sexta-feira, setembro 28, 2007

SOMBRA DA GUERRA


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Antunes Ferreira
C
avalga uma zebra às riscas brancas e pretas, aos solavancos, e no meio de um verdadeiro pandemónio. À sua volta cruzam-se elefantes, bisontes, girafas, leões e até corvos, montados por seres extra qualquer coisa que berram, impenitentes. Não se trata de um sonho – se o fosse deveria ser um pesadelo – mas também não sabe muito bem o que é. A noite desceu de repente, o poente, lindo, foi-se de apagão.

De repente, o tormento pára. E pára o zumbido tonitruante. Mais uma voltinha, meus senhores e minhas senhoras, só mais uma voltinha. Damas com cavalheiros (no caso deveriam ser cavaleiros, não fosse a má interpretação que poderia ser dada ao trocadilho brejeiro) só pagam meio bilhete. É mais uma voooooltiiiiinhaaaaa! Dá-se conta de que a Punta del Pazo está, como sempre, profusamente iluminada e os clientes, também como sempre, discutem as últimas do campeonato nacional.

Poderia ser a política o tema principal, mas não é. Está visto. É impossível. Um fabiano vai dentro se se meter nela. Aqui, em Luanda, em Lisboa, em Lourenço Marques ou no cu-de-judas. Há um provérbio sírio, muitíssimo mais velho do que as Cruzadas, mas que nesse estranho e longo período histórico era muito citado. Representa, na enorme sabedoria da civilização muçulmana, uma extraordinária maneira de dizer, contrária à nossa expressão – se não os puderes vencer, junta-te a eles.

Repetia-se nas vésperas de 1100, obviamente DC, quando os seguidores do Profeta se deparavam com os bandos de Franjs – assim chamavam os locais aos invasores brancos e de cabelos e barbas loiras, maioritariamente Francos. Face ao destemor, violência extrema e à valentia e crueldade desses inimigos do Islão, bem como à sua superioridade em trajes de guerra e armamento, não era possível dar-lhes grande combate.

O dito, sagaz, era: «O braço que não puderes partir, abraça-o e ora a Deus para que Ele o parta». Querem melhor, perguntava ele, Emanuel Crispim da Silva, natural da freguesia de São Sebastião da Pedreira, concelho de Lisboa, tal como constava do BI. Ao que acrescentava – mas não nascido na Alfredo da Costa. Em casa, na cama materna, assistida no parte pela menina Ermelinda, aparadeira de vão de escada, partos & desmanchos, SARL.

Vão perguntar de onde lhe vêm essas sapiências, a ele, segundo cabo amanuense, carteiro na vida civil e furioso do Atlético, não tivesse ido morar para Alcântara, ali ao Largo das Fontaínhas, quase pegado à refinaria a que os catraios chamavam a fábrica do açúcar. Mais uma coisa a reter: toda a malta era do Benfica, do Sporting, muitos do Porto, alguns da Académica, uns quantos do Belenenses e bastantes da CUF, para não falar já no Barreirense. Mas do Atlético?...

O vício da História

Pois muito bem. Crispim andara na Escola N.º 84, ao cimo da rua dos Lusíadas e tivera com professora a Dona Matilde da Purificação, viuvíssima de fel e vinagre, chata como a potassa, mas que ensinava como ninguém. Gramática, redacções, ditados, fracções, geografia e, sobretudo, história. O sobretudo era para ele, e não se tratava da peça de vestir invernal, que nem sequer tinha.

A virago injectara-lhe no sangue uma transfusão histórica e o Emanuel – não confundir com Manuel, leva um E no princípio do nome – dera em ler tudo sobre a disciplina, está bem de ver tudo o que lhe viesse parar às mãos sobre feitos e efeitos destes, não só da História de Portugal, mas igualmente de outros povos. E o seu tio Dionisio, professor primário em Marvão foi-lhe dando os seus livros, para que os lesse e os guardasse.

Uma biblioteca interessante, a do tio Dionisio. As obras completas do Júlio Verne, uma edição da Bertrand, do Emílio Salgari, desde o Sandokan até aos Corsários de variadas cores, o «John, o chauffeur russo», do Max du Vezit, os livros do Campos Monteiro e, sobretudo, umas quantas coisas de História, desde o Herculano até ao Mattoso. Entre estas, descobrira uma preciosidade: as crónicas de Ibn al-Qalanissi, um historiador de Damasco, a primeira das quais datada de 1099, altura da primeira Cruzada.


