quarta-feira, novembro 29, 2006





DEAMBULAR

Llueve lluvia en Madrid

Antunes Ferreira
Don Antonio Goméz, proprietário do Hostal Centro Sol, mete o cartão de plástico na ranhura da máquina de fazer chaves dos quartos. Já passou o tempo das Yalle, para não falar já das de argola e dentes cortados que se metiam – e ainda metem – em fechaduras de buraco por onde tantas vezes valia (e vale) a pena espreitar, dado o panorama que se revela ao curioso.

Mire Usted Don Enrique – tenho a certeza que é sem H, ao uso castelhano, para quê essa letra, ainda por cima mudíssima, pretensiosismo herdado de franceses, ingleses e outros mais ou menos imperialistas – como llueve. Mi abuelo decía que llueve lluvia. Así que es verdad. Sin embargo, no es normal para esta epoca del año en Madrid. El tiempo, óstia!, lo hemos mudado, nosotros los hombres, somos unos cabrones.

Concordo. Na Sierra da capital – o nome é da Guadarrama, mas toda a gente a conhece apenas por Sierra, era como a Ponte Salazar a que apenas se chamava a Ponte, desnecessária a mudança para Ponte 25 de Abril, justificável só como homenagem à data redentora – ainda não há neve. Diz-me o Fernando Barciela que já não se pode acreditar em ninguém e em nada, nem no astro. O Barciela, anote-se, fui eu quem o arregimentou como correspondente do DN em Madrid.

Excelente jornalista, multifacetado, brilhante no que escreve, viveu, aparentemente, numa duplicidade crónica: Quando em Madrid – só pensava em Lisboa. Chegado a Lisboa – só recordava Madrid. Tem currículo feito, por mérito e trabalho. Não volta a cara a nenhuma tarefa – desde que seja jornalística. E de cozinha, pois é um Chef de truz e até já teve um restaurante, por mal dos seus pecados financeiros… Agora, parece-me melhor. Pelo menos já não se zanga quando se diz menos bem de Portugal...

É um grande Amigo, o Fernando, meio galego meio portuga, devorador intemerato de bolo-rei, melhor, de bolos-reis. Levo-lhe sempre uns dois ou três, de dimensões aconselháveis à voracidade do cidadão. Pneus lhes chama ele, e começa logo por guardar no congelador um dos exemplares. É para as Festas, explica. É sempre, mesmo que os tenha encomendado, só para lhe dar prazer, em Junho. Nesse caso, quem sabe, para as dos Santos Populares.

Entre bacalhau e tortilla

Aterrar em Barajas, mesmo sob uma carga de água, sempre me foi tonificante. E, veja-se lá, também o é para a Raquel, de cepa goesa, bacalhau com batatas e grão só se habituou a comê-lo em Lisboa. Tornou-se uma verdadeira Pantagruela na preparação do peixe, dessalga-o com mestria, como se toda a vida o tivesse feito e, já no prato, rega-o conscienciosamente com o azeite que em Goa era chamado do Reyno. E, claro está, muita pimenta, alem da cebola e do alho migadinhos. Oriental degenerada.


Pela capital de Espanha – seja-me permitido o tradicionalismo conservador, mais adiante a isso iremos, são biliões de contas de outros milhões de rosários – somos mais de tortilla e de tapas mais. Riñones al Jerez, callos a madrileña, salpicón de marisco, albóndigas, pulpo a la gallega e por aí fora. Regalo-me com una paella ou un arroz a la banda, no que a minha cara-metade condescende em me acompanhar, porém sem grandes olés.

O casco viejo da cidade à volta da Plaza Mayor regurgita de gente avançando já nas compras navideñas. Ao lado um tudo-nada abaixo e à esquerda é a Puerta del Sol, agora e uma vez mais em obras, por mor do metro. Dizem os cartazes que encimam os taipais que rodeiam os locais de trabalho que se trata de fazer una nueva línea amarilla.

Têm a sua graça, os taipais. Na chapa ondulada de que são feitos, estão reproduzidas fotos e gravuras da cidade há uns largos anos atrás. Ao mesmo tempo que os construtores pedem disculpas a los madrileños por las obras que terminarán lo más pronto posible, oferecem a quem por ali passa a possibilidade de saber dessas memórias antigas.



Imperturbável está a estátua do brasão de Madrid, o urso empinado junto ao medronheiro (el oso y el madroño, como dizem) que parece não ligar absolutamente nada à poeira, às máquinas e aos obreros. A Puerta será sempre a Puerta, com mais crateras de trabalhos, ou menos. Já a equestre de Filipe III – recordam-se? O II de Portugal… - parece menos imune à azáfama. Ainda que nem monarca nem cavalo se mexam. Bronze. Feitios.

