terça-feira, maio 01, 2007



O Dia do Trabalhador

Antunes Ferreira
O
ra cá estamos nós em mais um Dia do Trabalhador. O primeiro de Maio, tal como é conhecido, tem uma história interessante que abaixo publico, socorrendo-me da Wikipedia, ferramenta excelente, que muito ajuda a quem se mete em coisas que dizem respeito a datas e acontecimentos.

Para mim, o primeiro de Maio tem um significado muito especial. O regime salazarento proibia quaisquer comemorações, pois eram consideradas movimento do proletariado vindo directamente da comunistissima União Soviética. Se uns mais timoratos tentavam sair à rua, logo a polícia intervinha à bastonada ou à coronhada.

Estávamos em 1962. Andava pela Faculdade de Direito, na Cidade Universitária. A malta das Associações, umas legais, poucas, outras toleradas, decidira em plenário comemorar o Dia do Estudante a 24 de Março. A 21 o ministro da Educação, Manuel Lopes de Almeida, proíbe a celebração. A malta – e posso dizê-lo assim, porque me contava entre o número dos mais implicados – decidiu ir em frente.


Nomes como os de Jorge Sampaio, Macaísta Malheiros, Jorge Araújo, Medeiros Ferreira, Mário Sottomayor Cardia, Isabel do Carmo, Vítor Wengorovius, Vera Jardim, Raimundo Narciso, Leonor Aboim Inglês, Miguel Galvão Telles, Orlando Neves, Nuno Brederode Santos, Mário Lino, entre muitos outros, ficaram para sempre associados ao movimento. Todos meus Amigos, todos unidos, todos solidários.

Face à pertinácia estudantil, perante as concentrações em frente da Reitoria, onde Marcello Caetano, como sempre, tentava uma no cravo ,outra na ferradura, a polícia avançou. Invadiu a Cidade Universitária, cercou a cantina, trouxe autocarros para levar os estudantes (que entretanto detivera) para Paço de Arcos, onde era o quartel da Polícia Móvel. Estive lá. Era a Crise Académica. Que se prolongaria pelos meses fora, tendo um ponto alto precisamente a 1 de Maio.


Daí que 1962 me tenha marcado e dele me recorde sempre quando chega o 24 de Março, quando se atinge o primeiro de Maio. Há coisas que nos ficam indelevelmente marcadas na memória. Recordo-me delas como se fosse hoje e recordar-me-ei sempre. E agora, tal como antes disse, um pouco de história, através da Wikipedia.


«No dia 1 de Maio de 1886 realizou-se uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago nos Estados Unidos da América. Essa manifestação tinha como finalidade reivindicar a redução da jornada de trabalho para oito horas diárias e teve a participação de centenas de milhares de pessoas. Nesse dia teve início uma greve geral nos EUA. No dia 3 de Maio houve um pequeno levantamento que acabou com uma escaramuça com a polícia e com a morte de alguns protestantes.

No dia seguinte, 4 de Maio, uma nova manifestação foi organizada como protesto pelos acontecimentos dos dias anteriores, tendo terminado com o lançamento de uma bomba por desconhecidos para o meio dos policiais que começavam a dispersar os manifestantes, matando sete agentes. A polícia abriu então fogo sobre a multidão, matando doze pessoas e ferindo dezenas. Estes acontecimentos passaram a ser conhecidos como a Revolta de Haymarket.

Três anos mais tarde, a 20 de Junho de 1889, a segunda Internacional Socialista reunida em Paris decidiu por proposta de Raymond Lavigne convocar anualmente uma manifestação com o objectivo de lutar pelas 8 horas de trabalho diário. A data escolhida foi o primeiro de Maio, como homenagem às lutas sindicais de Chicago.


Em 1 de Maio de 1891 uma manifestação no norte de França é dispersada pela polícia resultando na morte de dez manifestantes. Esse novo drama serve para reforçar o dia como um dia de luta dos trabalhadores e meses depois a Internacional Socialista de Bruxelas proclama esse dia como dia internacional de reivindicação de condições laborais.

A 23 de Abril de 1919 o senado francês ratifica o dia de oito horas e proclama o dia 1 de Maio desse ano dia feriado. Em 1920 a Rússia adopta o primeiro de Maio como feriado nacional, e este exemplo é seguido por muitos outros países».



Só um apêndice. No primeiro de Maio de 1975 integrei, como me competia, a manifestação do Partido Socialista que, encabeçada por Mário Soares, tentou participar nas comemorações lideradas Partido Comunista no Estádio anteriormente chamado 28 de Maio. Infrutífera intenção. Nós, socialistas, fomos agredidos, vilipendiados e impedidos de entrar no recinto onde o PCP e muitos militares pontificavam. Tenho, disso, fotografia, que, infelizmente, não encontro.

Outro momento que registo sem receio de apagamento nos lobos cerebrais. A Liberdade e a Democracia estavam em causa, a ameaça totalitária plantara-se e prometia crescer. Foi nesse momento que entendi perfeitamente o perigo que nos esperava. Os Portugueses reagiram e defenderam denodadamente essas virtudes cívicas. E iriam ganhar a causa. Felizmente.

6 comentários:

José Martins disse...

