sábado, julho 29, 2006

Cozinha ao fundo

Antunes Ferreira
S
ou do tempo do meio tostão. Dos rebuçados da bola de cótechu. Dos eléctricos abertos para o Campo Grande. Do Horto de Lisboa, ali em frente ao Colégio Mouzinho da Silveira. Logo, da Instrução Primária. Do é o esquimó fresquinho no Jardim Zoológico. Da ida ao Porto. Da curva da morte, onde, num pinheiro, estava cravada a dentadura de um sacerdote que contra a árvore se estampara. Do Hotel Batalha com traseiras para as escadinhas dos Guindais. E da mulher da fava-rica.

Muito mais haveria para rememorar. Só que, sentado à volta de um fogareiro a petróleo, daqueles de dar umas bombadas prévias, a comer umas postas de pescada das águas sul-africanas, bem fritas quem é o sacrista que se atreve a pensar noutra coisa? Depois de enroupadas em polme com jindungo, feitas na ocasião e no local do crime, só há que as saborear. E a comemorar com o Alvarinho acabado de sair da arca de madeira revestida no interior, a chapa, e carregada de barras de gelo.

O Sousa da Dodge é o coque de serviço. Só lhe falta o barrete branco. Depois do peixe, a carne. Assado de porco meio javali, que já vem de Luanda, boiando dentro dos três imensos tabuleiros, num molho acrisolado, rodeado de batatinha e cebolinhas idem, idem, aspas, aspas. Aí conta a mão da Dona Mafaldinha, esposa emérita do camionista e verdadeira fada nas comidas, com receitas ou sem. Cozinheira de estalo, mão farta no picante e especialista em funje de bombó.

Os dedos de duas mãos não chegam para contar uma tal colecção de malta. Nem de quatro, quiçá cinco. Gente de trabalho, agarrada ao volante de bichos com mais de dez tonas. Manápulas gretadas, peludas, unhas sujas das viagens constantes. Os sustos foram, são e serão em barda, porem contam os episódios entre gargalhadas que contrastam, álacres, com o silêncio da mata. Não se ralam com o barulhão. Os gajos, a estas horas, estão a xonar. E fazem eles muito bem, assim não nos fodem o juízo.

O Bravo, que me transporta na cabina, convidara-me para o repasto, por entre a poeira vermelha da picada que entra pelas janelas. Não percebi muito bem o que dizia por causa do lenço com que tapa as ventas, como refere. Mas, depois, afastando o meu passe partout improvisado, sempre lhe respondi que muito obrigado, mas tenho a ração de combate. Você parece que é parvo. Com postas de pescada, lombo de porco e verde geladinho – o senhor ou é tolo ou maçarico. Desculpe lá a franqueza, mas não sabe o que é bom. O meu primo Celestino aguça a língua e diz que tudo o que é bom faz mal. O malandro já foi operado a uma ursula do estômago, mas continua no cozido à portuguesa, no tintol carrascão - e nas garotas na maioridade.

Votar Alvarinho

Seja. Decidi-me e bem. Entre a Dolca e o Alvarinho, votei no último. E avisei logo o digno condutor que a minha contribuição para o banquete estava num dos muitos caixotes que a sua Izuzu transportava. Ou melhor, em dois. Dado o alto ao MVL, saíram quatro garrafas de The Monkeys e duas de Constantino, cuja fama já vinha de longe, e três de Mosca. O Freitas do Cacuaco aportava uma de L34, uma cagada alcunhada de brandy. Atoarda, que não boato. Boato é crime e fere que nem uma lâmina dizem os cartazes colados pelas paredes. No mato, só nos aquartelamentos.

Pelas muitas da matina, já o estrelo clareia, quando o Fagundes, dono de uma Ford de báscula, me dispara então o amigo não está sastifeito com a refeição. Claro que estou mais do sastifeito, como ele diz, nasceu na Madragoa, veio para Angola em 58, apanhou os massacres da UPA, matei muitos filhos da puta e voltarei a abater esses escarumbas, se os gajos tornarem a arrebitar as orelhas.

