quarta-feira, julho 26, 2006







O Cuanhama, aiué

Antunes Ferreira
C
hove se deus a manda. Cordões de água empapam a terra vermelha, acompanhados por raios e coriscos - uma trovoada das antigas – que fazem doer a alma da gente. Em miúdo, na sanzala, a mãe Miquelina atirava-lhe com berros e aiués pela mania que ele tinha de correr, nu, pelo terreiro tomando um banho que lhe tirava os caramunhos da cabeça. Minino você tens de aprender a ser um home civilizado. Seu pai lhe queria que tu fosse assim.

Ele não respondia. O seu pai. Por onde andaria ele, algarvio de torna viagem, que estivera ali sediado durante a enormidade de dois anos com um comércio geral de fancaria e que emprenhara a Zefa Catemba, em resultado do que nascera ele, José Paulo de Carvalho Simões, mulato claro, de olhos verdes como os do sacana do progenitor. E continuava a correr na chuva, conduzindo com mestria um auto de arame, rodas, volante e imaginação, tudo em arame, já disse.

Um dia, já a mãe o tinha metido na escola da Missão, o padre Filomeno, italiano de barba branca sobre a sotaina branca (que raio, o gajo andava sempre num brinco, branco era branco, ponto), chamara-o à presença dele. E dera-lhe para a mão um papel de carta em que ele, entre o desconfiado e o espanto, dera a ler o que lá dizia. Era do pai. E tinha preso por agrafe metálico, um tanto enferrujado, um bilhete de barco para Lisboa. O que lhe pareceu o mais importante, no meio da confusão que se lhe instalara na cabeça, por baixo mesmo do cabelo liso. Os outros miúdos bem o chateavam por não usar carapinha.

Convencido de ser branco

Dona Zefa ainda hesitou. Mas o homem que fora o seu, era o pai do minino. Você faz o que queres, já tem idade pra isso. Mas eu lhi aconselho que vás. Foi. Em terceira classe, no Niassa, navio-motor lhe chamavam, que então era quase novinho em folha. Da viagem – só boas recordações. A camarata para 12 pessoas era o menos. O mar era o mais. E, como não enjoava, fartou-se de comer coisas boas, de brancos, convencido de que já era um deles.

Resumindo. O pai, que tinha o mesmo nome, tinha uma taberna e carvoaria, ali para os lados da Morais Soares, quase em frente o cemitério, do outro lado ficava a Praça do Chile. E os eléctricos iam e vinham, à mistura com as carretas funerárias da Agência Abreu. Passou a trabalhar com ele e o sôr Simões pô-lo a estudar à noite, na escola comercial. Uns anos depois, era ajudante de contabilista da praça, do Senhor Raimundo, que fazia as escritas de uma porrada de lojecas e, até, de algumas lojas mais apessoadas.




Pensava meter-se no Instituto Comercial, ali a Santa Catarina, quando rebentou a guerra na Angola que acreditava ter esquecido. Mas o Salazar, ou os gajos quo acolitavam, deu-lhe passagem para lá, depois de ter feito o CSM. Furriel miliciano, farda amarela de caqui, ei-lo que desembarca em Luanda, que coincidência, no mesmo Niassa, agora mais encarquilhado, mal cheiroso a bedum da animalada que transportava e a que chamavam transporte de tropas. Mantendo o navio-motor, diga-se.

A sanzala Serrador

A companhia de caçadores independente passou seis fugazes dias na capital e seguiu em coluna militar para Nambo. A picada relembrara-lhe os anos da infância. E ainda levava a esperança de rever a Mãe Zefa na sanzala, à beira do caminho. Mas, o que viu, gelou-o. Só havia paus a pique queimados, dois cães esqueléticos e uma cabaça rachada. Ninguém a quem perguntar pelo povo.

Já no aquartelamento, ao lado do que fora o clube desportivo, tinham-lhe dito para tentar averiguar algo com o Malaquias do chuto. E quando este, já com uns valentes bagaços no buxo, e por entre fumaças de liamba, lhe contara que ninguém escapara, a militança que viera de Luanda vingara-se das atrocidades da UPA, olho por olho, dente por dente, só um velho ficara para contar, a ele, José Paulo de Carvalho Simões, subira-lhe pela espinhela até chegar ao cocuruto. Nas palhotas, disseram, para justificar a metralha, acoitavam-se muitos bandidos autores dos mais bravios assaltos.

O resto da comissão passou-o na agonia de vingar os mortos da sanzala Serrador, entre os quais a Mãe Zefa. Mas, o que, na verdade, o perseguia era a visão do que não vira: o povo de borco ou de costas, tanto faz, pelo chão, litros de sangue empapando e reforçando o chão já de si avermelhado, homens, mulheres, velhos, velhas e, sobretudo, meninos ou meninas. Raiados a metralha.

