quinta-feira, outubro 26, 2006



O Grumete Fuzileiro Vasco



José Augusto Sacadura
Parti para Angola no dia 30 de Maio de 1967, preocupado com o estado de saúde da minha Mãe e receoso do futuro que me esperava. Tinha 25 anos e era Delegado do Procurador da República, carreira que assim via interrompida. Embarquei, já com o posto de sub-tenente AN RN, num avião a hélice da Força Aérea, vestido com a farda de Inverno, a qual, na Metrópole, seria substituída, nos primeiros dias de Junho, pela farda branca de Verão.

Cerca de 24 horas depois de termos partido de Lisboa, sobrevoávamos Luanda, avistando de bordo do avião o solo vermelho, característico da capital de Angola. Uma viatura da Marinha, que ali se encontrava, conduziu-me ao edifício do Comando Naval, onde logo me apresentei ao 2º Comandante e ao Chefe do Serviço de Abastecimento. Recebi, então, instruções para me apresentar na Base Naval, ou seja, nas Instalações Navais da Ilha do Cabo (INIC), onde fui colocado na Secção de Recepção e Expedição de Materiais (SREM).

O serviço ocupava-me inteiramente durante as horas normais de trabalho. Tínhamos como missão efectuar as operações de carga e descarga dos navios que rumavam a Santo António do Zaire (Sazaire, na gíria) ou a Cabinda, bem como o envio, por via aérea, de materiais necessários às Companhias e Destacamentos de Fuzileiros colocados no Leste – no Lungué-Bungo e no Chilombo – e, mais tarde, no Rio Cuito e nas Terras do Fim do Mundo, onde ergueram uma nova povoação, Vila Nova da Armada. Ficava a meu cargo a elaboração das e a resposta às mensagens relativamente às necessidades de material das diferentes unidades, avultando, pela sua importância, os botes de fibra de vidro e os motores fora de borda, cujas marcas (Mercury, Johnson e Evinrude) ainda tenho de memória...

Carpinteiros e estagiários

As operações de expedição de materiais implicavam a colaboração de carpinteiros locais contratados, entre os quais se destacava a figura simpática, mas semi-ausente, do Domingos, com o permanente sorriso triste na boca desdentada, uma pirisca ao canto dos beiços e os olhos amarelos, raiados de sangue, de alcoólico. Eram os carpinteiros que, com extrema rapidez, construíam ou adaptavam os caixotes das mais diferentes dimensões e formatos, os cintavam e os colocavam por ordem nos locais próprios para serem transportados para bordo pelo pessoal da estiva. Nos dois ou três dias que se seguiam ao pagamento da jorna quinzenal, o Domingos sumia. Devidamente munido de angolares, era tempo de desfrutar dos prazeres da carne nos braços da amiga que só então o recebia e de procurar, no álcool, o esquecimento das agruras diárias.

Na Secretaria, para além de mim, havia um Sargento, que era o responsável pela distribuição das cargas pelos navios – evidentemente, sob a autoridade do imediato das embarcações -, de forma a aproveitar o espaço da melhor maneira possível e ainda dois Cabos da especialidade de Abastecimentos. Além do pessoal militar, trabalhavam na Secretaria da SREM duas funcionárias civis, que desempenhavam as funções administrativas próprias de um escritório, nos anos sessenta.

Enfim, de quando em vez, era destacado para ali estagiar temporariamente um ou outro fuzileiro, que faziam parte de uma bolsa sedeada em Luanda, à espera de serem chamados para rendições individuais – normalmente, por razões de baixa de algum camarada – nos destacamentos de fuzileiros estacionados no Leste. Normalmente, pelas suas características pessoais, eram rapazes que não se adaptavam ao serviço administrativo. Dotados de aptidões viradas para a acção, eram guerreiros a aguardar chamada para o combate. Entretanto, o que os atraía era o engate das belas morenas que tornavam a cidade mais atraente e sedutora. E, como sabiam que estavam em trânsito, pouca ou nenhuma assistência davam à Secção. Eu fechava um pouco os olhos, compreendendo a sua situação especial.

Um grumete diferente

Todavia, um dia, colocaram no meu Serviço um grumete fuzileiro bastante diferente do normal. Não correspondia de todo ao perfil habitual de um fuzo. Era o Vasco Varela, alentejano calmo e ponderado, que se revelou escrupuloso cumpridor dos horários e das tarefas que lhe iam sendo distribuídas, E que, por isso mesmo, foi sendo chamado ao desempenho de actividades mais complexas, tornando-se uma unidade de muita qualidade e eficácia. Tratava-se, enfim, de um rapaz com manifesta vocação para o serviço de Abastecimento. Encontrava-se numa fase já adiantada do curso de dactilografia, no qual se inscrevera por iniciativa própria e a expensas suas, quando recebeu ordens para se apresentar no destacamento do Chilombo, no Rio Zambeze.

Veio falar comigo, perguntando-me se não seria possível adiar durante umas breves semanas a partida, o que lhe daria tempo de concluir o curso que, segundo ele, o valorizaria e poderia ajudar na vida futura. Expus a situação ao 2º Comandante, que foi, como de costume, compreensivo, tendo deferido o pedido do Vasco, avançando, em vez dele, um outro Fuzileiro, também pertencente à referida bolsa.

Fiquei satisfeito, quando soube que a vaga que veio a surgir algum tempo depois – e que o Varela iria preencher – era no Lungué-Bungo, teoricamente, uma zona menos perigosa do que a do Zambeze. Lá partiu o alentejano, contente por ter concluído o curso de dactilografia, deixando saudades em todos e prometendo voltar a visitar-nos quando pudesse regressar a Luanda. Voltou. Para nosso doloroso espanto, iríamos receber na Secção, cerca de um mês depois, o caixão com o corpo do grumete fuzileiro Vasco Varela.

