banguecoque, engraçou com aquelas cebolas (analisem quem ler este comentário....)e pretendeu algumas para oferecer aos filhos! E agora vejam o amor de um pai aos filhos... para os brindar com tão "reles" relojoaria! Repito o que acima afirmei. Não faço negócio de ´"Rolexes" falsos... e juro que não fiz com aquele pai que me pediu falsa mercadoria para regalar os filhos... O certo foi (como bate certinho um "Rolex" verdadeiro), mercanciei os "Rolexes" por umas postas de bacalhau de excelente paladar!
Abraço

Antunes Ferreira disse...

Ó Minto: Mentes!
Ninguém, muito menos eu, seria capaz de lançar uma tal atoarda a respeito dos Rolexes GTX. O Zé G. Mart. foi, é e será impotente. Para tais negócios, tá visto.

Já o caso do amantíssimo Pai e sua descendência fia mais fino. Confesso humildemente: não sei de quem (ou quens)se trata. Juro mesmo plo sangui di Kristu. As tentações rolexeiras e outras relojoeiras são o dianho em figura de gente. Abrenúncio, t'arrenego, Satanás!!!!!!!!!

De qualquer forma, mantenho no essencial o que escrevi. O sôr Gomes é único, inconfundível e imiscível. É o verdadeiro portuga hodierno de Banguecoque. Se vivesse há uns anitos mais... tinha fundado Ayhutaia. E muito bem, obrigado.

Ó Zé Fernão Martins: venham de lá esses ossos. Esqueletos como o seu já não se fabricam. Nem se compram, nem se vendem. Tal como acontece com o meu querido Amigo. Caté.