terça-feira, agosto 15, 2006





Ir na tropa

Antunes Ferreira
Encarrapitado no cocuruto do camião, sobre o oleado, um caixote de batatas e cunhetes de munições marcam-lhe as costas, Vicente Candumba, abanado como se possuído de delirium tremens, vai olhando a picada e a mata que a engole. Os buracos originam essa dança de 14 toneladas, qual elefante na pista de circo. Os bandido se calhar põe minas na terra, disfarçadas que nem se vêem, alisada por cima com as mãos e varrida com folha de palmeira para não se desconfiar da cilada. Esses gajo são mesmo sabidos, a fazer confusão ninguém lhes ganha.

As copas das árvores deixam ver uma nesga de céu. Carregado de nuvens. Vai chover, o que não lhe faz mal, meto debaixo do oleado, é melhor que capa ou chapéu-de-chuva. O pior é a lama no caminho. A camioneta enterra, há que empurrá-la, meter os tapetes da cabina por baixo das rodas para segura-la. Ele está já à pega. E paus grandes para a empurrar fora do lodo vermelho escuro. Não tem maka. Quando o chatice vem, a gente vai se arranjar, tomara que não vem ataque.

Agarrado ao volante, o patrão Fernando deve pensar o mesmo quanto às minas. Da chuva, nada. Não vê o pedacinho de céu desenhado entre as folhas. Por isso não pode pensar no atoleiro que vem aí, nos soldado a montar guarda, do furriel Montez a picar com a faca na bosta enlameada, talvez pacaça, quem sabe se palanca, para ver se tem bomba. O chefe é bom branco, lhe dá coisas boas pra comer, ovo cozido, bife, não precisa fazer funji nem gastar do peixe seco.

A mata é bonita, mas dá medo. Tudo calado, não se ouve um pio de pássaro, nem o ronco de um burro de mato, nem mesmo as folha a mexer pelas cobra que passa. Ela não faz barulho, só assobio sem som, sssssssss. Vicente tem medo das venenosas e das grandes que engolem um boi inteiro. Patrão Fernando lhes chama boas. Não pode. Uma bicha má que até assusta, que enrola o rabo no embondeiro para fazer força a fim de partir os ossos das vítima, não é boa. Aqui está enganado. O que é raro. Mas ele também diz que outros lhe chamam piton.


Chicote é chicote

Vicente tem dezasseis anos e quer entrar na tropa e jurar bandeira. É muito novo, mas vai pedir no nosso capitão Mota para lhe deixar. O nosso capitão Mota é um gajo purrêro, o amigo do Candumba, até é da mesma sanzala, a seguir à Cela, é impedido dele. É o Adão Chicote, assim lhe puseram no baptismo, por causa de um tio que morreu de tanto levar com chicote de pele de hipopótamo.

No muceque, o Chicote, que é desarranchado, conta que o meu capitão dá muita coisa na gente. Até casa no anexo e não paga nada. Ele é do QP, mas até não parece, parece mais miliciano, mas é do Quadro Permanente, como ele diz. No Puto é de Chaves, mas aqui é de Moçâmedes, até conhece a Riquita Bauleth que é miss Angola e miss Portugal. Menina muito bonita, aka. O nosso capitão veio para cá com quatro meses de idade. O pai era da Administração e foi colocado na cidade do Namibe. A mãe, que não se dera com os ares quentes do deserto, morreu quando ele tinha cinco aninhos.

Quem lhe criou foi a Intelvina, lavadeira promovida a ama. O pai, Aniceto Mota nunca mais se casou, usava gravata preta mesmo no pino do calor, era da saudade dizia. Intelvina dedicou-se ao menino Viriato, nome de rei do antigamente, dizem que lusitano. Quando ele abalou para Lisboa a fim de entrar na Escola do Exército, a ama até teve um fanico, pior do que se fosse mãe, ele não volta, nunca mais lhe vejo.

