

Os caminhos da Ásia
Antunes Ferreira
O número 78, de Janeiro/Março do ano XX dos Cadernos de Economia tem por título Os Caminhos da Ásia. Saltaram-me os olhos para a obra, ainda que a Economia não seja propriamente a minha especialidade. Comecei por deitar-lhe uma vista de olhos descomprometida. Como sempre, o grafismo era um primor, atractivo, participante, como mandam as regras.
É conhecida a minha apetência pelos temas asiáticos. Talvez por ter uma mulher goesa, talvez por me sentir bem na Índia e na China, talvez por isso tudo. Talvez, quem sabe, por ser Português. Os nossos avoengos, como é sabido, foram os primeiros europeus a chegar à Índia, à China, ao Japão, por mar. E a outras partes do mundo asiático.
Portugal goza, ainda hoje, de um privilégio neste particular. Pude comprová-lo pessoalmente, em Goa, Damão e Diu, mas também em Cochim e Calecute, no antigo Ceilão, hoje Sri Lanka, na Malásia e em particular em Malaca, bna Tailândia, na Coreia do Sul, e fico-me por aqui. Deambulando por tais paragens, foi-me possível testemunhar o apreço de muita gente pelo nosso País.
No aeroporto de Kuala Lumpur
Um só exemplo. No aeroporto de Kuala Lumpur, saídos da primeira classe de um jumbo da Lufthansa, eis-nos na cabeça de uma longa fila de espera. Eram apenas duas, concorrentes, uma tentando ser maior do que a outra. Minha mulher e eu estávamos, como disse, No primeiro lugar. Mostrámos os passaportes. O funcionário, apenas os olhou, pediu-nos para esperar um momento, volto já, e foi ao escritório nas traseiras do balcão de atendimento.
Veio acompanhado de um Senhor moreno, em camisa branca, com galões carregados de fitas doiradas. São Portugueses? Assentimos. O meu Pai e a minha Mãe também. (E eu sou... meio). São de Margão. E a Raquel entusiasmada, eu sou da Raia. E ele, concelho de Salcete. São mesmo de lá. Chamo-me Mascarenhas, com h, porque aqui usam dizer que sou Mascarenas. Gargalhámos.
Voltando-se para os restantes passageiros que integravam a nossa fila, disse-lhes que fizessem o favor de passar para a outra, porque tinha de falar em especial connosco. Uns quantos protestos, algumas dúvidas, que teriam feito aqueles gajos, mas o ensonado da hora aconselhava temperança e paciência e assim aconteceu.
Foram duas horas de conversa, numa mistura de inglês, português mascavado e concani. Que terminou com a combinação de, no dia seguinte, irmos jantar a sua casa, o que aconteceria. Com o carro do Ministério dos Negócios Estrangeiros à nossa espera, pois dois elementos daqueles serviços tinham-nos ido receber à aerogare. Eu ia entrevistar o primeiro-ministro malaio…
Podíamos ter nas nossas malas quilos de coca, de haxe, de oiro, de diamantes que tudo passaria sem um ai, pois o Senhor Director dera, entretanto, uma ordem rápida e seca a um subordinado que, obediente, riscou a giz o passe liberatório da bagagem. Não tínhamos. Mas poderia ter começado aí uma promissora carreira de traficante autorizado…
Que equipa de colaboradores!
Peço mil desculpas, mas despistei-me. Volto aos Cadernos de Economia. Como é habitual, o Ramos Gomes alambazou-se com uma equipa de colaboradores de se lhe tirar o chapéu. Longe de mim ser exaustivo. Aleatoriamente: Murteira Nabo, Carlos Monjardino, Basílio Horta, Paulo Teixeira Pinto, Mira Amaral e muitos outros, terminando com as duas páginas assinadas pelo Nicolau Santos.

De tudo um pouco. Do crescimento impressionante destes dois gigantes da globalização. Do desenvolvimento das relações económicas com as duas potências. Do papel de Portugal. De Bangalore, a «Silicon Valley» indiana, com um pool de talento de mais de 150 mil engenheiros de software. Do desafio da tecnologia portuguesa. A terminar A Miragem Asiática de um outro bom Amigo, o competentíssimo Nicolau Santos.

