segunda-feira, agosto 06, 2007




HISTÓRIAS DA PJ

Aconteceu pelo Natal...


(Conclusão)


José Augusto Garcia Marques
D
ir-se-ia que estava à espera dessa pergunta. Nada perturbada, limitou-se a dizer não terem tais suspeitas qualquer fundamento. Considerava-se uma vítima da sua maneira de ser, espontânea e extrovertida e da inveja das cunhadas.

Fizemos-lhe ver que não seria só isso. A recusa em ir viver para a França não podia deixar de levantar suspeitas. Além disso era uma mulher vistosa, muito mais nova do que o marido. Perguntámos-lhe se, nesta sua última viagem, o António não lhe manifestara dúvidas acerca do comportamento dela ou se não se revelara particularmente ciumento. Se não seria justamente essa desconfiança que estava na origem da própria viagem e se não seriam aquelas preocupações que explicavam as decisões que tomara.

A Sílvia foi perdendo a serenidade. Levantou-se, passeou pela sala, foi buscar um maço de tabaco, tirou um cigarro, hesitou e voltou a metê-lo no maço. Pareceu-me ser o momento psicológico de “atacar”. Levantei-me também, aproximei-me dela – era quase da minha altura - e murmurei num tom de voz muito baixo, quase confessional: “Então e o Rodrigo? Onde é que costumam encontrar-se?”

Um rubor intenso invadiu-lhe o rosto claro, ao mesmo tempo que balbuciava: “O Rodrigo... foi meu namorado em solteira. Gostávamos muito um do outro. Mas depois casei, ele esteve na guerra e agora somos amigos. Só isso!” Pareceu-me desnecessário manter aquela tensão emocional. Afinal de contas, qualquer que fosse a verdade acerca da vida pessoal e amorosa da Sílvia, isso seria possivelmente estranho à matéria de facto envolvente do acto criminoso.

Recuperado o auto-domínio, e parecendo ler-me o pensamento, estranhou o interesse que toda aquela história acerca do seu namoro antigo poderia ter para a descoberta da verdade e para a identificação dos autores do crime. Sempre foi dizendo que o marido nunca lhe dissera com clareza que desconfiava dela. Mas que a desconfiança, qual “água mole em pedra dura”, deve ter-se ido instalando, pelo que não era de estranhar o progressivo distanciamento por parte dele.

Herdeiro – o filho

Quanto aos assaltantes, afirmou não fazer a mínima ideia de quem eram, de onde vinham, para onde iam e ao que andavam.

Antes de nos retirarmos, perguntámos-lhe se ela estava a par dos negócios do marido, das vendas em concretização, seus montantes e formas de pagamento. Disse que só sabia do que se estava a passar em termos muito gerais. Ou seja, percebia que o marido se queria desfazer do que possuía em Torres Vedras, mas ignorava quem eram os compradores, se já tinham pago os preços acordados e o que é que o marido projectava fazer com o dinheiro.

Observei apenas que, agora, morto o marido, todo o património se transferia para o filho. Na verdade, à data, o cônjuge sobrevivo era preterido na sucessão pelos descendentes. Mas cabendo-lhe o exercício do poder paternal sobre o filho menor, ela seria a administradora dos bens e, de facto, sua “usufrutuária”.

Voltámos à sede, tendo preparado e difundido por todas as autoridades policiais do País e, através da Interpol, para Espanha, uma folha informativa relativa ao homicídio do emigrante, contendo a fotografia e os dados nominativos conhecidos do Ângelo e ainda os dados sinaléticos dos outros dois assaltantes e o modus operandi utilizado na prática do crime. Passados uns dias, já em meados de Janeiro, recebemos um telefonema da GNR da Malveira informando que tinha acabado de ser preso, numa feira, um tal Rui, o cigano mais alto do bando. Uma viatura da PJ partiu de imediato para o ir buscar.

Ainda não tinham regressado à sede e já muitos ciganos, familiares do detido, se aglomeravam na Gomes Freire ou no pátio do Arquivo de Identificação, junto da porta de entrada da PJ, num procedimento colectivo muito próprio de tais comunidades nestas circunstâncias. Bastou uma conversa com o Rui para concluir que ele nada tinha que ver com o crime. Era efectivamente um homem muito alto e magro, com vinte e poucos anos, o aspecto sofrido de quem já está habituado a ser vítima de discriminações e injustiças. Percebia-se, porém, que tinha tido conhecimento do homicídio do emigrante e que, sobre o assunto, tinha informações, porventura, relevantes. Só que logo percebemos que não iria falar.

