domingo, janeiro 13, 2008



GOA, AMOR MEU

Meio século são só 50 anos

Antunes Ferreira
Panjim, capital do Estado de Goa. Dezembro de 2007. No mais moderno hotel da cidade, com uma vista deslumbrante sobre o rio Mandovi, decorreu um jantar muito especial. Comemoravam-se os 50 anos do curso liceal que terminara precisamente em 1957. Festa, alegria, emoção, comoção.

Muitos finalistas presentes. A maioria deles constituída pelos que tinham ficado na antiga colónia a que a Velha Senhora chamava o «Estado Português da Índia». De Portugal, uns quantos, poucos mas bons (a afirmação é deles…). Entre estes, a Raquel Olívia Alcântara de Melo, pelo casamento com este vosso servidor, Ferreira. E, claro, à boleia dela, o dito cujo Ferreira, Henrique A. Antunes. Mais penduras, as caras e os caros metades dos presentes que disso usam. E até da Alemanha, um que ali se encontra radicado. Alguns dos actores desse cinquenterário sétimo ano não se viam há precisamente meio século. Quantas recordações, quanta saudade, quanta satisfação.

A ideia germinara em Lisboa. Crescera, pois tinha pés para andar. Conversas cá, conversas lá, conjugação de esforços e tudo estava sobre os carris. Com um final feliz. E com visita ao velho Liceu Nacional Afonso de Albuquerque, hoje recuperado excelentemente, agora sede do Supremo Tribunal, ramo de Mumbai, que o mesmo é dizer de Bombaim.

Era um grupo unido, radiante de se reencontrar, recordando as gazetas e as horas em que os professores faltavam e a malta ia para o Altinho, ali mesmo, gozar, namoriscar, liceu misto, ao contrário da separação estúpida que acontecia na então «Metrópole», comer cajus, manguinhas verdes com sal e malagueta, desfrutar de uma vida de adolescentes felizes. Sem distinção de raças, credos ou outras minudências, que em Goa as pessoas e as coisas eram – e são – muito especiais.

Desnecessário, pensei, citar exaustivamente nomes. No entanto, uma menção para os maiores entusiastas da comemoração. De Lisboa, o Ivo Viegas, «eterno» chefe de turma no Liceu; a Elsa Gomes Godinho (que não pôde ir, com muita pena. Mas, os deveres de recém avó contam muito) e a já citada Raquel. De Goa, o Zito Menezes e o Carminho Costa que se esfalfaram para nos proporcionar um acolhimento cinco estrelas, como dizem os meus netos. Aos outros, mil desculpas; a citar todos, corria o risco de ser processado pelos autores das Escrituras.

Tempo especial para se recordarem os colegas que já não se encontram entre os vivos. E para anunciar a concretização de um prémio anual para o melhor aluno do secundário actual em Goa. Para o qual, e na medida das respectivas possibilidades quase todos os ex-finalistas contribuíram, criando-se assim um fundo, cujos juros em cada ano constituirão o galardão. As autoridades de Goa, com o Chief Minister, Shri – o Senhor – Digambar Kamat, à cabeça, acolheram a ideia com as mãos ambas e agradeceram a lembrança e a sua concretização. Da parte do Executivo veio mesmo a sugestão de que o aluno distinguido deveria ser de estudos de língua portuguesa. Bonito.

Numa terra como Goa, já o escrevi e repito-o com sinceridade, tudo é bonito. Desde a vegetação luxuriante até às praias de sonho. Tomei banho na praia de Varga, na costa do Índico, naturalmente, com a água a uns 25/26º centígrados. Nada de invejas. Não sendo perto, bem pelo contrário, quem quiser ir passar umas férias de sonho pode desfrutar do paraíso a preços inconcebíveis, de baratos. Noutro escrito contarei.

Pela noite foram-se sucedendo as conversas, os risos, os apartes, as recordações. Lembras-te de quando?... Noite cálida, suave, terna, acariciante. Lá em baixo, o Mandovi tranquilo acolhe os barcos iluminados por grinaldas de luzes multicores que o percorrem em tours com música, mandos e danças dos Korumbins.

O hotel, com escassos meses de serviço está situado num alto, virado sobre o rio. De noite, como de dia, é um verdadeiro espectáculo. Os seus terraços a três níveis, oferecem a quem neles se encontra, para além da vista deslumbrante, um excelente serviço, que inclui os grelhados mais afamados. Aliás, a cozinha é excelente. O jantar, bufete, com aperitivos, pratos de carne e marisco e outros para vegetarianos, doces e lambuzices mais, um espanto. Bebidas soft e cerveja. Reparem agora: pouco mais de oito euros por cabeça. Não se acredita; só vendo – e comendo.

Romagem e preito de confraternização. Como dizia um dos participantes, a Amizade nunca morre. É bem verdade. Em Panjim, ficou atestado isso. Sem papel selado – mas com muito empenho e coração.

Nota de rodapé

Seja-me permitida uma nota de pé de página, em jeito de advertência a quem quer que seja que ande por esta blogoesfera, cada vez mais populosa, que, ao pé dela, a China é uma criancinha de cueiros e biberão com apenas mais de mil milhões e algumas centenas de milhão de habitantes. Ou a Índia que ali está mesmo à beirinha, com malta a que já ultrapassou também o bilião, como dizem os americanos e outros. Que é isso para a Internet?

Regozijo-me com a aceitação virtual, baseando-me no tradicional quem cala consente. Estratagema, desaforo, álibi? Ultrapassa-se a interrogativa e anote-se: o autor, eu, é, sou, suspeito nesta escrevinhadela. De tal forma esteve, estive enredado (e com imenso prazer) na ocorrência, como diria um qualquer prestimoso agente da PSP. O que fica acima é prova cabal da «desindependência» do criminoso confesso. Mas, presumo que também neste contexto posso citar que pecado confessado…
AF

(As fotos publicadas são da autoria do bom Amigo António Guimarães, um compincha excelente e bom de objectiva, também finalista de 1957, boa colheita. E deste escriba; quem diria?)

2 comentários:

princesa disse...

que gosto me deu ler este pequeno relato de amizade, que leva pessoas dispersas pelo mundo fora a juntarem-se. Pena tenho de fazer parte de uma geração na qual este é um feito inédito, pois todos andam tão ocupados que esquecem o tempo para adobar as amizades.
Obrigada HAF

Mário Mascarenhas disse...

Estimado amigo Henrique,

Com muita satisfação comparto da sua alegria, emoção e
comoção pela comemoracao dos 50 anos de passagem do curso liceal.

Um abraco, e os meus melhores cumprimentos a sua senhora,