A praça continua a ser o ponto zero de todas as ruas da cidade e de todas as estradas que saem dela. No edifício principal, hoje a sede do Governo Autonómico de Madrid, já viveram os da antiga polícia política da ditadura do generaleco galego, a Seguridad Nacional. Tenho um bom Amigo, o Jaime-Axel Ruiz, que na sua juventude e quando universitário por aqui passou e donde não guarda recordações gratas, bem pelo contrário. Curioso: na passagem do ano é o sino da torre do palácio que dá as doze badaladas. Acompanhadas por outras tantas uvas brancas. Passas - nunca.

Na parede frontal há uma nova lápida, o mármore ainda é liso e branco, não o atacou a poluição. Homenagem simples e sincera às vítimas do 11 F, data maldita por obra de um dos piores males que afligem os homens, o terrorismo. Está afixada no lado esquerdo de quem está virado para a porta do edifício.

A contrapartida, do lado direito é uma outra, bem mais anciã, encomiando os que se bateram contra as tropas napoleónicas aquele lugar. Duas épocas e dois acontecimentos que, de uma forma ou doutra nos tocam, me tocam, a mim, particularmente, que me considero (para não dizer metade, metade) ¾ lisboeta e, adivinhem,… ¼ madrileño. Já estou a ver os nacionalistas exacerbados a apontar-me o dedo, miserável iberista.

Tenho-o dito muitas vezes, com convicção cada vez mais ampliada, que, em 1640, quem deveria ter sido defenestrado no Terreiro do Paço (sem qualquer acinte, sequer má intenção ou vindicta…) era o João Pinto Ribeiro. O Miguel de Vasconcelos, esse, teria direito a estátua, aliás justificada e justa. Mas a História foi o que foi, os fastos outros e os resultados vêem-se.

Tínhamos andado para a frente, ainda que sob a manápula de outro ditador, o Franco, que, pelo menos, permitiu o desenvolvimento espanhol, enquanto que, por cá, o pacóvio e salazarento energúmeno defendia a teoria do atraso que preservava a tradicional maneira de ser dos lusos. Progresso era sinónimo de perigo. Uns bananas, em suma. Região Autonómica, falando português, com Parlamento e Governo próprios, até tinha um rei que maneja a língua de Camões sem falhas nem sobressaltos. Não é que seja eu monárquico, mas.


Espanha ou Espanhas?

Estes dias passados pelas calles, glorietas, plazas, y barrios da capital espanhola levam-me a dizer, uma outra vez, o que penso da grande nação nossa vizinha porta com porta. Disse nação e repito. Explico, começando mal, ou seja por uma pergunta: quantas Espanhas existem? Um só país? Penso que não. O sonho, aliás concretizado de Fernando e Isabel, cada vez é mais sonho e menos concreto. Para mim, claro.

José Luiz Zapatero, na senda das autonomias cada vez mais alargadas que vigoram nas Regiões, está, neste momento, atravessando um precipício pisando uma corda verdadeiramente bamba. Já o novo Estatuto da Catalunya causou amargos de boca a muitos amantes dos bons tempos do Cara al Sol. As actuais conversações com a ETA são, agora, o maior busílis da questão complicadíssima.

Segue-se o quê e quem? Os galegos? Os valencianos? Os andaluzes? Os extremenhos? Uma Espanha federal? Os castelhanos interrogam-se. Se calhar com motivos sérios para dúvidas – sérias. No que parece continuar a haver unanimidade é no jamon e no queso manchego. No restante, ainda não vigora o salve-se quem puder, mas já se descortina o tudo ao molho com ou sem fé em Deus. Se existe.

Mi hermano Enrique, sin H, Araoz, boliviano/espanhol, jornalista como eu, ex guerrilheiro e apoiante, naturalmente, de Evo Morales, disse-me, um dia, durante um repasto de cozinha peruana, com seviche e tudo o mais, que a Espanha era un gran punto de interrogación. Uno, no, acrescentei, dos, pues que lo ponen al reves en el principio de la frase interrogativa… Entonces, dos no, sino que 333. Lúcido, uma vez mais, o plumitivo índio.

Aliás, este outro magnífico periodista tem coisas que não enganam ninguém, para além, claro, da competência e profissionalismo que ninguém lhe regateia. É um homem de sete ofícios, até sabe de informática, o que me enche de invidia. E sabe muito. Culturalmente, nem se fala. Quando um dia lhe perguntei se conhecera o Che - respondeu-me com una sonrisa beatifica. E tem, com o pedido de desculpas e vénia à Amália, um harem em constante mudança. Nem um Casanova, muito menos um Barba Azul lhe chegariam aos pés. Caminha, tranquilo, para a jubilación.