Vertidas para Português por um tal Fernão de Souza, corria o ano de 1623, o tio professor tinha-as em velho alfarrábio dos finais do século XVIII, publicado no Porto. Relatavam as Cruzadas vistas do lado dos Árabes. Coisa fina, a princípio difícil de ler para o Emanuel, mas, decorridos uns meses, já perfeitamente por ele inteligíveis. Tornara-se num verdadeiro livro de cabeceira, forrado a papel grosso pelo leitor empedernido em que o Crispim se tornara.

É estranho. Embrulhado na noite quente de Luanda, no terreno vago em frente ao Punta, do outro lado dos combatentes, onde assentam arraiais circos diversos, com os palhaços Botil & Pipoff e o Quinito, os trapezistas voadores Irmãos Gentili, os ilusionistas Dom Carlo e Gino Francescotti, os domadores Karl Schmidt e Tarzan Jones - o cabo Crispim envolve-se agora no carrossel dos irmãos Simões.

Que, além disso, têm ao lado o famoso Poço da Morte, onde o mano Francisco atinge «velocidades espampanantes» em redor das paredes cilíndricas do seu interior, montado na sua moto Leopard. Assim brada, de microfone em punho, o Martins das Ingombotas, apresentador oficial do «estrondoso sucesso», enquanto na barraquinha das bilheteiras o Jaquim Quizombo vai vendendo os ingressos.

O carrossel é um espectáculo de três em pipa. Entrem, senhoras, senhores, meninos e meninas, brancos, pretos e mulatos, tomem os vossos lugares que vamos dar início a mais uma corridaaaaaaaaaaaaaaaaa! Emanuel conhece o dono do divertimento, o Chico Perdiz, nado e criado em Tortosendo, mas levado até às últimas por Angola inteira com os seus jogos e os espectáculos de tudo o que seja visível.

Há que dizer que, para alem da História, o nosso segundo cabo é um aficionado ao mais alto grau de circos e correlativos. Já na Metrópole assim era, aqui reincide prazenteiramente. Mais nestas bandas, quiçá, como refúgio - ainda que transitório – das bolandas da guerra na mata, na chana, nas picadas. Quando saiu pela primeira vez numa coluna, o tal MVL, ao Quitexe, para servir de escrivão num auto de copo de litro, gozo com o auto de corpo de delito, ao voltar, ainda assustado, foi aos Combatentes aliviar-se. E não é que deu certo?


Cuecas castanhas

Regressa ao presente. Nada. Não. Tem de recordar o que lhe surgiu na cabeça durante a safada da coluna. Logo a caminho do Quibaxe, toma lá, uma flagelação com morteiros. Saltar da camioneta, alapar na berma, encolher-se em posição fetal ou quase, para tentar escapar à morteirada. Tiros dos de cá, tiros dos de lá, os gajos nem se deixam ver, só o silvar das balas mete um susto medonho.

No QG, o sorja Benevides tinha-lhe dito para levar cuecas castanhas. Na sua santa ingenuidade e desconhecimento das graçolas soltara um porquê subliminar. Risota geral. Quando te borrares de medo, já não se nota no castanho. O pior é o cheiro. O pessoal quase rebenta de tamanhos risos. Galhofa total. A juntar-se a uma tremedeira incipiente, veio a vergonhaça. Esperem-lhe pela pancada, resmoneou.

Mas os slipes cor-de-merda, ainda que não tivessem sido emporcalhados por qualquer descarga psico-intestinal, bem podiam ter tido a sua utilidade quando, no dia seguinte e depois de uma noite tormentosa, em plena picada de terra solta e seca, um estrondo se fez ouvir na frente da bicha de camiões. Enorme, acompanhado de nuvem de fumo a corresponder.

Mina! Mais disparos – dos nossos, principalmente, e diga-se, em abono da verdade, um tanto ao calhas – mais confusão, mais gritos, mais ordens desencontradas. Porra, se isto começava assim, o que seria o resto? O enxame de camuflado começou a voltar à colmeia, ainda que sem rainha. Os graúdos, deu-se a congeminar, ficavam sempre na ZIAC – a Zona de Intervenção no Ar Condicionado. Daí.

Foi-se a ver, a rebenta-minas improvisada numa Berliet carregada de blocos de betão e sacos de areia e o fundo por cima do eixo coberto de placas metálicas, o que tornava a viatura muito pesada, fizera realmente detonar um engenho criminoso. Nada de muito grave. Umas amolgadelas no camião, e umas esfoladelas nos dois militares que seguiam ao lado do condutor. Este – nem uma beliscadura. Porreiro.

