terça-feira, julho 15, 2008


Ainda não sei bem no que isto dará

Uma barata morta

Antunes Ferreira

O trecho que se segue é o começo de qualquer coisa. Pensei num romance: é lixado. Tem de ser grandote. Romances pequenos, mas bons – só o Mário Zambujal vai parindo. Exemplo: o «Já não se escrevem cartas de amor». Um mimo. Mas, no caso vertente, a preguiça congénita que é a minha assusta-me. Nada, nada, que seja uma novela, muito mais curta, benza-a um deus qualquer.
O facto é que, sendo futuramente isto ou aquilo, até mesmo aqueloutro, é mesmo um início. Que, como é minha norma e prática, irá acontecendo ao sabor da maré em que me encontre, ou para o lado para que estou virado. Gente: Roma e Pavia não se fizeram num dia. Aliás, nem em muitos, de empreitada, ainda que com horas extraordinárias. Mesmo sem o novo Código do Trabalho.

Por isso, a «coisa» irá progredindo na inversa proporcional a uma poole de partida. Aí já os motores resfolegam e ainda a corrida nem começou. Vai arrancar, está visto, mas na altura, ainda é só fumaça, diria o almirante Pinheiro de Azevedo. Que isto de velocidades tem que se lhe diga. Não é que os Alentejanos sejam para aqui chamados, longe disso. A minha Mãe até era. Eu, por conseguinte, tenho uma costela. No mínimo.
Para não me deixar ficar nas boxes, irei publicando bocadinhos da papelada. Sem selo branco, está bem de ver. Tal servir-me-á para, herege praticante, não me meter em copas e deixar que as linhas se vão espalhando, cada vez mais ralas, com a gaveta tentadora (e sedutora) aqui mesmo ao lado. Não juro, pois quem mais jura, mais mente. Porém, o propósito fica exarado.
E lidas estas minhas declarações, as achei conformes, e, perante isso as vou assinar, como se diria nos autos da tropa. Com as testemunhas que são Vosselências, ainda que não as rubriquem, mas sem escrivão. Para tal ofício, já basta o que basta. Eu. Que pensava somente em apor o dedo por não saber escrever. No entanto, e infelizmente, parece que sei rabiscar umas coisas. Ite, missa est. Deo gratias.

«Está uma barata morta, de pernas para o ar, no canto esquerdo para quem entra da casa de banho. Há quatro dias, precisamente, se ele não se enganou na contagem. Sempre a mesma, gorda e negra, incorrupta. É por mor da quitina, que não a deixa apodrecer, pelo menos foi assim que aprendeu na escola primária e confirmou no liceu. Tem de dizer à empregada, quando ela vier daí a bocado, que a tem de apanhar.


Involuntariamente faz uma associação com a visita que o levara há quatro dias a Velha Goa. O corpo do Santo, agora transformado em pergaminho, múmia dentro da sua urna envidraçada, de moldura de prata trabalhada carregada de pedrarias, alegadamente preciosas, encontra-se na Basílica do Bom Jesus De dez em dez anos era exposto publicamente.

Anteontem, ele assistiu à última exposição. Que pode ter sido mesmo a última, pois corria que já não voltaria a ser aberto o caixão – podia esfarelar-se o que resta do corpo. Mas pode ser que seja outra a estória, que segue dentro de momentos, como acontecia na RTP da sua adolescência.
No presente momento dá por si a perguntar-se se o Padroeiro de Goa e dos Goeses terá alguma coisa a ver com a quitina. Nunca se sabe, que nisto de milagres há que ter muito cuidado, apurar a desconfiança, mas também reforçar a fé. Só assim se podem desvanecer as dúvidas como esta que se lhe imbricou no espírito a propósito da relíquia.

As exposições públicas dos restos encarquilhados e cobertos a papiro – ou seria couro? Ou mesmo, como de início lhe parecera, pergaminho, tal a cor que adquiriram - são um grande acontecimento para centenas de milhares de católicos de Goa e de toda a Índia, mas não só, porque são muitos os hindus que ali vão pedir a sua protecção. Essas festas enormes servem também de pretexto para os Goeses espalhados pelos quatro cantos do mundo se voltarem a encontrar com as suas raízes na terra natal.

Rogério da Silva Martins recolheu na basílica um folheto com a biografia do nado Francisco Javier. Viera à luz no dia 7 de Abril de 1506, no Castelo-Solar da família Aguarez y Javier o oitavo filho, a que foi dado o nome de Francisco. A sua família, rica de bens materiais, de títulos honoríficos e com elevada distinção, mantinha junto da população uma excelente reputação, graças à sua generosidade e amizade(...).

