
Gripe com homem
António Lobo Antunes
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte, nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.
Coisas das celebridades
Antunes Ferreira
Quando nós andávamos no Lyceu Camões – é assim com y que está inscrito no frontão do edifício – já o António Lobo Antunes fazia perceber que seria um Mestre na arte de escrever. Digo-o com o à vontade suficiente, pois que, uma dos melhores professores que tive, a Maria Helena Lucas (mais precisamente três: a Clélia Marques, da minha quarta classe, ela, Maria Helena, nos anos do liceu e o Marcelo Caetano, na Faculdade de Direito. Que tinha tanto de bom docente como de péssimo examinador, de inteligente como de falso, de exigente como de intransigente e que toda a vida foi um político manhoso, meandroso e subserviente, até chegar ao desastre final como «chefe do Governo») dizia eu, a Maria Helena Lucas declarara na sala da minha turma que ou ele ou eu… Modéstia é o me não falta.
Eu, saí o que saí. Escriba canhestro, ainda que legível q.b.. Ele, grande autor, editado em não sei quantos países e em todos os continentes, hipotético prémio Nobel (despeitado) e por aí fora. Isto porque, no princípio de uma carreira brilhantíssima, escrevia primorosamente. O que foi fazendo, para meu grande prazer. Agora, em meio ao seu isolamento social que se aproxima do autismo, produz «coisas» inqualificáveis. É a minha opinião, ninguém ma pediu, mas mais vale ter uma, ainda que má, péssima, do que não ter nenhuma.
Veja-se o último livro: qualquer coisa da Babilónia. Li página e meia. Nada mais. Nunca mais. Conservo-o cuidadosamente, quase virgem, portanto. Para o oferecer em data consentânea a um dos tipos que mais abomine, como «prenda» de anos. Cabotino, só? Não, cretino literário. Onde vão os Cus de Judas?
No seu período magnífico, o António do meu ano liceal, aparentemente amigo para sempre, já se me revelou enfatuadamente distante. Não admira. Largáramos ambos os calções, a divisão das orações dos Lusíadas e as físico-químicas falsas como judas. Podíamos continuar como antes éramos. Mas ele, embarcado na galé da glória, condenou-me… às galés. Nem me reconheceu, anos depois de termos sido companheiros. Ou fingiu que não. As celebridades têm destas coisas.
A admiração que tinha pelo cultor da escrita, excelente, foi-se ficando pelo caminho, um tropeção aqui, um bordo acolá, uma desilusão acoli. Não por despeito, quiçá por desrespeito. O insigne escritor passava do oitenta ao oito; ou, mais precisamente, do 8.888.888, ao 0,8. Por isso me pergunto como agora ainda me dou ao luxo de comprar esse qualquer coisa na Babilónia. Esbanjar euros – é a única explicação. Ou será, apenas, vício de estante liveira?
Pois é este personagem controverso, antes sim, hoje definitivamente não, que escreveu os versos que aqui publico. Se mais não fossem – e são – seriam bem o exemplo do Lobo Antunes na sua fase boa. Óptima. Por isso os registo aqui, graças aos bons ofícios da Marina Dinis que mos enviou. Muito obrigado.
A Marina é uma entusiasta da FAÚMA de que aqui já se falou. Faz parte da Comissão Executiva das I Jornadas do Voluntariado sobre doenças mentais e trabalha no Hospital Júlio de Matos. Ainda nem sequer nos conhecemos pessoalmente, o que vai acontecer tão rapidamente quanto seja possível. Até lá, fica nomeada – sem recurso ou tentativa de escusa – colaboradora do Travessa do Ferreira. Espero por um texto assinado por si, querida Colaboradora. Sem tardar.
1 comentário:
Estou inteiramente consigo. O Lobo Antunes que era óptimo transformou-se numa pecegada. Bom dia.
Enviar um comentário