Já não vale a pena passar pelas brasas. Mas, por agora, já não há que trincar. Esgotaram-se as mangas do Mussulo e os mamões, dádiva frutícola do Sanches, da Camabatela. As últimas a marchar pelo estreito, foram umas carambolas. Tudo em óptimo estado de conservação, antes dos suevos atacarem, babando-se. Trago um Poirot e um Maigret que estão na camioneta. Estultices de novato nestas lides. Fanático da leitura e da Vampiro, tenho-a todinha, mas agora, com os cagaços, não dá para correr as linhas.

Levanto-me e dou uns passos bamboleantes. Vinte para as quatro da matina e bêbado que nem um cacho. A ração de combate, fechada na sua caixa de cartão canelado, jaz, definitivamente falecida sem consumo, no chão da cabina que abro em busca de uma garrafa de água da Jomba, para rebater. Nem pó. Lembro-me nebulosamente que a bebi durante o percurso, antes da emboscada. E que, quando os tiros começaram, a vítrea criatura se espatifara na terra, ou foi queda ou tiro desgarrado. Sou, na verdade, um homem muito infeliz. Abusam de mim, porque sou pequenino.

Só me saem duques

Ó Sousa, você não tem praí uma água com piquinhos? Olha-me este. Só me saem duques. Água só para lavar a cara e as partes baixas. E com bolhinhas não dá. Tenho uns pingos de bagaço caseiro, do meu pai, que mo envia por barco. Afianço-lhe que é boa peça. Ná, o que caía bem era o aquoso líquido, engarrafado e com muito gás carbónico. Aproveito para mijar. Porra, ainda se fora da Nocal. Mas, não, é do Alvarinho e dos álcoois diversos e de diversas proveniências.

António Justo, alferes miliciano da nossa praça, faz a barba escanhoadamente, um espelhinho feminil na frente, muito há-de ver nele, minúsculo e com a noite ainda a ir para a cama. Com que então noitada? Podias ter chamado os amigos, ou seja, cá o rapaz. Podia, mas não o fiz. A boda e a baptizado não vás sem ser convidado. Ora eu é que o era. Não me parecera bem levar outro pela arreata. Passei à frente, com um vai-te foder de ocasião. Parece-me que não gostou. Ora essa, se não lhe agradou, ponha na beirinha do prato.

Aliás, alguém teria de deglutir as rações de combate, que não eram fornecidas à consignação. Ficasse pelo chouriço de lata, pelo leite com chocolate, pelas bolachas capitão e pelo queijo de tubo dentífrico. E que lhe tivesse agradado. Bom proveito. Nisto de culinárias é como no amor: come-se o que há, o que se pode e onde é possível. Com talher ou sem. Bom, aqui espirra qualquer coisa.

Amor e camisinha

Um dia, na Cidade Universitária, um colega goês convidara-me a ir ao Monte Carlo, ali ao Saldanha, para comer um caril a sério. Fomos e abancámos. Vindo o arroz, devia estar mais solto, Gracias dixit, e ala que se faz tarde, ao caril de camarão, peguei no garfo e na faca e aqui vai disto. O tipo aconselha-me a experimentar comer à mão, como ele faz, uma bolinha de arroz na ponta dos dedos, molhada na especialidade e zás, habilidade suprema, ei-la que voa para o palato.

Respondera-lhe que não, muito obrigado. Cagava-me todo e as manchas do pitéu deviam ser lixadas. Tenta. Tentei, estraguei. Competiria à Dona Glória reparar os danos à base da lexívia. E o portuga oriental, não sabes o que perdes. Comer arroz de caril com garfo e faca e, até, com colher é como foder com camisa de Vénus. Não tem sabor, nem dá gozo. Vai-se a tesão.

Os motores começam a roncar e os escapes lançam baforadas de fumo negro que ajudam a camuflar a chegada da manhã que se anuncia solarenta. Um tiro. Um tiro só, um único estampido, seco e sonoro. Mais nada. O que o apanhou, na testa, tem a cabeça descapotada, entre sangue e massa encefálica a esmo. O Bravo ajoelha-se ao lado dele, o cabo maqueiro que chega a correr, abre o saco de papel do penso individual do combatente, modelo 146-A, do Laboratório Militar.

