quarta-feira, fevereiro 14, 2007




A ALICE VIEIRA NÃO TEM CURA

Pezinhos de Coentrada

Antunes Ferreira
Bom. Não quero que julguem que transformei este blog num pulverizador de incenso, muito menos num queimador de mirra, ou até num discurso de elogio eterno e total. Elogio a sério, mesmo, mesmo, mesmo a sério, como diz o Ricardo Araújo Pereira, só há um – o da loucura. Do senhor Erasmo de Roterdão, que o escreveu em 1509 e o publicou em 1511. O Elogio da Loucura, (em grego Morias Engomion, Μωρίας Εγκώμιον, em latim Stultitiae Laus) é considerado um dos mais influentes livros da civilização ocidental e um dos catalizadores da Reforma Protestante, diz a Wikipedia que parece estar em risco de morrer. Estas merdices não acontecem só em Portugal.

Porquê este intróito? Ultimamente quase só tenho escrito bem de obras literárias diversas. E digo quase porque uma excepção abri para um coiso qualquer da Babilónia, livro intragável, na minha modesta opinião do senhor doutor António Lobo Antunes. Mas, há mais a quem vai sair a bola negra. A começar pelo senhor António José Saraiva. Preparem-se.

Desta feita, porem, aqui estou a dar testemunho de gratidão a outra autora que durante uns anos comigo acamaradou no Diário de Notícias. A Alicinha Vieira. Abro aqui um pequena parentética. Naquele jornal de tão grande história e de tamanhas tradições reuniu-se uma plêiade de cultores da arte de bem escrever que, não fora o plágio, quase me atrevia a chamar-lhe a ínclita geração literária. Desde a Alice ao Zambujal, desde o Dacosta ao João Aguiar, havia de tudo – e bom. A ovelha negra era um gordo de óculos e barba, cujo nome não indico por puro falso pudor.

Não me canso de o dizer e escrever. Até porque adoro alinhavar (mal, por certo) umas quantas palavras em frases com algum sentido e correcção q.b.. Só que estes senhores gajos são de outra galáxia, eu sou um ínfimo estagiário de ajudante de auxiliar de praticante da escrita. O Camões diria miserando. Eu, não, pela razão apontada no parágrafo anterior.

Vamos a factos. Foi mais uma corrida contra relógio, na verdadeira acepção do termo. Corrida deitada, que em pé cansa muito. Meti olhos a caminho nos Pezinhos de Coentrada e só parei no fim, desculpem-se o pleonasmo. Porem, foi assim mesmo. Ninguém foge ao seu destino, cantava a Amália Rodrigues, mas neste caso o destino nem marcou a hora. Esta passou, passou, passou-se. Sentença de julgamento sumaríssimo: culpada. A Vieira, Alice. Reincidente, aliás.

Já me lançara uma primeira isca, nesses tempos heroicos do DN, com uma tal Rosa, minha Irmã Rosa. Que era literatura infantil e tal, que ia ganhando tudo o que eram prémios a tal escrita destinados e assim, que não fazia mal a ninguém e por aí fora. E eu, enganado. Engoli isca, chumbo, linha, carreto e cana telescópica. Só me safei do peixe porque detesto suchi. Foi a minha primeira directa com a Alice Vieira, salvo seja, que me perdoe o Mário Castrim onde quer que esteja, não se veja aqui maldade nem pecadoras intenções.

Claro que ofereci a Rosa a tudo que era criancinha mais ou menos crescidota. Os meus netos, de colheita muito mais recente, têm o livro, oferecido pelo tal gajo gordo, de óculos e barba. E os direitos da autora a aumentarem. No entanto, e pese embora essa estória do vil metal (que sabe bem e muito porque é com ele que compro mais livros e coisas assim), a Minha Irmã Alice, maila Rosa, tudo mereceram e merecem. E merecerão, oxalá por muitos anos e bons.

Estes Pezinhos são deliciosos. E a coentrada, perfeita. O estilo leve da Alice lê-se, devora-se e apreende-se sem necessidade de quaisquer tábua de siglas, glossário ou nota explicativa. Uma enorme escritora como a Alice é, não precisa de quem lhe divida as orações tal como no nosso tempo se fazia ao pobre do Zarolho. De resto, ela nem é muito de orações, é mais de corações.

Se me pusesse aqui a citar as estórias, as crónicas, os apontamentos que constituem o livro, entrava por um campo minado de se lhe tirar o chapéu. A inveja é péssima. E lá ficava a Rita a perguntar-se porquê a azia do taxista matinal a considerava eu uns furos acima da Marta almoçareira, ou por que bulas a tia Mafalda me enchera o papinho em detrimento da tia Clara.

Ná, não me meto nessa. Apenas te mando, Alice, um queijo (até rima com beijo que é muito prosaico) e um agradecimento. Ambos telúricos.

2 comentários:

Bernardino S. Saraiva, eng., Lisboa disse...

Bem haja Sr. Antunes Ferreira. A Dr.a Alice Vieira ficará para sempre marcada para mim pela extraordinária «Rosa, Minha Irmã Rosa», que a minha Mãe me ofereceu quando eu completei 12 anos.

Hoje, pai de dois miudos, já lhes comprei essa obra prima. E creio que toda a gente que gosta de ler e ensina os seus filhos a gostarem tambem, deveria assim proceder.

Um pouco descuidado em relação a crónicas, mas recuperado através das suas neste blogue, vou atirar-me «com unhas e dentes» aos «Pezinhos de Coentrada»!

Uma só pergunta: a Dr.a Alice Vieita tem mail? Se sim, pode dar-mo? E blog? Também muito grato lhe ficaria se mo pudesse indicar.

Com os meus mais sinceros cumprimentos

A Mas São Verdes, Montijo disse...

Esta tipa é comuna, mas escreve muita bem!