sexta-feira, setembro 21, 2007




SOMBRA DA GUERRA

Um novo atoleiro

Antunes Ferreira
O
camião, uma GMC da Segunda Guerra Mundial, está atolado na lama barrenta da picada. Vinha carregado de cunhetes de munições para diversas armas, pesadíssimo vinha, o que ajudara a enterra-lo no solo empapado em água. Até meio dos pneus foi engolido numa armadilha quase fatal. Quase? Verá-se, como diz o ceguinho. Daí que o pessoal tenha descarregado, à unha, o material. À mistura, uns caixotes de uísque e gin. Guerra é guerra.

Manuel Martelo é condutor do Metro de Lisboa. Aliás, o único comboio subterrâneo. Meses depois dele ter sido inaugurado, ou seja em meados de 1960, ele era um gandulo que vinha do liceu e apanhava o animal para regressar a casa. O grupo era porreiraço e os seus elementos entretinham-se durante a curta viagem. Estava na moda uma canção do Marino Marini, El telegrama. Quando o senhor da cabina avisava pelos altifalantes «a próxima estação é Rotunda», logo eles cantavam em coro o refrão «Ya lo sabia, ya lo sabia…»

Daí lhe viera aquela ideia peregrina de vir a ser condutor do Metro. Que, a bem dizer, era tão pequeno que o pessoal graçolava sobre o ir apanhar o centímetro. O Costa, Joaquim, filho do Costa dos Frangos, Eleutério, que, depois das aulas, ajudava o pai a churrascar os bichos, ainda o tentou demover. Que merda de vida seria a sua, sempre debaixo do chão, como as toupeiras.

Qual quê?! Concorreu; o progenitor Martelo, Raimundo, meteu uma cunha de peso a um Senhor conhecido do primo Rogério, o Ximbica, que era pessoa grada na empresa. Ficaram apurados, ele e mais 27 gajos. Empenho? Ná. Ele nascera para aquilo, sem empurrão entrava – sem empurrão entrou. Ainda que as más-línguas, sobretudo da família, dissessem que sem o Ximbica…

Começou a namorar com a Jacinta, dactilografa, dos escritórios de Sete Rios. Onde passeavam, onde haviam de passear? Pois, no Metro, de mão dada, os túneis eram escuros mas as carruagens muito iluminadas, nem um beijinho ao de leve podiam trocar. Quando havia lugar, sentavam-se lado a lado, o calor de um passava para o outro, era quase orgástica a situação. Moravam na mesma rua, isto é, ela na da Aguada, ele na da Aguada, mas Travessa da.

Vingavam-se no átrio das escadas da moça, esconsas, a lâmpada do tecto apagara-se, se calhar fora ele dizia a vizinhança, era um fartote. Mão na mão, mão na coisa, coiso na mão, coiso na coisa é que não, dizia a Ritinha apanhadeira, uns anos bem puxados, 43 sussurrava ela, upa, upa, somassem-lhe mais uns, largotes, em cima. De resto, em cima gostaria ela que se lhe pusessem, mas isso já fora. Ninguém lhe queria já saltar para a espinha.

Aqueles momentos de êxtase ninguém os via. Mas já corria na rua comum, que muita gente sabia dos combates amorosos sem luz. Um dia, quando vinham da estação, uns tipos que se diziam amigos do Martelo entraram de cantar trova muito em voga na boca dos do Ouro Negro. O Milo e o Raul, acompanhados de coro, avançavam num «É só marmelada, é só marmelada» que caíra no goto. Era isso que essa gajada entoava com requebros sacanas.

Tinham jurado reciprocamente que, com o rebentar da guerra do Ultramar (havia quem disse colonial, citando que até havia um Bairro das Colónias), se ele fosse para África, o mais provável, ela esperaria por ele para, na volta se casarem. Coisa que ficou rigorosamente entre os dois, não fosse o diabo tecê-las. Os pais dela - nem pensar. Não queriam um chofer de cano de esgoto para a filha, que até fizera a Patrício Prazeres e com boas notas.

Os Martelos – tanto se lhes dava. Se a Jacintinha fizesse feliz o Manel, estava tudo bem. Ainda que a Dona Benvinda tivesse as suas dúvidas, uma mulher que trabalha com homens num escritório, não sabe fazer umas pataniscas e um arroz de feijão, não passa a ferro umas calças a precisarem de vinco, não passaja, pior, não prega um botão. Mas isso era lá com ele. Quem boa cama fizer, nela se há-de deitar.

