segunda-feira, setembro 18, 2006

Roberto Marinho
As ligações perigosas

Antunes Ferreira
Sem que nada o pudesse indiciar, sequer, surge-me no monitor o cidadão Gustavo Duarte, brasileiríssimo, muito simpático e bem-educado - e jovem. Já não sei o motivo, mas logo na primeira oportunidade ficamos amigos. Para o caracterizar, depois de muita prosa através do msn, tenho de utilizar o brasileirismo: é um cara muito legal.

Tenho vindo a incentivá-lo para botar alguma coisa neste blogue. O malandreco, alem de se ver livre da namorada, foi dizendo que sim, logo que possível, é agora, amanhã – enfim um rosário de muitas contas, mas de escrita, nada. Ontem, porém enviou-me o texto que me prezo de publicar de seguida.
A autora, a jornalista Ana Lira, figura de destaque da editoria da Rabisco (rabisco@rabisco.com.br), Revista de Cultura é bem conhecida no Brasil. A Rabisco acaba de completar quatro anos, com direito a vela e tudo. Por isso – e mesmo sem que ela o soubesse previamente – aceitei a proposta do Gustavo e aqui vai disto.
Mas, antes, umas linhas sobre a autora, aliás publicadas na citada Rabisco.
Ana Lira na verdade é Ana Paula, mas por motivos de segunda ordem reduziu seu nome a algo mais simples. Nascida na capital do agreste, Caruaru, e moradora da Veneza Brasileira há um par de décadas, adora ver montanhas e área verde por todos os lados, embora tenha uma paixão enorme pelo mar. Leitora compulsiva, ela divide espaço entre os textos da faculdade e a montanha de livros e jornais que habitam seu quarto e que esperam uma vaga na sua agenda, já que a criatura não consegue ler mais de uma obra ao mesmo tempo.
Tudo dito, retrato fiel, presumo. Agora o texto, conservando a grafia e a semântica brasileiras, o que mais interessante ainda o torna para os leitores portugueses. Afinal, com pequenas divergências, a língua de Camões ou de Jorge Amado é a mesma.

Dez anos além do Cidadão Kane
Documentário sobre Roberto Marinho faz aniversário invadindo salas alternativas no dia pela democratização da mídia

Ana Lira (analira@rabisco.com.br)
Durante a última década o Brasil vem sendo palco da proliferação de salas alternativas de cinema e cineclubes. Esses ambientes, a princípio, foram concebidos para que o público tivesse acesso a obras que não são veiculadas nos circuitos comerciais. No entanto, muitos deles têm servido, também, como espaços de fomentação da tão sonhada liberdade de expressão, que aqui no país é tão concreta quanto o mito da democracia racial.

No dia 17 de outubro, foi celebrado em todo o país o Dia Pela Democratização da Mídia e muitas dessas salas ficaram lotadas para a exibição de um dos mais polêmicos documentários realizados mundialmente: Muito Além do Cidadão Kane. O filme, que trata das relações sombrias entre a Rede Globo de Televisão, na pessoa de Roberto Marinho, com o cenário político brasileiro, completou dez anos servindo como instrumento de protesto contra a censura. O próprio filme, realizado por Simon Hartog para o canal 4 da BBC de Londres, é proibido em terras tupiniquins desde a estréia, em 1993, por decisão judicial.

A primeira justificativa para a censura foi a ausência de um documento vindo da Inglaterra autorizando a veiculação da obra. Hartog tomou conhecimento do fato e permitiu a exibição em qualquer parte do planeta. Porém, a película mostra o que boa parte dos representantes do poder brasileiro não queria que viesse a público e uma segunda ação judicial foi movida proibindo de vez a projeção do filme nacionalmente. Os advogados da Rede Globo tentaram vetar a circulação da fita em outros países, mas não conseguiram, e foi esse fracasso que permitiu que uma minoria seleta da população brasileira conseguisse ver o que o resto do país não viu: a face da mídia do Brasil que não vira atração de TV.

Ao longo de quase duas horas, são mostrados com uma narração criticamente irônica em off fragmentos de uma história de manipulação de resultados (como os cortes efetuados na edição do último debate entre Luiz Inácio da Silva e Fernando Collor de Mello, que influenciaram a eleição de 1989); de censura a artistas (como Chico Buarque que por muitos anos foi proibido de ter seu nome divulgado na emissora); de criação de mitos culturalmente questionáveis (como é o caso de Xuxa) e de veiculação de notícias frívolas e tolices em programas de auditório.

Os depoimentos de Leonel Brizola, Chico Buarque, Washington Olivetto, Fausto Neto, entre outros jornalistas, historiadores e estudiosos da sociedade brasileira se intercalam com as imagens dos acordos firmados por Marinho com representantes do alto escalão da política nacional, com trechos dos programas da emissora na época (Domingão do Faustão, Fantástico e Xou da Xuxa, considerados pela produção do filme como fúteis) e com a situação de miserabilidade do Brasil: telespectadores que recebiam menos de um salário mínimo e assistiam todos os dias a Rainha dos Baixinhos oferecer um café da manhã delicioso ao público, quando boa parte daqueles que a assistiam em seus barracos sequer tinham um pedaço de pão para comer. Um verdadeiro paradoxo sociocultural.


As razões que levaram Simon Hartog a produzir o documentário sobre os bastidores da Globo - e, por tabela, de outras emissoras brasileiras de grande porte, como o SBT – não são totalmente claras. Porém, tendo ou não os europeus segundas intenções, o mérito do registro não é comprometido, visto que ele traz à tona uma série de questionamentos éticos que parecem esquecidos pela mídia brasileira há muito tempo. Não é a toa que na última pesquisa da organização Repórteres Sem Fronteiras, o Brasil ficou 71º no ranking das nações com maior liberdade de imprensa. Há algo de podre no reino da Dinamarca...



3 comentários:

Josefa Alves Martins, Lisboa disse...

Temas destes bem justificam a decisão do Sr. Antunes Ferreira aqui os publicar. E sendo do Brasil - de que se sabe tão pouco, o que é lastimoso, a não ser do futebol... - ainda me dá mais satisfação.
É o nosso primeiro "filho" e disso devemos ter muito orgulho. Faz parte da CPLP - e de pleno direito. Unem-nos a História, mas principalmente a Língua.
Vou seguir com muita atenção o que por certo se seguirá. E como leitor deste blog, espero algumas linhas da jornalista Alda Lira.

Antunes Ferreira disse...

O Gustavo manda-me um agradecimento de todo o tamanho. Rapaz: não que mandar muito obrigados. Eu publico o que bem entendo publicar, pela qualidade, pela oportunidade ou pela importância do tema.

Sou eu que lhe agradeço, querido Amigo, a atenção que teve e terá para comigo. Na volta «ordeno-lhe» um texto seu!!! Se estiver muito mal - mando-o para a cesta secção. Não falte seu Gustavo

Julio Oliveira Machado, Frielas disse...

Só agora abri este blog e vi este artigo. Vivi anos no Brasil e ele nos dá uma ideia do que ali se passou, passa e passará. Os brasucas vem para cá às toneladas porque por lá a coisa está preta. Nem o Lula da Silva consegue levantar uma coisa tão ruim.

Senhor Ferreira
O seu blog é excelente. Dos melhores que eu tenho visto no nosso Portugal. Deixe-me parabenizá-lo, porque o merece. E bote mais coisas sobre o Brasil, vindas do Brasil.