Fez o pedido legal para passar à disponibilidade em Angola, alegando (justificadamente, diga-se) que era a sua terra. Entretanto, chegara-lhe do Puto um telegrama. O pai Simões finara-se, qualquer merda do coração, parece que estava a montar uma catraia de vinte e poucos anos, dera-lhe o badagaio, finara-se. A mulher, a legítima - porque a Mãe Zefa fora apenas a que o parira, que o deitara ao Mundo desgraçado que era este – fugira-lhe um ano antes com um marinheiro turco, levando uma porradaria de contos.

Peluda. Conversas no Rangel e no Sambizanga. Numa noite sem luar saíra de São Paulo de Luanda, à boleia de um camionista indicado pelos novos camaradas, tipo seguro, ainda que não seja dos nossos, afirmara-lhe, convicto, o Pintado das ferragens, militante do MPLA, a que aderira também. A vingança teria de ser forte, sentida pelos filhos da puta dos portugas, mas a independência seria ainda mais importante. Fossem chacinar para a cona da mãe da terra deles.

Os tugas já tinham aprendido

A chuva abrandou. Zé Paulo puxa do maço de Hermínios, aponta-lhe um fósforo, engole o fumo até tão fundo que quase lhe chega aos tomates. Fuma também de raiva. O golpe de mão que tentara executar fora um flop de todo o tamanho. Os gajos seus companheiros de Bilhete de Identidade – de mais, não – também já sabiam muito. Tinham-lhe trocado as voltas e o grupo dele, de 12 ficara reduzido a cinco. Sendo que dois muito estragados, um sem uma perna e o outro cego do olho direito. Uma ganda foda.




Com as mãos em concha tenta preservar a pirisca da ex-catarata que o envolve. Acabou-se: a beata e a euforia. Hoje, tudo aquilo que tinha acumulado de sucessos, fora-se, sem ai, nem ui. Tenho de me redimir, cogita. Tenho de os agarrar pela pele dos colhões e dar-lhes cabo da saúde. Levanta-se e anda, silenciosos, para trás e para diante, no meio das folhas de mandioca, em Cabinda fazem um esparregado com elas, o saca-folha, de comer e chorar por mais.

A noite vai-se transformando em matina, já nasceu um sol que tenta desesperadamente, apenas acordou, penetrar as ramas folhosas. Os companheiros foram até ao charco próximo, lavar-se e dar água aos feridos. Um deles, o Cachimba volta para trás. Camarada o cego escapa, o Cuanhama não se safa. Está a acabar. Já não tem sangue quase mesmo. Pediu no Cavibonde que lhi leva a foto da filha pra dar na mãe da minina.

Que idade ela tem? Cachimba olha, surpreso. Afinal o camarada Simões tem coração. Está a perguntar pela menina do Cuanhama. Ninguém diria. Olha camarada, repara só na foto. Tem cinco anos e si chama Joana. Que lhi parece?

A Mãe Zefa; sente que ela lhe põe a mão no ombro como fazia antes de. Zé Paulo, filho, essa minina Joana também é nossa, também é tua. Conserva-lhe. Você não tens filho, agarra ela e que ela lhi chama pai. Puxa da carteira ensebada, de couro andaluz, comprou-a em Sevilha, tinha ido lá numa excursão da escola nocturna, até engatara uma chavala, Mercedes, 22 anos, um espanto na cama. Fora no Parque Maria Luísa que a encontrara, quando se preparava para dar uma volta de charreta com quatro colegas. A bolsa que já foi castanha e brilhante tem a Virgem da Macarena em relevo. Tinha. Dela tira cuidadosamente a única foto que tem, teve e terá da Mãe Zefa.

Junta as duas, a da senhora e a da miúda. Mete-as na carteira. Está decidido. Quem sabe se ainda chegar a tempo, quem sabe quando a guerra vai acabar, quem sabe se arranjará um irmão para a Joana. Depende. Da guerra e da viúva. E dirige-se ao charco. Para também ele se lavar sumariamente. Para mais nada. O Cuanhama já se foi, aiué, como dizia a Mãe Zefa.

4 comentários:

Manuel Pinto Fonseca, alferes miliciano disse...

Senhor Dr. Antunes Ferreira

Eu também andei na guerra do Ultramar, a que muitos (entre os quais o senhor) chamam guerra colonial. Fui ferido em Mocimboa da Praia, fiquei a mancar da perna direita, uma mina de fósforo rebentou-me com ela, não fosse o helicoptero e tinha lá ficado.

Nós combatemos por aquilo que nos diziam e que julgavamos que era certo e bom para o nosso Portugal. Pelos vistos milhares e milhares foram enganados.

Não penso assim. Cumpri o meu dever, estive 3 anos e meio na tropa, saí de Infantaria 1, na Amadora e fui para Moçambique. Não dou por mal empregado esse tempo. Aprendi muito, até sei fazer frango à cafreal e matapa.

Escreva sobre os nosos e deixe os malandros dos turras para outros. Nós temos de nos orgulhar do que fizemos. Eu assim faço

Zé Sorja, dou um peido, Alenquer disse...

Deixemo-nos de tretas. Aquilo era mau. E estavamos todos de trombas, cheios de cagaço, só sorriamos para as fotos. No resto, eram as patrulhas, os golpes de mão, as embuscadas, essas coisas que nos deixavam a tremer e a borrar-nos nas cuecas, felizmente que já estavam castanhas. Porra para as considerações pseudo-filosóficas e para os ditos valentes. No olho é um descanso!

