quarta-feira, julho 26, 2006



O rio e a sorte

Antunes Ferreira
Q
uando os maçaricos chegavam, ainda a cheirar a cueiros e já carregados de saudades, os veteranos costumavam gozar com eles. O que é mais do que natural, sobretudo em teatro de operações. Já tinham passado pela rábula da caça aos gambozinos, na recruta, noite em claro agarrados aos sacos de serapilheira, à espera. Já tinham engolido os pedidos/ordens dos instrutores – vai-me ali buscar a caixa das estrias. Porra! Mas ali era diferente.

Uma boa parte das saídas era pelo rio, margem acima, margem abaixo, que sacana de vida, então para que raio eram os fusos? Esses é que estavam preparados para a guerra aquosa – ou outra merda qualquer – mas eles, não. E os velhos: cuidado com os tubarões. Mas aqui há tubarões. Não, maricas, os crocodilos comeram-nos todos. E as sanguessugas atirando-se ao couro dos polainitos em busca de sangue fresco, que vida de peixe de rio. Nem a tainha, nem o sável, nada.

Mais abaixo, na curva mais pronunciada do rio, é o local onde nós atacamos. Os tugas, mais ou menos preparados, mais ou menos prevenidos, mais ou menos acagaçados, nem mesmo assim tomam as precauções imprescindíveis. Xi, camarada, essis gajos num tem nada nos cabeça. Antão não repara que esse é o sítio das makas? São burros mesmo. Muitos vão voltar no Puto dentro do sobretudo de pau.

Até dois Cabinda tem

É um grupo lixado, o nosso. Vinte e três patrícios, de muitas sanzalas e muitas diferenças. Repara só, mano, até dois Cabinda tem. Só que todos são MPLA, e o comandante é o Adão que esteve dois anos em São Nicolau – e sobreviveu. Do povo vêm umas mulheres que trazem na malta comida e munições. E desenferrujam os nossos coiso. Um homem está na mata, tem de se alimentar, mas também precisa de fêmea. Todos os bichos fornica, os negros também tem direito.

Eu sou o Sabonete João. Já ando nesta vida há muitos meses. Quase quatro ano. Tem que chega? Não. É preciso atirar os portugas no mar. Para a terra deles, prá cona das mães deles. Pró cu do Salazar. Aka! Muitas vezes me pergunto quem é esse Salazar. É o soba grande dos tugas, disse-me o Sebastião Moluto que andou até ao quinto ano do Salvador Correia. Chama-lhe o pai da pátria, o salvador de Portugal e também lhe conhecem por Esteves.



O Sebastião explica que o gajo chama-se António de Oliveira Salazar. Nunca ninguém avisa onde vai ele amanhã. A PIDE tem ordens para impedir que digam que amanhã o Senhor Presidente do Conselho vai estar na Feira das Indústrias. Podem lhe querer fazer mal, um tiro, uma bomba, sabe-se lá. Por isso é que os jornais, a rádio e agora a televisão dizem sempre que esteve ontem na inauguração do mercado de Palhavã... Por isso, dizem que é o Esteves.

Palmatoada nos preto

Sei ler e escrever, aprendeu no livro com os mininos da mocidade portuguesa na capa. Até sei de cor os rios de Portugal e os seus eflu... afluente, julgo que se diz assim. Do Norte até no Sul, no Algarve. E as linha do caminho de ferro com ramal e tudo. Os padre missionários ensinava tudo direitinha na gente. Se não sabia, pimba, lá vinha a minina de cinco olho, a dar palmatoada nos preto.

Fui ajudante de contínuo na Fazenda, ali na Mutamba, com o senhor director-geral Mendonça. Bom home. A mulher, a Dona Joaquina nem por isso. Dava na lavadeira e nos três criado, uma sardinha e dois batatas pró almoço e eles que cozinhava. E tirava-lhe um dia no salário se faltavam meio dia no serviço. Era cabrita e toda a gente sabe que o patrício diz que o branco é filho de Deus, o preto é filho do Diabo e o mulato, principalmente, o cabrito é filho da puta. Quando o senhor Martins, chefe da repartição me avisou que tens de ir na tropa, fugi. Do Casa Branca até aqui foi uma confusão. Mas cheguei e cá estou.





Pronto. O camarada Adão está lhes chamando para combinar uma emboscada. Vai ser amanhã, ao lusco-fusco, quando o sol ainda não estendeu os raios. Eu fico com a bazuca, o Ganguela com o morteiro, os outros com as Kalachas. Boas arma, essas russas, de carregador em gancho, tem mais bala que a G3 dos colonialistas. Diz o comissário Tunda que se o Salazar não manda comprar elas, os tugas perde a guerra contra os patriota.

Patriota somos nós. O grupo todo é unido e patriota. O comissário nos explicou que patriota é aquele que conquista a sua Pátria. O cipaio não é patriota é chulo. Serve os branco. E os administrador cabo-verdeanos também é traidor. Batem mais que os brancos e não pagam imposto geral mínimo. Até os funcionário paga, mas administrador não paga. Então porque é geral?