Voltou. Casado, com uma menina e um menino, gémeos, a esposa é professora do liceu, é a doutora Cândida, de tão bom feitio como o marido. Chamam-lhe a capitoa boa. E linda, como os miúdos, loira ele, loiros eles. Adiante que se faz tarde. O Adão disse nele, Vicente, que o nosso capitão lhe vai meter na tropa para você chegares a sargento-ajudante. E como deseja ele que aconteça vestir a farda. E vai querer ser capitão, nosso capitão, tem capitão preto, ele já viu, se chama Agostinho João e é de Sá da Bandeira, é cuanhama.

O nada do silêncio

A coluna pára. Ouve-se o nada do silêncio. O pisteiro diz que tem armadilha na frente do primeiro camião, uma Berliet da tropa, equipada com rebenta minas. O pessoal estende-se ao longo das viaturas, canhota em punho, não vá o diabo tecê-las. O filho da puta do mafarrico deve ter feitiço com os bandido, aparece no meio deles, com os cornos retorcidos e a deitar fogo pelas ventas. Como um homem que ele viu num circo montado ali aos Combatentes, antes de chegar no bairro das meninas.

Ninguém fala, alguns reza para dentro, quem sabe. Um fogacho no cu da coluna. Dos nossos ou dos deles. Vicente quer mesmo que seja dos bons, dos nossos. Se os gajos chegam na picada é o fim. Tropa maçarica pode ser apanhada à unha. Estes só estão cá há dois meses e picos, sempre em Luanda, nunca se viram nessa confusão. O nosso alferes, oficial do recrutamento da Província, assim se diz, leva os dedos aos lábios mudos.

Sacanas de merda volta no vosso terra, vai no cu do Salazar, vão morrer aqui todos, nós lhe damos cabo do canastro, brancos galinha, paneleiros, puta que os pariu, vão embora colonizadores, deixa a gente ser independente. Nós vai ganhar e matar vocês, maricas, borrados, cagões. A fuzilaria estala. Os soldados não sabem bem o que devem fazer, a instrução foi rápida, disparam à toa, mas atiram muito.

Ajudante Vicente já desce do camião, dá a volta a rastejar até chegar na cabina. Tem muito sangue a escorrer da porta meio aberta do Toyota. Que porra é esta? Que foi que aconteceu? Espreita. Patrão Fernando já foi. Tem a cabeça desfeita, donde jorra o líquido viscoso e vermelho que saiu com a vida. Pouca sorte do caralho, diz Candumba entre dentes, apesar do tiroteio ainda podem lhe ouvir e não volta em Luanda.

Levantou, morreu

Dois tropa passa a correr. Vicente segue-os com o olhar. Vão ajudar um outro que berra que se farta, estendido no chão barrento, uma perna dobrada, como a da caça atingida. Um deles se levanta de mais e fica logo ali, de borco, sem soltar um ai sequer. O outro gatinha até ao ferido, lhe assegura que está tudo bem, sob controlo e que os turras estão a levar na bilha que é um regalo. Dá-me água. Molhas só os lábios, o nosso alferes é assim que manda.

Uma catarata cai logo do céu, chega a água às golfadas, tamanhas como as do sangue do patrão Fernando. Um homem do morteiro entra na dança e outro atira uma bazucada para o meio da vegetação. Aiué. Os merdas retiram, grita alguém. Chumbo neles, berra outro. Uma breda montada num Unimog debita rajadas persistentes, mortíferas. Mais ruídos de quem levou na pele, salva, salva, aiué. Foderam-se os pretos de merda.

O pessoal vai levantando-se, os camuflados carregados de lama, que entra pelos poros e pelos pontos do tecido. Parece que isto acabou. Como estamos? Há baixas? Há. O Fernando camionista precisa de ser substituído e vai ser enrolado numa manta e posto no meio da barafunda da caixa do camião. Vem um condutor tropa tomar o volante, nem se limpa o sangue, agora é andar para a frente, coluna parada não interessa a ninguém, a não ser ao inimigo.

Também tem um soldado morto, aquele que se levantou quando não devia. Mais três feridos, nenhum de gravidade, nem vão ser evacuados, chegando ao Negage tem médicos e enfermaria. Vicente percebe que, depois disto, vai mesmo entrar na tropa, gostou dessa guerra, pena os que morreram, pena grande do patrão Francisco. O soldado motorista pergunta-lhe quem ele é. Vicente Candumba lhe responde que é ajudante de camionista, vinha com o patrão Fernando, se pode agora ir com ele. O condutor sorri e diz-lhe que sim, pois claro, é da casa.




