domingo, novembro 05, 2006







VIDA, VIDAS

Como chove

Antunes Ferreira
C
hove se deus a manda. A rua transforma-se num caudal cada vez mais espesso e negro. E para que não se diga que é só isso, uma bela trovoada começa a faiscar no negrume do astro a transbordar de nuvens. O primeiro trovão rebola-se no estrondo, afoito. Jerónimo pensa no dito da avó Marcelina – a chover e fazer sol, andam as bruxas enroladas num lençol. Parvoeira. Aqui não há réstia do astro a que chamam rei. Melhor fora presidente, já que estamos em regime republicano desde o 5 de Outubro.

Mas, com a trampa do Estado Novo em que se está atascado, tudo fede, até mesmo os revoltosos da Rotunda. Foram-se as barricadas, os civis armados, os magalas de Kropatcheques aperradas. O António da calçada, que lá continua alapado, mandou como diz a cantiga, fogo já se não faz mais, só tu é que fazes festa. Por entre as cortinas de água e do ribombar celestial, de novo uma recordação.

Na Rua do Ferragial, de putas e maus fados, corre um poema que é de se lhe tirar a cartola. Também não pode correr muito mais, até no Parque Mayer as revistas são censuradas, ainda que consigam passar algumas piadas. Pois diz assim a versalhada. Dos dois Antónios, de que Lisboa desfruta, um é filho da Sé; o outro… também é. Se calhar…

O umbral pacífico e complacente de uma porta de prédio dos anos quarenta que se foram, dá-lhe guarida quando começam a engrossar os pingos de chuva, até se transformarem em bátega aparentemente eterna. Logo hoje, logo hoje, há-de desfazer-se o Mundo em água. Ia a caminho da casa da Matilde, um ramo de rosas vermelhas como ela gostava.

As pétalas, desgraçadas, já não estão lá, desertaram dos pedúnculos, limita-se a ter na mão um desfloramento aquático. A moça queria que os pais o conhecessem, assim as coisas vão no caminho certo, nos meados dos anos cinquenta, a janela já foi. Mas ainda não parece bem namorar às escondidas dos progenitores. Mas sabe que nem ginjas. Até num vão de escada, um olho nela, outro nalgum vizinho que possa aparecer.

Monsanto ou monte santo?

Os passeios a Monsanto são o máximo. As bermas fáceis de ultrapassar, vai um saltinho, menina, e logo uma cama macia de ervas diversas, às vezes com alguns espinhos, mas não faz mal, até entusiasma mais a malta. Como se eles precisassem de ser picados. Engalfinhados, ele por cima, ela por baixo como mandam as regras, desaperta aqui, baixa acolá, uma efervescência que nem de panela ao lume alto.

A merda da chuva não pára. Apalpa o chumaço que lhe sai das virilhas, basta lembrar-se da Matilde e é o que se vê, mais ainda, se sente. As pernas longas dela ao alto, as unhas escarlates cravadas nas costas peludas dele, és o meu urso cabeludo, ai que me matas, suspende, tira fora senão engravido, é um sarilho. Ele acrescenta que é mas é um saralho do carilho. Riem-se em casquinadas.

E se anda por aí alguém? Um guarda-florestal, um sacana desses, um filho da mãe fardado, acrescenta ele. Se cabrão houvesse e viesse espiá-los ou até interrompe-los, partia-lhe os cornos. Não fales assim, Jerónimo, não gosto disso, bem sabes. E os seios orgulhosamente empinados arfam mais ainda em face do possível susto. Que não vem.

Ele, pelo contrário, sim e abundantemente, entre as pernas dela. No meio, um monte santo e encaracolado. Gostas? Muuuuuiiiito. Fala, diz o que queres que te faça? Mas com as palavras certas, agora sim, daquelas de que tu gostas. Aqui não existem palavrões. Enterra-mo todo, amor, até às bordas, vem, meu ursão. E não queres que te lamba a coisa, antes? Quero, quero, quero que me faças um mimi e na greta, não na coisa. Eu, depois, chupo-to até ao fim, para saborear…

Estes passeios de fim-de-semana são o clímax. Com tempo seco, então é que são elas. E os meus pais pensam que estou em casa da Manuela, a estugar geometria descritiva. Esta é a melhor geometria, o teu pau sempre em pé, eu sempre de perna aberta, vá morde-me os bicos das mamas, vê como estão rijos. Túrgidos, amor, túrgidos, - é como se diz. Nem o Leite de Vasconcelos, muito menos o Padre Raul Machado.

