domingo, outubro 22, 2006




Advertência prévia

Vamos por partes e alíneas. Não é a primeira, muito pelo contrário, que me apontam o facto das minhas crónicas/contos da guerra colonial terminarem sempre ou quase sempre com a morte do protagonista, até mesmo muitos óbitos, sugerindo assim que sou um fornecedor da Servilusa predisposta para todo as exéquias, substituindo os capitais americanos a tradição - essa sim lusa - da Agência Magno

Não tenho, por conseguinte, nem habilitações nem inclinação para gato-pingado. E se é certo que, a dada altura da minha vida profissional se dizia pelos bastidores da Informação que era perigosíssimo ser entrevistado por mim – e alegavam os casos dos senhores e senhoras Niculae Ceausescu, Olof Palme, Indira Ghandi, Rajiv Ghandi e outros assassinados após terem respondido a perguntas minhas – menos certo não é que a nenhum deles vesti os paramentos de fiel defunto.

É por isso que hoje tento uma estória que termine em cor-de-rosa pálido e diáfano, ou azul celeste às pintinhas amarelas com estrelinhas vermelhas dentro. Não é muito do meu agrado – mas diz o Povo que o que tem de ser tem muita força, com c cedilhado para não haver confusões. Desde já fico muito grato a quem, mesmo tendo-me criticado pelos maus finais, se deixe convencer de que, ao virar da esquina, há sempre a possibilidade de se encontrar uma catadupa de epílogos. Duvidam? Ah sim? Vejam o que acontece nas novelas televisivas, É escolher, minha gente.

Feliz, vivo e são

Antunes Ferreira
A
posição a que sempre aspirara ao longo da vida era a de culminar esta breve passagem pelo orbe terráqueo sentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, criador dos céus e da terra. Um pequeno interregno se tal é permitido. Do desejo à realidade vai sempre um passo de gigante e não é à toa que se diz que pagar e morrer sejam o mais longe possível. As compras a prestações e o estar ligado à máquina são disso exemplos.

Isto apesar de não ser católico, muito menos apostólico ou romano. Mas, bem vistas as coisas, é sempre preferível ter uma certa garantia. Ou aval, de acordo com linguagem bancária. Nunca se sabe o que poderá pelos neurónios de um cidadão autoagnosticado, aquando do momento da passagem, embora não se saiba muito bem para onde. Era o que acontecia quando um sujeito tirava em Nova Iorque uma passagem para a Florida, numa percentagem aceitável ia aterrar em Cuba.

Mas enquanto não chegava tal hora, Manuel Carrapato, nado e criado em Moura e uns anitos de liceu em Beja, tinha-se tornado empresário por conta própria, isto é, independente. Contrabandista, enfim. Desde que os caracóis lhe tinham nascido ao redor do coiso que assim era. Já tinha quase meia década de investimento quando foi às sortes. Vinte e um meses e uns pozinhos depois, ei-lo incorporado.

Recruta e especialidade – apenas outra passagem, desta feita para Angola. Cais de Alcântara, gente, muita, em desvario, ai que o meu vai prá ingola, cala-te estúpeda, vai mas é prá degola. Nossa Senhora de Fátima o acompanhe e o proteja, coitadinho ainda há pouco deixou os cueiros. Cá pra mim já dê ao mê Zeí uma pagela do Santo Padre Cruz, com uma relíquia da sobrepeliz dele. Safa-se.

Queres tu dizer, mulher que é tiro e queda?... Abrenúncio, porra, homem dum cabrão! Menina, isto é só uma manêra de dizeri. Nã brinques heréjio, nã brinques. Garças a Deus, muitas; graças com Deus, nenhumas. A mãe e a conversada foram despedir-se dele. Coladas ao Carrapato como lapas à rocha foram com ele até à escada de portaló. Nem sequer sabiam o que era, porem a gentinha dizia assim.

