sábado, março 03, 2007



LER & ENTENDER
A Índia no Século XXI
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Pretende-se noiva, ASPECTO DE FADA, elegante, muito alta, educada, MODERNA, extremamente bela, de família industrial para 27/187 jovem elegante, esguio, muito belo, filho único de um abastado Ministro do Governo da Índia, de casta hindu elevada, actualmente muito apreciado. O jovem é vegetariano, tem bons hábitos, está bem estabelecido em Londres com o seu próprio negócio. A casta não é impedimento. Se estiver disposta a fornecer primeiro pormenores sobre a sua pessoa, responda por favor para…
In Hindustan Times, 15 de Setembro de 2000
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Antunes Ferreira
Pavan K. Varma é diplomata de carreira, indiano, tendo desempenhado funções nessa área em Nova Iorque, Moscovo e Nicósia. É considerado hoje um dos autores de não ficção mais lidos e admirados na Índia. Neste momento é o Director do Centro Nehru, em Londres e Director-Geral do Conselho Indiano para as Relações Culturais.

Autor do livro A Índia no Século XXI, dado à estampa pela Editorial Presença na sua colecção Sociedade Global, Pavan Varma adquiriu através dele uma notoriedade que se tem vindo a espalhar pelo Mundo. A obra, datada de 2004, começou por ser publicada na Índia. No ano seguinte, sai em Londres a edição inglesa. Em Outubro do ano passado é o mercado livreiro português que a acolhe. E muitas latitudes mais vão-na consumindo.

Para quem, como eu, gosta muito do Oriente, era essencial ler o livro. Fi-lo. Além do mais, casado com uma goesa, como já tenho dito e redito, a Índia tem em mim um especial observador, atento tanto quanto possível. De resto, aquando da minha permanência profissional no Diário de Notícias, entrevistei Indira Gandhi e, depois, seu filho, Rajiv Gandhi, ambos na qualidade de primeiro-ministro daquele imenso território, parte esmagadoramente maioritária do subcontinente.


Além disso, tenho muitos Amigos, para alem de familiares de minha mulher que tão bem me acolheram, espalhados um pouco pela União Indiana. Desde Goa, naturalmente, a Nova Deli, desde Mumbai (antiga Bombaim) a Bhubaneshwar, desde Bangalore a Shrinagar, desde Madras a Calcutá, desde Cochim a Amritsar, desde Calecute a Jaipur, desde Haiderabade a Agra percorri aquele imenso país que é actualmente o segundo maior do Mundo em população.

A Índia (Bharat, em devanágari) tem uma história riquíssima, uma cultura milenar, tradições enormes. No seu seio nasceram quatro das mais importantes religiões: hinduísmo, budismo, jainismo e siquismo. Contraste vivo entre os extremos da riqueza e da pobreza, ela é já hoje, a décima segunda maior economia mundial. E está considerada como uma das Grandes potências emergentes do século actual. É detentora do poder nuclear, o que lhe confere uma importância muito grande no contexto internacional.

Mistério quase impossível

N
o entanto, para muita gente – e boa – ela persiste em ser um mistério quase impossível de entender. Pelo menos, dificílimo. As contradições que nela existem, os sectores que nela coabitam, as raças que a integram, as 22 línguas que são usadas, os dialectos às centenas, tudo isso leva a que o imbróglio continue a deixar muito cenho franzido, muitas dúvidas quase existenciais, muitas interrogações permanentes.

É neste contexto que o livro de Pavan Varma é uma verdadeira obra-mestra. Tal qual o Taj Mahal? Longe vá a comparação, mas que o diplomata, escritor e homem da cultura, produziu coisa de enorme vulto – lá isso produziu. Propôs-se delinear o que será a Índia no século XXI. Para tanto socorreu-se da análise do Indiano, ou seja, debruçou-se sobre ele mesmo, numa introspecção árdua mas conseguida.

Daí partiu para os caminhos que o país vem trilhando, nomeadamente nos finais do século passado, mais precisamente a partir das enormes reformas de 1991, desenhadas e já iniciadas no governo de Rajiv Gandhi. Honestamente, o autor não pretende escamotear nada da realidade, desde a subsistência, ainda que mais atenuada, das castas, até ao espírito que enforma aquela que é chamada a maior democracia do Mundo.

E com razão. Independentemente de curar de saber se os milhões e milhões de cidadãos indianos são todos aptos a entender o direito de voto, o que ele representa e, logo, para o que serve, o facto incontroverso é que através de eleições onde cada ser humano é igual ao parceiro do lado, são escolhidos os órgãos do Poder na Índia. Processo que, com mais ou menos acidentes de percurso, vigora desde a independência, em 1947.

Os actos eleitorais no país são, sem grandes dúvidas, a «actividade política organizada mais extensa da história da Humanidade» escreve Sibal Kanwal, na sua obra Understanding India, edição da Indian Horizons, uma edição em vários volumes de que ele faz parte. A publicação que é feita regularmente em Nova Deli, é da responsabilidade do Conselho Indiano para as relações Culturais que já atrás citei.

