domingo, dezembro 25, 2005

RECORTES A VALER

Um Natal por cá

Assinado pelo jornalista Eduardo Dâmaso, director-adjunto do (ainda e sempre meu) "Diário de Notícias" saiu na edição do dia de Natal um Editorial que não posso deixar de classificar como excelente. Num tema tristemente criminoso e desgraçadamente real, Dâmaso apresenta-nos um Natal que, hoje, é mais importante do que os outros. E explica porquê. E eu subscrevo por baixo o texto excepcional, comungando integralmente com o autor. O DN merece este director-adjunto. Daqui segue o abraço sentido, solidário e entusiásico de um antigo chefe da Redacção do nosso jornal. Parabéns Eduardo. Estou «650%» contigo. A. F.

Acreditar


Eduardo dâmaso

H oje há um Natal mais importante do que os outros. Pelo mundo inteiro celebram-se milhões de Natais, milhões de partículas de crença religiosa ou simples rotina celebrativa definidas pela felicidade ou pela tragédia, pela solidão ou pela alegria. Mas, por cá, há um Natal que sentimos necessidade de distinguir pela actualização do poder metafórico que o evento natalício simboliza. Um Natal que nos diz coisas cruéis sobre nós, criaturas contraditórias no rasto de genialidade ou de tragédia que transportamos, mas que nos empresta um ânimo suplementar. O Natal que hoje vive no Hospital Pediátrico de Coimbra a bebé que aos 50 dias de vida já transportava na sua imensa fragilidade uma história de bestialidade humana é o Natal que nos importa.
É o Natal que nos conta a história em que queremos acreditar e que nos diz que nem tudo pára nesta época apenas em nome da celebração de um outro bebé nascido há mais de dois mil anos em Belém. O que importa hoje são as vidas como a que resiste no Pediátrico de Coimbra à maldade humana, pois é nelas que está o espelho mais complexo daquilo que somos.
A história do Natal em que queremos acreditar é aquela que nos oferece o relato da força e da esperança, que nos aproxima da necessidade imperativa de fundar um novo humanismo. Nada adianta celebrar o Natal cristão ou qualquer feriado de qualquer outra crença se não formos capazes de todos os dias olhar para os acontecimentos que nos trazem a força implacável da miséria humana, para a sociedade desigual em que vivemos, para as iniquidades praticadas em nome de Deus. Não é por ser Natal e por razões fixadas nos calendários e na doutrina da fé que devemos abraçar o bem mas por vivermos num mundo a precisar de novas respostas para os problemas que enfrenta.A ciência deu-nos este ano progressos notáveis no domínio da genética evolutiva, das origens do planeta e da luta contra a doença. Mas também nos alertou para os riscos do aquecimento global e da degradação ambiental.
E é aqui, na esperança e no alerta induzidos pela ciência e numa refundação humanista, que podem estar as celebrações dos Natais do futuro. Só com este caldo de racionalidade e de actualização do papel e da mensagem de uma fé que terá de virar-se, também ela, mais para os problemas da Terra, para o combate aos novos medos e ameaças, e menos para os desígnios do Céu, conseguiremos obter respostas para o inexplicável comportamento humano que se manifesta na dupla bestialidade agressora do seu semelhante e do seu planeta. É aqui que está o debate de hoje e do futuro, até à eternidade o que vamos nós fazer da nossa espécie? É esta a pergunta que ressalta do Natal que se vive hoje numa cama do Pediátrico de Coimbra.

2 comentários:

J.J.Ferreira disse...

Entre o estábulo de Belém, as mortes estúpidas das estradas, os holocaustos inúmeros da História, os hospitais da Humanidade, e outras misérias vai uma caminhada de esperança que o Homem um dia cresça e "per aspera ad astra".

Armando Fernandes disse...

Sem retirar um iota do crédito que o editorial inegávelmente possui, o primeiro reflexo que a sua leitura me sugeriu foi a frase «too little, too late». É certo que não tenho razão alguma para duvidar que o editorial do senhor Dâmaso mais não é do que uma repetição, ou mesmo várias repetições, do mesmo seu chamamento para acordar consciências adormecidas ou letargicamente insensibilizadas. Por isso anulei o «too little too late».
Mas ficou-me a vontade de substituir esta frase por outra mais apropriada. E logo me veio à ideia aquela que diz «nil novi sub sole». Gostei mais desta, posto que antes do senhor Dâmaso, e não apenas neste século e no precedente, mas igualmente em muitos outros séculos anteriores, houve milhares e milhares de outros editoriais, outros escritos, outros ensaios, mais ainda outros discursos, outros trechos, outras canções ditas de intervenção, outros gritos e berros de militantes nas ruas com a ajuda – ou sem ela - do megafone, ou nas prisões e câmaras de tortura. E decerto houve outros gritos e berros silenciosos, calados no fundo da garganta e impedidos de saltar para o plano dos sons devido ao embargo dos soluços, ou ao aperto férreo do gasganete onde fica preso o desânimo, e mesmo o desespero, causado pelo sentimento de impotência, na incapacidade em alterar o curso das coisas cruéis.
Sim, é certo que muitos foram os escritos que sobre o mesmo tema grandes, e menos grandes, cabeças pensaram, escribas gravaram, penas escreveram e tipografias compuseram e divulgaram.
Uma vez dito isto, há uma ressalva a fazer, que é a seguinte: por muito que se tenha dito e repetido, tem o senhor Dâmaso o mérito na coragem de o dizer de novo, pois se não houver quem o diga, arriscamo-nos a que tal se esqueça, o que seria imperdoável e extremamente perigoso. E dizê-lo através dum medium sobre o qual vão recair milhares e milhares de olhos dos eventuais leitores, é uma das boas maneiras de o fazer.
É com Esperança (reparar no E maiúsculo, por favôr!) que desejo veementemente que outra frase não se aplique aqui, ou seja «vox clamanti in deserto».

P.S.: muito, mas mesmo muito mais teria eu a escrever, mas este não é o meu blog, e não quero de maneira alguma substituir-me ao seu proprietário que, ele, sei-o eu bem, muito igualmente teria a escrever. E também não vou alongar o comentário que, possivelmente, deve ter capacidade limitada.