Mais do que o santinho que a mãe lhe deu, foi o último beijo com a Lucinda. Na boca, línguas enoveladas. Vais-me trocar por uma preta? Dêxa-te disso, cachopa, ê cá nã gosto de carne escura, só pêto de galinha. Ás vezes ainda vai uma coxa… Já da amurada, acenando-lhe: Lucindazinha, nã me ponhas os cornos. Ê vou voltari pra nos casarmos, fica prometido. Um pranto no molhe. E lenços a acenar. No meio da soldadesca um fabiano começou a vender camisas de Vénus. Bom prenúncio de fidelidades mobilizadas.

Assim como assim, foi-se safando. Emboscadas, golpes de mão, patrulhas, minas nas picadas, por tudo passou mais ou menos incólume. Quando o alferes Vieira assim falou, o Manuel não entendeu patavina. Como o oficial, alem de miliciano, também era um gajo porreiro, perguntou-lhe o que queria dizer a palavra. Não te tocaram nem num pentelhinho. Ora bê, agora já sabia. Atão nã havera de saberi…

Férias em Luanda. Foi pela primeira vez ao Bairro Operário, território de putas e de liamba, levado por um camarada preto como tição. O Augusto, que até estivera com um pé no seminário, proposto pelo padre Mário da Missão. Porem, à última hora, encolhera-se. Fizera-lhe aumentar a confusão que já tinha por baixo da carapinha, o facto dos curas não poderem casar. Então, um homem tinha de aguentar-se só com os dedos da mão? Aka, não, que pívia também era pecado.

O baile e o resto


Mas não tinham ido às mininas. Havia um baile no clube. O camarada apresentou-lhe uma mulatinha; ou melhor, uma mulata torneada a preceito, carnes rijas, decote generoso ainda que não chegasse às biqueiras dos sapatos. Lindocha lhe chamavam e ela aceitava, os dentes muito brancos em gargalhadas altissonantes. Toda ela era chicha. Explicou-lhe que era cabrita. Pai branco, de Chaves e mãe já mulata. Benditos ambos que tal pãozinho haviam botado no forno.

Nem lhe deu para pensar na Lucinda, o que aliás não era difícil com aquela Lindocha ali ao lado, mini-saia justa a moldar-lhe as bochechas do traseiro e a marcar-lhe as calcinhas milimétricas. Explicou-lhe que era alentejano mas não era nem parvo nem mangonhêro. Ela ria-se por inteiro, da boca maravilha até aos calcanhares torneadinhos.

Então és o das anedotas? O Carrapato nem se chateou. Como fazê-lo, com ela? Foram dançar. Foi ela quem escolheu, uma coladera cabo-verdiana, uma descoberta, um entusiasmo. Sem limites. Percebes agora porque se chama coladera? Olá se percebia. Percebia tudo e percebia-a toda, os seios túrgidos sem peias nem colchetes. O ventre liso. As nádegas de pimenta e o resto de adivinhar.

Sem barulho, mas pecado

Comprová-lo-ia uma hora depois, se tanto, já em casa dela, no quarto dela, no corpo dela, no fogo dela. Faz pouco barulho, que os meus pais dormem no quarto ao lado e são muito sensíveis. Mas, como calar o desejo a dois, como aceitar em silêncio tais mordomias sensuais, como podia um homem, ainda por cima alentejano de cepa, aguentar-se? Não se aguentou. Não nos ais ou nos gemidos, não, esses sim baixinho.

Durou horas a contenda entre a pele acetinada e canela da mulher e a rugosa e peluda dele. Mas mais do que isso, o aconchego do passarinho negro no ninho – e que ninho – as pernas lançadas, voluptuosas, os bicos dos peitos, também morenos e mais escuros, plantados em auréolas divinais, o pescoço ora submisso ora arrogante, sabia lá o mourense mais o quê. Aquilo era o paraíso, onde ficara ele até ali?

Na terra, a – como se chamava ela? – ah, a Lucinda bem poderia esperar por ele. Afastou-a sem cerimónias, ainda que ela já o estivesse. Os quilómetros de água salgada eram o menos. Tem piada, os marujos diziam milhas, tanto se lhe dava. O afastamento estava ali na Maianga, no quinto andar do prédio da Luanda Acessórios, representante dos Colts.