Vigorava, ao tempo, um regime legal que permitia a prisão sem culpa formada durante cerca de um mês. Embora condenável, sob a óptica dos direitos humanos, o certo é que a PJ, que não era instância legisladora, aproveitava, dentro de parâmetros tidos como razoáveis, as possibilidades de investigação que um tal regime lhe proporcionava. Quer isto dizer que, apesar da convicção de que o Rui estava inocente, foi decidido mantê-lo sob prisão, nos calabouços da PJ, durante alguns dias. As nossas expectativas vieram a ter concretização.

Um velho cigano


Um dia, um cigano, já com cerca de sessenta anos, todo vestido de preto, a barba grisalha, longa e espessa, com aspecto de “patriarca”, pediu para falar com o Chefe de Brigada, seu antigo conhecido e polícia com bom nome na comunidade. Apresentou-se como tio do Rui.

Conhecia bem a família que adoptara o Ângelo de Jesus. Em virtude da sua conduta, este colocara-se à margem da comunidade, de que acabou por ser expulso, até porque punha em permanente risco as crianças e as mulheres que a integravam e que viviam no acampamento. Segundo o “patriarca”, o Ângelo já não era “um cigano”. Ao abandonar a família, fora, porém, acompanhado pelo seu “irmão de leite”, o Simão, um “bom gigante”, seu incondicional seguidor. Formaram um bando de malfeitores, onde o “Beiço Rachado” pontificava, secundado por um tal Alfredo, delinquente com largo cadastro. Segundo o nosso informador, teriam sido estes os três matadores do António.

Libertado o Rui e recolhidos, no ARI, os abundantes dados existentes acerca do Alfredo, incluindo uma fotografia relativamente actualizada, foram actualizadas as fichas biográficas e sinaléticas dos suspeitos. Apenas o Simão não tinha antecedentes policiais nem dele existia fotografia disponível.

O tempo passou. Chegou o Verão de 1970 e o nosso agente Adérito Guerreiro (nome fictício), natural de Odeceixe, foi passar férias à sua terra. Sentado a uma esplanada, deliciava-se com os sabores da sua juventude e conversava com os amigos, que queriam conhecer as aventuras da vida profissional do patrício que, ainda muito jovem, fora trabalhar para a “Judite”. Ao segundo prato de caranguejos, o Américo falou do crime de Torres Vedras. Referiu-se então ao “Beiço Rachado” e ao “calmeirão” de quase dois metros que o acompanhava. Eis senão quando um dos amigos lhe disse: “Mas esses gajos andam por aí”! Tinha-os visto algumas vezes nos últimos dias, sempre juntos, ou acompanhados por um terceiro indivíduo, mais velho e de má catadura. Alguns dos presentes confirmaram a informação.

O agente Adérito (utilizo obviamente as designações da época, quer quanto a cargos, quer quanto a serviços da PJ) contactou a GNR e, com os maiores cuidados, dirigiram-se ao local onde os suspeitos acampavam. Não havia dúvidas. Eram mesmo eles. Mas não estavam sós. Avistaram ainda uma mulher jovem com um rapazinho “escarranchado” na anca. A perigosidade dos meliantes, a quase certeza da resistência que iam oferecer e a presença de inocentes que importava proteger tornavam a operação particularmente delicada.

A caça ao homem


Obtidos os reforços necessários e assegurado o comando adequado, o cerco foi realizado. Aproveitando-se a providencial ausência dos três homens, recolheram-se a mulher e o bebé. A seguir foi preparada a emboscada. Houve a resistência esperada. No tiroteio que se seguiu, o Simão deu o corpo às balas para salvar o Ângelo. Ficou gravemente ferido e, em consequência, paraplégico. Os outros dois acabaram por se render.

Interrogados, disseram que o assalto de que resultou a morte do emigrante fora da sua exclusiva iniciativa, tomada no local e no momento em que divisaram a aproximação da bicicleta. Desconheciam quem fosse a vítima ou que trouxesse tanto dinheiro consigo. Embora tal relato fosse, para eles, o mais favorável do ponto de vista da tipificação do crime cometido, uma vez que excluía a premeditação ou, mesmo, a preparação antecipada da emboscada, pareceu-nos merecedor de crédito. O infeliz emigrante tinha-se limitado a passar no local errado, na hora errada!

Isenta de culpa, ficava, assim, a sua bela viúva. Passados cerca de dois anos, soube casualmente que a Sílvia voltara a casar. Com o Rodrigo...

2 comentários:

Raul disse...

Boa conclusao, obrigado por mais esta aventura policial

Maria Moisés disse...

Gostei muito.