Vai daí vieram as sortes, apurado para todo o serviço, mal parecia que assim não fosse. Na bicha de homens nus, tinha à sua frente um tipo alto, esgrouviado, com ar de pacato e um coxo, um perneta, pois lhe faltava o pé esquerdo. Este sorria, na perspectiva da escapadela por mor da deficiência. O coronel da Junta, mesmo antes da pronúncia dos médicos – este está apurado para os Serviços Auxiliares.

Interrogações pairaram no ar? Sem um pé e apurado? E um dos médicos, por certo miliciano, arriscou, ó meu coronel, mas o homem não tem um pé. Deixe-se disso, doutor. Na recruta fica dispensado de marchas e formaturas. Depois, no quartel, sentadinho a uma secretária, não precisa das patas para escrever guias de marcha e outros papéis. Na vida militar há soluções para tudo. Só para a morte é que… Mas disso, encarregam-se os cangalheiros - e já está.

Entreolharam-se os actores daquela estúpida comédia. Muito mal deviam ir as coisas para que tal acontecesse. Na tropa, tudo se resolve, ou quase. Ao mancebo alto o sargento do livro de registos, esferográfica à merceeiro, atrás da orelha, perguntou se sabia nadar. Sei. Então vai para a Marinha. E o calmeirão: porquê? Já não há barcos? Vais ver se há ou não há, fuzileiro nas bolanhas da Guiné. A ameaça saiu qual rajada de Breda.

Resumindo e concluindo: ali fora parar, a Nambuangongo, que só se dera conta o Martelo de que tal existia, lá no cu do Mundo, através da RTP e das fotos de um tal Fernando Farinha. Ouvira contar os feitos do coronel Maçanita, já lendários, que comandara a coluna saída de Luanda e reconquistara aos cabrões da UPA a localidade. Agora, está ele, Manel para os amigos e camaradas de armas. Nesta situação inconcebível tempo atrás, mas real, palpável e preocupante.

O pessoal afadiga-se no afã de safar o camião da enrascada em que se metera. Soldados, camionistas e ajudantes destes bem empurram, assoprando pelo esforço desumano. A besta metálica, porém, à tona da terra movediça quase tanto como as areias, não se move. Pelo menos, não aparenta. Nem faz nada por isso, na sua inércia ferrugenta. Parece.

Já se tentou com os macacos hidráulicos de diversas viaturas do MVL, se calhar de todas. Mas o atoleiro não permite apoios. Resvalam e há o perigo da camioneta cair pela ribanceira que tem de um lado. Estão agora a tentar meter sob os pneus (?), se lá se conseguir chegar, ramos de árvores e os tapetes de outras viaturas da coluna. Para o rodado se agarrar e não girar em vão, atabalhoadamente.

Na frente está uma Matador, velhíssima, o cair de podre disfarçado pela tinta de camuflagem. Mais provecta do que a GMC, talvez da guerra dos cem anos, quem sabe. Pelo menos, das invasões napoleónicas... Que, porem, possui um guincho potentíssimo, a correntes. Um camionista mais engenhocas conseguiu arranjar um cabo de aço, fortíssimo, ainda que fino. Mas maleável. Enrosca-se o mesmo na argola da frente da corrente e logo surgem as cordas mais diversas que vão cobrindo e manietando o engate.

C’um escafandro, recomeça a chover. Aumenta o chiqueiro. Não aumenta. Foi só uma ameaça, uns pingos mais gordos, chuva passageira, vá malta, arriba, vamos tirar esta merda daqui. Range o guincho em sons metálicos de arrasar ouvidos sãos mas incapazes de aguentar tamanhos decibéis. O motor da Matador rosna violentamente e há mais três camionetas a puxar pela GMC ao mesmo tempo – ou quase.

Uma chinfrineira monumental, a que se juntam as pragas do pessoal, os incitamentos, agora é que é, puxem seus macacos. Os pneus da enterrada continuam a girar em vão, fazendo saltar sobre a gajada pedaços esponjosos de lama. Vendo que a gente está quase a baixar os braços e desistir, o Manel solta um grito: desencavem-na que eles chegam. E, no meio da confusão, dispara umas rajadas para o ar.

