terça-feira, julho 11, 2006


Sentinela, alerta!

Antunes Ferreira
M
aldito sono que o deixa arrasado. Não se pode estar de sentinela e dormir. Claro, há o regulamento. Mas, sobretudo, é a vida dos camaradas que passam pelas brasas e que se ele se deixa embalar pela proposta sacana do papão vai-te embora, de cima desse telhado, podem ser lixados até à pedrada. Os gajos sabem perfeitamente que a tropa está ali, na picada, rodeada de mata por todos os lados, pior que ilha em águas revoltas.

Ganda merda! Mal sabia o pai António Fogaça - quando se pusera na Albertina, a coberto do escuro - que o filho então fabricado iria dar com os costados a uma puta duma guerra em que ninguém sabia muito bem qual era o seu papel, a não ser safar-se sem grandes makas. Já assim dizia o Zé Fogaça, natural da freguesia da Comenda, concelho do Gavião, cooptando o linguajar dos angolanos. Complicações, se preferirem.

Um cigarrito ajudaria a passar as horas. Nem toma conta delas, se levantar a manga do camuflado para mirar o relógio, o vidro do mostrador é uma armadilha. Vá que dê reflexo. E lá está um cabrão a levar com um balázio nos cornos, que nem sabe donde veio – e nem de que morreu. Quanto a pitillo, estamos conversados. É mais do que proibidíssimo. É conselho de guerra e pode dar fuzilamento.

Homessa? Uma gaita. O esfolar do fósforo daria para iluminar o primeiro alvo: ele. Depois, iriam os outros que de tão ensonados bem poderiam ser apanhados à mão, esganados, enrabados, sabe ele lá. Entretanto, porque lhe havia de chegar à mona o pitillo espanholês? Poderia ter pensado em beata, em pirisca, em muita coisa mais. Mas, porque raio a espanholada?

Pitillos e boquilhas

Se calhar porque se recorda – na peleja contra o cabrão do sono – da Mercedes de Fuentes Bajas, gaja a caminho dos entas mas ainda apetecível, o azeviche do cabelo, as tetas opulentas, embora já a pingar para baixo, rompendo meias solas a preceito, muita malta ainda lá ia, incluindo ele, era só dar um pulinho, estava-se do lado, já não guardavam nada as muralhas de Belver.

Em noites que nada tinham a ver com esta empedernida, a Merci usava boquilha longa, de baquelite preta, dizia ela que era por el cine, vaya. E o pitillo, um tudo-nada cambaleante na extremidade do artefacto, tinha, então, uma dignidade dúbia e um sabor especial. A ninfa fumava que nem uma chaminé, sem cagaços de cancros e merdas assim. Si no te mueres hoy, te matan mañana, dizia entre gargalhadas e fumaças brônquicas.

Fogaça júnior – júnior o caralho, desde que fora às sortes, amochara na recruta e agora tentava escapar a salvo em Angola, passara a sénior, e sabe deus se chegaria a internacional – tenta dar a volta por cima. Apura o ouvido. Parece-lhe escutar um remexer do capim. Não é nada, como diz o alferes Matos, é só o barulho das luzes. Mas agora, não. Primeiro, não há luzes nem sequer luar. Ou se há, está embrulhado em folharia.

Depois, o Zé nem tem a certeza se foi barulho, se é barulho. Talvez cobra. Na Comenda, ainda que não tivesse muitas, havia-as, entre o castanho e o amarelo, pequenas, de escamas certas mas sujas do rastejar. De catraio se habituara a elas, a espetar-lhes uma cana afiada no toutiço, depois de as fazer rabiar.

Aqui, porem, a loiça é outra. As cabronas são grandes, enormes, algumas, chama-lhes boas, que não são, bem pelo contrário. Engolem uma pacaça inteira depois de a esmagarem, enroladas à volta dela. E ficam a esmoer esse boi do mato, só com os cornos do animal fora da boca, até caírem pelo resto ter sido digerido.