Antes do diabo esfregar um olho, nova paragem de supetão, mais metralha, mais alarme total. Pela primeira vez Emanuel Crispim ouviu a troca de mimos entre os nossos e os turras. Vai na tua terra, portuga de merda, beijar o cu do Salazar, cruzando-se com venham cá a baixo, seus paneleiros, para nós os enrabarmos a sangue frio. E com muitos que te pariu e montes de coisas das mães de cada um, parecia um teatro de fantoches de feira.

Não era – mas era. Que mais seriam do que marionetas os tipos de um lado e do outro? Quem puxaria os respectivos cordéis? Só que os dons robertos de tenda de pano não morriam, nem matavam. Estes bonifrates, sim. Estes procuravam o sangue dos inimigos, de um lado e do outro, movidos sabe-se lá porque manivela.

Os que atacavam, faziam-no pela independência que tentavam conquistar; os que se defendiam atrás das viaturas, defendiam alguma coisa, também, para se sujeitarem a tais galopes. Os governantes regougavam que era em nome do Portugal uno e indivisível, do humanismo e da fé. Vá lá saber-se quem estava do lado da razão. Quem sabe se os primeiros?... E os lobos cerebrais continuavam a contorcer-se. Não haveria outra solução para esta cagada em três actos?

Outra solução

No meio de uma refrega enlouquecida e kafkiana, ocorreu-lhe de novo o islamita. «Os nossos e os vossos estão a morrer, o país enche-se de ruínas e a situação escapou-nos completamente a todos. Não achas que já basta?» contava o cronista que dissera Ricardo Coração de Leão a al-Adel, vali de Saladino, quando tentavam um entendimento pacífico para as carnificinas em nome da cruz ou do crescente.

Raio de altura para pensamentos históricos, mas, boa ou má, o certo é que assim congeminara. E continuava a remoer aquando da chegada ao Quitexe. Terra em que os sinais do ataque criminoso da UPA em 61, os branco é galinha, os amuleto nos livra das bala, e essas terríveis consequências dos canhangulos e das catanas - mulheres esventradas depois de violadas ao lado dos filhos decepados, à mistura com as cabeças dos bailundos «fieis», por mais que pinceladas a cal, continuavam presentes.

A guarnição – entre militares e civis - que defendia a povoação tinha os seus quês e os seus porquês. Nada mais justificado para quem se via em tal situação. No bar taberna «Os Cornos da Palanca» em cujas paredes se viam perfeitamente os buracos das balas, toscamente rebocados a cimento cinzento, remendos impassíveis, mas também impossíveis porque sem remédio, os homens discutiam enquanto engoliam Cucas ou Nocais tiradas do frigorífico a petróleo.

Era gente que, nesses dias lixados, se refugiara em Luanda para escapar da chacina. E que, logo que puderam, tinham voltado a casa, à sua casa, seres humanos que nem tendo nascido ali, mas antes bem longe, no Puto, tinham construído as respectivas vidas por tais paragens, de alguma forma inóspitas, mas proporcionadoras de bens e fazendas que, para uns quantos redundaram em fortunas.

Tudo contado – tudo perdido, ou quase. Emanuel admirou-os, ao mesmo tempo que os considerava uns «gandas doidos». Depois da avalanche de terror que tinham sofrido e vivido, a que, no entanto, tinham sobrevivido, era de gajos com tomates ali voltar, em busca do tempo perdido e das massas igualmente malbaratadas. Gente assim era difícil de encontrar. Mas, pelos vistos, havia-a.

Volta a cabeça aos Combatentes. Do outro lado da Avenida ergue-se a massa hercúlea do prédio de cujas lojas faz parte o café, cervejaria e restaurante, normalmente conhecido apenas pelo Punta. Ao seu lado, uma vidraria, cuja dona é a Marabunta, mulher que desembarcara em Lua com a finalidade de exercer a mais velha profissão do Mundo e, graças a ela e a outras manigâncias, enriquecera. Agora, chama-lhe senhora.

É um mastodonte de betão e outros materiais desde o tijolo até às madeiras que conquistou o seu espaço próprio na avenida, principalmente depois do cruzamento com a D. João II. Mais dois ou três prédios adiante, começa a estender-se um pré-muceque, com o seu casario de adobe e cubatas de pau-a-pique. Morre por lá o asfalto, entra-se no reino da terra batida, barrenta e avermelhada.

