terça-feira, maio 29, 2007




HISTÓRIAS DA PJ


What happned to Mr. Hood?

(2ª Parte)

José Augusto Garcia Marques
“Eu é que sou o Hernâni”. O tom era tranquilo, a voz suave, o rosto não denunciava inquietação. Ficámos decepcionados com o perfil do sujeito. Ao contrário do que chegámos a admitir, não se vislumbravam nele sinais de um carácter violento ou agressivo. Era um jovem claramente efeminado, de estatura mediana e compleição frágil.

Trocámos impressões com a dona da casa, que mandou o empregado esperar no seu quarto. A Senhora disse-nos que fora o próprio Hernâni que se lhe dirigira, nessa manhã, dizendo que, “se calhar, o “Ernani” de que os jornais falavam era ele”. Mais lhe relatara que conhecia o Senhor Roy Hood, com quem se encontrava há já algum tempo. Em termos de personalidade, disse-nos tratar-se de um ser inofensivo, paciente e com bons modos, de um criado disciplinado e com vontade de aprender, embora algo limitado intelectualmente. Na sua opinião era um “pobre diabo” impotente, destinado a ser usado e abusado por marginais sem escrúpulos.

No entanto, reconhecia nele, nos últimos dias, uma ansiedade e uma angústia que não eram habituais. Apesar de saber que se chamava Hernâni, a dona da casa não o associara ao “Ernani” a que a comunicação social se referia, uma vez que nunca lhe passara pela cabeça que pudesse ter um envolvimento com um velho pederasta de “sociedade”, como era o caso do Roy Hood, o qual, na sua opinião, deveria andar metido com “companhias de outro quilate”.

Fomos falar em seguida com o Hernâni, o que fizemos no seu próprio quarto. A mesa de cabeceira tinha uma imagem vulgar de Nossa Senhora de Fátima e, na gaveta, havia recortes dos jornais que noticiavam o aparecimento do corpo na praia de Carcavelos. Logo nos deu a sua versão dos factos. Tinha, de facto, um encontro marcado com o Roy Hood, pelas 20 horas, perto de um cartaz publicitário, colocado em frente das arcadas do Estoril. Tratava-se do local de encontro habitualmente escolhido por ambos. Todavia, tendo esperado cerca de uma hora sem que o pintor aparecesse, e porque estivesse muito frio, o Hernâni ter-se-ia cansado e decidido voltar para casa. Pareceu-nos conveniente, no regresso a Lisboa, passar pelos locais por ele indicados.

Das arcadas ao Tamariz

Dirigimo-nos às arcadas, tendo estado junto do referido cartaz. O Hernâni deu-nos conta do seu ressentimento relativamente a Mr. Hood pelo facto de este não o deixar ir ter directamente a casa dele. Segundo ele, era um sinal de falta de confiança, revelador de que o estrangeiro não gostava de ser visto com ele. Pedimos-lhe depois que nos guiasse pelo percurso que costumava fazer com o Roy Hood desde aquele ponto de encontro até ao local de destino, a casa do pintor australiano. A tarde ia a meio, mas não havia tempo a perder, uma vez que, no Inverno, os dias são pequenos.

O encontro dos dois costumava ocorrer cerca das oito horas da noite. Atravessavam então a marginal, entravam na praia do Tamariz e dirigiam-se para a muralha que percorriam, lado a lado, junto à respectiva berma, até ao local adequado para cortarem em direcção à Rua onde estava situado o Palácio em cuja dependência Mr. Hood vivia. Segundo explicou, a muralha, a essa hora, era frequentada por diversos homossexuais, sendo frequente encontrarem caras conhecidas no “engate”. Com o Hernâni fizemos o percurso até ao portão exterior do edifício onde vivia o pintor, tendo seguido depois para a sede, na Gomes Freire.

O Hernâni era uma personalidade fraca, tendo uma natural tendência para ser agradável para aqueles com quem conversava, incluindo para quem o interrogava. Havia, assim, que ter o cuidado de evitar obter versões dos factos que não correspondessem à verdade, sendo importante tratá-lo sem agressividade ou sinal de violência. Para a Polícia, deve ser tão importante chegar aos responsáveis pela prática do crime, como concluir que um determinado suspeito está, na realidade, inocente. Mas, como diz o povo, quem vê caras, não vê corações ...

Interrogado na Brigada, foi mantendo a sua versão originária. No entanto, havia, no seu discurso, algumas contradições manifestas e ressumava das suas palavras um claro azedume para com o pintor australiano, que não era muito conforme com a sua maneira de ser suave e pacífica. Naquele tempo – já lá vão quase quarenta anos - a prisão sem culpa formada não obedecia aos requisitos – processuais e de prazo – a que obedece hoje a prisão preventiva.

Assim, a título de exemplo, não era obrigatoriamente ordenada por um juiz, podendo sê-lo pelos responsáveis hierárquicos da própria PJ – que, por acaso, eram, na generalidade, juízes de carreira, mas que, obviamente, não exerciam a magistratura judicial durante o tempo da comissão de serviço. Em face das suspeitas existentes, foi, assim, determinado que o Hernâni recolhesse aos calabouços da PJ.