Pronto. Já passaram a correr uns brevíssimos seis dias. Feitas as maletas – que entretanto aumentaram, por passe de mágica que normalmente se verifica por estas latitudes, rumamos ao aeroporto, a Raquel e eu. Desta feita nem consegui falar com outro Amigalhaço, o Rodolfo Lavrador maila sua Luisinha, jurista e aficcionado a los toros, companheiro de muitas lides e noites nas Finanças e de viagens agradabilíssimas. Fica para a próxima – em que tentarei convidá-lo a… pagar-nos um jantarzito no El Botín.

Lisboa é Lisboa, ainda que chova a potes. Chove chuva, em tradução literal. O Sporting ganhou ao Marítimo, na Madeira. Excelente. Venho um tanto constipado, uma pieira assobia-me dos brônquios ou quejandos, com alguma persistência e muita desafinação. Já começara no país de onde, dizem os lusitanos mais empedernidos, não vem nem bom vento nem bom casamento. Atoardas.


O jarabe que me forneceu um outro compincha, mais um Enrique sin H, este da Farmácia del Globo, ali à calle Carretas 12, rua de putas e de chulos, não aquentou nem arrefenta. Nem como paliativo. A propósito: entre Henriques com H e Enriques sin H existe quase que um sindicato de mafiosos, tantos somos.

Uma gaiola no peito

A pluviosidade lísbia parece ter ampliado os decibéis da caixa do peito. Pelo sim, pelo não, xarope às urtigas e Centro de Saúde. Médica correctíssima, é melhor ir a São José, leve esta carta, por favor às Urgências. Se para tal vim, cumpra-se o fado. Vou.

Cinco horas no banco, entre doentes, doentinhos, acidentados, escalavrados, todos no masculino e no feminino, uns mais idosos outros mais jovens, quase todos suplicantes, a maioria de olhos arregalados e lábios mudos, alguns em berraria alcoolizada, aqueles sussurrando suspiros.

Quem me vier falar sobre o estado caótico das Urgências, a partir de agora, é tiro na nuca com a bala paga pela família – à maneira china. O signatário jura dizer a verdade, só a verdade e aos costumes diz nada. E exige acta e atestado reconhecido notarial e privadamente. Acentua, ainda, que não está a fazer o frete ao Amigo Correia de Campos, seu colega no Camões, que muito tem já com que se preocupar. A saúde é uma ganda alhada. E ele é reincidente.



Fizeram-me tudo, desde análises q.b. até Rx torácico, passando por ECG, que agora já sei que significa electrocardiograma, pessoal estupendo, muitos sorrisos de amparo, poucas filas, quase nenhumas, numa tarde de domingo a entrar pela noite. Médicas/os, enfermeiras/os, técnicas/os de saúde, auxiliares, boa gente, até simpática.

Isto com o serviço em obras, num atendimento entre paredes improvisadas de tabique branco e cortinas de plástico para preservar alguma privacidade, a possível e aceitável. Diz-me uma médica que aquilo vai ficar um brinquinho, não pedindo meças a ninguém por este Mundo fora. Acredito. Pelo andar da carruagem.

Saio com um resultado ligeiramente preocupante. O que ganhei foi um pequeno edema pulmonar, que parece ter que ver com a minha condição de antigo e desregrado fumador. Fluidos e coisas assim fazem um leigo apanhar o táxi de volta a casa com uns quantos macaquinhos na tola e as avezinhas ainda pipilando no interior à direita de quem sobe e à esquerda de quem desce com o GPS apontado à traqueia.

Desta feita (e desta fita) Madrid começou com chuva nas ruas e acabou com chuva nos interiores deste cidadão, honesto q.b.. Porra, até parece a minha antiga casa, na Lapa.

5 comentários:

Anónimo disse...

Quem anda à chuva molha-se. E até apanha edemas pulmonares.

RoRoZinho du Guay disse...

Cá para mim andaste de rabinho ao léu ... eu bem te avisei!

António Muñoz da Fonseca, Madragoa disse...

Com papas e bolos se enganam os tolos. Ó Sr. Antunes Ferreira: vem pra cá com falinhas mansas e edemas e coisas dessas, só para camuflar a questão espenhola.
Ora deixe-se de fitas. São traidoes como o sapateiro Zapatero que estão a tentar dar cabo da Espanha. Mas não o conseguirão.
Viva Espanha! Arriba Franco!

Um gajo que o conhece de ginjeira, Viana do Castelo disse...

O senhor está constipado
e ficou mal de repente
porque não teve cuidado
porque foi imprevidente

Para o mal cujo motivo
está na chuva, frio ou sol
qual o melhor preventivo?
Formitrol, formitrol, formitrol!

Esta era uma cantiga publicitária a um remédio infalível anunciado nas rádios dos anos cinquenta. O Dr. A. Ferreira foi imprevidente e está gordo que nem o King Kong. Trate-se, homem, trate-se...

Anónimo disse...

Podengo Portugues Pico molhado na Perfida Albion