segunda-feira, setembro 24, 2007



SOMBRA DA GUERRA

Questão de apelido


Antunes Ferreira
Toda a guerra é um crime. Nem grande, nem pequeno; crime diz tudo. Chega. Mesmo a de libertação em que eu participo? Vou pela heresia: penso que sim. Lembro-me de ter lido, já não sei onde, que o Hemingway escreveu a dada altura que «a guerra é criminosa. Não acreditam? Perguntem à infantaria e perguntem aos mortos». Ou, quem sabe, talvez não o tivesse lido, quiçá tenha sido a Leonor que mo disse, citando, obviamente o autor.

Ora bem. Fora isso mesmo. Recordo-me agora como se tivesse sido há meia hora. A memória tem brancas que, de repente, desaparecem. O caso. Estavam sentados a uma mesa da esplanada da Cantina da Cidade Universitária, corria 1965, as «coisas» do Dia do Estudante já tinham três anos; os dois, mais o Gonçalves, o Martinho, a Adélia e o Paulo. As miúdas de Letras, eles de Direito. Regra geral era assim. Havia, até, quem dissesse que namoricos só entre as duas faculdades.

Eu, que viera de Angola, mais precisamente de Luanda, do Salvador Correia de Sá, não me admirava do ensino ser misto. Na Metrópole – como então se dizia – os liceus eram separados para que eles e elas não caíssem em tentações da carne. Mandava a Santa Madre Igreja, mais precisamente o Cerejeira, nesse particular mais do que o Salazar. Um preservativo legal e quase radical. No caso vertente, também se comentava que, bem vistas as coisas, a carne não era fraca – era boa. A das meninas, óbvio.

Na Cidade Universitária, se alguém perguntasse o motivo porque, ao longo do dia, tanta malta dos estudos jurídicos atravessava a terra de ninguém, que separava e unia simultaneamente essas duas escolas da Clássica, logo surdia a resposta calina: para irem fazer com as belas das letras uns bons empernanços de pestana. E estava tudo dito. Mais do que isso, sob a vigilância tutelar da recém construída Reitoria, era impossível. Já noutras paragens…

Na Cantina Nova, que em 62 fora palco de acontecimentos muitíssimo importantes – verdadeiramente subversivos para o Regime – encontrava-se o grupo, sendo que, naquele dia do final de um Dezembro solarento, não estavam a Olga e o Fagundes. Discutia-se o Sartre, falava-se da Rive Gauche – quem me dera ir lá passar uns dias – das mortes do Somerset Maugham e do Roger Vaillant e dos OVNI’s que a base da aviação da marinha norte-americana de Maryland garantia terem sido detectados.

Muito mais importante do que essas merdas todas foi o VI Congresso do Partido, que decorreu na União Soviética, adiantara o Martinho, confessamente (para os amigos) comunista. A Adélia nem hesitara – estou-me borrifando para o teu PCP. Alguém falou na abertura, finalmente, do Planetário da Gulbenkian, ali em Belém, ao lado dos Jerónimos, pegado com o mosteiro e sem o desfear?

Fora eu que, de repente, com a voz perigosamente baixa e modelada, mau sinal de perigo para quem me conhecia, e até para mim próprio, lançara trunfos para a mesa metálica. Népia. Esqueceram-se do Vietname. Pouco antes, o cabrão do Johnson autorizara os bombardeamentos de napalm. E vocês recordam a morte do Rimski-Korsakov, enquanto deixam de fora a detenção do Luther King e o assalto à casa do Malcom X…

Gerara-se a habitual confusão das controvérsias. Porém, embalado pelo que afirmara, elevei a voz, impondo assim algum sossego aliás diminuto na ordem dos trabalhos. Estamos aqui no belo paleio e vocês não se dão conta de que eu sou tão preto como esses dois – com a diferença apenas de que isto é Portugal e o que lhes acontece é nos democráticos Estados Unidos da América.

Lembrem-se, meus caros, de que continua uma guerra selvagem em Angola que já ameaça a Guiné e Moçambique. Para defender o Portugal uno e indivisível, dizem, e concretizar a Pátria plurirracial e multicontinental que este País se orgulha de ser. Mas, olhem só: a Leonor é apontada a dedo por andar com um preto. Comigo. Ainda estamos numa sociedade machista que diz que um branco com uma preta é natural, agora o contrário é ultrajante. E calei-me. Já falara de mais.