A sacrista da chuva parece que engrossa, se é possível.Ele já se solitarizou, os dedos escorregadios no mastro, no calado da noite de breu, com cuidado para não lambuzar as calças, braguilha aberta q.b. Bom, assim não pode ser nada. Os carros que passam, poucos, espalham faúlhas aquosas, em espichos altíssimos. Está que nem um pinto. Sendo assim, vá de meter pernas a caminho até à Graça.

Eu venho pela Matilde

Degraus, foi um ar que lhes deu. Nem parou no patamar do meio para tomar fôlego. Batida a porta, veio uma senhora, presumivelmente a mãe da jovem. Entre o tímido e o envergonhado – eu sou o Jerónimo. Ah sim? E que tenho eu com isso? Perdão, mas não mora aqui a Matilde. Um franzir de cenho. Não. É no andar de cima. Desampare-me a loja. Aí vai ele, num foguete.

Campainha a fundo. Abre-se a porta. Uma boazona em combinação transparente, vê-se-lhe tudo, os mamilos, o escuro no baixo-ventre, até a cicatriz da operação ao apêndice. Que raio de família. Se calhar é uma irmã, mas que irmã. Só curvas, ainda por cima nos lugares certinhos. Eu venho para me encontrar com a Matilde, sabe, uma rapariga…

Sei muito bem, entre, entre, que vou chamá-la. É para já. Volta-lhe as costas e dirige-se à porta que dá para o interior. As nádegas que dar a dar, rijas e arredondadas são um espectáculo. Jerónimo pensa que ela sabe que é boa e gosta de o mostrar. Que rica mana tem a Matilde. Não se parecem de cara, mas no resto.

Olha em redor. Decoração apessoada, um cortinado de veludo grená escuro, apanhado aos lados por dois cordões presos a pregos grande e doirados. Uma mesinha central, a imitar queen anne, com naperon rendado e uma moldura trabalhada com a foto de outra beldade, sumariamente despida. Que rica casa. Vê-se que é gente de posses – e boa.

Na volta, abre-se a porta e surge a sua Matildinha. Em nêgligê ainda mais revelador, se possível, do que o da suposta irmã. Um ah de espanto. Tu, por aqui, Jerónimo? E corre para os braços dele, anicha-se, quente e saborosa. A água que o ensopa, ela nem a nota, tal a sofreguidão do amplexo. Treme, porem, ele nunca a vira assim. Que se passa amor?

A porta do fundo abre-se de novo, sai dela uma mulatinha em sutiã e calcinhas, mais pequenas que parra de uva. Traz pela mão, como se fora pela arreata, um sujeito gordo e balofo, um bigodinho ridículo, casaco assertoado, azul-escuro com botões de metal dourado e emblema no bolso do lenço. Então até depois, queridinho. E a mulata, requebrando-se, abre a famosa porta e vai à sua vida.

Jerónimo arregala os olhos, levanta a cabeça da Matilde, uma interrogação muda. Ela, grudada a ele que nem lapa à rocha, sem dar conta do caldo de carne, já azedado, em que a chuva o transformara, sorri-lhe com o ar de gaiato apanhado com o boião da marmelada na mão. Sorriso que o faz ficar fora dele, com ela. Amor, desculpa, enganei-me. Dei-te a morada do trabalho, não a da minha casa.

10 comentários:

Mário Martins, prof. universitário, Lisboa disse...

Ó Antunes Ferreira

Já sabia que você escrevia muitíssimo bem; mas coisas destas são um mimo! Já as mulatas africanas eram de estalo. Esta, de estrela e beta e pé calçado! Vá já à editora mais próxima. Os leitores esperam por si.

Rosa Maria Teixeira, uma mãe de famíli de Valença disse...

O senhor está abaixo de cão. Já tinha percebido que era praticante da pronogafia, mas meter mulheres nuas no seu bloge infame é criminoso. Imajine as criansas que poderão ver esta pôca vergonha. Como é que Portugal pode ter uma nova jerassão séria e hónesta com porcarias como estas que você publica. Reze, reze muito e arrependasse, seu pecador maldito. Olhe que Deus é justo e o Inferno espera por você.

Jaime Costa Pinto, Setúbal disse...

Bem apanhada, a história. Bem apanhada, com laracha e bem escrita. Isto é, muito bem escrita.
A Dona Rosa, mãe de família, pode ir dar à língua para outra freguesia. Há muito boa gente, estou certíssimo, que gosta desta escrita. Faço parte dessa maioria que julgo esmagadora.
Ó Dona Rosa: como foi que chegou a mãe de família sem fazer destas coisas??? Ou já se esqueceu?...
Boa!!!

