terça-feira, fevereiro 13, 2007




DACOSTA CONTINUA

Máscaras de Salazar

Antunes Ferreira
Um sujeito já não está para estes trotes. Mas, diz-se que o homem põe e o deus dispõe. A ser assim, fui eu próprio que me meti nestas alhadas e nada de choramingueiras. Está feito, está feito. Mas não perfeito. Porque em boa da verdade há tempos para fazer e tempos para desfazer, há horas para trabalhar – infelizmente – e horas para destrabalhar. Há momentos de concentração e há momentos nos campos de. E não venham com aquela do Arbeit macht Frei que o Adolf mandava pespegar às portas desses mesmos campos. O trabalho dá a liberdade? Onde é que já se viu isso? O bom povo usa dizer que o trabalho dá saúde; então – que trabalhem os doentes, acrescenta um bom Amigo.

Vem este prolegómenos a propósito de umas directas em que me tenho embrulhado. Já nestas colunas apostrofei devidamente alguns dos desencaminhadores militantes que a tal me têm levado. Não querendo cair no repetitivo parvalhão, vamos ao que me trouxe aqui e neste momento preciso.

Trata-se da quinta leitura, de fio a pavio, das Máscaras de Salazar que o meu Amigo Fernando Dacosta já leva na 16.ª edição. É obra, meninos, é obra. Não apenas as dezasseis edições, mas a leitura número cinco que estou a terminar. E com a quase garantia de que a obra se vai tornar livro de mesinha de cabeceira. Para já – já está na poole position.

O Fernando, que já tive a sorte e o privilégio de ser meu companheiro de trabalho, não escreve muito bem; tem uma escrita divina, fluida, saborosa, que me maravilha e encanta. A mim e a uma grande quantidade de cidadãos. E nem seriam precisos os prémios literários que vai coleccionando para assim se concluir. Aliás, o Dacosta também compila edições esgotadas, outro atestado de culpa e com circunstâncias agravantes.

Recordo-me, estávamos os dois labutando quotidianamente no Diário de Notícias, quando o tipo ganhou o Grande Prémio do Teatro RTP com Um Jipe em Segunda Mão. Ainda íamos no princípio dos abraços de felicitações e, toma!, vem o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos. Continuávamos a congratular-nos e, já que não há duas sem três, junta o Prémio Casa da Imprensa. Nem tivemos tempo para arrumar a euforia. O gajo é lixado.

Porém estas Máscaras de Salazar são «muitíssimo especialíssimas»… Se não conhecesse de longa data o Fernando, perguntar-me-ia onde tinha ele ido arranjar tempo, paciência e pertinácia para registar um tal acervo de informações sobre o ditador de Santa Comba. Mas, o Dacosta é assim. Está sempre, em simultaneidade, a fazer 235,6 coisas, qual delas a mais complicada. Excepto, claro, o escrever - que lhe deve ter nascido com o primeiro dente de leite.

Já o fiz a celebridades, até mesmo a personalidades, muitas vezes por educação, nunca a contra-gosto, porque não gosto de mentir. Tenho de te agradecer, meu Amigo Fernando. Porque, para alem de já neste curto espaço de tempo ter confirmado as Máscaras como livro de cabeceira – com alguns, poucos, mais – tenho de te pedir que continues a parir obras destas – primas? Tias? Madrinhas? – mas que não me lixes as noites que, segundo se afirma um tanto despudoradamente, se fizeram para dormir.

Fizeram? Mas vem de lá um tal Fernando Dacosta – e está tudo tramado.

3 comentários:

A Mas São Verdes, Montijo disse...

Este texto dum gajo que esgreve divinalmente, como é o Antunes Ferreira, leva-me a ir amanhã comprar o livro do Dacosta.

Manuel A. Ventura, Queluz disse...

Já li vai para uns cinco anos. É uma maravilha. Aliás o Fernando Dacosta é um magnífico jornalista e um enoooooorme escritor. Um abraço ao Antunes Ferreira, de quem o comum amigo António Valdemar muito me tem falado. Bem, o que não é muito vulgar no Valdemar, como julgo que sabe...

zélia disse...

Como Slazar foi eleito a personalidade mais popular, resolvi fazer um trabalho para a aula de português sobre o livro de Dacosta. É difícil escrever bem....