Naquele dia, o sol de açafrão penetrava suavemente o Índico. Por aqui não há pores de supetão, o ritmo é outro, mesmo nestas posses astro-oceânicas. Não há que ter pressas, de resto despropositadas. O amor deve ser lento, aquecido em lume brando, polvilhado de canela e temperado de gengibre e banhado em água de lanho, que é o coco jovem. E virgem, pronto para ser comido – e bebido (…)»

23 comentários:

.Carol Medeiros. disse...

Boa noite, e obrigado pela visita.

Confesso que vim com a maior intenção de ler tudo mas, a hora não ajuda muito - já estou com sono, e o post grande de mais me deu uma certe preguiça - o que normalmente não tenho, pelo menos pra ler.rs


Li o Cotovelo da Vóvó e adorei. :D
(Terça-feira, Julho 08, 2008)

Fragmentos de Elliana Alves disse...

parabéns muito bom o texto,blog maravilhoso,bjsssssss querido e bom dis!!!

a casa da mariquinhas disse...

Não vim para agradecer a sua visita, o que já fiz lá na minha "casa", mas para conhecer o seu blog.
Estava cheia de curiosidade, mas já vi que ISTO não dá para visitas rápidas...Uma coisa destas tem que ser vista com calma. Tem aqui "pano para mangas"!!!
Li o último post, apenas.
Tenho que voltar, pois que remédio!
Porque, como expliquei na minha resposta ao seu comentário, o tempo de verão, para mim, tem os dias muito curtos, apenas digo:
PARABÉNS!
Já está nos meus Favoritos, e darei conhecimento do blog aos meus contactos.
Beijinhos
Mariazita
PS - As minhas postagens são ao Domingo e Quinta feira

Anónima Salina disse...

Caro Chefe AF

Grande notícia! Os livros continuam a minha grande paixão. Tenho, como toda a população mundial,pouca disponibilidade logo o livro anda sempre comigo. Não saio de casa sem as chaves, a carteira e... o livro. O seu, meu, nosso, "Morte na Picada", apesar de o ter lido quase todo na Travessa, acompanhou a minha travessia do Tejo algum tempo. Partilhei piadas, picantes ou não, com compnaheiras habituais de viagem. Rimos a bom rir, outras vezes, nem por isso. Alguns contos originavam tristezas, nostalgias, enfim... Um novo livro para me acompanhar nas minhas caminhadas. Grande Notícia!!!
Obrigada
AS

Palhastro disse...

Olá, Sr Antunes Ferreira, fiquei muito feliz por receber um comentário do senhor na minha postagem sobre o Manoel de Barros no blog Partículas do Pessoal. Ficaria muito efeliz e agradecido se desse uma observada nos meus blogs:
Filme: www.filmasos.blogspot.com
Alcalóide Literário: www.alcaloideliterario.blogspot.com

São blogs sobre cinema e sobre literatura, ainda estão engatinhando, mas ainda chegarei onde eu quero com eles.

Foi um prazer conhecê-lo
Um abraço!

Marta disse...

Olá, obrigada pela visita....
Gostei do que li - confidência com um certo tom brincalhão que me agradou imenso...
Até já
Beijos e abraços
Marta

Nilson Barcelli disse...

Tenho que ler mais alguns posts, mas já vi que o teu blogue vale a pena ler (nem seria de esperar outra coisa, dada a tua qualificação profissional).
Ainda não conheço o outro, que é colectivo, mas fica para mais logo porque agora o tempo escasseia...
Obrigado pela tua visita e pelo teu agradável comentário.
Abraço.

Paula Crespo disse...

Vim espreitar o teu blogue, depois das simpáticas palavras que deixaste no meu. E agora impõe-se a retribuição - não, não é troca de galhardetes, é mesmo uma apreciação honesta. Parabéns pelos textos!
Não conheço Goa mas adorava, especialmente depois do teu "sol de açafrão"... Bem visto!
Bjs

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ disse...

Saravá Henrique!



Que prazer tive em recebe-lo no meu blog. Ainda estou sem graça com tamanhos elogios. O “Eu, Tu, o Arco-íris e os Vizinhos” nasceu para eu brincar. Há tanta gente a escrever sobre coisas sérias… por que não falar das coisas simples?!
É um gozo brincar assim… e já dura há um ano!