Nicolau mete ombros a uma tarefa difícil. Tenta desmistificar o que por aí vai correndo sobre Portugal poder ser o interlocutor privilegiado da Índia e da China, em alguns mercados, nomeadamente o de Angola. É uma análise um tanto amarga – mas… realista. Transcrevo: «A ausência de, já não digo negócios concretos mas ao menos de intenções dos ditos, evidencia (…) que somos um animal demasiado pequeno para fazer parcerias com os grandes conglomerados chineses e indianos».
E, a terminar: «Claro que não se deve ignorar a China e a Índia. Mas é bom ter presente: 1) que elas não precisam de nós para nada; 2) não pensam em nós com parceiro para algum objectivo ou como local privilegiado na Europa para investir; 3) e nós temos outras apostas bem mais importantes, como os mercados dos Estados Unidos ou Angola».
De qualquer forma, os Cadernos de Economia dedicados à Índia e à China têm forçosamente de ser lidos – e com muita atenção. Convém que nós, Portugueses, estejamos informados sobre estes assuntos. A informação e a sociedade que lhe corresponde são cada vez mais sinónimos de poder. Não foi por acaso que Marshall McLuhan (1911-1981), o Papa da Informação deu à sua obra mais conhecida o título de «A aldeia global».
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Ramos Gomes
António Ramos Gomes é o exemplo acabado do Jornalista que é também empresário. Conhecemo-nos em Angola e desde logo ficámos amigos. O que se prolongaria até hoje, para meu contentamento e felicidade e creio que também para ti, António. Os seus Cadernos de Economia vão no ano XX, ou seja sendo já uma publicação de referência, também ultrapassaram a linha da maioridade. Para quem anda em tais lides – são incontornáveis. Até mesmo, imprescindíveis.

Trabalhámos bastas vezes juntos. Sei da fibra do Ramos Gomes. Sei da aventura a princípio um tanto quixotesca que são os Cadernos. Cadernos que começaram a marcar, e hoje definitivamente marcam a nossa Economia. Um Director altamente prestigiado como é Mário Murteira sai para a rua acompanhado sempre de nomes sonantes no domínio.
Não quero deixar de terminar este breve apontamento com uma menção que dá bem a noção do prestígio dos trimestrais. Estávamos em 1995 e eu era o ajunto e assessor do malogrado António de Sousa Franco, naturalmente para a Comunicação Social. Momentos complicados, para não dizer mesmo difíceis, com um governante – e não atraiçoo aqui a sua memória – que não ia muito à bola (releve-se-me a expressão) com os órgãos da mesmo CS.
Por alturas de mais uma crise com a gente da Informação, o ministro das Finanças deu-me a indicação de que, nesses momentos, não queria prestar quaisquer declarações nem dar explicações, nada. Com a franqueza de uma Amizade que vinha do primeiro ano do Liceu Camões e se prolongara até à Faculdade de Direito de Lisboa, aconselhei-o a não proceder assim. Debalde.
O António Ramos Gomes surge-me, nessa precisa altura a pedir-me para apresentar junto do meu Amigo António Luciano a sua solicitação para um texto dele a publicar nos Cadernos. Com a paciência também em baixo respondi-lhe que nem pensasse nisso. Retorquiu-me que, ao menos, eu podia tentar.
Ficaria de mal comigo próprio se não o fizesse, arrostando embora com a cólera do ministro que, mesmo entre amigos – que éramos sem qualquer espécie de dúvidas – quando se aborrecia não era fácil. Assim, um tanto de pé atrás, horas depois da advertência que ele me fizera, disse a Sousa Franco o que se passava.
Espanto dos espantos. Em vez do desaguisado previsto, saiu, tão-só uma pergunta: «Para quando é que o Ramos Gomes quer isso?». Pasmei, mas andei em frente: «Para daqui a três semanas, ainda que, se fosse antes…». «Diz-lhe que no final da próxima semana terá alguma coisa». E acrescentou «ele merece-o. É um tipo decente, trabalhador, empreendedor e honesto. E bom profissional».
Tudo dito. António: um grande abraço e é com muito prazer que aqui faço o registo do último Cadernos de Economia. Boa sorte Amigo e felicidades para a tua obra. Bem a mereces. A.F.
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