Passado o prazo

Há outras, esverdeadas, camufladas de ervas, quais camaleões venenosos a confundir-se com o ambiente, fugidias, insinuantes, rapidíssimas. Muitas delas não são mortais, diz o maqueiro Aniceto, mas vá lá um tipo fiar-se num badameco que era ajudante de auxiliar de praticante de sapateiro na vida civil. E ainda que o nosso cabo diga que tem antídoto para as picadas, nada de experimentá-lo. Pode já ter passado de prazo.

De umas nem de outras há que esperar o que quer que seja de bom. Da-se! Nem pouco mais ou menos, com estas não se brinca, nelas não se espeta cana, olha lá, nem pensar. Vá lá, foi-se o olhinho maroto a fechar-se como quem não quer a coisa. Agora é que valia a pena um pirilampo, se os houvesse. Talvez que o cu iluminado do insecto lhe permitisse ver do que se trata ou se, o mais provável, nada é.

Da massa de gente espapaçada pelo chão de terra vermelha levanta-se um vulto titubeante. Quem vem lá? Ó compadre, deixa-te de porras, sou eu o Olivais, que vou arrear o calhau. Pois que vá. Mas primeiro, ó sacana, avança ao reconhecimento. Avanço o tanas, que ainda me borro pelas pernas e já vou de calças na mão. Está quedo: nem te amolgo a moleirinha, nem fujo. Não tinha para onde, ó alentejano de terceira.



Olivais dá mais uns passos. Cinco? Seis? Os últimos. Nem gritou. É só o estrondo tremendo e o vento de mina que atira o Fogaça de costas, para trás. E o fumo negro que nem o cabelo da Mercedes y olé, e o cheiro a enxofre da pólvora. Alem do engenho, saltou tudo o mais, ou seja a malta por atacado. Umas vozes mais alteadas, logo abafadas em sussurros interrogativos. Quem se foi? Noutro lugar e momento seria o que foi? Aqui...

As coisas, por piores que sejam, tendem para o acalmanço. Começam a reunir-se as tralhas, não há tiros nem nada, apenas flutua no ar denso e opressivo da mata um odor a «incidente mortal» como lhe chamará amanhã, daqui a dias, quando, logo se verá, o gajo das Informações das Forças Armadas, nossas. Os outros, dirão de forma substantivamente diferente. Feitios. De uma guerra estúpida, injusta e cruel.

Ó tu, diz o nossalferes: traz uma pá para apanhar o Olivais.

2 comentários:

Anónimo disse...

Estas histórias da guerra do Ultramar são interessantes, ainda que esta de hoje seja inventada, tanto quanto me parece. E são quase sempre complicadas, tristes e dramáticas, mesmo aquelas que terão sido vividas pelo seu Autor.

Penso que o Sr. Antunes Ferreira podia ser mais construtivo. Eu também andei por Cabo Delgado, em Moçambique e penso que também houve coisas positivas.

Se para o futuro for assim, melhor, pois ficarei mais satisfeito.

Melhores cumprimentos e saudações fraternais

Anónimo disse...

Meu Tenente

Penso que já não se lembra de mim. O meu nome é Matias Salvador Santos e fui seu primeiro cabo na CCS/QG em Luanda, com o bar do Favaios em frente. Era conhecido pelo Madragoa, pois nasci lá. (Era o nº 34257/66).
Hoje, vivo na terra de minha mulher, Arronches onde sou um pequeno industrial agrícola. Foi o João Fininho que me deu o seu blogue. Vou-lhe mandar notícias por mail.
Gosto muito dos seus artigos, como sempre gostei. O meu Tenente Antunes Ferreira tem o dom da escrita. Por isso, lhe faço dosi pedidos: continue a escrever e publique um livro com o que escreve sobre Angola. Vai ter um enorme êxito. E o segundo: conte coisas também da nossa CCS/QG. Vi que o nosso Tenente Bandeira também lhe escreveu. Aqui deixo dois grandes abraços para ambos. Até sempre. E obrigado.