Lavar as vistas

Um camarada, também desarranchado, vive numa paralela, antes da Paiva Couceiro, alugou um quarto e também frequenta o Punta. Estuda à noite, para fazer o quinto ano liceal no Colégio Viriato, vizinho de paredes-meias. Há noites em que o Fogaça, Armindo Nunes dos Santos Fogaça, de seu nome completo, fica em casa para lavar os vistas. Com a vista que de lá tem. Crispim sabe a estória de fio a pavio.

No primeiro andar do monstro residencial – do outro lado da avenida há mais iguais ou quase, um deles chamado o Muceque Militar porque nele vivem só tropas e suas famílias – moram três jovens, empregadas nos Grandes Armazéns da Baixa, os Quintas & Irmãos, a que o povo chama de chacota, Quintas & Ladrãos, à Rua Direita. Singularmente, uma branca, outra preta cafusa e outra mulata: a Rosinha, a Matildinha e a Luisinha.

O Fogaça instalou, espanto, na sua janela um pequeno telescópio que o maricas do observatório da Mulemba lhe emprestou para poder ver as estrelas, como ele lhe dissera. Mal sabia o astrónomo amador e invertido, que as estrelas do Fogaça usavam sabonete Lux. E faziam grandes farras em casa, naturalmente à noite, pois de dia trabucavam nos balcões do estabelecimento.

Geralmente, têm parceiros entusiastas. Mas quando eles não estão, brincam as três, uma com as outras, outra com as umas, trocando entre elas posições e carícias. Nuínhas, claro, descascadinhas, mamilos e púbis ao leu, tudo, por cima dos divãs de casal que todas têm numa grande sala comum, pois o apartamento só tem mais cozinha e cada de banho. Mas também no chão, coberto com um espesso tapete a fingir de oriental, aos arabescos.

Parece, até, que é mais atractivo quando estão sozinhas na cena debruada pela janela aberto. Tem graça, pensa o Fogaça, se fossem três machos ninguém viria para os espreitar, a não ser que convidasse uns quantos mais pra lá do que pra cá. Nunca o faria, nunca teria instalado a luneta, nunca. Mas, tratando-se de fufas era um montão de candidatos à espreitadela. E ainda dizem que somos todos iguais. Pois.

É tal o espectáculo que o Armindo cobra aos amigos e camaradas que vão ao seu quarto para encostarem o olho ao óculo. É ele que faz a focagem, cuidadosamente, que a bilheteira é cara. Cuidado: não se podem alambazar, muito menos praticar actos menos aconselháveis. «Punhetas são proibidas» diz a negro, traço grosso, um papel A4 branco colado na parede, à guisa de cartaz. Por baixo, mão malandra acrescentou ao impresso manuscrito insidioso: o resto também…

São assim, as noites dos Combatentes, com carrossel, circo ou quejandos, barraquinhas de cacusso seco frito, moamba de galinha-do-mato, feijão de óleo de palma, ou saca-folha de Cabinda. Ginguba, muita, com casca e sem, com sal e, ou gindungo, maçaroca de milho tenro cozida, caju do Golungo e até calulu de São Tomé. Com cerveja, vinho de capacete e uns brandes na moda, principalmente aquele cuja fama já vem de longe.

Crispim vai regressando ao quarto que alugou nas Ingombotas, em prédio a que a gajada chama quilombo, local de reunião de escravos, no Brasil. Não se apressa, que a noite está quente, mais a mais a Lua espreita, metediça, sem nuvens a ensombrá-la. E vai pensando naqueles gajos do Quitexe, em busca deles próprios, tentando denodada e decididamente recuperar um passado que eles quiçá saibam que – já passou.


De uma porta semiaberta sai a voz radiofundida do António Mourão cantando Ó tempo volta pra trás que é um êxito estrondoso. Nunca a dupla Manuel Paião e Eduardo Damas produziu um tal sucesso. «Mata as minhas esp’ranças vãs; vê que até o próprio sol, volta todas as manhãs…». Para a maior parte dos mânfios do Quitexe, o Mourão e o Paião e o Damas enganaram-se. No que respeita ao tempo, está bem de ver.

2 comentários:

joliva_santos disse...

(Quem está vivo sempre aparece, ainda que seja pouco...)

Caro Chefe,

... Só não percebo é a razão pela qual não encontra editor para os seus (maravilhosos) textos.

Ou, (por outra), encontro uma: como bons portugueses continuamos a dormir (na forma)...

Abraços, queijos e...,

joliva

Roberta disse...

Como escreve bem!...
Não resisti a deliciar-me com a leitura do que escreve, e a deixar um comentário de incentivo. Decerto não precisará dele, pois quem escreve desta forma, sabe muito bem o valor que tem!

Um abraço!