Zé Pinto disse...

Mestre,
Eu também lá estive em Angola e Moçambique.Não como soldado, mas aos serviço de empreiteiros portugueses (construção de estradas) e, tive uma rica experiência de guerra em Cabo Delgado, em 1969. Encarregado da central de britagem do Azevedo Campos, de Braga. Primeiro estive baseado em Macomia, a fronteira dos Macondes e dos Macuas. Era um jovem de 34 anos. De facto nunca o a guerra me traumatizou, até porque quando me descoquei para o norte de Moçambique já tinha tido a experiência da região de Tete e de quando a COREMO da Joana Simião começou atacar as viaturas, entre a Missão do Dégua até à Estima. Adorei andar naquela guerra. Eu e mais outros Zéz Pintos, andavamos nas picadas, sem coluna militar e para afastarmos o medo, enfiava-se no"bucho" umas "bazucas" de Manica. Já em Tete e porque era um, folgazão, jovem tive uma série de problemas quer do lado da tropa como da PIDE. Fui considerado um suspeito (lagarto,lagarto) que colaborava com os "turras". Por duas vezes fui chamado à PIDE e questionado pelo famoso inspector Sabino (nessa altura andava por Tete o Casimiro Monteiro, que se gabava em todas as "tascas" que tinha morto o Gen. Humberto Delgado. Um gigante, pessoa inteligente e instintos de facínora e temível pelos pretos que diziam, os matava a "murro". En Tete nunca vi "turra" nenhum. Fui-me distribuída uma "Mauser" de cinco tiros pela OPV (note-se nunca pertenci a esta organização), para me defender!!! Acossado pela PIDE parti para Lourenço Marques, fui-me divertir no carnaval do Malhangalhena we fiquei tesinho que nem um virote.
Sem dinheiro e sem trabalho à que ir em procura dele... foi isso mesmo. A firma Azevdo Campos dá-me colocação como motorista das Berliets GLR, basculante e o destino Macomia. Vinte dias do Bilene a Macomia, contando 8 dias tascado no lamação depois da ponte do Savane. Em Macomia estive uns seis meses e construia-se a estrada para ligar ao Mucojo. Conforme se progredia o lançamento do saibro, mudava-se a companhia militar de uns cento e tal homens que nos protegia. De quando em quando lá se indo perdendo um operador de máquina ou de cilindro. Todas as manhãs o percurso da estrada até às câmaras de empréstimo, tinha que ser picada. Havia o receio que durante a noite fossem colocadas umas minas "anti-bota" ou daquelas que faziam ir um camião pelos ares. A rapaziada do Azevedo Campos, por vezes, escapava-se à vigilância da tropa e íamos para Macomia, comer um pato à pequim no China ou visitar as nossas namoradas nas palhotas. Lá estamos outra vez com problemas. A malta estava feita com os "turras"! Mentira, não estavamos nada é porque eles viviam entre nós e a tropa. Não tinha etiqueta, nem tatuagem que os identificasse como tal. Sou transferido para Mueda e fico junto à Força Aérea. O comandante de então era o Major Henrique Calado. Assisti ao primeiro lançamento dos foguetes 138 milimetros da FRELIMO (creio a 17 de Setembro de 1969), dirigidos à Força Aérea. Houve uma baixa. Um piloto com um T2 de uma hélice meteu-se na linha de fogo e foi abatido. Ao outro dia um Halloet oi atingido na próximo da base Beira, não conseguiu chegar ao aeroporto e 7 comandos de Montepuez, com o piloto, morreram. Depois fui transferido para Diaca e ali a coisa era mesmo a sério... De Mocimboa da Praia toda a estrada tinha que ser picada. Nunca tive medo da guerra, mas o isolamento fez com que mandasse a guerra às malvas e partir para a Rodésia do Smith.
Em Lourenço Marques ninguém sabia aquilo que se estava a passar no norte. Entretanto as moretes iam acontecendo e a capela de Moeda era um depósito de urnas, com soldados, para partirem para Portugal.
Talvez volte para contar outras histórias e experiências de 9 anops em Moçambique e 1 em Angola.
P.S. Peço e muito agradeço que não olhem paras as gralhas, virgulas e outras calinadas que porventura Vossas Excelências encontrarem.

Zé Pinto disse...

Resposta ao Sr. dos Peidos,
Meu caro sr. peideiro, as guerras não foram feitas para borrados. Mas para homens com eles no sitío certo. Bem, não me diga se o parceiro do lado lhe mandar uma estalada na face direita que lhe vai oferecer a esquerda...
O sr. dos peidos deve ser, mais ou menos, como uns antigos combatentes que há tempos visitaram Cabo Delgado e, alguns, choravam que nem criancinhas, quando passavam em determinados locais.
Guerra é guerra, tenha sido esta feita por gregos ou troianos e envolvidos nela, temos que ir até ao fim, sem nos borrarmos ou nos peidarmo-nos de medo!