Entre a fuga e o desenterro, os homens, cientes de que, de uma ou outra forma podem ser trucidados pelos turras, incham peitos e respiram fundo – e puxam, porra!, como puxam. A Matador estremece. Será que o guincho se vai soltar de tanta força e podridão? A GMC treme, oscila, arfa-lhe o motor que o Zequinha seu condutor ligou e calca o prego a fundo.

A enorme caranguejola parece animar-se. Os pneus, prenhes, tentam agarrar qualquer coisa. E um dos ajudantes, o Chipande, mete-se-lhe por baixo e bota uma lona de cobertura. Um estrondo e um brado: a puta mexe-se! Mexera-se a prisioneira do lodo pantanoso e vem penosamente para fora dos enormes buracos que abrira no chão. Malta, não a deixem escorregar! Ninguém arreda, muitos escorregam – mas a GMC não.

Quando param e a camioneta está salva, aí lembram-se todos do chegam eles! Fazer segurança, seus sacanas, que os capados tramam-nos. Prás valetas, já, armas destravadas, culatra atrás. Só o Martelo, consciente do que fizera, não entra na contradança. O alferes que comanda o MVL dá-lhe um berro: alapa, capado! Estás que te borras! Nem te mexes!

Porem, o capitão Salzedas, do SGE, lateiro como lhe chamam, curtido de muitas vidas, levanta a voz: ó nosso amigo (não se pode dizer a patente, nem trazer galões ou divisas) não grite mais. Se safámos a viatura – e de que maneira! – foi graças a este senhor gajo. E, na calma dos seus 51 anos, explica o artifício do Manel, o chegam eles como empurrão último para se atingir o objectivo: desenterrar a GMC.

Há um suspiro de alívio, tão fundo que se deve ouvir no aquartelamento de Nambuangongo, ali a uns doze quilómetros. O furriel Castanho até comenta que o desabafo da adrenalina foi mais ruidoso do que o cagaçal feito para exumar o camião. Voam pelo ar gargalhadas, muitas nervosas, foda-se, assim é mais porreiro. Eles não chegaram, nem vão chegar. Não andam por ali.

Gente, se andassem estava armada uma maka de três em pipa. Teriam limpado o sebo a toda a malta, empenhada no esforço hercúleo, as canhotas abandonadas no capim, segurança uma ova. E eles nem esboçariam um arremedo de defesa. Seriam caçados como coelhos à boca da lura. Teriam sido, sim senhores, mas, felizmente não foram.

Acalmados os ânimos, refaz-se cuidadosamente a coluna – os filhos da puta não vêm por ali, definitivamente – e ala que se faz tarde para Nambo. Onde, três horas depois, são recebidos com palmas e hurras. Salvaram a GMC e salvaram-se eles. O coronel comandante vem cumprimentar o alferes Figueiredo pelo feito, mas este chama o Martelo que se chega e faz a continência.

Vossa Excelência, meu Coronel, saiba que foi este homem que nos safou. O coronel franze o cenho. Junta-se ao grupo o capitão Salzedas e à compita com o Figueiredo, quase se atrapalhando um ao outro, contam, tim-tim por tim-tim, o feito do Manel. O comandante ouve. Puxa uma fumaça do cachimbo que, entretanto se apagou – caso raro com tal proprietário – remexe no fornilho, chega-lhe um fósforo dos grandes, Quinas.

Ouve, cada vez com mais atenção, no meio do silêncio que se fez, a malta esbodegada calou o vozear e segue, impressionada, o relato sincopado, mas perfeitamente perceptível. Os kikos que andaram pelo ar, estão agora nas cabeças dos seus donos ou nas passadeiras dos ombros das fardas. Um soldado fuma no côncavo das mãos para disfarçar, porque não pedira licença ao coronel para o fazer.

As vozes dos relatores vão subindo de tom, acicatadas pelo entusiasmo de ambos. Nem o Amadeu José de Freitas, a relatar um Benfica-Sporting na final da Taça de Portugal, no Estádio Nacional, chegaria a tais exaltações. Vão chegando ao fim os cronistas daquela batalha. Salzedas, que passou com mérito o seu exame para oficial na Escola Central de Sargentos, em Águeda, já lá vão uns anitos, sorri.

Admirador confesso do Fernão Lopes, do Gomes Eanes de Zurara e afins, até do Mendes Pinto, grande inventor, revê, naquelas frases encomiásticas que ele e o Figueiredo usaram, a escrita de tais autores. Quase se sente – não em Nambuangongo – mas na corte, com o rei sentado no trono, o queixo apoiado numa mão, escutando os feitos contados pelos historiadores. Que, naquelas alturas, ainda não sabiam o que eram bem, muito menos que ficariam para a História. Estórias.

