domingo, agosto 26, 2007




Recordando E.P.C.


Maria Lúcia Garcia Marques
Conheci o Eduardo Prado Coelho em 1961, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ingressou um ano depois de mim para o mesmo curso que eu escolhera. Creio que logo no ano seguinte se tornou responsável pelo Instituto de Língua Francesa, que viria a ser, para mim, poiso habitual nos intervalos das aulas – ou substituto daquelas a que não ia – ou lugar de descompressão das actividades associativas (académicas ou da Acção Católica) a que me dedicava à época. O Eduardo estava sempre lá. Senhor tutelar e usufrutuário guloso da respectiva Biblioteca, facilmente embarcava em longas conversas sobre leituras e autores com quem convivia numa avassaladora intimidade. Recordo hoje como único o sabor denso dessas falas apalestradas, temperadas pelo picante das suas críticas a latere, naquela sua voz meio nasalada, meio cantada, com um risinho no fim. Era o tempo das erudições jucundas, na i-reverência dos nossos 20 anos. Mais tarde, em 70, encontrámo-nos no bar da Faculdade de Letras de Coimbra, num intervalo roubado de um dos doutos Congressos a que o dever de ofício nos obrigava.

Estás lembrado? Ofereceste-me uma bica e um pastel de nata. À minha observação de esquiva gratidão de que “julgava que o marialvismo já tinha acabado”, respondeste, gargalhando ao teu modo: “Marialvismo coisa nenhuma – é que preciso dos trocos e a conta assim dá mais jeito …!”. Simultaneamente pragmático e sedutor!

Foste sempre assim na Vida. Atiraste-te a Ela a teu gosto: leste-a nos livros, viste-a no cinema, colheste-a nas artes, viste-a até no futebol. Em miríades de universos entrecruzados. E ofereceste-nos, em registos sabiamente diferenciados, a magnanimidade das suas idiossincrasias.
Amealhaste gostosamente saber e prazer, carreados no esforço e na constância. Mas foste o mais generoso dos Cresos: a nosso favor os reverteste. Foi tudo em pura perda, agora que te foste? Não creio. Desculpa dizer-to, a ti que te querias/crias ateu (agora que cá não estás para me contraditar), mas acho que, no teu diálogo aceso com a Vida, expandindo pela palavra inteligente os valores do Ser e do Estar dos homens, foste – queiras ou não – parte efectiva na concretização da obra de Deus. E por isso te cabe a perene Memória!

1 comentário:

Maria Moisés, Lisboa disse...

Que texto tão bonito, D. Maria Lúcia.