Não há penso que valha

Mas volta a embrulhá-lo. No caso, não há penso que valha. Está acabado, o desgraçado foi desta para melhor. Para melhor? Uma porra! Sei lá se é melhor. Nunca ninguém voltou de lá para o comentário final. Deu o peido mestre, sentencia o Sanches, enrolando um cigarro quem sabe se de liamba. Há cabrões para tudo e o charro ajuda, dizem eles, sobretudo nas horas difíceis. Ao lado, encostado aos taipais do camião, Fagundes coça o ventre bojudo: na batalha naval não é um pobre-de-cristo que estica o pernil; é um submarino ao fundo. E o Gonçalves, mulato de Sá da Bandeira: e se morre muita malta na picada é porta-aviões ao fundo. Do mar ou do papel quadriculado?

Os camiões deixaram de escoucear. O Justo, o sacana, diz que é preciso levantar o auto da ocorrência. Aponta-me o dedo, tu é que és da PJM, logo sabes fazer essa merda, tens prática e até podes já fazer as averiguações. O turra estava no alto de uma mafumeira, à espera, pacientemente, até que visse onde podia acertar. É gajo para ter mira telescópica. Testemunhas somos todos nós. Mas não vimos nada, só o morto. Este merdas deste António faz-me lembrar o verso que corre por Lisboa: Dos dois Antónios de que Lisboa disfruta, um é filho da Sé. E o outro... também é...

Não mando o oficialzito para onde quer que fosse, ainda que tenha pensado que a cona da mãe dele era um bom local. O cidadão tem a burocracia nas veias. Pudera, não. Era chefe de secção das Finanças e acabara o Seminário, quase cura. A meio da primeira procissão, ainda acólito, dera-lhe uma danada de uma dor de barriga e tivera de raspar-se a correr, para trás duma sebe onde aliviara o intestino. De cócoras, dera-lhe para congeminar em. Já não voltou ao cordão do pálio, limpou o cu à opa e nem o presidente da junta de freguesia fora capaz de o topar. O Bravo levanta-se, de cabeça perdida, olhos injectados, seguro-o antes que ele rebente com o alferes de trazer por casa. Regouga: Puta de vida! É preciso avisar a Mafalda. Ela tem de se desenrascar. O Sousa já não volta a cozinhar. Cozinha - ao fundo.

4 comentários:

Gabriel O. Castro, Aveiro disse...

Já houve um amigo que aqui deixou a sugestão: o autor, sr. Antunes Ferreira, devia publicar um livro com estas histórias. E talvez mesmo uns programas, curtos, de televisão contando cada um uma das crónicas.
É só uma ideia que não sei se poderá ser posta em prática, pelo menos o livro não me parece dificil. Muita gente como eu, que andámos por aqueles lados de canhota nas mãos, compraria tal obra.
Aqui deixo esta ideia, com um abraço forte ao sr. Antunes Ferreira, que tão bem sabe contar o que viu e o que inventa, como ele próprio diz.

joliva_santos disse...

Caro Amigo AF,

De passagem (rápida) por Lisboa (Sintra) não podia deixar de vir aqui.

Vejo (contente) que continua. E (depois) a opinião (ao que parece) não é só minha. Um livro pode (e deve) estar na forja (conte sempre comigo!)

Um grande abraço (daqueles que só os amigos sabem dar).

Hasta siempre (companheiro Antunes),

Js

Anónima Salina disse...

Chefe e Mestre Antunes Ferreira

Da autoria de V. Ex.ª tenho eu crónicas, entrevistas e desenhitos do tempo d'"A BOLA" para dar e vender! Bem... dar é que não... Venha o livro e não tenho dúvida que ainda me renderão uns euritos!

Da sua leitora e fã, que há muito espera pelo caraças do livro

AS

Jsena disse...

Os meus parabens pelo blog,cronicas interessantes e boa escrita.os meus sinceros cumprimentos.