Estava, porem, entre amigos. Não sabia, no entanto, se dentre a restante malta que se acantonava noutras mesas não haveria um bufo miserável. Eles estavam em toda a parte. Salazar sabia tudo (ou quase) os que o rodeavam e adulavam igualmente. A PIDE não era de modas. Os esbirros espalhavam-se como mancha de azeite derramado.

Leonor agarrou a minha mão e apertou-ma suave mas firmemente. Não soltou um pio, mas esse gesto era muito mais forte e fraterno e solidário do que um discurso de afirmação. Correndo o risco de algo eclodir, ela inclinou-se para mim e beijou-me ao de leve nos lábios. Os companheiros de mesa e de cavaqueira compreenderam. O Paulo até dissera: se cá estivesse o Fagundes, enviava já uma moção de apoio à mesa. Gargalhada geral. Mas, eu destapara a caixa de Pandora.

Nessa noite, na Mexicana, o Viriato Oliveira Nassanga perguntou-me o que é que eu dissera na Cantina que toda a gente comentava e um tanto por tudo o que era sítio. Contei-lhe sumariamente. Ná, camarada, relata tudo, com todos os pormenores e todas as minudências. Pensei para mim que era a primeira vez que ouvia tal palavra. Não dei parte de fraco e embalei na descrição da cena.

Era no café da Praça de Londres que nos juntávamos os poucos angolanos que tinham vindo para a Universidade. Em Luanda, após as promessas do Adriano Moreira, abriram logo em 62, os Estudos Gerais Universitários de Angola. Mas que não tinham Psicologia; por isso eu estava em Lisboa. Chamávamos-lhe o nosso QG, porque era, na verdade, o quartel-general do que muitos apelidavam dos escarumbas.

Vais ter maka com os pides. Não te deste conta do que estavas a provocar, mas vão-te tramar. O Mateus de Sá da Bandeira, que tinha uma bolsa da Mocidade, acabara de sentar-se e assentira com a cabeça. Meteste-te num ninho de marimbondos. Tás codilhado. O que ele está é fodido, reforçara Viriato que se batia denodadamente com o cachimbo tipo inspector Varatojo.

Assim, de supetão, dei conta da trampa em que me enterrara. Mas, já não havia nada a fazer. Mateus, o Tundavala, alcunha resultante da falha gigantesca na serra junto ao seu quimbo, sentenciara, em surdina – tínhamos baixado as vozes, o medo instilara-se e instalar-se em nós – que o melhor que eu tinha a fazer era dar de frosques para a nossa terra.

Levantámo-nos e decidimos ir até à Pensão Flor, na João do Rio, ali à Almirante Reis, onde o mais velho vivia num quarto com serventia. O mais velho era o Januário Martins, aliás Kissombe, que alegadamente estudava Germânicas desde meados dos anos cinquenta. A si mesmo se chamava o profissional da sebenta, de longe a maior mentirola que todo o Mundo ouvira, mas que desculpava.

Acabara de adormecer, disse ele, estava em pijama, um artefacto ridículo, amarelo com estrelinhas cor de burro quando foge, nem roupão botara pelas costas, só de começar a ouvir-nos, eu primeiro, os compinchas depois. Na nossa comunidade, sempre que surgia um qualquer problema recorria-se ao Januário. Tinha quase cinquenta – dizia ele – mas viera para a Metrópole com a ajuda da Caixa Postal de Salazar, a cidade, que não o Botas.

É o caralho, Joaquim, é o caralho de uma situação lixada. Aqui nem pensar em ficar. A bófia deita-te a luva no esfregar de um olho. Nem sabes como elas te mordem. Mas nós vamos arranjar milongo para isso. Ainda não foste à inspecção militar, pois não? Só para o ano, já saíram os editais, é ali para a Avenida de Berna, no Distrito de Recrutamento.

Não vais. Não vais porque vais para a nossa terra. Bilhete de avião arranja-se. E quem paga?, perguntei eu, a medo. Alguém há-de pagar, não te preocupes. Trata mas é de arrumar as tuas imbambas e depressinha. Quero-te a voar depois de amanhã. Se lá chegares em liberdade, pressagiara. Não havia tempo a perder, realmente.

