quinta-feira, outubro 19, 2006



Contar caixões


Antunes Ferreira
T
arefa de merda essa de contar caixões. Se lhe tivessem dito em puto que tal lhe iria acontecer, como dizia o tio Raimundo, copofone e antigo pegador de touros, melhor seria ter morrido à nascença, quando a senhora mãe de pernas abertas berrava que nem uma cabra e a Josefa parteira lhe gritava convictamente cala-te senão dou-te uma murraça nas trombas que nem sabes onde vais parar. Talvez ao Samouco, quem sabe?

Quando o fizeste não mugias dessa maneira minha vaca. Então eram só suspiros, ai que bom, e delíquios, mete mais filho, mete maaaiiiis. Nessa altura não ganias, cadela parideira. Nessa altura eram os olhos revirados, era a baba de gozo ao canto da boca, era o ensarilhar dos presuntos dela nos dele, eram as descargas lácteo-condensadas. Que nem lata da Nestlé.

Segue-se que, após o parto assaz complicado, fora necessário chamar o dr. Santana, as coisas estavam complicadas, a Josefa tinha a certeza que ela já dera o que tinha a dar naqueles transes, mais não sabia, mais não podia. O médico vinha duma noite de estúrdia, copos, fumo e mulheres ou pela ordem inversa, tanto faz, o quadrado da hipotenusa é eternamente igual à soma do quadrado dos catetos.

Há que, neste momento e neste lugar, afirmar que o senhor Pitágoras não devia ser para aqui chamado, já bastava o que bastava, a Ermelinda esvaindo-se a vermelho, o crianço com sonoros vagidos ao lado. A última coisa que a ti Josefa fizera fora cortar o cordão e dar-lhe o laço, de forma a que o futuro umbigo ficasse jeitosinho. Ah, é evidente, e as calinas palmadas nas bochechas do cuzinho do recém-chegado.


A Bica inteira falara daquele estranhíssimo caso. O generalista bêbado bem tentara estancar a hemorragia, mas o sangue era mais forte do que os tampões de algodão e os coagulantes endovenosos. Uma grandessíssima porra. Quatro horas depois de parir, mais coisa, menos coisa, a Ermelinda ajuntadeira esticara o pernil sem mais nem ontem.

O zebriu

Restava o pimpolho, órfão de mãe e de pai, pois nunca se conseguiria saber quem fora o autor de tal pirralho. O facto é que o tipo não se parecia com ninguém, Houve até quem dissesse que o mafarrico devia ter participado no entre pernas da tipa, tal a feiura do exemplar. O Marques da carvoaria, pitrólio das melhores proveniências e pirolitos de berlinde, até comentara que o catraio podia muito bem ser o exemplo acabado do zebriu.

A Rita apanhadeira de malhas atirara lá do seu balcão de vão de escada, nylons por cercadura, o que é essa merda de zebriu? E o Marques numa galhofa: é o cruzamento duma zebra macho e da puta que te pariu. O pessoal em redor desfez-se em gargalhadas e aplausos sem contenção. Daí que o ganapo que recebera na pia baptismal o nome cristão de Leopoldo, onomástico do cura, sempre fosse chamado zebriu.

Senhor Leopoldo foi o tratamento que usou a Mariana, sua primeira empregada de faina quotidiana. Com estamine montado ali a Monsanto, à direita de quem sobe e, quem diria, à esquerda dos que descem. Que viera da Sertã para criada de servir e dera em servir homens ao desbarato entre as moitas e as ervas do lugar.

Era pelas alturas em que a Hermínia cantava, acompanhada à guitarra e à viola, se vires a mulher perdida, não a trates com desdém; com as voltas desta vida; podia ser a tua mãe. Ou o Marceneiro enrouquecia o bêbado pintor em que a pobre puta da taberna, desenhada em esboço perfeito, correra para o autor e o abraçara de seguida; era a mãe do pintor e a turba comovida, pasma ante aquele quadro, original e estranho; enquanto o pobre artista amarfanha o desenho, o retrato fiel duma mulher perdida.

A dita Mariana fora apenas o começo para o Zebriu. Depois arregimentara a Olga, incorporara a Júlia e convencera a Odete. O Senhor Leopoldo para as suas protegidas era o homem delas, o ser superior, o benfeitor das pegas sem sindicato. Os conhecidos chamavam-lhe chulo, o que não lhe dava mossa nem achaque. A Georgete, exilada de Montparnasse, dizia que ele era o seu gigolô. Feitios.

