sexta-feira, agosto 29, 2008



O crime na internet

Antunes Ferreira
N
ão há duas sem três, dizia-se. Agora, sem margem para dúvidas, não há dias sem muitos. Leia-se: actos criminosos. Aqui há umas semanas rabisquei aqui uma «coisa» em que dizia, mais ou menos, «vou ali assaltar o banco e volto num instante». Agora, no mínimo, terei de utilizar muitos plurais. Demasiados, infelizmente.

Por estes conturbados tempos, há de tudo: para além dos já calinos assaltos a bancos e outros alvos, rouba-se, a dinamite em plena auto-estrada, mata-se quem quer que seja, sobretudo porque o infeliz tentou negar-se a entregar a carteira, o cartão de crédito, e muito mais. Como o nosso Povo comenta, mata-se, esfola-se, viola-se, vigariza-se e rouba-se.

Estamos feitos. Estaremos? Tudo aponta para isso. Os «brandos costumes» característicos dos Portugueses estão, como estavam os dinossauros, em vias de extinção. (Desculpe Professor Galopim, meti a foice em seara alheia, digo, sua…). E as imensas quantidades de armas que «andam por aí», como acentuava o outro, ajudam e participam. E entram, ao contrário dos testículos.

A violência, como tudo o resto, não é um exclusivo made in Portugal. Estende-se pelo Mundo inteiro, tem tentáculos aos milhões, pobre do polvo nas suas limitações. Mas, como dizia o Jacintinho de Tormes, tudo chega atrasado a Portugal, Zé Fernandes. Ou algo assim. Em «A Cidade e as Serras», o Eça botou lá tudo. Lixado, o Queiroz. Não me refiro ao seleccionador nacional, claro.



Realmente do seu Paris natal até ao seu País de origem, as coisas demoravam o seu tempo a chegar. Ainda que viessem de comboio – vinham au ralenti. Logo na Estação de Tormes, quando se voltou para trás, já a caminho da quinta, e viu o zeloso chefe inclinado no cesto do lixo, a apanhar avidamente as revistas de mulheres nuas que trouxera da Cidade-Luz, ele acentuara a ideia mater.

Até as modas. As de senhora e as do procedimento. Diabo. Entrámos, portanto, no crime violento – atrasados. Sorte malvada. E não se diga que tal acontece por sermos… um País periférico. A União (???) Europeia, ainda e só considera a (des)qualificação para a Madeira e para os Açores. Nada disso. Progredimos à nossa velocidade de cruzeiro, mas progredimos. Devagarinho? Não nos podemos cansar muito. O clima-que-temos é quem paga as culpas.


Quando escrevo estas linhas, acabei de ler, no CM, que «são jovens, moram nos subúrbios das grandes cidades e apelam ao crime de forma directa. Ostentam armas, objectos roubados e desafiam a polícia. Estão espalhados na internet, não escondem o rosto e definem-se como bandidos». Ou seja, as novíssimas tecnologias aplicadas ao crime. Estamos bem. Estamos na onda. Somos bué da fixes, actualizados. Progredimos.

O combate a e, sobretudo a prevenção destes procedimentos, vai ser duro, complexo e dificílimo. Vencê-lo-emos? Seria bom que, no mínimo, o limitássemos e o fossemos atenuando. Singular convergência: PR, Governo, Oposição e PGR estão em consonância. Ainda bem. Neste particular, não há lugar para os famigerados «brandos costumes».

(Também, e como habitualmente, publicado no http://www.sorumbatico.blogspot.com/ e, a partir de agora, também no www.cariricul.blogspot.com e no www.anonimasalina.blogspot.com. Ufff...)

Fotos (de cima para baixo):
Arquivo
CM
Arquivo
CM
Aqui agradeço a posteriori ao Correio da Manhã onde encontrei e de onde surripiei... estes «bonecos»

13 comentários:

Anónimo disse...

É muito estranho ouvir o Ministro Rui Pereira na Grande Entrevista da RTP a falar de crime, de polícias, polícias para cá, polícias para lá, a polícia disto e a polícia daquilo, quando a própria entrevistadora é a "JUDITE"
Um abraço e bom fim de semana.
Amílcar

Paola disse...

Chegou tarde. Mas chegou! Parece que em força. Isto de vermos tudo em diferido já não tinha piada nenhuma. Dizem alguns que é um mal esperado e previsto. Só que não nos preparámos para a coisa. Americanices, acrescentavam. E a autoridade deste país faz parelha com os primatas em vias de irem desta para melhor. Agora, acordaram? Mesmo? Já Platão alertava: "(...) a real tragédia da vida é quando os homens têm medo da luz." Vamos ver. Se eles olham e vêem qualquer coisita.

Carlos Medina Ribeiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Medina Ribeiro disse...

Como sucede habitualmente aos sábados, esta crónica está também afixada no Sorumbático.

A novidade é que será objecto de um PASSATEMPO COM PRÉMIO:

Será premiado com um livro policial (um clássico de entre vários, à escolha do vencedor) o melhor comentário que venha a ser feito aqui até às 24h da próxima terça-feira, 2 de Setembro 2008.

Carlos Rebola disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Carlos Rebola disse...