Tudo de jacto, até o avião. Passei sem dificuldades de maior no controle pidesco, sentei-me no meu lugar de Económica, encostei a carapinha ao banco e acordei em Luanda. Com que então, o menino volta prá cubata, disse-me o gajo que registava a minha escassa bagagem. Não vens de férias, nesta altura do ano, a não ser que seja para passares o Natal com a famelga.

Nada, que tinha o meu pai a morrer, com um cancro, no Hospital Maria Pia. Ah, tu és calcinhas? Respondi-lhe por monossílabo. Então que o encontres melhor, quero dizer, que morra tranquilamente e sem muito sofrimento, que estas cabronas destas doenças são lixadas. A morfina ajuda. Boa sorte. Agradeci-lhe e pirei-me dali para fora. Cagaço que chegue.

Não fui em casa, dirigi-me ao Sambizanga, ter com um tipo que o Januário me indicara, um tal sapateiro de nome Francisco. Que me acolheu no barraco, deu-me um prato de funje com caldo frio de peixe seco, nem me apresentou à família. Amanhã, antes das seis da matina, falamos. Falámos. Se eu queria ficar pela capital, a decisão era minha, o problema era meu. Se queria ir na mata, ele trataria de tudo.

Fiquei de pensar. E, por via das moscas, resolvi nem ir visitar a minha malta. Apenas fiz um telefonema, de uma cabina da Mutamba, para o meu velho, que trabalhava ali mesmo na Fazenda, como contínuo. Ele veio cá abaixo, abraçámo-nos, corriam as lágrimas dos olhos dos dois. Resumi-lhe a situação e ele: combater por combater, antes com os nossos. Foi a última vez que o vi. Morreria meses depois com o cancro que não sabia que tinha – nem ele, nem eu, apesar do que dissera no aeroporto. Sacana de vida.

Samba Manuel vive no Prenda, dizem as más-línguas que é chulo, tem várias meninas por conta, no Casa Branca, no Rangel, ali mesmo no Prenda, na Ilha e até nas Ingombotas. É homem de negócios, usa cachucho no dedo anelar da mão direita, grossa aliança no da mão esquerda e mais uns quantos espalhados pelos restantes. Fuma cigarrilhas com filtro e bebe do fino.

Não faço a menor ideia do motivo que levou o Francisco a mandar-me ir ter com ele. Acolhe-me de mão estendida, um sorriso esmaltado na beiçola. No meio do piano branco, uma tecla de oiro. Parece bem. Oferece-me cadeira, enche-me o copo, você veio da Metrópole, disseram-me, e precisa de ficar fora da circulação por uns tempos. Ou seja, fazer um estágio, de preferência remunerado, não é? É.

Primeiro, vai comer uns camarões com muito gindungo ao Cacuaco. Fica lá dois dias, morfando mariscadas. Aproveite, pois serão as últimas que lhe passarão pelo estreito – até à vitória final. Ao terceiro, arranja lugar no maximbombo que o levará até Cambambe, para tirar umas fotos na barragem. Se lhe apetecer, leve uma moça, sempre fica bem. Tem uma que eu conheço e que orienta as das mesas no João Cachucho. Chama-se Leonor. É branca, da Cela, mas é das nossas, sem dúvidas nem suspeitas. Depois da barragem, o resto é consigo, claro, com todo o nosso apoio. Não é favor: muito raro ter uma incorporação como a sua. O Partido precisa de si. Angola precisa de si.

Logo me havia de sair na rifa outra Leonor, e ainda por cima, branca. À minha Leonor nem um beijo lhe dera, porque não dera despedida. Nem tempo, muito menos disposição, quanto mais desvario. Podia ser perigoso para ela – mas também para mim. Tinha-os na peugada e não podia dar-me ao luxo de fazer cair comigo alguém como a Leonor Mendonça. Deixara-lhe, tão-só, uma mukanda por intermédio do Viriato: adeus amor.

Enfronho-me numas bocas de caranguejo de Moçâmedes, com muitas Cucas à mistura. O cozinheiro esmerou-se no picante, puxa que puxa a cerveja estupidamente gelada, como dizem os locutores brasileiros quando anunciam o chope da Brahamas. Há pouca clientela, reabriu recentemente a marisqueira, ainda mete algum susto ir ao Cacuaco, embora por ali não se registe qualquer actividade militar. No entanto, nunca fiando.