Estava o Leopoldo Zebriu nas suas sete quintas, manipulando os bastos escudos que auferia de comissões e custódia, até no permanganato ele cobrava, quando o Distrito de Recrutamento o metera nas fileiras. Recruta na Amadora, RI1, embarque para Angola meses depois de concluída a especialidade que nem isso era – sem mais, atirador de infantaria.

O currículo obtido na Bica não lhe valera de nada. Nem o alivador o levara ao cimo da desdita. De enjoo em enjoo no Vera Cruz, as tripas pela borda fora, tinha chegado a Luanda. Onde não permanecera muito tempo, coisa de mês e meio, se tanto. Pedra do Feitiço, destino anunciado já na picada não fosse o diabo tecê-las e os turras terem sabido da colocação. Foda-se! Tudo eram intrigas, tudo bocas, tudo espionagem.

Senão, lerparvam

Quando se instalaram nas casernas zincadas deixadas pelos que os tinham antecedido, levaram logo sermão com salmos do capitão Figueiredo. Que mais assim e mais assado, trigo limpo, farinha amparo, estavam no cu-de-judas, o local era perigoso, por ali se infiltravam os terroristas, tinham de andar de olhos bem abertos, incluindo o traseiro. Senão, lerpavam.

Mais sabia o Zebriu o significado do termo, ao invés de outros camaradas abstrusos, como eram, por exemplo, madeirenses e alentejanos. Na sua opinião, está bem de ver. E a Companhia de Caçadores, ao arrepio do que era normal, não provinha dum mesmo bacelo. O pessoal era uma confusão dos tomates do padre Inácio. A soldadesca viera do país inteiro, uma cagada em três actos.

Em frente. Logo no dia a seguir ao da chegada o comandante foi falando com a malta. Chegou a vez do Leopoldo, nas fileiras já tinha o apodo da vida civil. Então ó Zebriu, que fazias tu na metrópole, quero dizer, qual era a tua profissão. Ele não podia responder-lhe – chulo. Pareceria mal tinha quase a certeza. Saiba o meu capitão que era… carpinteiro.

Ora muito bem, cá temos um São José de martelo e goiva. Trouxeste a ferramenta contigo? Pois com certeza, a sua não era de desatarraxar. Figueiredo não gostou mesmo nada. Que gracinha. Saíste-me um bom sacana. Para já 45 flexões e uma ecada. A seguir falamos. Assim se fez. O esganiçado do Bijeu, barbeiro de ocasião, meteu-lhe a máquina zero na trunfa e aqui vai disto. Para trás tinham ficado as flexões, 45, vigiadas pelo furriel Gaspar.

Apresentou-se ao superior. Tinha o destino traçado. Ficava integrado num grupo operacional comandado pelo alferes Moutinho, encarregado de picar minas. Uma ganda porra! No quartel, como era carpinteiro, ficava de plantão aos dez caixões, dotação da CC 1458. Nos intervalos das patrulhas, entendes ó espertinho. E trata-me bem do material, que, por enquanto, não há mais.

Tomar conta de

Se as sua garotas o vissem agora cagar-se-iam de riso. O chefe, o protector, o gigolô da Georgete, o titular de uma conta bancária com muitos números à custa de carne branca, a tomar conta de caixões. Filho duma carrada de putas esse capitão de maus fígados. Um dia haveria de ajustar contas com o cabrão.

Daí em diante, a vida foi uma rotina desusada. Na segunda patrulha, quinze dias depois de se terem mal ou bem instalado, a primeira emboscada e, puta de vida, o primeiro morto, um tipo de Sanfins, o Cabeça de Abóbora, o nome verdadeiro nem o sabia. Voltar pela picada armadilhada, chegar ao quartel e meter o desgraçado no caixão foram tarefas que prenunciavam más sinas.

Após treze meses de mata, picada e arame farpado, a primeira licença. Como o que não lhe faltava era massa, vá de tomar um boing da TAP e ala pró Puto. Uma chatice do caralho. As donzelas tinham-se mudado, já não eram suas subordinadas (mau, até já pensava em tropalês) estavam à conta dum puto de bigodinho a tira-linhas, o merdas chamava-se Jaquim e nem lhe passou saudação. Não lhe ligou peva.