Jacinto Figueiredo, aluno de Económicas do ISEF, alferes miliciano atirador, está mais cansado do discurso do que estava aquando da cena na picada. Talvez não seja bem assim, mas parece-lhe. Esfumam-se os últimos arranques e a soldadesca rompe em aplausos agora próximos da loucura. O coronel Machado levanta-se e do alto do seu metro e oitenta e muitos, manda que se faça silêncio.

Que cagada, pensa o furriel Castanho, nem se pode aplaudir um sacana com eles no sítio. A tropa é mesmo assim, nem uma bufa baixinha se pode soltar. E pensava ele que o comandante não dava essa impressão, mas era um gajo pachola. Agora, porém, manda e a maltosa obedece. Quando voltar à vida civil, ele que é cafuso do Lobito, vai deixar o escritório onde trabalha, da Companhia Nacional de Navegação, e pira-se para Benguela, onde entrará no Rádio Clube, a estagiar como locutor.

Então, sim, então já não estará às ordens dum filho da mãe de um coronel qualquer, e poderá dar largas ao microfone de elogios ou de críticas. Claro, com conta, peso e medida, para que a Censura não o trame. E imagina-se nas ondas hertzianas, a dar verdades, só verdades, nada como o Ferreira da Costa que arrota quotidianamente excrementos de mentira no seu «Rádio Moscovo não fala verdade». Seu, dele. Que cabrão! Ele, não, ele dirá tudo o que puder. Mas, sem falar, obviamente, no direito a ser indendente que a sua terra tem. Porra!


O coronel abre, finalmente a goela, ao mesmo tempo que dá um passo em frente e, sem cerimónias, abraça um Martelo aparvalhado. És um gajo valente, esperto, inteligente e oportuno. O soldado, meio envergonhado, retribui o amplexo, enquanto o oficial lhe dá palmadinhas nas costas. Vou propor-te para a Medalha dos Serviços Distintos, de oiro e com palma.

E, claro, vais gozar uma licença alargada, quase uma graciosa como as dos funcionários públicos. No Puto, está bem de ver, bem a mereces. Para já, vou mandar-te ao nosso general CEMRMA, em Luanda, para que ele te conheça. Martelo, liberto dos braçorros do comandante, se tivesse um buraquinho de formiga ali ao pé, enfiava-se pelo chão dentro.

Carago, ele não fizera mais do que desenrascar-se a si próprio e ao pessoal e à GMC e à Matador e às outras camionetas da coluna. Fora só isso. Pede autorização ao comandante e diz-lho mesmo. Ó meu safado: ainda por cima és modesto, nada de emproanços, para ti foi tudo simples, apenas uma artimanha. Foi, mas muito bem engendrada, rápida e coroada de êxito. Oportuna. Tens de ser recompensado, ó Martelo.

Já o trata pelo nome, deixou de ser o 1674/68, mais um bocadinho era de 69, sabe-se lá para o que um homem está guardado. O coronel volta-se para a maralha: bebidas à discrição. Nada de Mosca, Constantino ou L34. Hoje emborca-se o uísque e o gin que vinham e vieram na GMC. Graças ao Manuel Martelo. Não quero bebedeiras! No entanto, os que se enfrascarem não dêem nas vistas. Metam-se nas casernas, xixi e cama.

As sentinelas e o piquete bebem só umas pinguinhas. Serviço é serviço, conhaque é conhaque. Voltam os vivas! Castanho rectifica rapidamente o curso do pensamento. Afinal, o nosso comandante também se emociona. Quase jura que lhe viu os olhos embaciados, mas, pode ter sido da chuva miudinha que voltou. Sempre tinha razão, o homem era outra loiça, afinado, duro, mas competente. Humano.

Um homem, mais a mais coronel, não chora. O Martelo também não chorou, nem chora. Gajo com um par de tomates maior que os do padre-inácio. Em tempo de guerra não se limpam armas e o tipo provou-o. Quem sabe, se calhar nem se deu conta do que fizera. O oficial chama-o. Ó Castanho, venha ali ao meu quarto que vou fazer a informação e o despacho e você tem jeito para isso, embora seja atirador. O furriel faz, muitas vezes, esse serviço, Machado tem absoluta confiança nele.

