terça-feira, setembro 23, 2008



NA ROTA DO CALENDÁRIO


Setembro, se bem me lembro...

Maria Lúcia Garcia Marques
...era
o tempo doce das compotas. De figo, de abóbora com amêndoa, de tomate com pau de canela, cravo-de-cabecinha e um toque de hortelã... E da marmelada e sua “filha” geleia. Feitas em casa. Naquela espécie de cerimónia alquímica em que se reuniam as mulheres da família, oficiando na cozinha quase conventual, em pacientes e ritualizados gestos e tarefas, que se sucediam ordenadamente como passos de uma dulcificada via-sacra...




Aos meus olhos meninos, obrigada que estava a uma distância cautelosa, por força do calor dos fogões (ainda a lenha) e das caldas ferventes que se transmutavam em lavas olorosas, os utensílios manipulados afiguravam-se-me mágicos e seculares, saídos das páginas dos velhos contos de feitiços e mezinhas milagrosas. Eram os tachos de cobre, os passadores de rede, as colheres de pau, os raladores de cascas e frutos secos e, na sua domesticada agressividade, as facas e os garfos. Meus olhos espantados, ao nível do tampo da mesa enorme, folheado a zinco, comungavam desta celebração, um pouco como a descreve Fiama Hasse Pais Brandão na sua auto-biografia “Sob o Olhar de Medeia”:



Os marmelos provocavam uma das raras celebrações caseiras que Marta amava, porque reunia a mãe, a criada antiga e ela, em torno da peneira e da calda de marmelo. (...) A mãe e a criada, numa manhã de Setembro, preparavam os dois grandes alguidares que colocavam sobre dois bancos. Enquanto a criada descascava os frutos e tirava as pevides, que dariam a geleia, a mãe fazia uma calda espessa de açúcar, à qual se juntaria a polpa das gamboas, cozida e passada pela peneira de crina. Marta prezava esses objectos antigos, com muitos séculos de uso: um aro de madeira afeiçoada, um tecido entrecruzado de fios de crinas, séculos e séculos, em que os homens haviam repousado nas suas tarefas, pedindo o constante auxílio das plantas e animais. (...) Aquele objecto caseiro e de celebração – a peneira de crina – acompanhou gerações e ainda hoje suscita o desejo de uso, o mais belo desejo em relação a uma coisa.



Marta ampara a peneira, enquanto a Maria trabalha. Maria com a palma da mão, tão lisa como a madeira do aro, esmagava os quartos cozidos da fruta com uma cadência singular: dois tempos breves e um longo, seguidos de pausa, e balançava os ombros como se dançasse. Dançava, deveras, recordou Marta: com o tronco flectido, os braços dobrados em dois ângulos diferentes, as mãos regulavam o compasso, e mesmo os pés executavam passos mínimos alternados... Marta amparava a peneira lateralmente, fascinada por poder participar nessa celebração
.


E depois, em minha casa, era a fascinação de ver encher as tigelas de faiança antiga com a pasta finíssima da marmelada que logo adquiria uma nata vidrada que apetecia tocar com um dedo guloso e ladrão...


E mais tarde, eram os boiões da geleia, que, alinhados a contraluz sobre a mesa pareciam gigantescas pedras preciosas, brilhando na transparência das suas colorações afogueadas, entre o oiro velho, o ruivo e a cor de vinho (consoante o ponto do açúcar e a maturação dos frutos).
Era o fascínio total: com solenidade, inspirava profundamente aquele odor acre que me entontecia um pouco mas me investia naquela atmosfera de ancestral domesticidade e feminino magistério.


E é ainda esse perfume que me traz à memória a breve cena que hoje relembro religiosamente e marcou a minha infância. Foi quando a Carlota (a nossa Maria daquela época) passando um olhar pela mesa da cozinha onde se alinhavam as tigelas e os boiões brilhando na luz oblíqua do fim da tarde, comentou para a mãe, entre cansada e aliviada:
- Bendito seja Deus, mãe, que este ano saiu-nos tudo bem...
- Bendito seja, filha!


E, curvando-se para mim, que ferrada ao bordo da mesa me maravilhava, perguntou:
- E a menina, sabe dizer o “Bendito”?


O que quer que isso fosse, eu não sabia. Então ela, pausada e maternal, foi recitando para mim os versículos da sua grata crença que mais tarde recuperei e guardei para as coisas boas da vida:





Bendita seja a luz do dia
Bendito seja Quem a cria e deu à noite o seu luar
Bendito pelas ondas do mar e pela terra do chão
Bendito pelo trigo do pão e pelo vinho da uva
Bendito pelo sol e pela chuva
Pela água da fonte e pela erva do monte
Bendito pela lã da ovelha
Pela lenha das brasas e pela telha das casas.
Bendito pelo fogo da luz seja o Senhor Jesus
Que está no altar da Igreja mesmo que a vista O não veja.
E a Virgem Santa Maria, sua Mãe e nossa guia
Seja bendita também.
Ela nos dê um bom dia
Nos assista e nos conforte
Nos dê graça e nos dê luz
Ora e sempre
Amen Jesus.

7 comentários:

Paola disse...

Viva! E viva muito bem que isto não está para perder pitada...

Obrigada, Henrique por me ter recordado o doce de tomate que a minha mãe fazia. Era cá um ritual! E a coisa fica divinal e ainda por cima durava até ao ano seguinte.. As coisas que ela sabia.

E fazia marmelada, pois então! Mas,como a idade avançando, só de vez em quando. Só porque odiava descascar os marmelos...

Beijinhos

Margarida Serôdio Martins disse...

Agora já sei que a Autora destes textos primorosos é Maria Lúcia Garcia Marques.

Por isso, o agradecimento feito pela Paola deverá ser endereçado à Senhora. Que bem o merece.

Mas o Henrique (é desse jeito?) Antunes Ferreira também merece ser parabenizado pelo blogue de tamanha qualidade e pela ótima colaboradora.

Beijão

Márcia Reboredo Du Maria disse...

Artigo excelente. Vai em frente Maria Lúcia. Me encanta com seu jeito de escrever. Muitíssimo bom.
Beijos amigos

Anónimo disse...

Muito obrigada pela minha parte. Gosto de partilhar as coisas boas e os bons autores da nossa língua portuguesa. Mas o Henrique também merece os louvores, porque, além de ser o "dono" de um blogue de muita qualidade, é ele que escolhe as ilustrações - e, neste caso, só faltou mesmo o cheiro e o saborzinho gostoso ...
Até para o mês que vem!
Maria Lúcia

vaandando disse...

Um prazer esta texto , e boa alusão e citação de FIAMA.....
Um poema lindo é aquela oração,
bendita....
Um ritual a que nunca assisti , esse e o da feitura de qualquer doce em qualquer época lá em casa
Hoje não me calava, mas à data da infância e adolescncia era um interdito .....
Li com muito agrado!
__________ JRMarto

Cristiana Fonseca disse...

Simplesmente bela postagem.
Adorei o texto e as imagens também
Abraços,
Cris

Cristiana Fonseca disse...

Postagem Deliciosa.
Desejo te Boas Festas.
Abraços,
Cris