Tenho a certeza de que ela, a Leonor branca daqui, me está a observar por trás do balcão. É uma loira um pouco roliça, mas com tudo nos devidos lugares. Agora estou eu certo de que ela sabe quem sou eu e que a analiso. Quase sente o meu olhar um tanto lúbrico a percorrer-lhe as curvas gostosas e bem delineadas do seu bronzeado natural. É menina para isso, e para muito mais. É boa pra cacete, também dizem os brasucas. E ela sabe.

Desenrosca-se lentamente como uma verdadeira boa que acabou de digerir um boi, e avança até à minha mesa. Disseram-me que quer falar comigo. Quem o mandou? Que pretende? Apoia a mão esquerda numa anca torneada e as calças justas que usa revelam tudo o que tem. E mais que fosse. Convido-a a sentar-se, depois de lhe informar que venho da parte do Samba Manuel. Falou com o senhor Samba? E os olhos semicerram-se-lhe como se pretendesse avaliar-me melhor.


Ocorre-me, de golpe, a história do Capuchinho Vermelho, dos olhos do lobo mau, grandes para melhor ver a pseudo-neta melhor, antes de a comer. Mau. Lá começamos com os trocadilhos. Vontade de a comer não me falta, mas não igual à do lobo péssimo. Será ela, porém, que me deglutirá? Como? O jogo apenas começou, mas as cartas já estão marcadas e cada um de nós está certo de que ou é trigo limpo, farinha Amparo, ou vai ser um descarrilamento de truz.

Passo adiante. Sucedeu o que tinha de suceder e ponto. Deixo outra Leonor com o meu carimbo. Saio de madrugada, alegadamente para a barragem, num land rover a cair de podre, preso por arames e em nove horas estou na base da guerrilha. O condutor é um preto, preto, como o carvão. Olha camarada, até parece que sou da Guiné, mas sou de Nova Lisboa. Os meus pais me fizeram numa noite escura. E ri-se. Eu, também.

Pelo caminho, e que caminho, trilhos que nem picadas são, vou descobrindo umas sanzalas queimadas, gente churrascada, mais à frente o esqueleto enegrecido de uma camioneta de passageiros, tem ossos e caveiras lá dentro, ó meu, lhe acertaram um RPG, queimou tudo, metal e pessoas. Ainda encontro mais uns quantos restos sinistros.

E o gajo contando, incansável, que acolá se tinham descoberto umas cabeças de patrícios, degolados pelos filhos das putas da UPA. Mais além as piças e os tomates de um branco que fora capado, espetados em paus enterrados no chão. Paramos. Olha camarada, você ainda podes reparar se olha com cuidado no castanho do chão. O sangue se entranhou, ficou. Seco.

Esses bandos do caralho, cheios de vinho e de liamba, por ordem do Holden Roberto, nem os seus irmãos pretos respeitaram. Porquê? Porque eram bailundos? Porque tinham vindo na tonga do café, ajudar os tugas a roubar o nosso? Não justifica, camarada. Há brancos sacanas, há pretos sacanas, mas preto que mata preto só por causa de merda pequena, é assassino e criminoso, não achas, camarada? Claro que sim, acho.

Daí que comece a pensar no crime que a guerra é. Sempre foi, é e será. Tem problemas que não se podem resolver de outra maneira, infelizmente. Mas que é um crime, é. Se o Salazar e os outros filhos da puta que o rodeiam e incensam tivessem tido o bom senso de aceitar as propostas do Agostinho, do Cabral e do Mondlane, outro galo teria cantado. Mas não, preferiram salvar o império e a cristandade e deram isto. E nisto.

Chego calado - ruminando essa qualificação de crime - à base, na base, como diz o condutor, apresento-me e bebo água mais ou menos fresca de uma cabaça pendurada na ombreira do que foi uma casa de roça para os contratados. Ou seja, os escravos. O comandante recebe-me. É um jovem dos seus trinta e picos, um pouco mais velho do que eu. Trata-me logo por tu. Nem te pergunto como aqui chegaste. Estás cá, é o que importa e se vieste foi por tua livre vontade. O tipo sabe. Mas quer marcar o território, como fazem os leões, só que estes mijam para depois o reconhecerem pelo cheiro.

