sexta-feira, setembro 01, 2006








Escrever em Português
– e bem!

Ponham os olhos nele. É um caso sério, mas também um caso raro. Francesco Obino é… italiano. Bastava o nome, né? Italianíssimo, portanto. Estudante universitário, esteve entre nós uns meses a preparar material, especialmente documentação, para defender tese sobre Goa. Fatal como o destino: tínhamos de nos encontrar. Foi em casa do Amigão Aurobindo Xavier, cientista e membro de Honra da «máfia goesa». Tiro e queda. A Raquel e eu adoptámo-lo imediatamente. Um calmeirão molto simpatico, que, no entretanto tinha aprendido Português. E bem.

Falado e escrito, seguro na pronúncia e equilibrado na redacção. Um verdadeiro espanto. Infelizmente foi pouco o tempo em que convivemos. Mas, à partida para a sua Itália, Francesco prometeu-me que visitaria este blogue e escreveria. Aqui está; cumpriu – e bem. Tenho o maior prazer de aqui registar esta sua última missiva. O travessadoferreira fica muito honrado pela sua presença. E, ainda por cima, no vernáculo de que se podem aperceber. Só lhe introduzi umas alteraçõezitas que se contam pelos dedos das mãos.

Espero pela volta do Francesco Obino para voltarmos a conversar, a rir e a folgar. E enquanto isso não acontece, aqui fica o seu esplêndido texto na língua do Camões, do Eça, do Pessoa, do Torga e do Saramago. Mesmo sem a tua autorização prévia, porque tu, mio caro amico, já fazes parte dela. AF

Francesco Obino
Caro Enrico! Quanto tempo? Troppo. Olá, oh Grande Inconvertível da letra escrita no impoluível mundo da Rede, como estamos?

Desapareci misteriosamente uma vez que deixei Lisboa para Itália,
onde, finalmente, me licenciei com a minha tese sobre Goa e o louvor
da comissão (nem sabia onde fica o cais famoso do grande descobridor
que ia buscando o Pai Johannes pelas costas orientais… e só encontrou
cavalos que iam para Ormuz).

É mesmo assim; gozei um pouco da liberdade do licenciado (?) e fiquei
no anonimato profundo a que somente uma tempestade sentimental pode
levar (também houve isso, mas é outra historia…).

Admito e confesso, fui para uma rápida exploração dos Balcãs. Ora
bem, fiz isso dando voltinhas pelas capitais cheias de vontade de
mudança, como Belgrado, e de vida boa, como Sofia. Fiquei um bocadinho
desaparafusado com a vida nocturna sobre o Danúbio, um bocado
desiludido com a procura de normalidade quase bulímica da Sérvia,
entre contrabando de tabaco e gelados excelentíssimos.

Agora, depois de uma indispensável mas curta peregrinação na minha
ilha sacra, a Sardenha, à descoberta de belezas naturais incríveis e
irrepresentável com o meio traidor da palavra que não seja
poesia,…como somente uma ilha pode esconder do olho metropolitano do
morador ignorante de beleza (estou a falar de milaneses alienados que
pensam poderem expatriar a própria alienação na ilha sacra durante o
Verão...). Mas, onde estava eu?… Ah sim, depois disso, bem, estou em Londres para tirar um Msc International Politics num dos meios académicos mais estimulantes que nunca vi e pude imaginar, a School of Oriental and
African Studies.

Comecei já, as férias acabaram pronto esta vez. Mas também tive a
indiscutivelmente única possibilidade de assistir ao Carnaval de
Notting Hill, onde as escolas de Samba estão cheias de senhoras
branquinhas e gordinhas que vão exibindo as curvas curvadas da
silouette que foi, num tremor quase bachico. E o que está a acontecer em Lisboa?

A «Travessa» è sempre o meu contacto mais querido com a língua
portuguesa e com os textos sobre a vida pública e privada do mundo que
vai correndo. Gosto muito de ir lá ler uns artigos e gozar dos efeitos
especiais e do estilo ferreirense, ahah!

Nunca enviei nada para ser publicado no blóguio, é verdade, era uma
promessa, mas o meu português vai se deteriorando, ou pelo menos
ficando sem dúvida um bocado estragado; mas, talvez tenha tempo, vou lá
lançar-me outra vez, a universidade aqui è uma coisa muito séria,
parece…iniciativa individual e o estudo é baseado sobre a pesquisa pessoal
de informações e fontes. Interessante e challenging.
Bene, caro Enrico, a presto j'espère bien!
Um grande abraço dum expatriado irredutível, beijinhos à Raquel
Francesco

P.S.: uma amiga italiana muito interessante, que também está a
trabalhar sobre Goa (em pormenores sobre a Diáspora goesa em
Lisboa) e descobriu o teu blóguio depois de eu lho aconselhar. Disse-lhe
também que a Raquel era goesa da Diáspora lisboeta e talvez vai vos
contactar para perguntar umas coisinhas, informações diaspóricas…
Recomendo-a, ‘tá bem?
Até pronto, oxalá, pois espero voltar para Lisboa antes do próximo Verão…

2 comentários:

José Mateus Pinto, Lisboa disse...

Peço-lhe, Sr. Dr. Antunes Ferreira que transmita ao seu amigo e leitor Dr. Francesco Obino que tomara eu saber escrever duas frases em italiano e sem muitos erros. O Francesco é um caso raro e para ser estudado. Transmita-lhe os parabéns de muita gente como eu que ficou deslumbrada!

Pelos vistos as coisas de Goa estão a despertar interesse em Itália. Verá, Dr. Ferreira, se a amiga do Dr. Obino será de igual quilate que ele. Deus queira que sim. Goa, Damão e Diu bem o merecem e a Língua Portuguesa Também. Não se pode esquecer ninguém que «a Língua Portuguesa é a nossa Pátria». Espero (e comigo alguns mais) ter em tempo oportuno novas notícias. Muito obrigado, Drs. A. Ferreira e F. Obino

Raulzinho de Châteauguay disse...

O/a "anonimo" desta vez não fez comentarios ...