No dia 1 de Maio de 1962 já tinha um bilhete para embarcar, no Pátria, para a Angola que tinha comprado na Agência de Viagens Abreu no Porto.
Preço 4 contos de reis.
Embarquei no cais de Alcântara, fins de Maio, com 750 paus no bolso (seriam, hoje, uns cinco contos).
Subi a escada do portaló de fato e gravata com dois garrafões de vinho, encomenda, para entregar em Luanda a um senhor que me esperava.
Quando entrei no Pátria já me considerava um "gajo" africano e já sonhava vir um dia férias a Portugal com um daqueles "carrões" americanos a que lhe davam o nome: "rabo de peixe".
Bem como no barco já era um "portuga" rico,entrei no jogo da lerpa e lerpei e restaram-me 150.
Seguia ao "deus dará", em procura de emprego e uma vontade extrema de trabalhar.
A porra toda foi quando, ainda o pátria distante do Porto de Luanda, avistei as luzes da meia lua da baía.
Estremeci... e, o que é tu vais fazer com 150 paus no bolso?
Chegado ao porto de Luanda,passei pela PIDE (aquilo ainda demorou um bom pedaço de tempo), entreguei os garrafões à pessoa indicada que me esperava, levou-me a um hotel e disse-me olhe arranje-se por aí.
O hotel não me pediu o dinheiro adiantado e fiquei por dois dias desgarrado a caminhar da Mutamba para o hotel.
Empregos não havia nada para ninguém e aqueles que foram na conversa do jornalista que aos microfones da Emissora Nacional começava as suas tretas: "Aqui Angola, fala Ferreira da Costa!". O jornalista durante a sua crónica: "venham para Angola que à lugar para todos!".
Os que se foram no paleio, lixaram-se andavam a dormir pelos bancos dos jardins...
Eu fui mais afortunado, lembrei-me que tinha um amigo na Gabela (misto) e com 150 paus, que me restavam, consegui um bilhete nas camionetas de carreira da EVA.
Um dia a comer pó desde Luanda à Quibala e mais meio dia, na caixa de uma camioneta de carga da Quibala à Gabela.
Deixei a mala da roupa no quarto do hotel (melhor numa cozinha dado que o hotel estava lotado de gente chegada do mato a fugir dos tiros e das catanas)e alguém, depois lá foi pagar as duas noite e mandar-me a mala para a Gabela.
O meu amigo conseguiu encaixar-me na Rocha Coelho, numa sisaleira, para os lados do Cariango.
Porra,porra que aquilo estava mau como o caraças.
Duas "cavadelas" para a Quibala, julgando que era naquela noite que os 15 brancos seriam agarrados à mão.
Ao fim de seis meses, dentro daquele isolamento e apurados 6 contos de reis, parti para Luanda. Dali partiu passado um mês para a cidade da Beira, Moçambique, a bordo de um "Super Constelation", por dois contos e picos.
Foi o meu adeus a Angola.
José Martins

Paula C. Marques, Montemor disse...

Continuo a achar que o Senhor José Martins é um grande ponto engraçadíssimo. E com uma veia muito especial: a propósito de tudo e de nada, conta uma história. Óptimo. Vive em Banguecoque, tal como nos disse. Deve ter muitíssimo para contar. Avance, Senhor JM, avance.

Com todo este entusiasmo, quase me esquecia ao que vim. Mas, nunca é tarde. Excelente o texto do Dr. Antunes Ferreira sobre o 1.º de Maio. Muito bem escrito (ao que já nos habituou), muito bem na inserção da Wiquipédia, muito bem nas suas memórias.

O meu falecido Pai também fez a greve académica de 62. Ele estava em Medicina e era médico, portanto segui-lhe as pisadas. Um cancro impediu-o de fazer este ano 66 anos, pois levou-mo vai fazer dois anos.

Guardo ciosamente o que ele me contava e era exactamente com as mesmas pessoas que o Dr. AF refere. «Les bons espirits se rencontrent», o que é bem verdade.

Este é um texto verdadeiro sobre o verdadeiro Dia do Trabalhador. Muito obrigado, Dr. Antunes Ferreira. E, apesar de só ter 38 anos, vou passar a tratá-lo sem Dr. Os amigos devem ser tratados com carinho.

Anónima Salina disse...

Chefe

Pode começar a cobrar... Fiz cá um brilharete com a estória da História do 1.º de Maio... e eu retorqui "Querem mais?!? Vão há Travessa!" Obrigada. Nunca se canse de ensinar as suas experiências, é sempre um prazer aprendê-las.

Sr. José Martins

Que belos momentos os que passo a ler as suas aventuras. Atrevia-me a dizer que sou a sua maior fã... mas Dr.ª Paula pode não estar de acordo.
AS

Raul disse...

Henrique,
nao quero fazer concorrencia ao fan club do JM, mas, quando é que convences o José Martins a assinar um contrato de colaborador?

José Martins disse...

Caro senhor Raul,
Não me faz nada concorrência.
Há lugar para todos no blogue Travessadoferreira!
Não tenho de assinar um contrato com o meu amigo (somos mesmo!) Dr. Antunes Ferreira.
Visito o seu blogue todos os dias, sem me escapar um.
Bem, acredite, que quando os novos chegam a velhos,o passado aflora-lhe ao cérebro e no meu caso gosto de atirar para as "teclas" a história de uma vida!
Tenho montes de histórias para contar, parte destas, passadas em vários países por onde caminhei.
Por vezes chegam, aos leitores, umas "calinadas"...
Paciência só consegui a licenciatura da 4ª classe com merendas de pão de centeio e azeitonas curtidas em salmora.
Saudações de Banguecoque
José Martins

(P.S. Se tencionar passar por Banguecoque, avise-me antes para bebermos uns copos. Petisco,para acompanhar a cerveja "Singa" levo um frasco de azeitonas verdes ou pretas de marca "Maçarico")

Paulo M. Matos, arq. V. Franca Xira disse...

O Dia do Trabalhador parece ter um exemplo no José Martins de Banguecoque. O tipo tem muita piada, ainda que dê muitos erros gramaticais. Mas pelo sabor do que escreve até lhe perdoamos essas "falhas".

Plagiando o Senhor Raul (Donde? Apelido?)penso que já se formou o Clube de Fãs do JM. Eu, pelo menos, mesmo que ainda não pague a quota...