domingo, fevereiro 11, 2007




Gripe com homem

António Lobo Antunes
Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte, nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.


Coisas das celebridades

Antunes Ferreira
Quando nós andávamos no Lyceu Camões – é assim com y que está inscrito no frontão do edifício – já o António Lobo Antunes fazia perceber que seria um Mestre na arte de escrever. Digo-o com o à vontade suficiente, pois que, uma dos melhores professores que tive, a Maria Helena Lucas (mais precisamente três: a Clélia Marques, da minha quarta classe, ela, Maria Helena, nos anos do liceu e o Marcelo Caetano, na Faculdade de Direito. Que tinha tanto de bom docente como de péssimo examinador, de inteligente como de falso, de exigente como de intransigente e que toda a vida foi um político manhoso, meandroso e subserviente, até chegar ao desastre final como «chefe do Governo») dizia eu, a Maria Helena Lucas declarara na sala da minha turma que ou ele ou eu… Modéstia é o me não falta.

Eu, saí o que saí. Escriba canhestro, ainda que legível q.b.. Ele, grande autor, editado em não sei quantos países e em todos os continentes, hipotético prémio Nobel (despeitado) e por aí fora. Isto porque, no princípio de uma carreira brilhantíssima, escrevia primorosamente. O que foi fazendo, para meu grande prazer. Agora, em meio ao seu isolamento social que se aproxima do autismo, produz «coisas» inqualificáveis. É a minha opinião, ninguém ma pediu, mas mais vale ter uma, ainda que má, péssima, do que não ter nenhuma.

Veja-se o último livro: qualquer coisa da Babilónia. Li página e meia. Nada mais. Nunca mais. Conservo-o cuidadosamente, quase virgem, portanto. Para o oferecer em data consentânea a um dos tipos que mais abomine, como «prenda» de anos. Cabotino, só? Não, cretino literário. Onde vão os Cus de Judas?

No seu período magnífico, o António do meu ano liceal, aparentemente amigo para sempre, já se me revelou enfatuadamente distante. Não admira. Largáramos ambos os calções, a divisão das orações dos Lusíadas e as físico-químicas falsas como judas. Podíamos continuar como antes éramos. Mas ele, embarcado na galé da glória, condenou-me… às galés. Nem me reconheceu, anos depois de termos sido companheiros. Ou fingiu que não. As celebridades têm destas coisas.

A admiração que tinha pelo cultor da escrita, excelente, foi-se ficando pelo caminho, um tropeção aqui, um bordo acolá, uma desilusão acoli. Não por despeito, quiçá por desrespeito. O insigne escritor passava do oitenta ao oito; ou, mais precisamente, do 8.888.888, ao 0,8. Por isso me pergunto como agora ainda me dou ao luxo de comprar esse qualquer coisa na Babilónia. Esbanjar euros – é a única explicação. Ou será, apenas, vício de estante liveira?

Pois é este personagem controverso, antes sim, hoje definitivamente não, que escreveu os versos que aqui publico. Se mais não fossem – e são – seriam bem o exemplo do Lobo Antunes na sua fase boa. Óptima. Por isso os registo aqui, graças aos bons ofícios da Marina Dinis que mos enviou. Muito obrigado.

A Marina é uma entusiasta da FAÚMA de que aqui já se falou. Faz parte da Comissão Executiva das I Jornadas do Voluntariado sobre doenças mentais e trabalha no Hospital Júlio de Matos. Ainda nem sequer nos conhecemos pessoalmente, o que vai acontecer tão rapidamente quanto seja possível. Até lá, fica nomeada – sem recurso ou tentativa de escusa – colaboradora do Travessa do Ferreira. Espero por um texto assinado por si, querida Colaboradora. Sem tardar.

1 comentário:

Miguel F. Vieira, Setúbal disse...

Estou inteiramente consigo. O Lobo Antunes que era óptimo transformou-se numa pecegada. Bom dia.