Caro Antunes Ferreira

Se não afinarem urgentemente, os travões desta "coisa" em velocidade de cruzeiro, com tendência a acelerar, crime violento e não só, o estampanço será inevitável. No estado em que se encontra a "coisa" e o sinaleiro da mesma que estão a precisar de inspecção para descobrir as causas de tais desmandos para intervenção adequada. O Sinaleiro precisa de reciclagem formativa, não pode ser tudo pra frentex, sem freio, ou falta-lhe o “homem” do dito, não estamos no eléctrico a descer a calçada da Ajuda... Talvez estejamos mesmo tramados, as regras deixaram de o ser, pelo que se vê.
Para levar recados, as ciber estradas já não se medem em quilómetros, mas em bites que se deslocam à velocidade da luz, nestas tecnológicas ciberestradas. Estamos atrasados, mas lá chegaremos, basta acelerar um pouco mais para alcançarmos o "pelotão da frente" desta coisa sem "travões", pois atão, há que poupar nos calços e na "mão de obra" caríssima na área da "mecânica" especializada. Que se contrate, alguém para o “freio” e que se lixe o trabalho precário, este é urgente…

Um abraço
Carlos Rebola

Zé Ernesto - Gaia disse...

In il tempore a malta distraía-se nos cafés (café e bagaço vinte e cinco tostões); ia ver umas garinas ao Café Royal ou ao Derbi; ao cinema ver uma cowboiada; e vinha no último eléctrico para casa, sem problemas. Hoje fica em casa “na net” a intimidar ou fazendo a apologia da violência. Claro que não são esses “cagões de cascata” que vêm para a barafunda. Limitam-se a atear o fogo às consciências mais frágeis.

Um bem haja
Zé Ernesto (não Arnesto) - Gaia

Passadeira encarnada até ao meu blog para famosos!!!
GOOGLE
site:zuluechopaparomio.blogspot.com poetário
Como não sei onde publcar aí vai para os dois!

Carlos Medina Ribeiro disse...

Mais 2 clássicos policiais a juntar à lista de prémios possíveis: «Rififi» (de Auguste le Breton) e «C, de Cadáver» (de Sue Grafton).

Também temos Chester Himes e o seu ultra-famoso livro «Cidade Escaldante»

GMV disse...

Não sei bem se, efectivamente, sempre fomos um país de brandos costumes. Considero que sempre houve violências dissimuladas atrás desse assumido dito.
Claro que, no rescaldo deste Verão, os casos referenciados parecem em demasia. Afinal, no intervalo do futebol, na feliz ausência dos incêndios, em pleno mês de Agosto, as notícias deram eco aos roubos, aos assaltos, à morte pela vingança, e outros do género.
No seu artigo, destaco a referência feita ao uso da net, neste problema que nos assola. Ainda ontem, na Sic, se falava dos Hi5's da vida, onde jovens se colocam na foto do seu perfil empunhando armas! De onde vêm essas armas? Dos pais, só pode.
É, parece que chegou tarde, mas chegou em grande... isso sim, bem ao gosto do (des)gosto português.
Caro amigo, não posso, no comentário que hoje aqui deixo, passar sem chamar para a conversa tantas outras violências, que não merecem o destaque das nossas televisões. A violência doméstica; a violência de quem, de repente, se vê sem emprego (35000 mil professores?; a violência de quem vai na estrada bêbedo à procura do acidente; a violência sentida pela ausência de quem devia fazer qualquer coisa!
Vai longo o comentário, e para si, querido Henrique uma semana cheia de paz.
Beijos

contradicoes disse...

Com a eliminação das fronteiras
já não existem pois barreiras
aos criminosos internacionais
deixaram de se usar caçadeiras
escolhem-se outras maneiras
para se poder roubar muito mais

Um abraço

Antunes Ferreira disse...

Malta bué da fixe

Hoje estou às voltas com umas linhas do meu próximo livro. Por isso só dei umas quantas respostas no post anterior.

Mas prometo que amanhã é tiro e queda.

Entretanto, o Travessa continua aberto aos vossos comentários para se encontrar o vencedor deste mini-concurso. Não se esqueçam: podem fazê-lo até às 24 horas do dia 2, terça-feira.

E, tal como diz o nosso Carlos Medina Ribeiro, o leque de livros para escolha do que será o prémio... alargou-se. Em frente!

Maria disse...

> Ou seja, as novíssimas tecnologias aplicadas ao crime.

Este copy/past de crimes violentos resulta da falta de interoperabilidade entre as forças politicas.
Não há uma estratégia comum e está instalado um fenómeno de Broadcasting na sociedade, resultante do bug e (in)acessibilidade a meios dignos de sobrevivência, de grande parte da população.

Há que obrigar os jovens a fazer um upload de cidadania em vez de desejarem fazer Download dos bens alheios. O Rewind para os tempos de antigamente é impossível, mas ainda vamos a tempo de fazer undo à violência.
Que se aplique já um antivírus para este pitching de Trojans que não hesitam em decretar game-over, sempre que alguém lhes faz frente.

Carlos Medina Ribeiro disse...

A lista actual de livros-prémio é a que seguidamente se indica.

No final do passatempo, quando o júri decidir quem é o vencedor, o premiado deverá escrever, nas 48h seguintes, para sorumbatico@iol.pt indicando qual dos livros prefere e morada para envio.

Esse envio será feito - o mais tardar - no dia 8, segunda-feira.

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«O Tempo de Anais» (Simenon)
«Betty» (idem)
«A Prisão» (idem)
«Um Crime no Expresso do Oriente» (Agatha Christie)
«12 Aventuras de Sherlock Holmes» (Conan Doyle)
«O Cão dos Baskervilles» (versão BD) (Conan Doyle)
«A Inocência do Padre Brown» (G.H.Chesterton)
«O Segredo do Padre Brown» (G.H.Chesterton)
«A Argúcia do Padre Brown» (G.H.Chesterton)
«Cidade Escaldante» (Chester Himes)
«’C’ de Cadáver» (Sue Grafton)
«Cara ou Coroa» (Ellery Queen)
«A Sangue Frio» (Truman Capote)
«O Homem Invisível» (versão BD) (H.G.Wells)
«O Último Degrau» (Dick Haskings)
«Rififi» (Auguste le Breton)
«A Fuga» (Terry Deary)