domingo, abril 02, 2006

O Abominável


Deambulando pelos Himalaias, dizem as lendas, nomeadamente as budistas, o yeti é uma personagem simultaneamente arrepiante e deslumbrante. Os picos eternamente nevados são o habitat de tal criatura monstruosa que, no dizer de tibetanos, nomeadamente monges seguidores fieis do Dalai Lama, é homem, macaco e deus. Uma trilogia assim, deixem-me que vos diga, não tendo nada a ver com a Trindade dos cristãos, muito menos o terá com outra, desta feita mais de cerveja, bifes, batatas fritas e mariscos q.b....

O nome deriva da palavra ela também tibetana yeh-teh, ente resultante da relação entre um macaco e uma ogra, quiçá parente (afastado?) do terrível Bigfoot, o Pé Grande dos indígenas da América do Norte, nomeadamente daqueles que habitavam as montanhas cobertas pela neve. Faça-se aqui uma advertência: não percebendo o autor de árvores genealógicas e afins, não se pronuncia o mesmo sobre colateralidades deste tipo.


Para os homens brancos, designação muito abrangente mas, à partida, imprecisa, deslavada e falsamente ariana, o «coiso» é denominado o Abominável Homem das Neves. Da sua real existência não existem provas, apenas rumores. Os tibetanos defendem-no como um ser benfazejo que os pode, até, proteger. Mas, livrem-se os que pretendem incomodá-lo, da sua cólera. O yeti não é para brincadeiras.

Georges Remi, aliás Hergé, o pai do Tintin colocou-o como figura central de um álbum em que o repórter aventureiro que encantou gerações, se deslocava ao Tibete para tentar salvar o seu amigo Chang. Mais peripécia para aqui, menos para ali, resulta que o verdadeiro salvador do jovem chinês foi, na verdade, um yeti. E, como tudo o que acaba em bem, Chang retornou à dita civilização pela mão de Tintin. O yeti, esse, ficou-se na prancheta do Hergé e nos milhões de álbuns editados a soluçar baixinho.

Abomináveis ou não, Homens ou não das Neves ou do Augusto Gil, os yetis aparecem e desaparecem na boca de cena mais rapidamente do que os etíopes a correr a maratona. Pode-se – e deve-se? – duvidar militantemente da existência deles. No entanto, há muito boa gente que a seu respeito usa citar o castellano: «Pues mira, Chico, yo no creo en brujas. Pero que las hay... las hay»

Aqui muito à puridade há que dizer que, em verdade, o que não falta são homens muito abomináveis, com neves ou sem. Que não têm nada a ver com o yeti. Como disse o dr. Lopes, eles andam por aí. Fazendo enormidades, essas sim abomináveis. E não são poucos. São autores de façanhas pejorativamente péssimas e quase ninguém lhes vai às mãos. São, assim, abomináveis e inimputáveis...

Tenho, agora, uns quantos de lida diária. Que se comprazem na execução de enormidades – mas também de indivíduos. Este é suspeito de... Abate-se (ao efectivo, claro) e já está. Menos um a aborrecê-los. Mas o homem até era... Não era. E, não se queixe, nem ele nem os seus amigos. Pior seria se estivera na Moscovo estalinista. Não ia para o olho da rua; era fuzilado... provisoriamente.

Anda um cidadão a servir uma instituição durante uma caterva de anos e, de repente e inopinadamente – zás! Ninguém o mandou ser cumpridor, honesto, vertical, decente. Isso são «coisas» que não promovem, antes pelo contrário. Fora ele outro e com comportamento diferente e as palmadas nas costas, os louros e aumentos salariais seriam o melhor pagamento para quem fora praticante do sim, senhores.

Abominável Homem das Neves? No Tibete? Só?

Antunes Ferreira

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