terça-feira, maio 22, 2007



HISTÓRIAS DA PJ

Os casos de crime e mistério acordam sempre o mais vivo interesse e servem de alimento à voracidade do público e à veia de detectives que, todos nós, com maior ou menor sentido crítico, acreditamos possuir.
Diria mesmo que, de detectives, para além de médicos e de loucos, todos temos um pouco. E há momento em que isso se torna particularmente evidente, como aquele que vivemos, com o trágico desaparecimento da pequena Maddie McCann.
O facto trouxe-me à memória um caso que, enquanto Inspector da PJ, responsável por uma Secção de Investigação de Homicídios, me coube em sorte investigar já lá vão mais de 37 anos.
Também se tratou do misterioso desaparecimento de um cidadão anglo-saxónico, ocorrido no Estoril, a zona mais turística e cosmopolita do Portugal de então. As investigações desenvolveram-se num microcosmos constituído por estrangeiros de várias nacionalidades, residentes na Costa do Sol, com hábitos, costumes, culturas e sensibilidades distintas e nem sempre fáceis de entender. Também teve uma assinalável repercussão mediática, obviamente, à medida e nas circunstâncias próprias do tempo.
No entanto, as semelhanças entre os dois desaparecimentos ficaram por aqui. A criminalidade, nos começos da década de setenta, era muito diferente da que actualmente existe – menos organizada, sem recurso às actuais tecnologias e sem a intervenção de redes internacionais, a criminalidade violenta era, ao tempo, fruto essencialmente da acção de delinquentes primários, isto é, sem antecedentes criminais, com motivações muitas vezes passionais.
Vale a pena contar.
JAGM


What happened to Mr. Hood?

(1ª parte)

José Augusto Garcia Marques
R
oy Hood (nome fictício, bem como todos os restantes) era um cidadão australiano, de cerca de 65 anos, pintor, homossexual. Vivia numa dependência nos jardins de um casa apalaçada do Estoril. Ali instalara com bom gosto e conforto a residência e o “atelier”.

Pode dizer-se que Mr Hood tinha uma vida dupla: por um lado, tinha a sua convivência social normal, própria de um homem educado e culto, nomeadamente, com casais estrangeiros residentes no Estoril ou em Cascais, ou com outros indivíduos solteiros, mais ou menos de idade próxima da sua, ligados a negócios de antiguidades, à literatura ou às artes. Por outro, tinha a sua vida sexual, vivida com discrição, com rapazes da zona.

O desaparecimento ocorreu num dos primeiros dias de Fevereiro de 1970. Entretanto, quatro ou cinco dias depois, apareceu, na praia de Carcavelos, o corpo nu de um homem careca, apenas com uns sapatos de camurça calçados. Fora avistado por um pescador que o arrastou para a praia, tendo-lhe atado uma corda aos tornozelos e colocado uma pedra pesada sobre a corda, a fim de evitar que o mar, com a forte ondulação de Inverno, o arrastasse de novo para dentro.

Tratava-se de uma prática corrente. Só que os jornalistas que acorreram ao local, desconhecedores da “técnica” utilizada pelo pescador, deram a notícia do aparecimento de um corpo despido, com uma pedra atada aos pés por uma corda. Mais descreveram o corpo, tal como o viram, como de um indivíduo calvo, com um abdómen volumoso, de idade difícil de definir, atento o estado do rosto, em parte comido pelos peixes. Ora, a verdade é que Roy Hood tinha uma farta cabeleira branca e mantinha uma invejável forma física para a sua idade, não tendo particulares adiposidades.

Chamados a identificar o corpo, o jardineiro do Palácio e a empregada de limpeza da casa de Mr. Hood, não o reconheceram como o do pintor australiano. Não era, porém, essa a convicção da Polícia Judiciária. Com a contribuição preciosa da Medicina Legal, concluiu-se, sem margem para dúvidas, de que se tratava efectivamente do desaparecido. Para isso, começaram por se recolher impressões digitais em objectos pessoais colocados sobre o toucador do quarto do Roy Hood. Em seguida, cortou-se um dedo ao cadáver, tendo-se-lhe retirado a pele, a qual, em face do estado em que se encontrava em virtude da longa permanência no mar, foi tratada em laboratório da forma mais conveniente. Comparadas as impressões digitais recolhidas nos objectos e as impressões digitais da pele do dedo, verificou-se haver uma coincidência absoluta.

Todavia, ainda assim, sempre, em teoria, se poderia dizer que não ficava excluída a hipótese de se tratar de uma visita da casa do pintor australiano, com acesso aos frascos de perfume e aos demais objectos encontrados no toucador. As dúvidas que pudessem subsistir foram dissipadas, quando, numa caixa guardada na mesinha de cabeceira se encontrou uma prótese dentária. De início, o médico legista ficou surpreendido com o achado, uma vez que, na autópsia não dera pela falta de dentes na boca do cadáver. Voltou-se, por isso, ao necrotério do cemitério de Cascais, onde o corpo ainda permanecia e rapidamente se constatou que, na boca, havia uma prótese exactamente igual à que fora encontrada em casa. Tratava-se, afinal, de um duplicado da prótese dentária.

Perante a conclusão indiscutível de que se tratava do corpo do Roy Hood, qual a explicação para as alterações encontradas no corpo? A resposta era simples: tratava-se de consequências resultantes da imersão durante alguns dias no mar e da acção dos peixes. Daí a perda do cabelo em grande parte da cabeça e o volume do ventre, inchado em virtude dessa permanência na água.