Assim fazem. Mário Machado dita e João Castanho começa a escrever. Meu comandante, isto já é tarde, também não é dado e arregaçado. Não há pressa. O Martelo não segue já. Vá-se deitar, durma, sossegue. Foram muitas e alterosas emoções, que eu bem vi. De uma só vez. Não é por mim, sabe que estou sempre pronto e, nomeadamente com uma pessoa como o meu coronel não se pode dizer que não; eu, pelo menos, não posso. E veja, não lhe estou a passar a mão pelo pêlo.

Sei, Castanho, sei. Já lhe tenho dito que você é insubstituível, embora saiba que os cemitérios estão cheios desses insubstituíveis… Mas, sabe, eu não gosto de deixar para amanhã o que posso fazer hoje. E, inesperado, uma confidência: desde miúdo que aprendi isso com o meu avô, depois com o meu pai e depois ainda com a minha mãe, já viúva. Vá, continue e se tiver algumas dúvidas do que eu disse, corrija-as e venha mostrar-me para assinar.

O furriel acaba os apontamentos, ele sabe alguma coisa de estenografia, assim é mais fácil. Estranho, o gajo ditou mais depressa do que o Manuel Faria a correr e a ganhar a São Silvestre de São Paulo. Não é costume. Mais pausado, mais pensado. Mas, que se lixe. Assim quis o comandante, assim se faz. Manda quem pode. Sai e vai passar à máquina do Canelas, esse sim, escriturário, mas que dá erros que são barbaridades. O sacrista diz que é da máquina de escrever, uma Remington, que tem as teclas tortas. Olha lá, bandalhote: um mau dançarino diz sempre que o soalho está inclinado.

Volta. O Coronel lê, concorda e assina com a sua letra cursiva e regular. Castanho cobre o nome com o carimbo da ordem, meio azul meio roxo, a guerra não dá pra mais. Pra armas sim, agora pra carimbos de borracha… Despede-se, pede licença para se retirar, vai meter a papelada no malão respectivo e entra na farra que está ao rubro. O Vat69 e o Gordons escorrem pelos gorgomilos que é uma festa. E o Boresford e o Jonnhy Walkers, até o Monkies.

O Martelo aproxima-se, um tanto zonzo mas não encarraspanado. Alegre. Ainda. Ó Castanho – tratam-se assim, de tu, tinham feito serviços, guardas, emboscadas, golpes de mão, sempre juntos, daí o terem deixado cair o meu furriel da ordem – achas que isto é um sonho ou quê? ‘Da-se, não é sonho nenhum. É uma realidade bem verdadeira. O nosso coronel já assinou tudo. Podes emborrachar-te à vontade… Vais ver a tua Jacinta, com medalha ao peito, os teus futuros sogros ainda tiram uma foto de braço dado com o quase genro herói. Vais ver.

No dia seguinte, de manhã, como o comandante se atrasasse para o mata-bicho foram dar com ele estendido na cama, um meio sorriso na face fria. O Capitão Salzedas, chamado a correr, comentou em surdina, coitado, acordou morto. O médico da Força Aérea, o tenente Castilho mais não fez do que confirmar o óbito. Foi ataque de coração enquanto dormia. Dispenso a autópsia.

Castanho está desesperado. Compreende, de repente, quanto gostava do coronel, quase um segundo pai, para ele. E rumina. Se tivesse ficado um tempo mais com Mário Machado, talvez lhe tivesse podido valer, sabe-se lá, a sorte é uma puta desmiolada. Um copo de água, uma aspirina LM, um uísque e poderia ser que o comandante tivesse escapado. Guardou para si o pensamento e não disse nada. Descanse em Paz.

O Martelo, esse, nem quer acreditar. Lá se vai tudo por água abaixo com o falecimento do nosso comandante. Chiça!, ele bem sabia que não fora mais do que um sonho, os prémios, a viagem, sabe lá ele mais o quê. O Castanho sossega-o. Está tudo escrito, assinado e carimbado. Às duas da tarde o heli leva-te a Luanda. Depois da visita da praxe ao nosso general, o Boeing leva-te para Lisboa. Não te precipites. Não te amofines. Ainda não levas a medalha, mas lá chegará.

Ora bem, sendo assim, ainda ia pensar se tirava ou não a fotografia com os pais da Jacinta. Sim, isto porque um herói é um herói e um cão é um bicho. E, calha bem, talvez eles nem ficassem no boneco.


1 comentário:

Raul disse...

Mais uma boa.
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