Contaram-me o que tinha acontecido. Numa acção de patrulha do rio, em três botes de fibra de vidro, os nossos homens foram atacados com fogo cerrado, disparado das arribas que ladeavam uma das margens. Todos se deitaram no fundo dos botes, como mandam as normas em situação semelhante. No entanto, o grumete fuzileiro Vasco, recém-chegado à unidade, a estrear-se numa missão de combate, reagiu com a galhardia dos maçaricos e, direi eu, com a valentia, quantas vezes feita de gestos irreflectidos, dos homens de coragem. Em vez de se deitar no fundo do bote, assim reduzindo as possibilidades de ser atingido, levantou-se e deu o corpo às balas. Atingido num órgão vital, estupidamente perdeu a vida um dos mais jovens e puros militares que tive a oportunidade de conhecer.

E foi a minha Secção, foram os meus homens, seus companheiros de coração, que tiveram o penoso encargo de embarcar o seu corpo no avião que o levou de regresso a casa. Para sempre. Confesso que, nesse dia, não consegui trabalhar. Atormentava-me a ideia de que, se ele tivesse ido para o Chilombo, como lhe tocara em sorte, por certo, ainda estaria vivo. E de que eu, sem querer, ajudara a mudar-lhe o Destino...

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Ora viva!
Atenção, gente

Começa hoje a sua colaboração neste blogue um grande e «velho» Amigo, desde os bancos do Liceu Camões, de onde seguimos os dois para a Faculdade de Direito. Aí, a verdade azeitou-se: veio ao cimo da água. O Zé Augusto acentuou a fibra que já mostrara antes: foi um excelente aluno; eu, pelo contrário, comecei tão só a escrever desalmadamente, justificando, sem grande resultado, com as linhas que paria, a cabulice que disfarçara durante tempos. Vidas.
Anos depois, em Luanda, o José Augusto esteve em minha casa, aventurando-se nos picantes goeses da Raquel. Para além dos condimentos em profusão, ainda ali se utilizava o jindungo característico de Angola. Bravo! O brioso oficial miliciano da Armada portou-se que nem um bravo. Não arredou pé, mastigou e foi por aí fora do quimo ao quilo. E iria aos quilos (que hoje ostenta) se continuasse em tais vidas. Aliás, continuou, mas devagarinho.
Passaram anos e, sempre que a sorte nos permitiu, reencontrámo-nos e fomos pondo a conversa em dia. Curioso: estava eu no Diário de Notícias e surge-me a esposa do cidadão em causa que, ao cabo de charla prolongada, simpática e interessante – entrevistou-me! Na qualidade de jornalista, creio sinceramente ter sido a única vez que tal me aconteceu. Acontece.
Agora, há dias, num restaurante acolhedor, o malandro do JAS reconheceu-me, de mesa para mesa, vejam lá, pela minha voz. Foi uma festa. Felizmente que estava com a Raquel e a mana Lena. Imaginem outra situação – aliás impossível de todo – e o bandido a identificar a minha tonalidade vocálica. Já não lhe posso fazer telefonemas anónimos, porque para ele, a minha expressão oral – tem nome. Já não se pode confiar em ninguém, muito menos nos Amigos que nos identificam pelo som.
Caríssimo. Para além das promessas, que vamos concretizar, de novos encontros desta feita frequentes, porque até somos agora vizinhos, tenho uma imensa alegria de te receber nesta casa informática que já é também tua. Quanto ao resto, fico à espera do resultado dumas famosas vindimas em que tu foste conivente. A escrita aqui fica. Das videiras e produtos decorrentes: o crime, ou não o soubesses de ginjeira e de experiência feita, por vezes até compensa.
A.F.

5 comentários:

Raulzinho do Guay disse...

Esperando que este seja o primeiro de muitos outros.

Carlos Mendes de Carvalho, Vila Real disse...

Amigos

V|e/se logo que este cavalheiro e da colheita do Dr. Antunes Ferreira. Sabe escrever e ponto. Mais um para enriquecer este blog excelente. Continuarei a recomenda lo aos amigos

Virgílio Melo Martins, Lisboa disse...

Gostei. Simples, escorreito e claro. Não se pode pedir muito mais. A verdadeira história dos Portugueses por esse Mundo fora vai sendo descoberta passo a passo. No meu modesto entender, já se torna imperioso e obrigatório um estudo sério e abrangente desta melindrosíssima questão.

Até lá, parabens ao sr. JAS e ao blog. Voltarei, sempre que achar oportuno

Mário Júlio de Carvalho, Portalegre disse...

Também por lá andei. Como Sargento fuzo. Mas penso que noutra altura: 1970-1972. Tudo o que o sr. J. A. Sacadura escreve corresponde absolutamente à realidade daquela zona. Quanto ao episódio igual a tantos outros, pobre do grumete fuzo. Sr. J. A. S. escreva mais. Obrigado.

António Fernando Arvins Batista disse...


Olá pessoal!Não fui Fuzo,Fui atirador a cavalo sitiado no Munhango,Bié,estive no Chilombo 3 dias depois de 35 na mata que não era mata,chana da cameia atravessamos o Zambeze para a vossa base onde fomos muito bem recebidos,ganhei lá alguns amigos,o Figueiredo,o porto,etc.Depois passamos pelas Lumbalas,isto só para dizer que muitos dariam dinheiro para sentir e ver aquilo.Um abraço para todos aqueles que cumpriram com o seu dever.Antonio fernando Arvins Batista é assim que estou no Facebook.