E o mundo é tão pequeno como uma lágrima (dei esta comparação porque choro tanto, por tantas coisinhas boas e más, que as lágrimas derramadas dariam mares).
Não é que veio dar comigo pelo blog e afinal conhece os meus pais!?! Sobretudo a minha mãe…

Sou fruto de dois jornalistas! Isabel Jones e Artur Miranda.

Espero que as visitas continuem e a partir de agora o seu blog estará no meu também.

Obrigada pelo carinho e pelo queijinho

Beijinhos

Mariana


Ah!! Adorei ler e aprender aqui.

Divinius disse...

Não gosto de grandes discursos para elevar o ego...
Obrigado pela tua visita,deixo-te um sorriso que é das melhores coisas que existem...)
:)

Antunes Ferreira disse...

Carol

Vou fazer uma gravação: alô, alô, contacto: muito obrigadooooooooooo.
Aplica-se a toda a minha gente que quiz deixar-me mensagens enriquecedoras. E aplicar-se-á também aos que me disserem que isto é uma caca.
Queijinho

Antunes Ferreira disse...

Elliana

De novo, o que escrevi para a Carol.
Mas - mais um queijinho

Antunes Ferreira disse...

Mariazita

Para que ninguém fique triste, volta o disco e toca o mesmo.
... e vão três queijinhos

Antunes Ferreira disse...

Anónima Salinhas, digo, Salinas, perdão, Salina
Isto de escrevinhar é quando me dá na bolha. Como bem sabes.
Quanto ao resto, tudo igualzinho
... e vão quatro

Antunes Ferreira disse...

Ó Palhastro

Deixa-te de Senhores e de Insolências, i.e, Excelências. Eu chamo-me Henrique, ponto.

Já dei uma olhadela nos outros blogues.Usamfraldas - mas já andam. Bravo.

Mais um..., quero dizer, um abração

Antunes Ferreira disse...

Martinha
Receita igual, quiçá com um pouco mais de mostarda e pimentada.
... e vão cinco

Antunes Ferreira disse...

Oi Nilson

Eu (ainda) gosto muito de mulher - que a minha não me ouça... Por isso, para além do obrigado segue mais um...
abração

Antunes Ferreira disse...

Paulinha

Deu borem korum. Ou seja, muito obrigado em konkani. Isto de ter mulher goesa - não é fácil. E julgava eu que já sabia tudo - mas, depois, entrevistei a Indira Ghandi...
... e vão seis

Antunes Ferreira disse...

... mas não és!
De qualquer forma, lia-te na mesma. A tua Mãe que o diga- Eu leio tudo, mesmo aquilo de que nõ gosto - que não é o caso.
... e vão sete

Antunes Ferreira disse...

Óuve lá ó Divina Criatura:

Tens ego? Eu tenho - mas é muito piquinininho. Tira lá esse sorriso sacana da face. Estou a referir-me ao ego...
Abração

titofarpas disse...

Um texto delicioso (mais um)... É sempre um prazer voltar a este cantinho.
Grande abraço

VANUZA PANTALEÃO/OBRA LITERÁRIA disse...

Meu amigo Antunes!
Te gosto muito, mas não me pregues mais esse susto! Ai, mulheres e baratas - mesmo mortas (as baratas, lógico!) - não se combinam. Li o seu texto num misto de terror e loucura. Tenho fobia com esse inseto repugnante, embora nada tema na vida...
Meu e-mail está no blog, meu querido! É o do yahoo:
vanuzapa@yahoo.com.br
Terei imensa satisfação em responder-lhe qualquer questão!
Ferreira, um favor, em nome da nossa Amizade: jogue esse "negócio" no lixo. Olhe, nem consigo escrever o nome disso aí!
Beijos! E só não mando o queijo porque é você quem os promete a todos nós. Estou cá a esperá-lo! Rsssss.

Antunes Ferreira disse...

Vanuzinha
Com os textos que se seguirão, o estranho bicho será ultrapassado e enterrado e, pronto, não se fala mais nisso. Não é preciso deitá-lo na «cesta secção». O bonécrio vai morrer por ele mesmo. Aliás, já está morto.

Sabe? Escrevi tanto para a censura (eu era muito cortado pelos fdp dos censores) que o Povo só lia o que os gajos deixavam passar. Daí que hoje, em Liberdade e democracia, não o consigo fazer.

Mas, com o imeile que me mandou, vou mandar-lhe coisas que, se calhar, não pensava ver. E não são baratas...
Queijo bis, querida Amiga.