Importava, assim, apurar as circunstâncias em que ocorrera a morte do pintor.
Iniciou-se um árduo trabalho de investigação. Em casa da vítima foi encontrada uma agenda de bolso, na qual ele ia anotando, na data respectiva, e ad memoriam, algum compromisso para o dia em referência, bem como, a título de diário elementar, acrescentava algum breve comentário, depois da ocorrência do evento ou no fim do dia. Ora, na data correspondente ao dia do seu desaparecimento, tinha apenas escrito, na agenda, o nome “Ernani”. Assim mesmo, sem H.

Por outro lado, analisada a agenda, havia nomes muitas vezes repetidos, entre os quais o de um tal “James Wallace”. Muito raramente, aparecia também a referência a um outro James – “James Taylor”. O certo é que, quando apenas falava em “James”, Mr. Hood queria referir-se ao “James Wallace”. Tratava-se de um dramaturgo de nacionalidade britânica, também residente na Costa do Sol, sensivelmente da mesma idade do Roy Hood e também homossexual. A última vez em que o nome “James” era mencionado na agenda era muitos poucos dias antes do desaparecimento do pintor, num jantar em casa de um casal suiço, residente no Estoril. Da agenda constava, mais ou menos, o seguinte: “Jantar em casa de (nome do casal). Estará presente o James”.

Na impossibilidade de se identificar, desde logo, o “Ernani”, localizámos e fomos buscar o “James Wallace”, para ser interrogado na PJ. Isto aconteceu numa terça feira de Carnaval: as instalações estavam mais sossegadas e podíamos dedicar-nos com total tranquilidade ao tratamento do caso.

Perguntado acerca do último dia em que tinha estado com o Roy Hood, o “James Wallace” disse que isso acontecera há quase um mês, antes de ele ter ido a Sevilha de onde acabava de regressar. Ficámos naturalmente surpreendidos. Seguro das informações da agenda, disse-lhe que ele estava a mentir. O interrogado, homem fino e intelectualmente dotado, corou e respondeu-me que estava a dizer a verdade. Insisti uma ou duas vezes, com alguma veemência. A reacção foi sempre a mesma. Sem se alterar, o Senhor “James Wallace” parecia perplexo com a minha insistência e ia respondendo que estava certo de que não mais vira o Roy Hood desde há quase um mês.

Tomei, logo ali, a decisão de tentar localizar a residência onde tinha decorrido o jantar a que o Mr. Hood se referia. A tarefa não foi difícil. Resolvi ser eu próprio a falar com a dona da casa, que preferiu falar em inglês, quando soube que era da PJ. Perguntei-lhe se, na data em causa, Mr. Hood tinha sido seu convidado num jantar que oferecera em sua casa. Tendo-me respondido afirmativamente, perguntei-lhe se, nesse jantar, não tinha estado também presente o “James”. Mais uma vez me respondeu afirmativamente.

- “James” quê?, perguntei eu, de novo.
- Do outro lado do fio, ouço então: “James Taylor”.
- “Então não era o James Wallace?”
- “Não, o James Wallace nem sequer estava no País, penso que estava em Espanha”.
Agradeci e desliguei.

Voltei à sala onde decorria o interrogatório. O inglês, sempre dominado, estava, no entanto, visivelmente ansioso. Pedi-lhe desculpa e expliquei-lhe o sucedido, bem como a razão da minha teimosa insistência. Disse-me então, aliviado, que não era de admirar que, quando falasse apenas em “James”, o Roy Hood se referisse a ele e não ao “Taylor”, com quem tinha uma convivência muito menos assídua.

Mas estamos sempre a aprender. E é bem verdade que não há regra sem excepção. E, na agenda do pintor morto, a excepção – a única excepção, como constatámos depois – era aquela. Em todos os restantes casos, sempre que falava (apenas) em “James”, referia-se (sempre) ao “James Wallace”. Aproveitámos para lhe perguntar se conhecia algum “Ernani”. Respondeu-nos que não e que desconhecia as actuais companhias íntimas do Roy Hood.

Mas aquela terça feira gorda era definitivamente o nosso dia da sorte. Não passaram muitos minutos sem que me chamassem de novo ao telefone. Era uma outra senhora estrangeira residente em Cascais. Confirmou a minha identidade – ao tempo muito divulgada pela Imprensa – e disse-me que pensava que o “Ernani” de que os jornais falavam era criado lá em casa. Obtido o endereço, partimos para lá, num único carro, eu, o Chefe de Brigada e dois agentes, um dos quais motorista. Depois de batermos à porta, veio abrir um jovem que logo se anunciou:
- “Eu é que sou o Hernâni”.

(continua)

5 comentários:

Raul disse...

O suspense est lançado ...

Sílvia Mendonça, Lisboa disse...

Muitíssimo interessante. O Dr. Garcia Marques é um contador desta e de muitas outras estórias que vou seguir com toda a atenção. Para já, fico à espera da continuação. Parabens Antunes Ferreira. Cada vez está mais rico este seu Travessa do Ferreira.

João Alves Sacadura, Guimarães disse...

Gostei muito. Como sempre. O Conselheiro Garcia Marques escreve muito bem. E a história que começou a contar-nos é oportuna. Tal como Raul disse, o suspense está lançado.

Maria Moisés, Lisboa disse...

Sou vidrada em policiais. Este é cá dos nossos, tem mais encanto.
E, como dizem os meninos quando lhes contamos histórias e gostam, "então e depois"?
Fico à espera do resto. Com gosto.

Silvia Mendonça, Lisboa disse...

Então, senhor Inspector? Já sinto falta da segunda parte~. Tire-me desta ansiedade...