quarta-feira, agosto 08, 2007




O Português que nos pariu

Um crítico literário brasileiro perguntou: «Além de um casal luso, alguém sabe fazer um português?» E, logo, respondeu. «A receita está no livro O Português que nos pariu - Uma viagem ao mundo dos nossos antepassados, de Angela Dutra de Menezes. Junto com a receita, o leitor leva, de brinde, "estórias" da História portuguesa. Factos que, de um jeito ou de outro, marcaram o carácter brasileiro.
Tudo narrado com bom humor, já que a história oficial é insossa e arrastada. Por que não jogar na mesa que o grande Afonso Henriques
provavelmente amargava um insolucionado Complexo de Édipo? Que dom Henrique, o Navegador, não sabia navegar? Que dom Sebastião, o tal do messianismo, não passaria em psicotécnico de nenhum Detran da vida? Descontracção não anula a verdade dos factos. Se o livro dá um "jeitinho" de colorir a História é porque nosso "jeitinho" também é herança lusa».






Angela Dutra de Menezes
C
oloque uma vasilha dentro de água. A massa só alcançará o ponto exacto se os ingredientes forem misturados em recipiente mergulhado na água salgada. Senão, a receita desanda.

Ingredientes:

• Homens pré-históricos do vale do Tejo e do Sado.
• Um punhado de povos indígenas, principalmente lusitanos. Se possível, da tribo liderada por Viriato.
• Celtas – apenas para polvilhar.
• Romanos.
• Bárbaros: alanos caucasianos, vândalos germânicos e escandinavos, suevos e visigodos germânicos – estes últimos dissolvidos na civilização romana.
• Mouros: tribos islamizadas do Marrocos e da Mauritânia.
• Uma pitada de árabes.
• Judeus sefarditas (ibéricos) – coloque um punhado entre um ingrediente e outro. Reserve a porção maior para o fim da receita.
• Cristãos a gosto

Modo de fazer

Coloque na vasilha os pré-históricos. Dê preferência aos que apresentarem características físicas do Português contemporâneo: estatura mediana e dolicocéfalos. A arqueologia prova que pré-históricos ibéricos já se assemelhavam aos gajos pós-modernos – ora pois.

Tampe a vasilha com um pano húmido. Espere fermentar até se transformarem em tribos pacíficas e receptivas a ondas migratórias oriundas de vários pontos europeus. Não se preocupe se alguns, sorrateiramente, fugirem pela borda da vasilha. O ancestral do Português já cultivava vocação viajeira, muitos chegaram à Inglaterra e à Normandia. Apenas oriente os neofujões para não tomarem o rumo de Brasília. Nunca se sabe o que lhes pode acontecer.

Polvilhe um pouco de celtas. Além do charme, você vai introduzir o domínio da metalurgia e a vocação para o exoterismo. Afinal, quem não gosta de druidas? Além de estarem em moda, eles acrescentarão o toque exotérico ao paladar do prato.


Lentamente despeje os romanos. Atenção: vai sair pancadaria. Maneje com calma a colher de pau para driblar Viriato e outros caudilhos que não apreciarão o novo ingrediente. Cuidadosamente misture os revoltosos, os romanos e as tribos que se lixaram para a invasão romana. No fim dará certo. É questão de paciência.

Bata levemente durante 500 anos. A massa crescerá e revelará um povo urbano, meio escravo/meio livre, que falava latim vulgar e sofisticou o comércio e a agricultura. Enfim, quase um luxo.

Introduza os bárbaros. Primeiro os alanos, vândalos e suevos. Capriche nos suevos pois eles chegam para marcar presença: adoram trabalhar com enxadas e logo escolherão terras para cultivar. Por favor, convença-os a abandonar os instrumentos agrícolas às margens da vasilha. Alguém pode quebrar o dente quando o Português for servido. (…)

Adicione os visigodos romanizados (…) Espere inúteis três séculos – visigodo é um chuchu histórico, só faz volume, não larga gosto – e jogue os árabes e os mouros. A massa ficará mais encorpada, adquirirá novos contornos, novas falas, novas técnicas, uma nova arquitectura.

E por aí adiante. Não digo mais. Leia e aprecie. Se não gostar, ponha na beirinha do prato.


Obrigadissimérrimo

Êta livro fascinante. A Civilização Editora que o publica em Portugal merece um muito obrigado, à vontade. Firme. Sentido. Permitiu aos Portugas a leitura de um texto primoroso, cheio de graça, ironia e, sobretudo, Amor. Angela Dutra de Menezes, a autora, não leva um obrigado, não, ainda que muito. Dou-lhe um obrigadissimérrimo, que bem o merece.