E agora, amor? Maria Linda, de seu nome de registo, já o tratava assim, era o êxtase, o delírio. E se fico grávida? E os meus pais? Agora não se pensa nisso, querida, depois casamos, sem dúvida nenhuma, primeiro volto na mata, a licença termina depois de amanhã, mas está certa que eu volto pró nosso casório. Se assim não for, aventa-me pela janela.

Que é isso? Isso quê? Aventar. Rira-se muito, baixinho, copiando o sussurro da conversa, enquanto lhe afagava o seio que beijara desvairadamente. Quer dizer em alentejanês atirar. Nada, nada, nada, Só te aventas para cima de mim. Aventou-se, numa perdição. Dias depois, quando confessava à Paula da farmácia a loucura que tinham sido os dois dias e as duas noites seguintes, a amiga perguntara-lhe se ela gastava mesmo do rapaz.

Uma leoa, uma leoa em cio. Parto-te a chipala aos bocadinhos. Que puta de pergunta. Gostava e muito, muitíssimo, para sempre. Pronto, pronto, já cá não está quem perguntou; ou melhor, ele é bom no lençol? Era. Era. Era. Com lençol ou sem. Sobretudo quando me falou cá pra dentro. Nunca ninguém mo fizera e eu nem sabia que havia disso. O estágio no colégio das freiras não incluíra tal disciplina, indisciplinada.

Uma imensa saudade

A floresta era, agora, mais do que um tormento, uma imensa saudade. Escrevera à mãe, pedindo-lhe que dissesse à outra que fosse à vida dela, as coisas são o que são, outro galo lhe cantaria, se é que já não cantava. Numa tarde quente e seca, estranho, tinham chegado notícias da outra companhia independente que viera também no ex-paquete.

Emboscada cabrona, três que tinham deixado de fumar, oito estropiados. Uma bombita de avião, quatrocentos quilos não rebentados, associada a mina checa. Os tipos das minas e armadilhas é que o tinham dito, depois de recolhidos os restos da armadilha e dos homens, com uma pá de lixo. Um morto e um ferido eram de Moura, podia ter sido ele, por mais cuidados e precauções. Acontece. Mas não fora.

Foram acabar a comissão a Nova Lisboa, cidade de planalto, bom clima, um tal Norton de qualquer coisa, diziam que general, a tinha fundado, construído e escolhido para nova capital da colónia – ainda não surgira o eufemismo maricas e falsíssimo das províncias ultramarinas. Mas São Paulo de Luanda, com a fortaleza a encimá-la, fincara pé. E ficara.

Descobrira um primo afastado com fazenda imensa na Cela. Que ainda era chamado de colonato. A família acolheu-o, a primita Mariana, seis anos de princesa, esperta que nem um alho, sentava-se no colo dele e pedia, conta uma estorinha, Manel, conta que eu gosto muito. Quem quer casar com a menina carochinha… Ou seria joaninha? Ou baratinha? Tinha de se preparar, vinha aí, quem sabe, uma catraia.

Foram os padrinhos de casamento, em Luanda, com um dote do tamanho de uma quinta grande e uma larga manada de vacas leiteiras, para onde se tinham mudado, depois de consolidada a amizade com os progenitores da Lindocha, depois de baptizado o João Manuel Monteiro Carrapato, depois da nova barriga cheia da mulher.

Agora, a caminho da África do Sul, em dois camiões carregados de tralha, com a carteira de alguma forma recheada – podia estar mais, mas – a Lindocha ao seu lado na cabina, e os quatro descendentes dormindo em colchões de molas, atrás, debaixo da coberta de oleado reforçado e sob a guarda do Lucas Candembe, mirava de lado a mulher. Continuava linda e elegante, apesar dos partos.

Ao longe caía o sol. Rápido como só em África. Depois, bom, depois, talvez Moura. Naturalmente, sem a Lucinda.

8 comentários:

Marina Costa Santos, Benfica disse...

