segunda-feira, dezembro 19, 2005

DISCORRENDO

Ora bolas...

Estava eu a lamentar-me e quando «posto» o meu último texto - ZÁZ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Uns quantos, pouquérrimos, compagnons de route desfecham-me comentários como quem aponta a coelhos distraído-desprevenidos. Multumesc frumos, como dizem os Romenos [o que, embora não pareça, quer dizer blago daria, em búlgaro bulgar, ou köszönöm, em húngaro (marciano...) ou dekuji, como soletram os Checos, e em Português... muito obrigado]. Continuem estes queridos descobridores de nova vaga. E que venham mais. Tal como...

... as ondas do mar d'Odeceixe
sucedem-se tranquilamente.
As primeiras - trazem peixe;
as outras... principalmente

Antunes Ferreira, o Vate da Lapa

1 comentário:

Armando Fernandes disse...

Ó Henriquinho, isto é um blog (definição=
blog
n. m.
[WEB] Abrév. de weblog. Log personnel, sur le web. L'idée est, pour un individu, de tenir une sorte de journal personnel en forme de site web et de le publier. Le contenu a une géométrie très très variable sur ces sites de plus en plus populaires.

(In Tout-Savoir.Net)

e não um Muro das Lamentações. Não te armes em queixinhas. É certo que o ditado lá diz que «quem não chora não mama». Mas tu mais pareces uma roda de carroça que chia, chia, chia que é uma desolação.
Bom, lá fui buscar a almotolia e botei-lhe uns pingos de azeite puro de oliveira, virgem (virgem?), de primeira pressão, daquele que se deve ainda utilizar na nossa província portuguesa, espêsso, côr sui-generis esverdeada, e que vai que nem coisa em coiso de padre sobre as febras assadas do porco recém-imolado para bem da causa comum. Sobretudo quando acompanhadas (as febras) da água-pé de truz, e de estalo, pão casqueiro quentinho que só o aroma enebria, e se não enebria completamente, recorre-se à aguardente aromatizada com zimbro que nem os deuses do Olimpo lá tinham. Até creio que era por causa disso que eles andavam constantemente a chatear a mona dos pobres mortais. Bom, adiante...
Pois estas efusões gastronómicas são lembranças de tempos invernais passados em S.Romão, ali mesmo no sopé da Serra da Estrêla, terrinha que me encantou sempre pelas suas paisagens, onde ainda vi pastores e pastorinhos levando as cabras para as pastagens, onde o vento matinal é agreste, cortante, mas quão salutar. Aliás, para compensar essa agressividade, a malograda Dona Encarnação, mãe do marido de minha irmã, às seis horas da matina, quando cá fora o nevão nocturnal tinha deixado tudo da côr do linho (sem plagiar o Augusto), já tinha posto a funcionar, com a ajuda da Conceição, moçoila rude por fora mas favo de mel por dentro, o enorme fogão a lenha que ocupava uma boa parte da cozinha. Era nesse ambiente de conforto acolhedor, quase amniótico, que eu entrava na cozinha para, sentado naquela mesa em pinho bruto que se encontrava num canto dela, decorada com uma toalhinha bordada à mão, me regalava com o requeijão que vinha num açafatezinho de verga, e envolvido numa folha de couve para guardar a frescura. Depois de enfiar um pãozinho caseiro redondo, para aí com uns vinte centímetros de diâmetro, uma malga enorme de café de saca com leite, e um requeijão inteiro, sentia-me perfeitamente afoito a enfrentar qualquer nevão, o mais agreste dos ventos invernais, e até todos os sarracenos que me atalhassem o caminho que tomava para descer até ao largo central do povoado. Ali, com os primeiros raiozitos de sol que a custo tentavam aquecer o banco de madeira - tão usado que já tinha formas de nalgas na madeira do assento - três velhotes (sempre os mesmos) com beatas fumantes de Provisórios presas nos beiços, de samarra com gola de pele de coelho bem colada ao corpo, boné e bordão de marmeleiro, reclamavam, manhã após manhã, o direito de premissas do lugar. E ai de quem tentasse usurpar esse direito consuetudinário e o lugar no banco!! Saraivada de palavras e, se no chegasse, o pau de marmeleiro encarregava-se do resto. Isto é, claro, uma suposição minha, pois nunca os vi chegar a vias de facto, graças sejam dadas ao Altíssimo.

Bons tempos que ali passei.

Um abraço e até à próxima