sábado, julho 15, 2006




A mosca do sonho

Antunes Ferreira
N
aquele preciso momento – e tal como dizia a Dona Célia, sua professora da quarta classe – gostava de ser uma mosca. Não tsé-tsé, a do sono. A vulgar. Na altura, os putos interrogavam-se o porquê de tal desejo. Uma mosca é um animal da merda, dizia o Faustino, que no Inverno costumava usar um casaco azul, com botões de metal, à militar, que a mãe dele lhe tricotara por mor do frio. E o Viegas, filho do sôr Jaquim da mercearia Estrela d’Alva, secos & molhados, ajuntava: da e na. Malta sacana mas afinada, a da Escola Primária n.º 114, ali a Palhavã.

Um dia, não se conteve e perguntou à digna senhora, viúva de um chefe de repartição das Finanças, o motivo que a levava a querer ser um tal insecto, chato e porco, que exigia o uso afincado do mata-moscas, instrumento apetecível ou, não o havendo, pano do pó até mesmo jornal enrolado manejado com presteza e pontaria. Claro, gente fina e de posses, utilizava a bomba do Flit, com embolo e depósito, mas que cheirava a remédio prós calos.

Dona Célia, toda de preto, como sempre, sorrira-lhe mansamente (procedimento habitual nela, principalmente para com ele, Justino de Oliveira Silva, mais conhecido pelo Justinho, dez anos, quase a fazer os onze) e explicara que muito gostaria de ser uma mosca para ver o que certas pessoas estavam a fazer e a dizer, sem que elas de tal se apercebessem. Sabes, menino, elas são aos biliões no ar, que mais uma menos uma tanto faz. Era esperta a Senhora. Esperta e boa.

Vamos por partes. Sem dúvida nenhuma que a Dona Célia tinha todos esses predicados, inclusive sabia uma porrada de esfortes, nada, não é assim, é estrofes dos Lusíadas escritos pelo Camões, aquele gajo com umas folhas de louro na cabeça e uma pala no olho, caté parecia o pirata da perna de pau. Grande poeta, o melhor de todos os que tivemos e muitos foram, comentava ela, enlevada, de olhos em alvo. E repetia, para consigo e para eles, grande poeta.

Remendão, o Virgílio?

Depois citava um tal Virgílio, nunca soubera o Justinho exactamente porquê. Dona Célia dizia que era uma comparação. Ná. Com o Virgílio sapateiro remendão, que tinha banca no vão da escada do 122 e os ameaçava de sovela em punho, quando eles lhe gritavam – de longe, não fosse o diabo tecê-las – ó marreco!!! Tinha a certeza que não se tratava do mesmo, não ia então a ilustre professora dar uma tal barraca. Quem seria, então, o outro Virgílio? Mistérios insondáveis da alma lusitana? Sabe-se lá.

Pois, sim senhores. Ali, estendido debaixo de uma GMC (diziam os mais entendidos que o camião era da II Guerra, mas que as Diamonds e as Matadores ainda eram mais antigas, e na tropa, a antiguidade era um posto) dava-se a desejar ser uma mosca, um moscardo, uma varejeira até mesmo um mosquito, por tais bandas eram às nuvens, os filhos da puta que passavam as febres e que por isso a malta era obrigada pelos das seringas a engolir todas as semanas um comprimido de…, de quê?..., ah, de camoquina.



Qualquer deles serviria. Assim disfarçado, um verdadeiro sonho – depois, porra, depois voltaria à sua fronha de Justino Oliveira Silva – voaria em planado até ao acampamento dos gajos, para observar o que eles estariam fazendo. Se calhar, como ele, algum estaria deitado, com o céu por tecto e não o veio da camioneta de carga, a pensar que gostaria de ser – um mosquito, igualmente. E se fosse? Andaria por ali, zumbindo como lhe competia, e picando de quando em vez. Homem, um gajo tem de cumprir o que lhe foi destinado à nascença. Até a Amália cantava assim.