Desta vez o Antunes Ferreira chegou para os pseudo críticos e para as encomendas. Já sabem agora que ele também sabe fazer happy ends. Isto para além de saber escrever sobre mulatas - e de que maneira. E na cama. Penso que não é só mano Braz que revive experiências, segundo diz o AF...

A disse...

As mulatas é a "voz" da experiência, digo eu...

F.R disse...

Caro amigo AF
Arranje algumas das suas mulatas que aqui a gerência da Arca agradece.
Um abraço

sou eu mesmo, leiria disse...

Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades... Se isto vai assim de mulatas e de bom fim, não será melhor voltar ao sangue e à mortandade, ó amigo Ferreira?

Anónima Salina disse...

(Vou repetir este comentário até que os dedos me doam... ou que me façam a vontadinha!)

Solicito ao senhor Antunes "O Chefe" Ferreira o favor de não se esquecer dAS leitorAS da Travessa.

O único mulato, bem apessoado, que surgiu nos textos da Travessa andava a fazer favores ao superior abichanado.

Vista lá a nossa camisola, ou o soutien, como quiser! Encare isto como um desafio literário.
AS

Carvalhal Figura, Beato disse...

Mau,mau. Não, não se trata da tribu que iniciou a guerra no Kénia, sob o comando do Sr. Jomo Keniata e que levaria os ingleses a darem a independência ao país. Mau, mau, Maria? Também não. Mau, mau, Antunes. Agora sim.

Estes textos já quase davam para um tratado sobre a guerra nas colónias. Porém o nosso AF persiste em continuar a publicá-los, isto evidentemente depois de os ter escrito.

Muito bem. Mas não se pode admirar o A (grande) Ferreira que, depois, surjam almas como a da Anónima Salina a reivindicar UM MULATO. As coisas são o que são. Andavam as mulheres a lutar pela igualdade de direitos e vejam onde chegaram. Embora os direitos não sejam todos iguais...

Não sou invertido, pelo contrário gosto muito de mulheres, de preferência, muitas. O Jorge Amado é que um dia disse que não podia deitar-se com todas as mulheres do Mundo. E acrescentava - mas eu bem tento, eu bem tento.

Por isso igualdades à parte e mais direitos ou menos direitos (à escolha da freguesa), sempre faço daqui um apelo ao autor.

Mande mais mulatas, mulatinhas e mulatonas, meu Amigo, mande. E o Amigo manda. Quanto aos mulatos, bom quanto a esses, as senhoras tipo Anónima Salina que escrevam para libertar os seus complexos e frustações.

Tal como antes se dizia nesta terra, há sempre um mulato desconhecido que espera por nós.

Anónima Salina disse...

Senhor Carvalhal Figura do Beato

Aqui me retrato pelo meu ataque de rebeldia.
Vou voltar para a cozinha, local único onde faço prevalecer os meus direitos e, prometo, não volto a oferecer o meu soutien.
Continuarei, porém, a frequentar a Travessa. Gosto de boa prosa, independentemente do mote. Ganhei este vício com o Jorge Amado, não na cama dele mas, claro, com as suas novelas. Que mulheres fantásticas ele desenha... "Teresa Baptista Cansada de Guerra" e outras que tal. Direi mesmo que ele é (foi) mais selectivo do que se possa pensar! Até porque as valentias, muitas vezes, só servem para alimentar mitos.
Ana Salina
Uma sua Criada

Carvalhal Figura, Beato disse...

Com que então a Aninhs Salina enxofrou-se?... Excelentíssima menina/senhora: nós aqui pelo Beato nem santos somos, muito menos sanguessugas. Que parece-me que Vossa Excelência é. Volte para a cozinha, volte para o quarto, volte para a casa de banho, mas decida-se, não se bata a si própria.

E deixe o pobre Jorge Amado em paz. Já lhe bastou a Zélia. E se quiser fazer mais citações não se esqueça da Gabriela, a do cravo e canela, logo também mulata, nem da Dona Flor que teve dois maridos e safou-se.

Acalme-se, excelentíssima; acalme-se, voe baixinho, que esta vida são dois dias.

De criado, bem, para criada...