O "culpado" confessa

No dia seguinte, de manhã, pediu para falar comigo. E foi a mim que confessou ter sido o “culpado” pela morte do Roy Hood. A sua versão foi, no essencial, a seguinte. Na verdade, estivera cerca de uma hora à espera de que o pintor australiano chegasse. E, quando já se propunha ir para casa, viu-o aparecer. Estava cheio de frio, impaciente, embora muito vaidoso com umas roupas novas que comprara com algum dinheiro que o Roy Hood lhe dera.

Era um canadiana azul escura, com capuz, boa para o frio, e uma camisola grossa, de lã escura com uns motivos claros, que também trazia vestida debaixo da canadiana. Esperara com ansiedade o momento de mostrar ao “velho” a boa aplicação que tinha dado ao dinheiro recebido, aguardando uma palavra de elogio pelo bom gosto revelado na escolha das roupas. A longa espera tinha-lhe tirado, porém, a alegria da expectativa, substituindo-a por um má vontade crescente contra o companheiro. O Roy Hood vinha também de má catadura.

Depois de algumas palavras frias e amargas, dirigiram-se para a muralha, como era costume, e uma vez que o pintor não fazia qualquer referência à roupa nova que ele trazia vestida, o jovem chamou-lhe a atenção para o facto. Ficou desiludido e magoado com a resposta: “Vocês gastam o dinheiro todo em trapos”.

A conversa azedou. Queixou-se do frio que tinha passado durante a longa espera, de mais a mais exposto ao olhar trocista de outros conhecidos que ali o viam especado, esperando por uma companhia que não havia meio de chegar, e lamentou o facto de o pintor não lhe dar a chave de casa e de não o deixar ir lá ter directamente. A isso, o Roy Hood teria respondido: “Eu não dou a chave da minha casa a quem anda ao “badejo”!

A gota de água

Teria sido essa a gota de água que fez transbordar o copo. O Hernâni já tinha referido que o Roy Hood, “certamente por uma questão de respeito”, lhe dava sempre a esquerda, pelo que era o estrangeiro que seguia na borda da muralha. Irritado com as observações do outro, o português, sem se aperceber da proximidade da extremidade da muralha, deu-lhe um empurrão com o ombro, fazendo-o desequilibrar.

Na sua versão, teria dado ainda um passo em frente, mas, alertado por uma exclamação surda, olhou para trás, tendo ainda visto Mr. Hood a fazer uma tentativa desesperada de equilíbrio na berma da muralha. Não se conseguindo equilibrar, caiu e terá batido com a cabeça nas pedras que se espalham à beira-mar. A maré estava a encher e o Hernâni, cheio de medo, desatou a correr no sentido de onde vinham, tendo parado só depois de atravessar novamente a marginal. Recuperado o fôlego, voltou a correr até à casa onde vivia.

Perguntei-lhe se alguém o tinha visto nessa correria e, depois de pensar, indicou um nome. Tratava-se de um “arrebenta” que “engatava” turistas, de preferência americanos, nas arcadas do Estoril. Que ainda lhe dirigiu uma pergunta, tendo o Hernâni dito qualquer coisa a despachar.
Concluída a confissão oral, no meu gabinete, passou depois à Brigada onde desenvolveu a seu relato dos factos, que foram reduzida a escrito.

Imagine-se a minha surpresa quando, no dia seguinte, encontrando-nos no gabinete do Chefe de Brigada, o Hernâni me dirigiu a seguinte pergunta: “O que é que o Senhor Dr. dizia se eu lhe dissesse que não matei o Roy Hood?”

(continua)

7 comentários:

Joana Figueirebo, Beja disse...

Cá temos a segunda parte. O Senhor Garcia Hitchkok Marques continua a deixar-me suspensa. Sempre quero ver até onde esta excelente história chegará. Venha a próxima, depressa.

Raul disse...

O próximo fasciculo ...já está atrasado!

Sílvia Mendonça, Lisboa disse...

Obrigado Inspector, se calhar sem cachimbo. Respondeu em cima da hora ao meu pedido. Só lhe fica bem. De Homens como o Senhor gosto. Quanto aos outros... a minha preferência sexual é outra...

Tem o privilégio de saber escrever e alimentar a nossa ansiedade. É um verdeiro dono do suspense. Tal como disse o Raul, não se atrase com o próximo capítulo.

Raul disse...

O quê!!!!!!!!!!!!!!! o #3 ainda nao saiu?

João Ferreira, Lisboa disse...

Caro Garcia Marques:
Com efeito, está criado um suspense a sério. Eu próprio, que tenho alguma informação acerca do caso, visto que o Garcia Marques me falou dele há já alguns anos (embora sem os detalhes que agora constam do texto que, em boa hora, decidiu escrever no blogue), estou com imensa curiosidade no desenrolar da narrativa.
Venham, por isso, com urgência, os próximos capítulos.

Maria Moisés, Lisboa disse...

Ora, Dr. Garcia Marques, não há dois sem três e à terceira é de vez. Estou em pulgas pelo fim da história.

Anónima Salina disse...

Senhor Garcia Marques

Por favor, não tenho muito tempo de antena neste computador que, para mal dos meus pecados, tenho de partilhar com o meu filho adolescente. Tenha pena de mim... venha de lá o terceiro episódio.

Uma sua fã
AS