Chama-se Amadeu, mas tem o nome de guerra de Canhoto. Apelido? Ignora a interrogação que deixo apenas no ar, pois não a enuncio. Eu apresento-me, Joaquim Marques Oliveira, vindo de Lisboa, perseguido pela PIDE. E logo: bom, perseguido, perseguido, ainda não, em vésperas de o ser. Prefiro falar verdade logo de início, se ficar alguma suspeita entre nós é pior do que picada de marimbondo que dói, mas dá, sobretudo, comichão.

À noite, de tão cansado e amachucado pela viagem, não tenho sono. Cacimba e um friozinho vai corroendo os mais que habituados ao calor. Sento-me de pernas cruzadas debaixo do corpo, á maneira de Buda. Uma fogueira faz dançar as ramas das árvores, numa estranha coreografia surrealista.

Vem-me aos lábios Nureyev. Ainda que ele seja siberiano, nada a ver com Angola nem na Leba há frio assim tão frio. Mas bailarino e coreógrafo – não tem rival. Como disse uma vez o Fagundes, ele é tão bom que até se lhe desculpa ser panilas. Foi o que ele sentenciou, eu assisti e ouvi.

Canhoto sai da sua barraca e chega-se ao braseiro. Pergunta-me se fumo, ao que lhe respondo negativamente. Fazes bem, camarada. O tabaco é quase sempre um empecilho. Numa emboscada não se pode fumar, ainda que se rebente de vício. Na mata, no carreiro, na picada, também não. Aqui na base, só para espantar os fantasmas da má sorte. Mas, não creio que resulte por aí alem.

Agacha-se ao meu lado e diz-me, olhando-me fixamente, iluminado pelas chamas bailarinas: tu não estás muito calhado para isto, pois não? Tu és mais de cidade, de Lisboa, sei lá, de Paris, Luanda já nem te chega, não é? E vai gravando a canivete – com a mão esquerda - uns entalhes num ramo de árvore que previamente descascou. Tu não gostas da guerra, meu.

Explico-lhe que continuo a pensar na guerra e no crime e que não há maneira de os dissociar. Olha Canhoto, não há guerras justas. Cito-lhe Hemingway. Conhece a frase e até sabe o livro em que ela vem. Continuo. Esta que nós fazemos destina-se a dar a liberdade à nossa Pátria, e para isso temos de vencer os colonialistas. Fazemos o que temos de fazer, o que devemos fazer. Se é preciso matar inimigos – pois que se matem. Mas, tens razão, amigo. Não gosto das guerras. Se houvesse outra maneira…

Há, Joaquim, há e tu sabe-lo. Mas, a corja dos politiqueiros e dos ricaços do Puto não a quer. Precisam dos tiros, das granadas, das armas, de tudo o que vendem aos subdesenvolvidos, aos párias, aos gajos como nós. Somos para eles, apenas, cifrões. Ganham dinheiro e estão no poleiro. Para eles o sangue é barato. De borla, mesmo. Estendo-lhe a mão e ele faz o mesmo. Eu a direita, ele a esquerda. Com uma risada. Agora já sabes porque me chamam Canhoto. E num sussurro: Não digas nada, pá, o meu apelido é Salazar. Mas não tem nada que ver com o cabrão. Abrenúncio.

2 comentários:

Anónima Salina disse...

Sentir e quase encarnar, sem qualquer sombra de dúvida, na vida de um estudante da década de 60 em apenas 5 minutos de leitura... com direito a "empernanços de pestana" (fica a expressão gravada, achei genial) e, no topo do bolo, o idealista descobre um canhoto que, pior do que ser maneta era Salazar... é de mestre!!! Nem o Hemingway, nem o meu saudoso Cardoso Pires me fazem viajar no tempo e no espaço desta desta forma alucinante!
Mais um "obrigada" é muito pouco. Se sair o livro que venho pedindo há décadas, compro mil, combinado?
AS

PS - A desgraçada da descrição da comida e da Cuca fez-me uma fome do catano! Como sabe, o que menos falta me faz são estimulantes de apetite. Essa parte não agradeço!

Raul disse...

É verdade aconteceu ...
Agora reparo que desta vez nao torceste o pescoço a ninguém.