quinta-feira, junho 22, 2006





Latifundiário da prancheta

Antunes Ferreira
Ontem, à volta dum balchão de peixe, de um chili fried de camarão, do dito crustáceo frito e recheado, tudo acompanhado de montanhas de arroz branco e antecedido por uns bojés com chutny de coentros, chamussas e baji puri - gula goesa - saiu-me uma graçola que foi aceitável e simpatimente recebida pela confraria culinária e aplaudida com entusiasmo acompanhado de gargalhada, pelo Sá Borges. Soltou-se-me a língua e, num arroto de repentismo, afirmei que um engenheiro era um latifundiário da prancheta...

O Sá Borges é um compincha dos almoços/tertúlias das quintas-feiras no Sabores de Goa, restaurante exemplar do Peter/Pedro. Tem uma singular condição em tais ágapes. Já de seguida a explico. Para tal terei de fazer uma comparação em ado comigo. Tudo bem. Eu sou um cooptado; ele é um convidado; eu sou um adoptado; ele é um adaptado; eu sou um caçado; ele é um integrado. Temos, apenas, uma coisa que nos iguala: somos ambos paclós. Além disso, outras nos unem: por exemplo, o vinho branco, bem frio, o prazer da mesa, o sarapatel e o espírito gozão.

Estou a ver Vocelências inquirindo, e bem, – que raio é isso de paclós? Volto a elucidar. Fala-se em Goa uma caterva de línguas: o hindi, naturalmente; o inglês, obviamente; o português, saudosamente; o guzerate esporadicamente e o concani evidentemente. Neste idioma um tanto mestiçado, pacló quer dizer homem branco, estrangeiro, cara pálida, em última análise, portuga.

Nunca me deveria ter metido em tais cavalarias; são muitíssimo altas. Nem sei bem se enfio o pé numa argola – que para o caso seria de presidiário por iconoclastia pura, que é uma forma politicamente correcta de dizer burrice alvar. Na mão esquerda tenho outra. Melhor dizendo, outras, mais precisamente duas.Uma é o atestado da graça que por aí grassa: o meu casório. Trata-se, portanto, da aliança que atesta o enlace com a Dona Raquel Olívia Alcântara de Melo, com Ferreira acrescentado, goesa da mais pura cepa, em ouro (o anel, está bem de ver); a outra é também uma aliança, desta feita – feita de prata. Estou, por conseguinte, feito.

O homem-pedestre

Pois o supracitado Sá Borges é um tipo castiço que, faça sol ou faça chuva, avança denodadamente para a Rua do Zaire, ali ao Bairro das Colónias - mesmo depois de ter caído o Acto Colonial que, aliás, os goeses abominam por lhes ter sido aplicado, e ter acontecido a descolonização. A pé, meus Amigos, a pé, em passada larga e cadenciada. É um pedestre convicto e militante. Dizia-me ontem, o engenheiro (já me esquecia de vos dizer, mas ele é, com diploma e tudo) que para se chegar ao paraíso do palato, tinha de se sofrer. Bendito sofrimento esse, a caminho de repasto - bendito. Bem dito.

É ele o inventor de uma expressão que já nestas colunas usei, ainda que sem mencionar o copyright a que tem direito: uma gabardina com ar condicionado. Boa! Sabem os leitores do que se trata? Daqueles preservativos de plástico, abertos dos dois lados (não se assustem, não há perigo, é mesmo assim, de fabrico) que, convenientemente retirados do congelador se enfiam nas garrafas de branco, para que a vinhaça não aqueça, do calor.

Antes que se faça tarde e sabendo o que se passa à nossa volta, espero ir, tão brevemente quanto possível, registar o meu latifundiário da prancheta numa repartição qualquer de patentes, que passe documento comprovativo com selo branco e assinatura reconhecida. Não quero que me aconteça o que se verificou ao engenheiro em causa. Por causa de ele não o ter feito, roubei-lhe o excelente exemplo da criatividade linguística que é seu, dele, apanágio.

Não sei bem – e por agora – se receberei direitos de autor. O engenhocas é que não os recebeu. E, citando uma vez mais a sabedoria popular – gato escaldado da água fria tem medo. Olarila.

1 comentário:

Francisco S. Parreira, Massamá disse...

Sou engenheiro de longa data e conheço o nome do meu colega Sá Borges. Não o conheço pessoalmente, porem.
Mas este texto de Antunes Ferreira, para alem de ser um belo naco de prosa, com a ironia que o autor uttiliza com mestria, traz-me à ideia o nosso «velho» IST e o que lá passei durante os anos do meu curso.
Era uma altura em que as «brincadeiras» entre colegas eram o nosso melhor escape para as dificuldades que havia.
Artigos destes fazem-nos bem, quanto mais não seja à memória e à disposição. Continue, Antunes Ferreira. Os cães ladram e a caravana passa.