Raul disse...

Rikinhus,
outra estória bem escrita.
Sôra Rosa, volte para a sacristia.
Para quando o fim dos (muito) falsos pudores ?

Rosa Maria Teixeira, mãe de família, Valença disse...

Você é um pecador e um pulha! Os tipos da sua laia que o rodeiam e apaparicam mais não fazem que não seja a defesa do mal, do inconcebível e do desregramento. Repito e repetirei tudo o que lhe escrevi e que aí está.
Quanto ao tal Raul, recomendo-lhe que frequente a sacristia por ele invocada. Eu cá sei muito bem o que devo fazer e como o fazer. Olhe «camarada» Raul: quanto a pudoes e falsos pudores, estamos conversados. Instituição fundamental, que é a Família está pelas ruas da amrgura, por algum motivo.
Ao Pinto, nem lhe respondo tal é a sua má educação. Mãe de 5 filhos e com muita honra. Todos tementes de Deus. Até sempre.

Carlos disse...

Exmo Sr Dr. Antunes Ferreira,

neste momento só me ocorre fazer o seguinte comentário... Por acaso não tem por ai consigo a bendita morada do trabalho destas senhoras?

Armindo Cunha Monteiro, Caldas da Rainha disse...

Não sei quem é o Carlos, mas estou 287% com ele. O senhor doutor sempre tem a morada? Se tem, julgo que é gajo para a dar. Juro que deixo a Matildinha para o Jerónimo. Mas as outras...

Joaquim Nogueira, Odivelas disse...

Mau, mau! Já há muitos candidatos, o que quer dizer que há muita gentinha a passar fome de coisa. Mesmo assim, não quero deixar de me inscrever, ainda que a bicha sejam grande. Eu queria dizer fila, mas fugiu-me a boca oara a verdade.
Senhor Dr.
Não nos entusiasme muito; mas não se entusiasme também o Senhor. Um homem não é feito de pau, o que não é a mesma coisa do que de pau feito, de acorcom o Senhor Dr. já escreveu.
Muito agradecido. Os melhores e mais entusiásticos cumprimentos.

NB - Oxalá a Dona Rosa falte à palavra dela, mãe de filhos, e volte ao ataque para lhe podermos, os da bicha/fila mais porrada. O patrão dela é que disse mais ou menos isto: «Pai perdoai-lhe que ela não sabe o que faz e, pior, o que escreve». Assim seja.

Rosa Maria Teixeira, mãe com muita honra disse...

Não é com malcriadezas nem com provocações que me fazem desistir do que já disse: não volto a mexer na m..., pois só as moscas mudam. Vão passear os malandros que me atacam com falsidades e sacanices. Agora é que já não volto mais aqui. Quero que se lixem!

Pe. José Pereira, antigo pároco de Idanha-a-Nova disse...

Não entendo como é possível este País ter chegado onde chegou. A baixeza moral, a mentira, a sujidade, o calão, a pedofilia, a prostituição, o roubo, o atentado à moral, a desonra, tudo são sinais de uma catástrofe humana que já começou a acontecer.

Vinha, por vezes, a este blog e dei-me por satisfeito por bastantes. Agora, não! É à tripa-forra. Nosso Senhor Jesus Cristo, Deus o tenha em toda a Honra e toda a Glória, é bom. Mas também é justo e justiceiro! Ai de quem dele se rir ou o apostrofar.

São Paulo na sua Epístola aos Filintios diz que «ai daquele que não respeitar o Senhor Jesus, o Mestre dos Mestres. Cairá sobre ele a maldição dos céus, sem dó nem piedade».

Quero aqui deixar a minha inteira solidariedade com a Senhora Dona Rosa Maria Teixeira. Ao contrário de muitas marafonas que andam a exibir o que têm e até o que não têm, esta Mãe de família é exemplo e grande para quem entrou por azinhagas do diabo!

Por isso os ataques da corja de sempre. Esta cambada de apóstatas devia calar-se e pensar nos caminhos em declive que os irão levar às profundezas do Inferno.

Senhora Dona Rosa Maria Teixeira:
Continue, minha Irmã, a trilhar o caminho da salvação eterna. Deus a levará para a Sua direita, estou certo.

Quanto aos miseráveis - à cabeça dos quais está esse horrendo Dr. Antunes Ferreira, proprietário desta folha onde campeia a escumalha - que atacaram esta santa Senhora, só uma palavra: arrependam-se. E não bolsem mais vitupérios. A misericórdia divina é enorme. Mas, por vezes, até à Santíssima Trintade vai faltando a paciência.