sábado, janeiro 14, 2006

TEM DIAS

Uma vez mais – um êxito


Fui, uma vez mais, ao Politeama. Em cena «A canção de Lisboa». Uma vez mais, o La Feria. Uma vez mais, um êxito. Desde o «Passa por mim no Rossio» só falhei uma (vez mais?): «A Rainha do Ferro Velho». Nunca saberei o porquê desta ausência. Por me recordar a Laura Alves? Mas, desta feita, as lembranças ainda eram maiores – e acumuladas: a Beatriz Costa, o Vasco Santana, o António Silva, até mesmo o Santos Carvalho & companhia ilimitada… Ná, não foi por mor das meninges inflamadas. Uma vez mais, tenho de confessar – não faço a mínima ideia.

Este Filipe não dá tréguas, mas dá cartas. Uma vez mais. Pode-se não gramar o tipo. E então? Não será por isso que se lhe tira o mérito, uma vez mais. Ir ao teatro das Portas de Santo Antão é tiro e queda. Uma vez mais a apoteose de um génio criador no domínio do musical, uma vez mais a reminiscência do teatro de boulevard, num primor de aggiornamento do director artístico, encenador, autor, domador de actores, incontornavelmente o mais brilhante desta geração.

Não gosto de génios. Das pessoas, friso. Da Callas ao Einstein, do Rembrandt ao Charlot, do Da Vinci ao Beckenbauer, do Rodin ao Beethoven ao Gates. Se algum dia – hipótese mais do que remota, absolutamente impossível – me convidassem para integrar a Associação Internacional deles, recusaria terminantemente, mesmo que me dispensassem do pagamento da jóia…

Neste última comparência no Politeama, estreei-me logo ao marcar do ponto: La Feria estava à porta, autografando os cinco euros do programa. Foi a boa altura para o rever. Ele, do alto da sua genialidade; eu do ínfimo da minha mediocridade. Para se completar o quadro só faltava o Chico Orta, irmão dele, desenhador e amigo, desde a infância comum no Restelo. Aproveito: um abração, Chico.

O génio condescendeu e lá me rabiscou a capa a vermelho. Uma dedicatória à D. Raquel e ao Ferreira. Mas, instantaneamente, a correcção – intercalou um Sr. garatujado. Deixa lá, génio. Que eu me lembre dos anos mais próximos só não comete erros o dr. Cavaco, que nunca se engana, disse ele. Filipe não me reconheceu. Não tinha, aliás, obrigação de. Nem do tempo mais chegado do Diário de Notícias. A memória, tal como a carne, é fraca. Acontece.

Adiante. No final vinha, uma vez mais, satisfeito, contente, feliz. Há génios, quase sempre com mau génio, a quem se perdoam algumas, poucas, coisas. Ao La Féria, perdoa-se o mau hálito pelo que produz. «A Canção de Lisboa» de agora, herdeira da inspiradora homónima, do José Galhardo, dos Rauis Ferrão e Portela, é mais um êxito laferiano. Uma vez mais.

Antunes Ferreira

2 comentários:

J.J.Ferreira disse...

Os génios são estranhos! Mas, nós, estamos habituados à genialidade. Característica dos ferreiras eheheh

Ana Salina disse...

E eu que o diga...
Já ganhei um lugarzinho no céu!
Que o diga a Raquelinha...