Foram demasiado curtos e rápidos os 15 dias. Não teve tempo de ir às fuças do tal Quinzinho, nem de dar umas solhas nas ex-pupilas. Tentou organizar nova equipa de trabalhadoras, mas as coisas começavam a ser mais difíceis, a guerra lá longe levava os fregueses no bojo dos navios, alguns havia que até já iam de avião, cada vez era precisa mais gente, a porrada era de criar bicho.

Voltado ao lar na mata constatou que durante as duas semanas tinham sido utilizados mais dois sobretudos de pinho. Da-se! Deste modo acabava-se a dotação. Era melhor que se falasse para Luanda comunicou ao capitão. Ó Zebriu do carago, mal chegaste e já estás a lixar-me o bestunto. Vai apanhar no cu e não me enfronhes.

O
pior foi quando o Maneta de Alcabideche teve de tomar o lugar dele. Porque, ao tentar levantar uma mina, o Leopoldo/Zebriu tirou bilhete de ida directa para a metrópole. Meteram o que restou dele no quarto caixão e era tão pouco que sobrou espaço. E o substibruto para o Figueiredo: meu capitão, lá teremos de encomendar mais uns quantos.

2 comentários:

Raulzinho do Guay disse...

Não se faz, o rapazote merecia melhor sorte. Tu és mauzinho.

José Martins disse...

CONTAR CAIXÕES
Uma excelente novela escrita e contada pelo meu amigo e prezado (por vezes até o chamo menino Henriquinho)Dr. Antunes Ferreia. A história que se conjuga, muitíssimo bem à sua vivência e de Portugal, de quando era menino e moço. Claro também do meu!
Minha idade segue à frente,dele, seis anos.
O primeiro parágrafo refere-se à senhora mãe de pernas abertas berrava que nem uma cabra; enquanto a "aparadeira" Joseja lhe gritava: "dou-te uma murraça"... Depois lá vem, a seguir, a designação do prazer da agora "parideira" de quando fez amor com um vadevinos, de ocasão, e que o "parido não mais seria que um filho da "puta" pela vida fora.

A Josefa, que certamente, já tinha aparado, sabe-se lá quantos filhos de gente casada, feitos no colchão de palha de centeio e outros, da natureza, que teriam sido feitos no meio de um pinhal ou entre a erva alta do campo.

O Dr. Santana, estou a vê-lo, um João Semana, que praticava sangrias aos com demasiado sangue a estoirar-lhe as veias; queimava um carbúnculo com um ferro em braza;ou colocava umas ventosas com uma mecha de algodão embebida em bagaço no lombo de um "gajo" que tinha apanhado um resfriado ou receitava umas pastilhas de quinino para curar, um arrepiado, que tinha apanhado maleitas.

O Médico de aldeia, apesar de o ser, emborcava, e bem, uns copos de tinto e uns cálices de bagaço e geropiga. Alimentava e de que maneira... os seus apetites carnais.
A Joseja aparadeira, acreditamos, deu um nó no umbigo e com a preocupação que apenas ficasse uma "pocinha" na barriga do "filho da puta".
Era a arte da "aparadeira" e a vaidade da profissão (mesmo sem diploma), já herdade de sua mãe ou de uma sua tia.

Antunes Ferreira viveu esse tempo e de quando, raramente, as mulheres iam parir nas maternidades.
No meu caso, fui aparado por uma "aparadeira".
Na minha Serra da Estrela e desde que o Viriato viveu, entre as cordilheiras,todas as mulheres davam â luz, em casa e assistidas po uma "Ti Jaquina", sempre pronta para trazer à luz, a que horas fossem, uma criança à vida.

Era a solidariedade humana e o respeito pelo direito de nascer que de mangas arregaçadas a "Ti Jaquina", quando entrava na casa da parturiente mandava aquecer caldeiros de água para utilizar, durante o parto.

Depois temos Antunes Ferreira a referir-se ao Marques da carvoaria que vendia: petróleo, carvão de choça e de bolas; achas e molhos de carqueja.
As Ritas apanhadeiras de malhas de meias observavam-se nos portais das ruas do Porto e de Lisboa.
Era assim a vida nos anos 40 aos 60 do século passado. Assim como, os autofalantes dos rádios de goelas abertas, emitiam sons da Hermínia Silva, da Amália, do Toni de Matos, do Fernando Farinha, do Max com a "Mula da Cooperativa" e o ti Alfredo Marceneiro.