O primo macaco?

V
á, sobe que esta merda já está no andor. Ainda são uma porrada de quilómetros até chegarmos, toma cuidado, resguarda-te da chuva que cada vez chove mais. Tomo, eu sei como fazer, o oleado, não preciso mais nada, só quero ser tropa. Ó catraio, mas tu ainda és um puto. Deixa passar o tempo que isso passa-te. Não passa não. Eu vai ser soldado, voluntário para entrar mais cedo. Cada qual come do que gosta e onde gosta.

Trepa pelos taipais que nem macaco sem precisar de liana. Será mesmo que os macacos são nossos primo? Parecem mesmo. Tem mãos com a gente, descasca bananas como a gente, alguns anda mesmo de pé como a gente. Não fala, mas a gente entendemos os animais. Pela chipala, riem-se como a gente. Lhe disseram que são os que chegaram antes de nós e por isso somos descendentes deles. Sabe-se lá.

Chega lá em cima, ergue-se para ver se o astro abre, farto de chuva, mas com tiros nem dá por ela. Molhado mas feliz. Do alto de uma mafumeira um relâmpado. Nem sente nada. A perna pende-lhe presa por tendões ou pele ou lá o que é. Já, já, já, ajudem que o ganapo esvai-se em sangue, ainda morre. Não morreu. Não morre. O cabo enfermeiro já lhe fez o garrote por cima do que era o joelho e tanta força fez que a seiva foi estancando.

De olhos bem abertos, Vicente Candumbo – ou é um homem aos dezasseis anos, ou não é, um gato é que é bicho – sussurra um obrigado esvaído. O chofer segura-lhe a cabeça, vais chegar ao Negage e se for preciso, hospital militar de Luanda. Ele sabe. Com uma perna dessas, julgo que é uma pótese ou assim, ficas fino. Um minúsculo sorriso, outro obrigado, agora mais audível.

Há mais malta à sua volta. Trazem-lhe mangas frescas da arca com gelo. Um cigarrito? Queres? Venha ele, um AC com filtro e tudo. Rapaz fica com o maço e os fósforos. Ajuda. O MVL já segue. A chuva parou. Olha pá, tens de acrescentar mais um aos feridos, o gaiato. O que queria ser tropa.

3 comentários:

Zulmira da Silva Martins, Santarem disse...

Eu nasci em Angola e lá vivi até aos meus 18 anos, altura em que vim para Portugal acompanhando os meus pais e dois irmãos. Eramos, portanto, o que se chamavam retornados. Aqui fiz a minha vida aqui casei, aqui nasceram os meus filhos. Mas as saudades de Nova Lisboa são muitas.

Apesar de ter saído de lá em 1976, recordo perfeitamente o que era a nossa vida por lá. E o meu pai foi militar da incorporação da Provincia, tendo estado no mato em Sanza Pombo mais de um ano.


Ele tem vindo a ler as crónicas que você faz e disse-me que gosta muito delas. Mas não quer escrever-lhe porque segundo diz dá muitos erros de escrita, no entanto pediu-me para escrever eu.

Assim faço para transmitir-lhe sr. Antunes Ferreira que o meu pai acha que você conta a realidade, que deve ter tido dificuldades no mato e que até usa a linguagem que os militares usavam.

Ele foi só soldado, mas acha que devia dizer isto por meu intermédio, dizendo-lhe que não concorda com a palavra «colonial» pois Angola não era uma colónia mas sim uma Provincia Ultramarina, mas mesmo assim quer dar-lhe os parabens pelo que escreve e pelas histórias bem feitas e bem imaginadas.
Com os melhores cumprimentos

joliva_santos disse...

Amigo AF,
quem tem um comentário como este no seu blóguio que mais (pergunto?) pode querer...

Um (grande) Abraço, do seu Amigo

JS

Raulzinho disse...

Boa