Os «voluntário da corda»

Estou a limpar a arma com escovilhão até. Amanhã, na madrugada, ela não vai encravar. Não pode. Senão quem encrava mesmo sou eu, Sabonete João, natural do Golungo Alto, terra do camarada Agostinho Neto. Tudo brilhante, a mira bem aberta, pra acertar neles. Assim, já não pago mais o antigo imposto de palhota. Acaba os escravos, com a luta do povo angolano. O Tarcísio me mostrou uma fotografia de uma fila de pretos atados pelas garganta com uma corda grossa de sisal. Me disse que eram os voluntários para a colheita do café. Os «voluntários da corda» - e fartou-se de gargalhar.

Tenho quatro cigarros e meio, AC, maço vermelho e branco com os letra a preto. Os portuga dizem encarnado, vermelho é comunista, a PIDE proíbe. Essa polícia é futida mesmo. Prende um preto, lhe enfia uma carga de porrada, mas também dá nos branco. Diz que viu que bate menos por ser da mesma cor. Não sei. O agente que eu conheceu na Maria Fernanda (boa fazenda de café, pertinho do Bico do Pato), Almeida qualquer coisa mais, disse que não tem medo de ninguém, nem do governador-geral, nem do bispo.

Que se tramem o Almeida, o governador e o bispo. O Adão chega junto de mim e agarra na arma para lhe experimentar e examinar. Leva a culatra atrás, espreita no cano faz hun-hun e devolve-me a canhota. Lá no céu já estão as primeiras estrela, é noite de lua cheia, bom sinal para daqui a bocado. O Lucungo prepara a mina para pôr debaixo da água, no sítio em que passa os soldados.

É preciso muito cuidado, essas mina são terríveis, rebenta por um cabelinho. Para a armar tem de se ter todos os olhos bem aberto. Todos não. O do fundo das costas deve estar bem apertadinho, quer dizer que tem maúfa, ou se não tem, duvido do herói que não nasce como o capim, à farta. Tem sim de ter muita atenção e muito cuidado, a maldita pode explodir nos nossos não neles.
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Às quatro da manhã, o primeiro homem põe o pé no sítio da mina. É um soldado preto, desses que ficaram no lado da tropa, com vontade ou sem vontade. Não interessa. Adão deixa-lhe passar, seguem-se os outros, quase um pelotão. Com a água barrenta pela cintura os camuflados semi-flutuam, diluídos no cinzento da madrugada, vão avançando, cuidadosamente, em bicha-de-pirilau. Já estão todos na zona da morte.

O estrondo, medonho, abana o tempo e o ar. Ergue-se uma coluna líquida carregada de espuma e já tinta de sangue. Os gritos são uivos de animal caçado e estralhaçado. Uma nuvem de pó acastanhado e de fumo de enxofre paira por momentos e vai caindo sobre as águas ainda revoltas. Ter-se-á safado algum? Por certo, mas não vale a pena ir lá abaixo contar as baixas. Adão levanta o braço direito, a mão espalmada, em aceno para que a malta se retire, devagarinho, sem sobressaltos nem barulhos.

Vai chegando, no meio da desgraça, o reforço que de nada servirá. O que tinha de se fazer, está feito. Sabonete João estou a coçar o olho direito. Espinho de árvore, lasca de madeira explodida, areia mais grossa arremessada pela deflagração? Ou lágrima pelos muitos que, sem saberem bem porquê, foram mandados para o matadouro no rio? Raio de sorte de quem se habituou, apenas, a obedecer. Uma merda, co'escafandro.

2 comentários:

Paulo Justino Gonçalves, Algés disse...

Mais uma história bem contada. Sou ainda jovem, 24 anos, mas gosto destas histórias que me foram recomendadas pelo meu avô, oficial do Exército que por lá também andou. Oficial do Quadro, como ele diz, tendo chegado a coronel, altura em que se aposentou obrigado pela lei dos coronéis.
Apesar do perigo, gostava de ter andado nessa guerra. O que conta o Antunes Ferreira é muito interessante. Escreva mais, companheiro que me parece bué de fixe!

Armando Silva, Viseu disse...

Caro Senhor
Por vezes é difícil escrever-mos sobre aquilo que não sabe-mos. Eu fui pra Angola só com a 4ª classe e voltei e não estudei mais. Mas truxe uns patacos e instabeleci-me com um bar de petiscos. Hoje tenho 4 restauramtes, 2 cafés, 6 bares e estou bem na vida.
Portanto penso que viveu aquelas coizas por lá. Uza umas espreções que são aquelas mesmas que diziamos. Bem escrito, sim senhor. Os meus parabens. Se quiser tomar um copo, venha até cá. Aqui, todos me conhecem, bem como ao redor. Muitos comprimentos