A dicotomia mais gritante

N
a verdade, se há país em que a dicotomia mais gritante pode ser constatada, ele é a Índia. Onde, nos dias de hoje, o software é dos melhores do orbe terráqueo, onde os especialistas neste domínio se contam por alguns milhões, onde uma grande parte das maiores multinacionais, transportadoras aéreas, seguradoras, bancos e outras realizam a sua gestão administrativa e informatizada.

Por outro lado, o gigante do subcontinente tem vindo a desenvolver empreendimentos que rapidamente se transformaram em fontes de receita muito volumosas. É o caso do chamado turismo de saúde. Não se trata aqui da actividade dos homens santos; é uma realidade científica, médica e hospitalar. A preços muito razoáveis, homens e mulheres de muitos países industrializados deslocam-se à Índia para se submeterem a check ups completíssimos e excelentes.

De igual modo, os tratamentos mais sofisticados, realizados em instalações a roçar a perfeição, realizam-se em profusão cada vez maior. Profissionais de saúde de grande capacidade, desde médicos a enfermeiros, desde paramédicos a operadores de equipamentos são inúmeros e muito qualificados. E baratos, se comparados com outros igualmente competentes mas de outras zonas do Mundo.

Mas a antítese é também verdadeira. Bastou-me visitar o bairro dos leprosos de Calcutá, a que chamam a Cidade da Alegria, a que Dominique Lapierre deu dimensão mundial no seu livro do mesmo nome, para ver o que é o drama da doença e da miséria mais espantosa. Aliás, tive o prazer e a honra deter tido o jornalista e escritor francês como meu cicerone pelas ruas onde uma outra celebridade, a Madre Teresa, exerceu o seu múnus de tamanha importância.

Dominique, que inclusive deu o nome a uma fundação destinada a auxiliar os habitantes do bairro, disse-me que fora ali que sentira o maior impacto humano que alguém pode receber, mas também aí fora o local em que encontrara, a par de rivalidades sanguinárias e criminosas, a maior demonstração de solidariedade entre gente desgraçada e sofredora. «Já não volto a escrever com o Larry Collins, não porque nos tenhamos afastado, muito menos zangado», disse-me. «Simplesmente porque descobri este Mundo; o Mundo».

Já tinha vivido o drama dos inquilinos dos passeios na então Bombaim. Uma prima de minha mulher, também goesa, em casa de quem vivi uma semana, morava no Bairro de Baycula. Da janela do seu segundo andar, tive a primeira imagem nocturna das lutas entre pessoas que estendiam as suas esteiras em «lugares marcados» dos passeios. Onde não apenas dormiam, mas viviam, defecavam, pariam e morriam. Se algum «invasor» lhes tentasse usurpar o «microterritório», podia até ser eliminado fisicamente.

Já vira em Haridwar, «situada onde o Ganges termina a sua descida dos Himalaias e inicia a sua longa viagem para o mar, entre planícies, cidade sagrada para os hindus», no dizer de Varma, como os crentes mais esqueléticos, famélicos, escanzelados, se banhavam nas águas infectas do rio e bebiam com as mãos em concha, ao lado de restos de cadáveres mal cremados que o caudal ia levando.

Pois Pavan faz a equação impossível entre tudo isto. De uma forma notabilíssima, com um engenho descritivo e uma análise crítica tão perfeitos que deixam um leitor, como é o meu caso, espantado à enésima potência. Se algo posso indicar dessa síntese sincrética e amalgamada, o anúncio que acima publico, transcrito, comentado e explicado pelo autor, é um exemplo extraordinário.

Mesmo que não se tenha estado na Índia, mesmo que não se goste do Oriente, mesmo que os preconceitos ocidentais nos levem a rejeitar esse pot pourri a que os Ingleses chamaram Índia – deve ler-se A Índia no Século XXI. Façam-no, naturalmente se o quiserem – e, depois, digam-me coisas. Desde já vo-lo agradeço.

4 comentários:

Leonilde Carrapiço, prof. Ens. Sec.º, Beja disse...

É fascinante. Tinha uma ideia completamente diferente. Vou ler o livro e, logo que puder, vou ver a Índia.
Outra coisa: não sabia que o SENHOR Antunes Ferreira tinha andado e falado com pessoas tão conhecidas e importantes. As minhas felicitações.

Um camarada do AF no DN disse...

Dr.ª Leonilde

O Antunes Ferreira tem muitas fotos com gente alegadamente célebre. E que tem, obrigatoriamente, de publicar neste seu blogue.

Há até quem diga que o AF já faz parte dos manuais da História. Mentira, embora merecesse. Por enquanto, apenas na Wikipedia...

Sebastião Osório, Pevidem disse...

Sempre pensei que a India fosse só alguns ricos e a esmagadora maioria pobres mizeraveis. Agora, quer o autor indiano, quer o AF dizem que não é assim. Gostava de ouvir mais opiniões. Escrevam aqui quem quiser ajudar a ilucidar-me

Manuel A. Ventura, Queluz disse...

Então Antunes Ferreira, quando vêm mais fotos? E mais aventuras? E mais verdades? Estou à espera!