Falo de uma obra, neste caso perfeitamente prima, vinda de quem vem, 189 páginas magníficas – «O Português que nos pariu». Linda de morrer. Alto lá. Estou influenciado pela Angela, sem circunflexo. Arrisco-me mesmo a sentir-me tentado pelo plágio. Daí este escrevinhar luso-brasileiro, ainda que com a grafia da banda de cá. Se mais houvesse a encomiar, prosseguiria de grato que estou. Porém, basta. Vamos ao que interessa.

Nunca convido ninguém para o que seja, sem ter a certeza de que experimentei a coisa e gostei. Daí a proposta que considero impositiva, até, se mo permitem, obrigatória: Amigas e Amigos, leiam «O Português que nos pariu». Aliás, parido no ano da graça de 2000, no cuzinho do século XX, trata-se de uma belíssima despedida do milénio. Um brinquinho.

Tomo a liberdade, depois de ter obtido a anuência da Livraria Civilização Editora, do Porto (
www.civilizacao.pt), de publicar acima, só para aguçar o apetite de possíveis leitores, um trecho do livro. Nestes transes, o que melhor que há a fazer é entrar direito pela obra e segui-la até ao fim, com os intervalos necessários para satisfazer algumas das necessidades mais elementares do ser humano.

A última indicação sobre a aceitação do que nos pariu no Brasil é que já tinha sido ultrapassada a sexta edição. Se calhar, registo por defeito, porque talvez já haja mais. De acordo com «O Globo», foi «um dos dez melhores livros do ano» esta «visão brasileira sobre a História dos Portugueses». Pudera, não.

Se não existisse a Wikipedia – ela teria de ser inventada, actualizando o ditado calino. Assim, Angela Dutra de Menezes (
Rio de Janeiro, 1946) é uma romancista e jornalista brasileira. Com o seu primeiro romance, Mil anos menos cinquenta (1995), a saga de uma família em dez séculos de civilização (de Portugal à vinda para o Brasil), filia-se à corrente do romance histórico moderno, trabalhando uma linguagem colorida e rica em nuances.
Na linha de um
Luiz António de Assis Brasil ou de um Tabajara Ruas, realiza uma ficção reflexiva e crítica da História. O seu segundo romance, Santa Sofia (1997), mergulha no imaginário de Minas Gerais do século XIX.
Os seus livros mais recentes são O avesso do retrato (1999), romance ambientado no Rio de Janeiro, que explora a dualidade do
carácter humano, e O Português que nos pariu (2000).

Só mais um aditamento. José Adelino Maltez – desnecessária a sua apresentação – escreveu: «Li esta semana o pequeno livro da jornalista e romancista brasileira, Angela Dutra de Menezes, dito "O português que nos pariu", onde é contada uma história lusitana, na qual as falhas científicas são compensadas pelo ardor imaginativo de quem nos ama e nos conhece de raiz. Afinal, os Estados Unidos da Saudade, também podem ser saudades de futuro.» Está tudo dito.
Antunes Ferreira

2 comentários:

DM disse...

Oi, Ferreira,
Nossa, morri de emoção com os seus elogios a meu livro. Muitissíssimo obrigada (viu? Tb sou hiperbólica :)))). Soube q ele está vendendo bem, fazendo sucesso, etc e tal. Enfim, a completa felicidade de uma autora, q ama Portugal. Tudo estaria maravilhosamente perfeito se a Editora Civilização não tivesse cometido a indelicadeza de publicar o meu livro sem contrato, sem me pagar nada e sem a minha autorização para modificar o texto. Acho q os portugueses conseguem perfeitamente ler e compreender o português do Brasil e fiquei danada com as intromissões indevidas no q escrevi. Qdo vc precisar de autorização para reproduzir qquer capítulo de "O português que nos pariu" fale comigo, darei com o maior prazer. A Civilização nada tem a ver nem comigo, nem com o meu livro. Apesar dos lucros q está obtendo :)))).
Mas, no momento, o q interessa é a sua vibração com o livro. Muito, muito obrigada mesmo. Vc nem imagina a felicidade q senti qdo li seus comentários.
Abraços,
Angela Dutra de Menezes.

Anónimo disse...

Oi Angela... verifiquei que a sua vida porreta lhe permite ter tempo para responder aos seus leitores. Ainda bem. Num comentário que escrevi, pelas imprecisões que se podem ler no seu livro, apesar das correcções feitas pela Editora, não seria mais que uma investigação das origens feita por uma nativa carioca. Após consulta dos manifestos das naus,terá concluido que a sua origem dependera de um casual encontro entre um gajeiro e uma mulher de ocasião.
O resto nem é história e, apesar de Portugal não ser só o reino com castelos e princesas que a maioria dos brasileiros pensa, merece respeito pela história que durante séculos inspirou outros portugueses fossem eles Pedros ou Paulos, Joaquins ou Manueis.
Já vivi no Brasil e sei do que estou a falar...
Como voces dizem- Pimenta na bunda dos outros...
Antonio Fernandes