Antunes Ferreita insere o chulo aquele figura característica que deambulava pelas ruas e vielas onde vivia gente de mau porte e ruim cabedal. Desancava as suas "putas" e elas não lhe trouxessem a "maquia", certinha pela madrugada depois de ter esfolado uns cabritos nas pensões baratas; encostada a uma árvores ou no escuro da relva do jardim.

Era a "puta" que tinha vaidade do seu "chulo".
Ela amava o seu Toni!
E quando mais o Toni lhe chegava a roupa ao pelo, mais ela gostava dele!

Lá temos depois o Leopoldo a embarcar para a guerra de África, a entrar no paquete no cais (onde na parede gare estão uns frescos do Almada Negreiros, cujo pincel do artista, exprimiu o drama da emigração portuguesa).
Um Leopoldo que partiu, como milhares de outros portugueses, para a guerra sem verter uma lágrima,sem alguém da sua família,ali estivesse, a despedir-se ou com um lenço branco a dizer-lhe adeus até que o paquete deixa-se de ser visto no Tejo.
O Leopoldo era um "filho da puta" e os filhos de 20 escudos,nessa altura,ninguém lhes ligava nadinha.
Um Leopoldo que se estava para as urtigas para a Bica ou para outras ruas, onde tinha tido as suas putas.

No seu pensamento já seguiam outras putas, mulatas, cabritas e pretas em Angola que dado â sua arte de bem saber como se chula uma puta, iria e não tinha dúvidas encontrá-las e até: porque não? Ensiná-las a ser mesmo "putas" a sério.

Por agora o Leopoldo mudava de poiso. Roupa, cama e comida feita ao lume ou rações de combate para dar ao dente.
Não era por aí um esquisito nas comidas ou um "biqueiro" de boca.

Entre a soldadesca era o maior! Era um gajo das vielas e da "chunga" e até tinha aprendido a viver de expedientes. Era um exímio na arte do vigarismo e comer as papas na cabeça aos transmontanos, aos ilhéus e ao mais pintado furriel "lateiro" da sua companhia.
Assim temos o Zebriu a informar o capitão da sua companhia que era carpinteiro... Não necessitava de levar ferramenta do ofício, porque saberia pregar um prego numa tábua na caserna se lho mandassem pregar.
Foi então disponibilizado para zelar pelo "stock" dos "sobretudos" de pau e fabricados em Amarante pela empresa do Abreu que fornecia "farpelas" de aglomerado, de madeira, ao exército português.

Foi destacado para "picador" de minas nas estradas de terra e carreiros por onde as tropas, no mato, caminhavam.
Era chato para o Zebriu.
Porém sempre pensou que o rebentamento de uma anti-bota nunca seria pare ele...mas para o camarado do lado.
Por norma os picadores das anti-carro e anti-bota eram os soldados mais "rascas" ou os de cor de quando em quando a negligência os fazia voar e cair em tiras no solo.

Antunes Ferreira conta-nos uma história de vida real e se haja passado durante a sua passagem pelo exército na guerra colonial portuguesa.

Bem é que eu paseei por lá e de quando a guerra estava quentina em Angola. Depois parti de Luanda para Moçambique num, num ronceiro, Super Constelation da TAP. Permaneci um ano em Cabo Delgado e vi stocks de caixões, vazios, armazenados em Mueda; e outro "stock" dentro de uma pequena igreja, cujos estes caixões já não estavam vazios, mas sim tinham vestido uns pobres diabos que tinha, em vida, voado pelos ares cujos corpos se estilhaçaram.

Bem Não fui soldado. Vivi entre eles,bebi sei lá quantas dúzias de bazucas de cervela e ums dois centos de caixas de cartão com ração de combate. Não era mais tão pouco menos que um empregado da empresa Azevedo Campos de Braga, a tentar construir estradas do interior da província de Cabo Delgado para o ligar com o oceano Índico.

No período de uma ano, nessa zona de 100% de guerra dá-me a razão de valaliar o artigo de Antunes Ferreira e a realidade da prosa embora lhe tenha dado o tom de humor.

Na guerra mesmo sob os perigos de se "lerpar" a cada instante o humor existia.
Sem humor as guerras são um espaço de medo e de "borrados"!

Abraço do sempre amigo
José Martins