sábado, fevereiro 10, 2007

HOJE HÁ ESTÓRIA

A maçã sem paraíso

Antunes Ferreira
Naquele tempo, as maçãs não tinham etiquetas; mas tinham bicho. O que me parece muito mais saudável. Pelo menos, e ouvindo apenas uma das partes, de acordo com o Sôr Alfredo, porteiro do meu prédio, o 122 da Rua Filipe da Mata, ali ao Rego, maçã bichada é maçã boa. Até as lagartas gostam dela. Um enciclopedista, o homem, marido da Senhora Ângela que era a nossa segunda mãe. A Dona Glória, minha progenitora, engalinhava um tanto com isso. Nada feito. Era mesmo.

Andava no Colégio Mousinho, com s, da Silveira , na esquina da Avenida de Berna com a Praça de Espanha, o Horto de Lisboa ficava em frente e os eléctricos abertos para Sete Rios passavam mesmo ali, o que dava à maltosa a possibilidade e o gáudio de os apanhar em andamento - então rápido, hoje tartaruguesco. E seguir à pendura, um olho no guarda-freio, outro no chui de serviço.

Maçã sempre foi fruto fácil de comer. Que o diga o Adão. Exceptuadas as consequências, está visto. Nem precisa de ser descascada, denta-se em volta das pevides e deita-se fora. Muito menos limpa, quanto mais lavada. Hoje, o rótulo ainda que pequeno mas autocolante, o pó do transporte e o do desinfestante – é assim que se diz, não é? – obrigam a que as mamãs apostrofem os rebentos, antes de a comer. À maçã, claro. «O menino tem de lavar muito bem a maçã. E limpa-la depois, está-me a ouvir?».

Aos doentinhos – maçã cozida; aos velhinhos gaiteiros – maçã assada, com açúcar por cima; aos de uso corrente – cruas e era uma festa. Vinham de proveniências as mais diversas, sem etiqueta de origem. Calibradas, o que é isso? Não havia União, por mais que houvesse Europa, a não ser a Sportiva da Rua da Beneficência. Sumo de maçã em embalagem Tetra Pak - nem vê-lo. Um xarope de maçã, bem macerado e repousado, com uma colher de sopa de mel e meio limão espremido – era tiro e queda para a tosse.

De manhã uma maçã crua deixa o médico na rua, dizem os transmontanos. Diziam. Hoje nem há médicos que cheguem em Trás-os-Montes (e noutros lugares), muito menos andam na rua. Só de automóvel. Quanto à maçã crua, estamos conversados. Não se convida a que se volte atrás porque dá muito trabalho. Mesmo na escrita.

Quando se fala em maçãs nestes preparos, lembro-me sempre da história do bragantino que chegara, pelos anos cinquenta, aos Estados Unidos com o visto de emigra, pasme-se, em ordem. Sem cheta, apenas uns trocados para nada. E que se tornou multimilionário, com um império maior do que o romano que-deus-haja.
Um dia a RTP, quando fez meio século de estada no país, foi entrevista-lo. Uma estória de sucesso luso nos States é sempre furo. O Bicudo, de micro na mão: Ó Senhor Francis da Silva, como chegou ao sucesso e aos milhões? Olhe, meu frende, depois do desembarque, do Service da Emigration e isso, dei por mim sentado na beirinha de um passeio da 47, o trânsito naquela época ainda não era o que é, a deitar contas furadas à vida.

Foi quando reparei numa maçã cinzenta, amarrotada e triste que jazia no asfalto, quase junto a uma sarjeta. Não é tarde nem é cedo, já tenho para meter no estomaque. Mas, de repente, uma ideia: não a como, vou usa-la. Limpei-a veri uele, puli-a com a ponta da camisa. Ficou lindíssima, sem pinta de pó, vermelhinha em gude cheipe. Ofereci-a ao primeiro cidadão que passava. Au matche?

Ali a uns cem metros havia um mister que vendia maçãs com um carrinho cheio. Vinte cents, cada. Hesitei um cagagésimo de segundo e atirei ao inquirinte: Quarenta cents. Foi. Mais pelo aspecto. Logo no tal mister comprei duas maçãs. Dei-lhes brilho: noventa cents. Veri, veri gude. Comprei cinco, um pequeno desconto, sempre era um freguês que começava a ser habitual.
Cinco, deu doze. Doze, vinte e seis…

E o correspondente televisivo, um sorriso aberto, teclado à mostra: E foi assim, multiplicando, multiplicando, que chegou ao que é. Ei momente, meu frende. Quando ia nas três mil e tais maçãs e já tinha dois carrinhos – morreu um tio milionaríssimo que vivia na Califórnia e que eu nem sabia que ele existia. Viúvo, sem filhos, deixou-me toda a fortuna. Uandarfule.

Ainda há maçãs meide in Portugal. Poucas, mas há, resistentes que o senhor Fenimore Cooper não deixaria de apontar e encomiar. Com rótulo autocolante e tudo. Gold – Alcobaça.

1 comentário:

Franz Rüntzen, Wien disse...

Mein Freund

Ich will ein Apfelsaft aus Alcobaca. Estou a brincar. O que eu digo é quero um sumo de maca de Alcobaca. Meu nome é Franz Rüntzen, eu vivo em Viena, mas fui um dos meninos austriacos que foram aculhidos em Portugal durante a II Guerra. Tenho minha familia portugueza Mendonça Santos. Por isso falo Portuguez.

Um bom Amigo que conhesse o Senhor Antunes Ferreira (Gunther Bliess) ensinou-me que este blog era muto interesante. Agora, sei que é. Obrigado Senhor Antunes Ferreira. Eu gosto muito de macas.
Auf Wiedersehen!