E se o sacana lhe pudesse ler o pensamento? Aí, ele, Justino, para a malta Justinho, estava safo. O turra, assim lhes chamavam, ainda que ele achasse que se lhes devia apelidar de combatentes independentistas, depois de averiguar o que ele tinha na cachimónia, dar-lhe-ia não com o ferrão, mas uma festinha com a asa. Para lhe dizer que era assim mesmo, que a malta da pesada tinha direito a ser independente e que os tugas, o melhor que tinham a fazer era porem-se nas putas. E no Puto.

E lá viria de novo a ideia da deserção. Que lhe ocupava, pelo menos, um terço da massa cinzenta. Mas que, infelizmente, não podia ser. Fizesse-o e os pides agarrariam a Graça sua mulher com um miúdo na barriga e outro de chupeta, na alcofa. Foda-se, ele não tinha perdido tempo; ou antes, eles. Quando em vésperas de embarcar para a guerra, se tinham casado como manda a Madre Igreja, o prior Anselmo logo lho dissera. Tu o que não te falta é pontaria… Assim seja lá pelas Africas… Bom recado, que não encomendação, uma merda!

Na cama? Na guerra…

Ao longe – o que é nesta escuridão ao quadrado, da noite e da mata, o longe? Onde está? Quanto mede? Quanto pesa? O sotore Raminhos, na escola industrial, é que fazia essas perguntas todas, a propósito de nada e de tudo, em química, de que aliás o Justinho gramava à bessa – ao longe ouvia-se ribombar trovões, muitos, enquanto os flaches dos raios apenas passavam por entre a ramaria e as lianas.

Pronto. Estava de novo onde sempre estivera. Na cama com a Gracinha, fazendo coisas a que os outros chamavam indecentes, mas de que eles gostavam muitíssimo, entre lábios – de cima e de baixo – traseiros e mamilos mamados, pau erguido e bem oleado do cuspo e toma lá nos buracos, gostas? Muuuiiiito! Na escola onde já dava aulas, aos 25 anos, que ainda os ia completar, com a putalhada, malta fixe, que às vezes tinha de levar ponteirada, naturalmente, mas poucas.



E onde a espingarda automática? E onde as divisas de furriel, miliciano, tá visto, que não se usavam na picada? Que puta de vida. Onde é que encaixavam as botas, os polainitos, o camuflado, os carregadores, as rações de combate, o cantil e os comprimidos de olozone, ou lá o que era? E o paludismo? E as diarreias? E as rajadas de kalashnikov quase tão rápidas como os mosquitos? E as bazucadas?

A lembrança do vale musgoso da Gracinha levantou-lhe o desejo. Orifício mais próximo, só o tubo de escape da GMC. Outros havia, mas com pelos e os proprietários não colaboravam. A mão direita, já apressada, percorreu a braguilha. E logo a seguir explodiu em movimentos cada vez mais rápidos, à procura da satisfação, os dedos convulsivamente apertados. Ai Graça, ai Gracinha, se tu soubesses as saudades…

Terminada a solitária, esvaído, há uns tempos que não fazia tal, de novo a mosca: o gajo é homem e deve ter mulher; estaria ele a bater também uma pívia?

2 comentários:

Nuno António S. Santos, Algueirão disse...

Rico

Somos amigos desde Angola e tu sabe-lo bem. Conhecemo-nos no Miau, onde desenhavas, ainda no tempo do Charulla de Azevedo. Continuámos a ser assim, por tempos irrepetíveis.
Nunca mais te vi, a não ser quando enchias os ecrãs da televisão... Mas nunca deixei de te ler, quase diria tudo. Até na Bola e na Revisores & Empresas. Um destes dias telefono-te para irmos comer uma moamba ao Calvário.
Entretanto, continua. As tuas prosas são sempre boas, excelentes. Mas estas da guerra do Ultramar são o máximo. Tens de escrever um livro. De memórias, claro. As tuas. Segue em frente que não haverá maka. Quinté

Chico Monteiro, Águeda disse...

Antunes

Sabes quem eu sou? O Chico, teu amigo e teu irmão. O fininho? Não. Tu é que sabes. De Úcua. Pois claro, agora já sabes que sou o Monteiro.
Saíste-me um bom malandro. Então escreves tão bem e não publicaste ainda nenhum book? É imperioso que o faças. E aqui estou eu para o ler... depois de comprá-lo......
Um abraço apertado do que se tornou teu leitor e admirador da tua escrita. Amigos já eramos antes